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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Obra de Julio Reis digitalizada

separador Por Fernando Molica em 20 de agosto de 2017 | Link | Comentários (0)

Em 2012, cumpri um desejo de meu avo Frederico Mario dos Reis e doei para a Biblioteca Nacional todo o acervo de seu pai, meu bisavô, personagem principal do romance 'O inventario de Julio Reis', que eu acabara de lançar. O material incluía livros, recortes de jornais (JR também era critico musical) e, principalmente, partituras originais de óperas, serenatas, canções e poemas sinfônicos.

Na época, Elizete Higino, do setor de musica da BN, me disse que os manuscritos seriam digitalizados e disponibilizados no site da instituição. A promessa foi cumprida, aquelas partituras que meu avô guardava com tanto carinho - e que, por décadas, tentou fazer com que fossem executadas - podem ser alcançadas com alguns cliques, basta digitar o nome do compositor em http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.html.

Por muitos anos, eu, que não sou musico, manuseei aquele material, folhas amareladas que traziam o resultado de tanto trabalho de meu bisavô, um funcionário publico que morreu pobre, frustrado por não ver cumprida a promessa de liberação da verba, aprovada pelo Senado, que permitiria a montagem de sua opera 'Sóror Mariana'. Foi meu avô que me levou a concertos, graças a ele eu conheci um outro tipo de musica, sou muito grato a ele também por isso.

A publicação do livro permitiu que a obra de Julio Reis voltasse a circular. O pianista Joao Bittencourt gravou um CD dedicado ao compositor (pode ser ouvido e baixado aqui e apresentou o repertório em diversos recitais, o maestro Branco Bernardes incluiu 'Vigília d'Armas' no repertório de um concerto da Orquestra Sinfônica da UniRio, JR passou a ser citado em trabalhos acadêmicos, muitas de suas partituras editadas foram incluídas no Projeto Sesc Partituras. Agora, os manuscritos de 18 de suas criações podem ser consultados com facilidade no site da BN. Aqui, no meu site, há também partituras publicadas no início do século 20 - valsas, polcas, marzucas e tangos brasileiros, para piano e piano e flauta (entre elas, 'Alvorada das rosas', dedicada ao grande flautista Patápio Silva). Lá está também a versão revisada e digitalizada de 'Vigília d'Armas'. Que sejam tocadas.


'Joaquim'

separador Por Fernando Molica em 13 de agosto de 2017 | Link | Comentários (0)

Só outro dia vi 'Joaquim', do Marcelo Gomes. Belíssimo filme, que tenta descobrir quem era Tiradentes. Um homem apaixonado por uma escrava, revoltado com sua não promoção, frustrado por uma infrutífera busca do ouro. O filme foca nas circunstâncias que fizeram com que ele embarcasse num projeto libertário conduzido por uma elite mineira.

Um herói quase gente como a gente, fruto do embate entre conflitos pessoais e um vago projeto político. Um cara legal, pouco compatível com a figura forjada por uma república golpista que, como dissecou José Murilo de Carvalho, buscava um símbolo para se legitimar. Grande Joaquim José da Silva Xavier


O gosto da vitória

separador Por Fernando Molica em 08 de agosto de 2017 | Link | Comentários (0)

(Sinais, sinais. Na antevéspera de mais um jogo decisivo, esbarrei por acaso, no computador, com texto que fiz para o livro '95 - A tua estrela brilha', do Claudio Portella e do Rafael Casé. Um relato particular da epopeia do título de 1995).


Em homenagem ao Biriba, aposto um pacote grande de Royal Canin: garanto que nenhum alvinegro acreditava, no início de 1995, na possibilidade de o Botafogo ser campeão brasileiro naquele ano. Apesar de aguerrido e de contar com o artilheiro Túlio, o time, bem acertado pelo técnico Paulo Autuori, não tinha muito ibope nem com o presidente do clube, Carlos Augusto Montenegro - ele havia declarado que a chance do título nacional só existiria em 1996.

