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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Um novo jogo

separador Por Fernando Molica em 29 de maio de 2018 | Link | Comentários (0)

Esta longa mobilização dos caminhoneiros reforça algo que tinha ficado meio evidente em 2013: a sociedade que se move guiada pelas cercas da institucionalidade (aí incluo políticos, jornalistas, analistas, acadêmicos) não está preparada para enfrentar situações que escapam do padrão consagrado por muitos anos.

Sabemos encarar/cobrir greves tradicionais, aquelas que têm pautas, lideranças e adversários determinados. Ouvimos sindicato, governo, patronato, acompanhamos a movimentação da polícia, as negociações, assembleias. O problema é que, até por conta da crise e do desemprego, essas greves sumiram, as que restaram ficaram praticamente restritas ao setor público.

A internet e o WhatsApp acabaram com o samba de poucas notas dos movimentos tradicionais, sindicatos e centrais sindicais foram pro espaço, a sucessivas roubalheiras em governos minaram a confiança nos políticos, que ficaram órfãos de representatividade. Assim como as passeatas de 2013, a greve de caminhoneiros não se restringe a um pequeno e significativo número de pautas (que, em linhas gerais, foram atendidas) e de vozes.

O movimento expressa diferentes insatisfações, com o governo, com o presidente, com o país, com a chegada de tantas mudanças, com a eclosão de tantos medos. Não se trata mais de um organizado desfile no Sambódromo, mas de anárquicas apresentações de infinitos blocos do Eu Sozinho. Não é só por 46 centavos, alguém já disse.

O problema não são os boatos espalhados pelos celulares, mas o fato de que tanta gente acredita neles, gente que quer acreditar em algo, em medidas milagrosas, em artigos da Constituição que jamais existiram.

É complicado quando a política vira uma questão de fé. As instituições - tão maltratadas nos últimos anos - demonstram não ter capacidade para lidar com algo tão novo e intangível. Daí a crença num Salvador, num Dom Sebastião que ressurja de espada em punho, radiante em seu uniforme verde-oliva. O jogo, agora, ficou sem regras, é em outro campo, ninguém liga para os juízes e para as federações - ninguém confia mais no Tapetão. Temos que lidar com isso, até para que, em breve, possamos todos colocar a bola no chão e definir um novo jeito de jogar.


O poster de Dines

separador Por Fernando Molica em 22 de maio de 2018 | Link | Comentários (0)

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Parece exagero dizer que me sinto órfão com a morte do Alberto Dines, nunca trabalhei com ele, nunca tivemos muita proximidade. Mas estive algumas vezes em seu 'Observatório da Imprensa'; nos seus 80 anos, fiz, ao lado do Bruno Trezena, uma entrevista com o aniversariante para 'O Dia'. Uma conversa em que ele reafirmou sua fé nos jornais e no jornalismo.

Em 2016, a Abraji concedeu ao Dines o prêmio de Contribuição ao Jornalismo - tive a honra de, na abertura de nosso congresso, fazer a entrega da homenagem à sua mulher, a também jornalista Norma Couri. Hoje, ao saber da morte deste grande cara, fiquei muito triste. Doente há alguns anos, com dificuldades financeiras - como é dura e cruel essa nossa profissão -, Dines continuava a ser uma referência, principalmente num momento tão difícil como o atual, delicado para o país e para a própria imprensa.

Tenho o maior orgulho deste quadro, pendurado em casa, no meu escritório. Em 2014, fui ao JB e comprei a reprodução fotográfica da capa em que o jornal deu um olé na censura ao noticiar o golpe no Chile, ocorrido em 1973. A história é célebre: jornais tinham que ser discretos em suas primeiras páginas, nada de manchete e foto sobre o caso. Dines, que estava em casa, voltou à redação e fez este primor de criatividade e coragem, algo que me emociona sempre - ele fez a capa mais chamativa de todas, sem título, sem foto. Por conta do gesto, acabaria demitido.

Pedi então para que o Dines autografasse a cópia - ele o fez, com o cuidado de só fazer a dedicatória na margem. "Não se pode escrever na obra", ressalvou - uma outra lição. Obrigado por tudo, mestre. Meu reflexo na foto do quadro é proposital, de alguma forma, da maneira menos arrogante e cabotina possível, procuro ser digno deste reflexo.


Mortes injustificáveis

separador Por Fernando Molica em 10 de maio de 2018 | Link | Comentários (0)

Mais um PM, um sargento, foi morto hoje na Rocinha, moradores e um outro policial foram feridos. A guerra por lá tem mais de 30 anos, não há vencedores, apenas derrotados. O que justifica tantas mortes ao longo de tantos anos? Como explicar a morte do sargento para seus quatro filhos? Ele não morreu por uma causa nobre, contra o nazismo, por exemplo. Será que os agora órfãos acharão razoável ouvir que seu pai foi morto numa guerra interminável que, no limite, tenta impedir que algumas pessoas vendam e outras comprem determinados produtos?

Os que defendem a guerra contra as drogas não pregam apenas a morte de bandidos, estimulam também a morte de policiais e de pessoas comuns. Esses entusiastas da guerra sabem que eles e seus filhos não serão vítimas dessas batalhas. Sabem que, com raras exceções, os mortos serão os pobres de sempre: bandidos, policiais, moradores de favelas. Já que se fala tanto em guerra, talvez seja o caso de criar um serviço policial-militar obrigatório, todos os jovens, homens e mulheres, ricos ou pobres, brancos e pretos, seriam obrigados a ficar um ano na PM, teriam que subir favelas, dar e levar tiros. É possível que, assim, com seus filhos ameaçados, os senhores das nossas guerras particulares deixassem de mandar os filhos dos outros para a morte.


Dona Ivone gira

separador Por Fernando Molica em 17 de abril de 2018 | Link | Comentários (0)

Perdi a conta das vezes em que, nessas tantas rodas, girei os braços para marcar os versos que viravam e reviravam meu avesso, que citavam a tristeza que rolara nos meus olhos e que afivelara o peito ferido pela faca-lâmina tão afiada, traduzida na música de Dona Ivone Lara e na letra de Hermínio Bello de Carvalho. Rodei tanto, pra lá e pra cá, idas e vindas, caminhos que iam, que voltavam, que se refaziam, que insistiam. Mas quem disse que te esqueço, mas quem disse que eu mereço? Um merecer, noto agora, dúbio: queixa que remete a uma dor imensa, mas também gozo que comemora, surpreso, um grande prazer - quem disse que mereço tanto? Desde que o samba é samba é assim, o samba roda, o samba gira, o samba é jira. Dona Ivone me ajuda a girar, a seguir.


ACM, Roberto Marinho e a reação ao discurso de Délio

separador Por Fernando Molica em 04 de abril de 2018 | Link | Comentários (0)

"Violento discurso de Délio provoca enérgica reações". A manchete, em cinco colunas e duas linhas, ocupava o alto da capa de 'O Globo' em 5 de setembro de 1984 e tratava de uma das mais importantes crises ocorridas no ocaso da ditadura.

Na véspera, em Salvador, o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, desancara políticos governistas que se recusavam a apoiar Paulo Maluf, candidato oficial à sucessão do presidente Figueiredo e já na época associado a diversos casos de corrupção. O grupo, que formaria o PFL, aderira a Tancredo Neves, do PMDB.

Ao lado de Figueiredo e de Maluf. o brigadeiro chamou os dissidentes de "covardes" e "traidores", condenou os "conchavos com a esquerda incendiária".

Um dos tais dissidentes, Antônio Carlos Magalhães, ex-governador baiano, não refugou. Soltou uma nota violentíssima, disse que "trair a Revolução de 1964" era "apoiar Maluf para presidente". "Trair os propósitos de seriedade e dignidade da vida pública é fazer o jogo de um corrupto", continuou.

ACM lembrou a promessa de Figueiredo de transformar o país numa democracia. Frisou que não se faz democracia com ameaças inúteis, porque o povo não se intimida."

Ao lado do texto que acompanhava a manchete, o jornal publicou um editorial em que condenava o discurso de Délio, chegava a ironizar suas "metáforas de enigmática interpretação". 'O Globo' ressaltava que o ministro era "autoridade do Executivo e chefe militar" e não líder ou militante partidário.

O caso foi decisivo para consolidar a vitória de Tancredo, do PMDB, na eleição indireta. Reforçou também que os militares haviam mesmo abraçado a candidatura de um político nascido na ditadura e que desde sempre fora identificado com a corrupção. O verno "malufar" era então usado nas ruas como sinônimo de roubar.

Anos depois, repórter da 'Folha', conversei com Roberto Marinho sobre o episódio. Ele revelou que ele e o velho amigo ACM haviam combinado os termos da reação ao discurso de Délio.


Os nomes dos generais

separador Por Fernando Molica em 04 de abril de 2018 | Link | Comentários (0)

Comecei na profissão durante o governo do general João Baptista Figueiredo, o último da ditadura. Na época, era fundamental cobrir solenidades como as formaturas na Aman e as visitas dos ministros militares ao Rio (não havia Ministério da Defesa). Saíamos quase no tapa para conseguir declarações dos militares sobre o processo de abertura, eleições diretas. Ficávamos eufóricos com cada palavra arrancada. Até hoje sei os nomes dos ministros do Exército (Walter Pires), Marinha (Maximiano da Fonseca) e da Aeronáutica (Délio Jardim de Matos). Na sucursal do Estadão havia até um repórter, Helio Contreiras, especializado na cobertura de militares.

Pouco depois, fiz, para a Folha, uma grande matéria sobre o processo que gerou a Constituição de 1946, passei umas duas semanas internado na Biblioteca Nacional lendo jornais da época. Fiquei espantado como, naqueles tempos, era importante ouvir chefes militares. Jornais, com frequência, publicavam o que determinado general, almirante ou brigadeiro pensava sobre a política brasileira. E, ao contrário dos ministros do Figueiredo, os militares dos anos 1940 falavam muito. Falavam e agiam, como provam os movimentos que desaguariam em 1964.

Militares ainda foram personagens importantes na transição para o governo José Sarney, seguraram o tranco no impeachment de Collor. Ao longo das últimas décadas, demonstraram respeitar o poder civil, passaram a cuidar das funções inerentes à carreira. Durante cerca de duas décadas, a cobertura de solenidades militares deixou de ser relevante. Agora, em meio a sucessivas crises, militares rompem o silêncio e voltam a falar em voz alta, não se constrangem em tratar da situação política do país. Repórteres voltaram a ter que decorar nomes dos comandantes das Forças Armadas - não consigo achar isso bom pra ninguém, nem mesmo para os chefes militares.