Desconfio que boa parte das esquisitices que se manifestam no Botafogo e em seus torcedores tem a ver com nossas três datas de nascimento - as relativas à fundação dos clubes de remo, de futebol e de futebol e regatas. Nenhum astrólogo consegue trabalhar com tantas possibilidades de combinação, tudo conosco é meio esquisito. Tanto que comecei a desconfiar na possibilidade de chegarmos mais longe no campeonato ao ver um jogo em que seríamos derrotados.

Perdemos ( 2 a 1 para o Palmeiras, lá em Presidente Prudente) mas jogamos bem, muito bem. Sabe quando você, evitando alardear otimismo, cutuca o amigo ao lado e diz algo como "sei não, mas...". Pois. Ali, naquele jogo, sexta rodada do primeiro turno, deu para murmurar o sei não. Na partida seguinte, ganhamos do Grêmio, em Porto Alegre ("Sei não..."); mais à frente, despachamos o time da Gávea, que tinha Romário, Sávio e Edmundo - mas, PQP, o Túlio é que era o artilheiro do Brasil.

E assim fomos avançando, jeito de mineiro come-quieto, que finge não querer nada e vira dono de banco, poeta maior, presidente da República no lugar do titular expulso de campo. Chegando, chegando. Na última rodada da fase classificatória, metemos 3 a 1 no Santos, uma prévia do que viria para a frente. Na semifinal, despachamos o Cruzeiro - e que venha o Peixe de novo.

Falei que foi um ano esquisito. Tão estranho que, no primeiro jogo da final, fui ao Maracanã com meu filho mais velho (o outro tinha só quatro anos) e - absurdo! - aceitei a companhia de um adversário, meu querido amigo santista Hermann Nass. Mas eles é que estavam otimistas, que tinham certeza do título, da vitória. A arrogância era tamanha que os caras comemoram a derrota de 2 a 1 aqui no Rio - mais à frente, morreriam pela boca, como frisaria um jornal carioca que tinha, como editor de esportes, um nada discreto alvinegro, o Cesar Seabra.

Vi a última partida em casa, um apartamento na Tijuca, cercado de todas as precauções prescritas no Manual Alvinegro de Sobrevivência, livro que decoramos antes mesmo de nascer. Superstições? Nada disso, apenas cuidados básicos, como usar aquela camisa e aquela cueca, manter aberta (ou fechada, sei lá, já faz tempo) a porta do quarto, impedir qualquer aproximação da então patroa, torcedora do time que evito nominar (ainda mais agora, na hora do jogo).

Jogo, que jogo? Não lembro de quase nada. Lembro do gol do Túlio (Maravilha, faz mais um pra gente ver!) - gol que só viria a ser contestado no intervalo, graças ao tira-teima. Na hora (confiram no VT, no Youtube), nenhum jogador santista reclamou, levantou o braço, correu pra cima do juiz ou do bandeira. Eles ainda empataram - um gol irregular, o Capixaba conduzira a bola com a mão antes de passá-la para o Marcelo Passos.

Tenso, comecei a delirar, meus olhos me traíam, tentavam fazer com que eu acreditasse numa sucessão de bolas chutadas no nosso gol, todas defendidas pelo Vagner. Nada daquilo aconteceu, ninguém poderia agarrar tanto assim (Jefferson não conta, estou aqui falando de seres humanos, não de ETs dotados de poderes sobrenaturais).

Acho que, depois do jogo, passei por General Severiano, tenho uma vaga memória de algum sanduíche e de incontáveis chopes no Cervantes. Ficou também, e para sempre, um adorável sabor de Seven Up, desde então, meu refrigerante favorito, Dom Pérignon de qualquer botafoguense.


A Flip de Lima Barreto e dos leitores

separador Por Fernando Molica em 31 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

O protagonismo de autores brasileiros nesta Flip é outro ponto que merece ser ressaltado. Um fato relacionado à ausência de nomes estrangeiros mais consagrados (lembro de uma edição em que havia dois vencedores do Nobel de Literatura), à qualidade dos brasileiros convidados e ao tema geral do evento. Lima Barreto não foi apenas um homenageado, foi uma referência para quase todos os debates.