Chuva no mar

separador Por Fernando Molica em 24 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

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Nascido e criado num bairro distante do mar, sempre associei praia ao ir à praia, ao sol, à areia apinhada de gente. Mais do que paisagem que ficava tão longe, praia era programa, passeio dominical que começava bem cedo, com despertar por volta das 7h - na lógica doméstica suburbana, até o lazer tinha algo de trabalho, de dever, de sacrifício. Não havia tempo a ser desperdiçado com mar em dia de chuva, a beleza não bastava em si, tinha que ser útil.

Daí talvez meu fascínio pela praia em dias chuvosos, pela praia que esnoba frequentadores, que abandona a condição de animal domesticado por banhistas, vendedores, exposto à urina, ao lixo, à gritaria, às brigas.

A chuva liberta a praia, devolve o mar a si mesmo, à sua imponência, à sua brutalidade, mistério que assusta, que mata, que nos impõe respeito e medo. Água que descarta muito do azul ou verde, que reassume o peso do seu chumbo. Em dias de chuva, de praia quase deserta, o mar mostra quem é que manda por ali.


Intervenção no Rio: uma coabitação complicada

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Salvo melhor juízo, esse decreto de intervenção parcial é muito complicado - a Constituição fala em intervenção, e ponto. Na prática, o governo do Rio foi fatiado, haverá um comando duplo, um para a segurança, o outro para o resto. Mas, no dia a dia, é impossível separar uma área da outra.

Se o interventor mandar suspender aulas em determinada área, o secretário de Educação será obrigado a concordar? O governador tem o direito de remanejar 20% das verbas orçamentárias - e se ele decidir retirar grana da segurança para cobrir um buraco na saúde? Como é que fica?

O decreto fala que o interventor poderá "requisitar, se necessário, os recursos financeiros, tecnológicos, estruturais e humanos do Estado do Rio de Janeiro afetos ao objeto e necessários à consecução do objetivo da intervenção." E se o governo estadual negar as requisições? Fica por isso mesmo?

A medida assinada por Temer deixa claro o limite do interventor, mas, ao mesmo tempo, dá poderes para o sujeito chutar o balde: "O Interventor fica subordinado ao Presidente da República e não está sujeito às normas estaduais que conflitarem com as medidas necessárias à execução da intervenção." Ou seja, em caso de conflito, valerá a palavra do interventor?

Para justificar a intervenção setorizada, o decreto cita "o disposto no Capítulo III do Título V da Constituição e no Título V da Constituição do Estado do Rio de Janeiro." Só que esses artigos capítulos não falam na possibilidade de intervenção parcial, tratam de definir segurança pública e os mecanismos para implementá-la.

Além disso, achei esquisito um decreto federal citar também a Constituição Estadual. Enfim, essa coabitação tende a ser muito complicada.


MDB-RJ tem novo dono - o nome dele é Moreira

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

A intervenção no Rio acaba de vez com o governo Pezão e representa um último golpe do governo federal no MDB fluminense. Preso desde novembro, Jorge Picciani, o presidente do partido no estado, nutria muitas diferenças com o grupo liderado por Michel Temer e Moreira Franco, ex-prefeito de Niterói e ex-governador do Rio de Janeiro. Em conversas com amigos, Picciani não economizava nas críticas ao hoje presidente.

A situação mudou apenas quando Picciani passou a apoiar o impeachment de Dilma Rousseff e a consequente ascensão de Temer - uma decisão que se revelaria decisiva para a derrubada da petista. A articulação rendeu a Leonardo Picciani, deputado federal e filho do cacique Jorge, um cargo de ministro no novo governo..

Com Cabral e Jorge Picciani presos e com Pezão liquidado politicamente, o MDB-RJ passa a ter um novo dono. O nome dele é Moreira.


RJ: responsáveis pela crise não estão nas favelas

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

O que faliu não foi apenas a segurança pública do Rio de Janeiro, mas toda a estrutura política-institucional do estado. A crise nacional, a queda do preço do petróleo, a prisão de lideranças do MDB, a divulgação da roubalheira comandada por Cabral, o fim das pedaladas financeiras do governo, os atrasos de salários do funcionalismo, a quebra dos serviços públicos e a inapetência administrativa de Pezão permitiram que todas as comportas fossem arrombadas.

Uma situação caótica como a vivida no RJ só é possível com a parceria de agentes públicos - e não falo apenas de policiais e de políticos. O caso da deputada Cristiane Brasil - suspeita de ter feito acordos eleitorais com traficantes - não é isolado. Esta cumplicidade é fundamental para garantir, por exemplo, o fluxo contínuo de armas e munição para bandidos e a imunidade dos territórios por eles controlados. Ou será que alguém acha que os chamados traficantes de favelas são capazes de negociar esse tipo de contrabando no exterior? Não haverá possibilidade de melhoria da situação sem que seja quebrada esta associação entre bandidos-bandidos e bandidos-agentes do Estado.

Os atrasos nos pagamentos de gratificações a policiais, o achatamento salarial, a redução de efetivo das corporações, os muitos problemas de estrutura (instalações precárias, falta de combustível, carros quebrados) e a sucessão de assassinatos de policiais militares e civis colaboraram para um afrouxamento do trabalho de repressão/investigação. Fica também difícil arriscar a própria vida para combater o crime num estado em que o ex-governador está na cadeia. A polícia ficou mais violenta, menos obediente, mais vulnerável em todos os aspectos. Violência policial está, quase sempre, não à eficiência, mas à corrupção.