Ao tratar de temas tão presentes no nosso cotidiano - racismo, periferias, exclusão, machismo -, a Flip colaborou para ressaltar a produção contemporânea brasileira e para aproximá-la dos leitores. Estes são fundamentais - é tão óbvio dizer isto - para que livros façam algum sentido na vida de um país, não é razoável que o universo literário fique restrito ao clube de autores, editores, agentes, divulgadores e jornalistas.

Em outras Flips, as festas mais comentadas eram as promovidas por editoras. Desta vez, o bom foi ficar na rua, dançar na praia, cantar na roda de samba. Um movimento que promoveu uma integração tão necessária para um mercado que não pode se conformar em viver numa espécie de condomínio fechado.


As estátuas de Budapeste

separador Por Fernando Molica em 16 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

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"Estátuas mais divertidas estão nos arredores de Budapeste. Com o fim do comunismo, muitas das representações do poder soviético foram destruídas, mas sobraram algumas dezenas delas. O que fazer com aquele lixo estético-ideológico que representava o invasor? Você mandaria jogar tudo no lixo -- imagina, aquela velharia de mau gosto, que exaltava o comunismo, os pobres, o proletariado, a revolução, tudo o que você mais detesta. Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam da lembrança dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo. Este, representado por homens e mulheres altivos, olhares fixos no horizonte, para o futuro da libertação proletária. Dá para imaginá-los cantando a "Internacional", o apelo aos famélicos da Terra. Antes vetustos, temidos e compenetrados, os personagens mumificados em bronze ficaram apenas ridículos, testemunhos de uma religião acabada. São como sombras de tempos em que havia certeza do destino comum, da redenção dos povos, da pátria sem amos. (...) Do lado direito, ainda na área externa, sobre um pedestal, cópia das botas de uma gigantesca estátua de Stálin destruída na revolução de 1956. Ao lado do portão, somos observados por Marx, Engels e Lenin -- como se nos perguntassem se vamos mesmo entrar, se queremos mesmo abandonar qualquer eventual esperança no socialismo."

Trecho do romance 'Uma selfie com Lenin'.

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A raiva de São Januário

separador Por Fernando Molica em 09 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

Pode ser um certo delírio, mas não consigo deixar de associar a confusão de ontem em São Januário a uma explosão que tem, em suas raízes, questões que superam o campo de jogo e a derrota para o Flamengo.

Há pouco mais de um ano, a raiva com o governo petista era canalizada para as grandes manifestações - rolava um ódio um tanto quanto irracional e pipocavam tiroteios virtuais nas redes sociais, mas tudo isso era levado para as ruas, que abrigavam o desejo de mudança de boa parte da população.

Os que eram contra o impeachment também se organizaram e promoveram grandes manifestações, ainda que menores que as da oposição. Havia revolta e indignação dos dois lados, mas todos tinham alguma esperança. As raivas foram levadas para o campo institucional, que tratou de desalojar a então presidente.

Hoje, mesmo diante de tantas evidências que envolvem o Temer e seus principais auxiliares, as ruas estão quietas, há poucas e esvaziadas manifestações, as panelas parecem ter voltado para o fogão. Há uma uma perigosa apatia no ar.

Em 1998, quando estava no 'Fantástico', eu e o cinegrafista Lucio Rodrigues aproveitamos uma viagem à Colômbia para, sem qualquer produção prévia, entrar na selva e mostrar um acampamento das FARC, chegamos a entrevistar um importante comandante da guerrilha, o Joaquín Gómez.

Naqueles poucos dias, apuramos que a esquerda institucional sequer era representada no Congresso boliviano, reflexo do 'Bogotazo', revolta ocorrida no fim dos anos 1940 e que ainda marca o país. Décadas depois, a direita estava no poder; a esquerda, armada, na selva, aliada ao narcotráfico.

Voltei para o Rio assustado com a Colômbia e um pouco aliviado com a realidade brasileira. Apesar dos pesares, a situação institucional por aqui era bem melhor. O PSDB estava no governo e as reivindicações da esquerda eram representadas pelo PT e por entidades como a CUT e o MST. Apesar de um ou outro arranhão, todos jogavam o jogo dentro da legalidade.