Não é difícil também perceber o quanto as crises - econômica e moral - influenciam no comportamento de tantos jovens que acreditaram em promessas do governo. Jovens que viram falir o processo de pacificação de favelas, que testemunharam o abandono de seus bairros, que viram minguar as chances de emprego, que sofreram as consequências de atrasos de salários e aposentadorias de seus pais e avós, que lamentaram o fim de iniciativas como as bibliotecas comunitárias, que são tratados como inimigos pela polícia. Não dá pra exigir que todos esses adolescentes tenham respeito pelo Estado e esperança de uma vida melhor dentro dos caminhos institucionais - alguns perdem a paciência e partem pro confronto.

O Estado ficou uma bagunça, os assassinatos ocorridos nos últimos dias e a proliferação de arrastões comprovam. Mas a tragédia nas ruas é consequência direta da bagunça, da roubalheira, da cumplicidade e da incompetência de agentes do Estado. Eles é que começaram.


Uma vitória que não deveria ter ocorrido

separador Por Fernando Molica em 15 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Vamos lá, com um pouco mais de calma. Adoraria, como fez o querido e competentíssimo Leonardo Bruno hoje, no Globo, enxergar na vitória da (grande) Beija-Flor um triunfo da emoção sobre a frieza dos critérios técnicos que balizam o julgamento do desfile. Mas não consigo: a história do Carnaval revela o poder institucional da escola e a dificuldade que julgadores têm para puni-la. Duvido que o mesmo desfile seria vencedor caso fosse apresentado por qualquer outra agremiação.

Seria absurdo tirar pontos da Beija-Flor em quesitos como evolução, harmonia, mestre-sala e porta-bandeira, samba enredo - seu 'chão' é espetacular, nunca deixei de reconhecer. Mas foi absurdo que muitos pontos não tenham sido tirados em fantasias, alegorias e enredo (a própria- sinopse é confusa, fala num Frankestein vítima de preconceito - pelo que entendi, nós, povo brasileiro, é que seríamos o monstro repudiado e discriminado. Mas a realização do enredo foi ainda pior, indecifrável, uma mera colagem de mazelas não carnavalizadas, não interpretadas, o Frankestein não deve ter entendido nada).

Vi o desfile da entrada da pista, fiquei espantado com as alegorias (feias, nada criativas) e com as fantasias, óbvias, baseadas em lugares-comuns como ratos, gatunos, políticos engravatados com dinheiro saindo dos bolsos. A fantasia de barril de petróleo era constrangedoramente feia; a de dirigentes de futebol (figurantes que levavam símbolos de times em suas cartolas), patética de tão rasteira. E, como frisei em outro texto, não dá para levar caixão de estudante em alegoria. Não dá.

E há também uma questão fundamental: desfile de escola de samba, como qualquer outra criação artística, não é passeata. Arte é criação, interpretação, apresentação de leituras diferenciadas sobre diferentes temas. A Beija-Flor não fez nada disso, apenas enfileirou problemas, fez uma retrospectiva jornalística de fim de ano. O camarada Anderson Baltar desenvolveu muito bem o tema em artigo publicado antes da apuração.

Como frisou a amiga e pesquisadora de Carnaval Rachel Valença, a euforia despertada pelos desfiles da Beija-Flor e da Tuiuti revela também uma falta de canais de expressão política. As grandes manifestações que abriram caminho para o impeachment de Dilma Rousseff minguaram, os desmandos e escândalos do governo Temer não geraram protestos semelhantes.

OK, artes também podem ser canais de protesto (vale lembrar o papel da MPB durante a ditadura), mas é estranho que, no caso das escolas de samba, isso ocorra num regime democrático, que, com raras exceções, preserva o direito de manifestação. O furor causado pela Beija-Flor revela inconformismo de boa parte da população, mas também sua paralisia e incapacidade de organização, de protesto.

E, insisto, a escola apresentou um enredo conservador, que atribui todos os nossos males a um grupo de políticos ladrões: nós, que os elegemos, que eventualmente os derrubamos, não temos nada a ver com isso. Nós somos todos limpos, puros, nenhum de nós suborna guardas, nenhum de nós sonega impostos, nenhum de nós vende voto, nenhum de nós apoia polícia corrupta e violenta, nenhum de nós discursa contra os direitos humanos, nenhum de nós reclama de cotas, nenhum de nós ficou irritado ao ver negros em aviões, ninguém comparou aeroporto a rodoviária. Nenhum de nós apoia candidato à presidência que propõe bombardear favelas. A culpa é sempre dos outros - neste sentido, a Beija-Flor lavou a alma de muita gente, perdoou todos os seus pecados.

(Ah, achei justo a Mangueira, minha escola, perder pontos em comissão de frente e em bateria. Mereceria até ser punida pela alegoria que passou apagada. Mas queria apenas que tivesse havido o mesmo rigor com a escola declarada campeã).


Aniversário verde e rosa

separador Por Fernando Molica em 11 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

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Aniversário é como um réveillon particular, data que marca o encerramento de um ciclo e o início de outro. Daí a festa, as comemorações, os parabéns, os desejos de felicidades - o aniversário mostra que ultrapassamos 365 dias e temos outros tantos pela frente.

Nasci à 0h15 de um domingo de Carnaval, foi uma espécie de indicação, de alerta. Mais uma vez, o 12 de fevereiro vai cair durante a maior de nossas festas, e meu melhor presente veio meio por acaso, a possibilidade de substituir um amigo no carro da Mangueira que homenageará os blocos de rua - estarei entre os representantes do querido Imprensa Que Eu Gamo.

Nem gosto tanto assim de desfilar, prefiro o papel de espectador. Mas, depois de um 2017 tão difícil, achei que não dava pra recusar a possibilidade de comemorar meu aniversário no meio da escola que tanto amo, que me escolheu, que me seduziu com sua improvável e linda combinação de verde com rosa. Não dava pra dispensar esse jeito tão espetacular de marcar o fim de um ciclo e o início de outro - o desfile ocorrerá já na madrugada do dia 12.

É hora de, como na linda canção do Sidney Miller, reacender alegrias e salões. Momento de vestir a fantasia e de seguir o que diz o ótimo samba da Mangueira: pra ser feliz, irei - do meu jeito, meio desajeitado, vou como posso - no meio da multidão. Viva a Estação Primeira!


Bandidos que não são os de sempre

separador Por Fernando Molica em 07 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Seriado que trata de um grande traficante mexicano, 'El Chapo' mostra desde os primeiros capítulos que uma organização criminosa só é capaz de sobreviver e prosperar com o apoio/cumplicidade do aparelho estatal. Na hora em que choramos a morte de mais duas crianças cariocas é fundamental criticar o sistema de segurança e também ressaltar questões ligadas à desigualdade, à precariedade de serviços como saúde e educação; é importante citar a falta de esperança de milhares de jovens, sentimento gerado por condições de vida tão degradantes.

É impossível ignorar a óbvia parceria de setores do Estado com a criminalidade, algo que não esgota na tradicional associação entre bandidos-bandidos e bandidos-policiais, convênios que prosperam ainda mais na crise. O episódio da suposta ligação da deputada Cristiane Brasil com um grupo de traficantes é exemplar dos laços mais profundos de casos em que uma mão suja a outra.

Não dá pra dizer que a deputada é culpada, o caso ainda está sendo investigado, mas é lícito dizer que esse tipo de acordo - que envolve proteção institucional e garantia de domínio de território - é mais do que comum, sem ele a situação no Rio não teria chegado a um ponto tão absurdo.

Basta olhar para os bandidos que tanto nos assustam. São quase todos muito pobres, iletrados, incapazes de negociar importação de armas/drogas/munição. Muita gente faz isso por eles, gente que, de um modo geral, defende a violência da polícia e que não admite qualquer discussão sobre temas relevantes para a segurança pública, como a descriminalização do uso de drogas - os caras não querem tratar do fim de um negócio que gera lucros financeiros e políticos. Não podemos nos limitar a focar apenas nos bandidos de sempre.


Agressões no fim do desfile

separador Por Fernando Molica em 28 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Este país está muito doente. Hoje, por volta das 18h, fui constrangido por guardas municipais e xingado por duas ou três pessoas, cidadãos que, antigamente, eram chamados de "populares" pelos jornais.

Aos fatos: depois de acompanhar o ensaio da Beija-Flor na Avenida Atlântica, notei uma movimentação na esquina da Rua Paula Freitas. Um homem com cerca de 70/75 anos, vestido com uma camisa da escola de Nilópolis, reclamava do furto de seu cordão, apontava para dois suspeitos - jovens negros, que teriam, arrisco, em torno de 16/19 anos.

Guardas municipais - uns oito - fizeram seu trabalho, seguraram os dois suspeitos, um deles estava com o cordão, que foi entregue ao homem que havia sido furtado. Até aí, tudo certo. Só que, na Paula Freitas, a caminho do carro da GM, guardas começaram a agredir os dois detidos com golpes de cassetete. Os caras não tentaram fugir, eram magrinhos, estavam dominados. Mesmo assim, apanharam.

Corri então na direção dos guardas e reclamei. Eles estavam certos em prender os dois caras, mas não poderiam agredi-los, cheguei a me identificar como jornalista. Foi o que bastou para um dos guardas - L. Santos, cito de memória - começar a gritar comigo. Disse que a agressão aos detidos fora motivada por desacato: "Eu fui desacatado!", repetiu. Eu frisei que o fato, condenável, claro, não lhe dava o direito de agredir os dois sujeitos.

Foi quando outros dois GMs - um deles, uma mulher - entraram na discussão, deram razão ao colega. Tentei parabenizá-los pela recuperação do cordão e detenção dos acusados (estava sendo sincero), eles pareceram não me ouvir. O L. Santos, aos gritos, perguntou se eu tinha visto o ocorrido (sim, confirmei), se ficaria feliz se um parente tivesse sido furtado (não, respondi). Perguntou o que eu fizera para resolver o caso (nada, retruquei). Ele ressaltou que estava trabalhando, enquanto que eu estava me divertindo (tentei dizer que este era o trabalho dele, acho que ele não ouvi). O cara me culpou por eu estar me divertindo e, ele, trabalhando.

O guarda falava tão alto (afirmou que eu também usara um tom acima do razoável) que chamou a atenção de outras pessoas (reivindiquei, como cidadão, que ele falasse mais baixo, não adiantou muito). Um homem de uns 30 anos, um dos populares, começou a me xingar, disse que eu era um filho da puta, que deveria levar os bandidos para casa. Comentei com o guarda Santos que o cara estava me desacatando, ele me ignorou.

No fim das contas, fiquei com um certo medo de apanhar dos tais populares (um deles me filmava, como se eu tivesse feito algo errado). Tratei então de ficar perto dos GMs, eles, acreditei, não me agrediriam. Foi quando surgiu um anjo, um ex-colega da 'Folha de S.Paulo, que, acompanhado de sua mulher, me reconheceu, ficou ao meu lado. Fui com eles até a esquina, agradeci o apoio, fui embora.

Em meio a tantas tragédias, o fato pode parecer desimportante, mas não é assim. O caso demonstra a brutalidade que existe entre nós, o hábito do desrespeito à lei, a força da cultura do linchamento, a lógica dos fins que justificam quaisquer meios. Características que ajudam a explicar a popularidade daquele que, até a semana passada, era o segundo colocado nas pesquisas para presidente da República. Não ficarei surpreso ser ele for eleito.


Funk, samba e representatividade

separador Por Fernando Molica em 19 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Mais do que condenar o funk por músicas que reforçam o machismo, elogiam setores da bandidagem e naturalizam e mesmo estimulam a violência - aí incluída a sexual -, seria interessante ver nessas letras sintomas de uma realidade que não se resolve com a retirada de uma canção do Spotify. A censura não resolve nada.

MC Diguinho, autor de 'Surubinha de leve', diz que a música revela a realidade em que ele e muitos brasileiros vivem. O problema, no caso, não está em abordar uma dada realidade, a questão é outra: o incentivo e a exaltação de condutas criminosas - a letra é bem imperativa: "Taca a bebida/ taca a pica/ E abandona na rua".

Mas, sim. 'Surubinha' também ilustra uma realidade violenta, desumana, machista, cruel, um cotidiano presente na vida de milhões de jovens - no lugar da tríade sal-sol-sul entra a tiro-porrada-bomba. São jovens que nascem e crescem em áreas de urbanização precária, dominadas por vendedores de drogas ou milicianos e que veem no Estado um outro inimigo - amigos não disparam tiros a esmo de um helicóptero, não humilham, não torturam e matam. Seria patético cobrar desses jovens que tratassem de barquinhos que vão, de tardinhas que caem. A mesma sociedade que nega direitos básicos a moradores de favelas não pode querer determinar o que essas pessoas vão compor e cantar.

Com ou sem apologia a atividades criminosas, o funk exerce, já há algum tempo, o papel de cronista de áreas da cidade que só costumam ser notícia em caso de tiroteios. Um papel reconhecido por muitos e muitos jovens que se identificam com aquela realidade gritada por vozes esganiçadas, duras, fora do tom. A própria lógica de produção do funk, que dispensa o domínio de instrumentos musicais, reforça o papel do gênero como porta-voz da exclusão, de arte de subsistência.

E não vale falar em pressão da mídia, das rádios. Funk é música de pobre, demorou a ser reconhecido como gênero, ralou muito para encontrar espaço nos veículos tradicionais. Quem vive do comércio da música quer ganhar dinheiro, pode ser com samba, rock, ópera ou funk. Quem gosta de funk gosta porque gosta, não por ter sido obrigado.

A queridíssima Flavia Oliveira postou, nesta sexta, um misto de desabafo e lamento pelo fato do ensaio de sua Beija-Flor ter sido interrompido - e logo depois, encerrado - por uma cantora de funk. O protesto e a tristeza são legítimos (também fiquei chocado) mas permitem uma reflexão sobre a identidade que o samba vem assumindo nos últimos anos e seu progressivo distanciamento das comunidades que o embalaram.

Narcisistas, as escolas de samba parecem ter sido seduzidas pelo brilho que criaram para conquistar corações alheios ao seu mundo. Cultivaram tanto a relação com poderes externos (bicheiros, políticos, musas, rainhas) que fecharam os olhos para os responsáveis por seu nascimento e crescimento.

A perspectiva do show fez com que, aos poucos, muitos dos elementos que constituem o desfile fossem terceirizados, entregues a pessoas de fora, fenômeno que começou com o aspecto visual, com a chegada de carnavalescos com formação em belas artes. Alas de compositores perderam importância - hoje, qualquer pessoa pode inscrever samba nas escolas -, os ensaios passaram a ser feitos longe das comunidades - no grupo especial, a Mangueira é a única que ensaia em quadra que fica dentro de favela.

Este diálogo com setores externos vem desde o início das escolas cariocas, que sempre negociaram com poder e buscaram legitimação social. Mas esta porta aberta que viabilizou seu crescimento é a mesma que, agora, ameaça sua legitimidade. Os protestos contra a decisão do prefeito de reduzir a verba para as escolas foram tímidos e localizados. Um dos líderes de igreja entranhada em áreas populares, Marcelo Crivella sabia que seu gesto não teria consequências maiores.

O problema maior não é a existência de uma 'Surubinha de leve', mas o fato de a canção ter virado hit, ser admirada por milhões de pessoas, algo que demonstra insensibilidade, desumanização, desrespeito a direitos básicos. Mas demonstra também a irresponsabilidade social daqueles que deveriam gerar melhores condições de vida para a população. A surubinha é também consequência da grande suruba nacional, da violência em larga escala cometida e permitida pelo Estado.

MC Diguinho errou feio ao criar a tal canção, mas não dá pra negar que ele se inspirou no que vive, no que vê. Não dá para tratar o sintoma como causa de uma doença. Funk-exaltação da brutalidade e da violência sexual, 'Surubinha' é um alerta, um grito, um tiro como tantos outros. É fundamental entender que tiros são esses para tentar ao menos diminuir as condições que estimulam seus disparos.

Para encerrar: sempre lembro daquele suposto diálogo entre Picasso e um oficial nazista que tinha acabado de conhecer 'Guernica', quadro que denuncia os horrores do bombardeio à cidade feito, durante a Guerra Civil, por caças alemães. O sujeito teria perguntado ao pintor: "Foi você que fez isto?". Ele respondeu: "Não, foram vocês."


A surubinha e a bolsonarização

separador Por Fernando Molica em 17 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

A música 'Só surubinha de leve' é absurda, incentiva o estupro e, no limite, o homicídio de mulheres. Mas o mais espantoso e revelador sobre o Brasil é o fato de ter se transformado em sucesso. Melhor seria se tivesse sido banida pelos ouvintes, não pelo Spotify.

Vivemos numa sociedade em que muita gente acha legal e até engraçado ouvir/curtir uma canção que chama mulheres de "filhas da puta" e que ensina: "Taca a bebida/ Depois taca a pica/ E abandona na rua".

Ainda vamos sofrer muitas consequências desse processo de desumanização, de sistemática demonização dos direitos humanos, de naturalização da violência, de propagação da intolerância e de exaltação da brutalidade e do machismo.

Uma lógica que tem a ver com a exclusão, com a ignorância, com descaso com a educação - os tiros são esses, nós somos o alvo. Ninguém fica impune ao processo de bolsonarização.


O menino e a foto do réveillon

separador Por Fernando Molica em 02 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (1)

Por conta daquela linda e já famosa foto do menino no réveillon, muita gente questiona o direito de se fotografar e vender a imagem de uma criança. Na boa, o fotógrafo não fez nada errado. Pelo contrário, fez a foto que marcou a festa, uma imagem que, de tão boa, permite tantas e várias interpretações.

A foto foi feita em local público e a imagem não tem nada de degradante, não se poderia acionar o ECA para impedir sua divulgação. Trata-se apenas do registro de um menino (é negro, mas poderia ser branco) fascinado pelo brilho dos fogos. Aquele olhar poderia ser meu, eu poderia ser aquele menino.

No mais: se fosse necessário pedir autorização do fotografado para divulgar imagens captadas em locais públicos ninguém poderia mais publicar fotos de violência policial. Até bandidos flagrados em suas atividades teriam que autorizar a divulgação de suas imagens.

Será que deveria ter sido proibida a imagem da menina que, no Vietnam, foi vítima do napalm? Trata-se de uma foto bem mais delicada, a menina estava nua. Mas foi uma foto fundamental, que traduziu o horror daquela guerra absurda. E as imagens de vítimas de campos de concentração? Deveriam ser censuradas, o mundo deveria ser impedido de constatar aquele martírio coletivo?

Não podemos cair na lógica da censura, da proibição. Como frisou a Andréa Pachá num comentário sobre a mesma foto do réveillon, é preciso ter cuidado com a criminalização das artes. Já tivemos bons exemplos dessa maluquice no ano passado.

E, sim, o cara pode vender a foto, A foto pertence ao fotógrafo, ele foi o único sujeito que, entre milhões de pessoas, teve a sensibilidade e a técnica de registrar aquela cena. Ele, Lucas Landau, é o autor da obra, parabéns pra ele.


João, o algoz do João

separador Por Fernando Molica em 30 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

João Gilberto é vítima de sua busca pela perfeição, de sua luta obsessiva pela perfeita combinação de voz com instrumento; tornou-se refém da missão de subverter o óbvio.

Entregou-se tanto que perdeu contato com a música possível de ser feita, isolou-se, gravou acompanhado apenas do próprio violão, o único admissível pelo seu grau de exigência. Chegou ao ponto de sequer autorizar o relançamento de seus antigos discos.

Há alguns anos, a Companhia das Letras lançou o livro 'Ho-ba-la-lá', em que o jornalista alemão Marc Fischer narra sua busca por João Gilberto, suas tentativas de aproximação, de entrevistá-lo. No texto, ele conta ter recebido conselhos para não chegar perto demais do ídolo, muitos lhe alertaram do risco que corria, tratava-se de uma órbita perigosa, que vitimara algumas pessoas. Fischer suicidou-se antes da publicação do livro.

Que João tenha paz nesses seus últimos anos de vida. E que 2018 nos chegue leve, que tenhamos ciência e mesmo orgulho de nossas limitações. Viva João Gilberto!


"Romance muito recomendável" - resenha da edição francesa de 'Notícias do Mirandão'

separador Por Fernando Molica em 30 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

O blog francês Bob Polar Express publicou esta resenha sobre o 'Notícias do MIrandão' ('Révolution au Mirandão').


Quando o acaso faz as coisas corretas. Nós descobrimos esta editora participando da massa crítica do Babelio. Para aqueles que não sabem, é simplesmente escolher um livro em uma longa lista e aguardar. Caso você receba uma exemplar, é necessário publicar uma crítica no site. O título deste romance nos atraiu, bem como o resumo. E descobrir um novo editor parecia interessante, especialmente pelo que oferece - "literatura mista, brasileira, regionalista, soco poético". Mas por que essa escolha do nome Anacaona? Ela era uma princesa haitiana que lutou contra os invasores espanhóis quando chegaram à América - e se tornou, por extensão, um símbolo de mulheres guerreiras e resistentes. As escolhas editoriais confirmaram o nosso interesse: a chamada literatura "minoritária", bem como as diferentes coleções Urbana, Terra, Epoca: "Escrever é uma arma", "Uma terra e suas raízes", "A diversidade das vozes contemporâneas". Escolha agradável, não é?
 
Nós entramos nesta favela fictícia - mas muito perto da realidade - nos passos de um jovem estudante branco - é possível notar que ele não passar por necessidades de sobrevivência - que decidiu parar de estudar para para se envolver em uma luta ideológica. Com uma predisposição oratória, ele é notado pelo chefe da organização de extrema-esquerda Conexão Revolucionária. Assim, irá se engajar numa trama, que faz fronteira com o documentário-ficção, que nos conduzirá de reuniões a debates, deliberações plenas de controvérsias para finalmente chegar a uma decisão final. A revolução está em andamento. Mas os argumentos e os meios de sua implementação parecem um tanto excessivos: esse processo supõe uma luta armada, uma guerra de guerrilha. Uma ONG se instala na favela, que servirá de posto avançado do grupo. Contatos essenciais são criados com um dos líderes da comunidade e com ... o chefe do tráfico de drogas da comunidade. Os primeiros efeitos são sentidos, geram uma mudança favorável. É essa iniciativa louca que descreverá o autor com um realismo mais convincente - ele é um jornalista - tanto por seu quadro como por seus personagens e pelo papel a eles atribuído.
 
Dizer que esta revolução pode ser condenada ao fracasso não representa um spoiler porque tudo sugere - através dos vários eventos - que não se derruba um regime estabelecido sem um exército de combatentes. Mas a intenção de Molica é menos compor um enredo do que usá-lo para nos permitir observar as flagrantes desigualdades sociais que são acompanhadas por corrupção generalizada - polícia, líderes - e exploração de soluções ilícitas. Claro, há descontentamento nas favelas, que ocupam 280 hectares do Rio, mas, se as pessoas conseguem sobreviver, elas também enfrentam uma guerra entre policiais e traficantes de drogas com várias mortes por semana. Isso impõe sua lei. É essa violência física e social que acontece entre cada linha. Considerar a possibilidade de uma revolução socialista pode não ser apenas o retrato fictício de um autor engajado, já que o Brasil já experimentou uma série de revoltas coletivas - especialmente em 2013, mas os manifestantes eram da classe média.
 
'Notícias do Mirandão' é uma novela social onde a obscuridade é imposta por uma violência latente - que servirá para desencadear o processo. O pivô da história é político. Seguir a vida cotidiana das pessoas desta favela é tão enriquecedor quanto emocionante. A questão do uso da violência contra a violência persiste na história. O da aproximação utópica entre ricos e pobres, brancos e negros, encontra uma resposta. A melhoria das condições de vida permanece sem solução. Molica escreve com sua caneta de repórter, mas não negligencia o ritmo e a intensidade das relações, das relações de poder. E então, há esta breve história de amor ... Romance muito recomendável.
 
Menção: as edições de Anacaona, lembre-se deste nome.

 
"Revolução Mirandao", Fernando Molica, edições Anacaona, coleção Urbana, traduzido do português por Sandra Assunçao e Isabelle Delatouche, publicado em 26/10/2017, 200 páginas.


Ano Novo

separador Por Fernando Molica em 29 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

A Andréa Pachá lembrou hoje deste texto que publiquei há três anos em O DIA. Com base em seu livro 'Segredo de justiça', tratei de expectativas trazidas por um ano novo. Vale republicá-lo, acho.

Comecei a ler semana passada, em pleno período de Natal e Ano Novo, 'Segredo de justiça', escrito por Andréa Pachá a partir de casos que vivenciou como juíza em varas de família. Foi bom ter iniciado a leitura nesta época em que somos meio instados a fazer um balanço do que se passou e a planejar o ano seguinte. Tendemos a achar que os fogos do Réveillon vão apertar um botão capaz de fazer uma faxina em nós mesmos e, ao mesmo tempo, acionar uma espécie de GPS que ao longo de 365 dias nos guiará por caminhos seguros, cheios de paz, amor e prosperidade.

Mas nada é garantido. Como é frisado num dos primeiros contos, é simples decidir a vida pelo retrovisor, detectar erros anos depois de cometidos -- há algumas décadas, um jogador de futebol declarou que só fazia prognósticos depois dos jogos. As histórias do livro envolvem dramas comuns, nem por isso banais: traições, divórcios, amores transformados em ódio, disputas por pensões alimentícias e pelos filhos.

Mesmo obrigada por ofício a decidir, Andréa não se coloca no papel de Deus, escapa do maniqueísmo de definir o certo e o errado. Compreensiva, busca alternativas, acordos que levem em conta as razões de cada uma das partes. "Maíra, não existe sonho errado. Sonhamos os sonhos possíveis. E nos esforçamos para acertar", diz a narradora -- uma juíza -- à mulher que, depois de forçar a separação, usava os filhos para provocar o retorno do ex-marido.

Espantada com a rapidez que temos para julgar a partir da leitura dos jornais, Andréa consegue entender a mãe que, depois de anos, optou por viver longe do filho esquizofrênico, deixado com o ex-marido. A autora se diz incapaz de condenar aquele comportamento: "(...) não existe um modelo que possa ser imposto a todas as mães naquelas circunstâncias", explica.

Botafoguense, acostumada, portanto, aos altos e baixos, ciente de nossas limitações, à quase certeza de que a euforia traz alguma dor, a autora, ao revisar tantos dramas, não insinua que a vida nos condena a uma segunda divisão; o livro é até otimista. Como afirmavam os palmeirenses e, agora, repetem os alvinegros, amor não tem divisão -- um jeito de dizer que o bom mesmo é jogar. Criança, percebi, depois de uma passagem de ano, que nada havia mudado; apesar da barulheira e da festa, o céu continuava igual. Mais tarde entendi a importância do ritual, da necessidade de um marco para o recomeço. Ao revelar dúvidas, ao buscar saídas, Andréa nos fornece uma espécie de habeas corpus que ajuda a sarar feridas e a abrir caminhos nesta virada de ano.


BG
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