O ódio gerado em 2014, o inconformismo com a nova vitória petista, a derrubada da Dilma e a ascensão de Temer e de seu novíssimo programa de governo abriram uma brecha na nossa tranquilidade institucional. Tudo foi feito dentro das regras constitucionais, mas, como o TSE acabou de nos mostrar, há diversas maneiras de se aplicar as regras, algo que aumenta a desconfiança em relação às tão propaladas instituições. O pau que dá em Chico pode não ser o mesmo que dá em Francisco.

No fim das contas, a recessão, o desemprego e a violência aumentaram, os cortes no orçamento começam a mostrar suas consequências, estamos diante da possibilidade de encararmos o terceiro presidente em pouco mais de um ano, quase todos os partidos têm envolvimento com alguma forma de corrupção.

As ruas, violentas, povoadas de miseráveis e de consumidores de crack, estão quietas, mas acumulam muita raiva. Uma raiva que, como ocorreu ontem no estádio do Vasco, pode voltar a explodir pontualmente, estimulada por qualquer pretexto, por uma simples derrota em casa. No meio do caos, não vai dar pra ficar berrando algo como "Acreditem nas instituições!".


Um racismo mais ou menos sutil

separador Por Fernando Molica em 19 de junho de 2017 | Link | Comentários (0)

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Assinada por Claudia Fix, esta resenha de 'Bandeira negra, amor', foi publicada na edição de junho da revista alemã LateinAmerika Nachrichten.

'Bandeira negra, amor' ('Schwarz, meine Liebe') , de Fernando Molica, Edition Diá.

Em 1990, passei seis meses no Rio de Janeiro num apartamento no Leme, uma parte sossegada de Copacabana. Logo acima da rua, num morro, havia uma favela, Chapéu Mangueira. Esta vizinhança, mais um local de moradia de trabalhadores do que de pobreza extrema, era conhecida por conta de Benedita da Silva, a primeira mulher negra a chegar ao parlamento municipal, depois, ao estadual e, em seguida, ao Senado.

Foi bem perto de sua casa que três jovens foram atingidos por tiros. Um profissional de educação garantia que um dos rapazes tinha boa reputação (não era traficante de drogas) e cobrava a apuração do caso. É provável que a origem do rapaz, militar, e a proximidade com a casa de Benedita da Silva tenham ajudado a tornar o caso conhecido, mas os crimes nunca foram esclarecidos. Os disparos foram feitos de um carro da polícia, os jovens foram talvez vítimas atingidos de forma aleatória, provavelmente um recado, uma cobrança de dinheiro pela proteção oferecida.

O ponto de partida escolhido por Fernando Molica para seu romance 'Bandeira negra, amor', publicado em 2005, é semelhante: três adolescentes da Favela do Borel são encontrados mortos depois de terem sido torturados, um deles tinha assinado um contrato com um time de futebol inglês. Surge então a suspeita de que eles não teriam sido vítimas de uma guerra de quadrilhas de traficantes, haveria policiais envolvidos no caso. Assim como na vida real, a investigação do caso é complicada, assim com a apuração interna da polícia.

Os principais personagens deste romance - trata-se de um livro policial apenas de passagem - são os integrantes de um casal improvável, formado por Fred - um advogado negro e ativista de direitos humanos - e a branca Beatriz, major da Polícia Militar. Eles têm vidas independentes, mas secretamente trocam informações e permitem a Molica a possibilidade de tratar do tema real do romance, o racismo cotidiano no Brasil.

Fred, o respeitável dr. Frederico Cavalcanti de Souza, passou por todas as fases de uma educação destinada a "embranquecê-lo", o que incluía o uso, todas as noites, de uma touca destinada a alisar seu "cabelo ruim". Mesmo assim, apesar de seu terno bem cortado, ele ainda é confundido com um manobrista na saída de um restaurante - a cor da sua pele é um uniforme suficiente. Nestas circunstâncias, viver uma relação aberta com uma policial militar branca é algo impossível para ambos.

'Bandeira negra, amor' foi escrito quase que exclusivamente com longos monólogos interiores. Jornalista, Fernando Molica, desde 1982, trabalhou em vários jornais, na TV Globo e, atualmente, está na rádio CBN, no Rio de Janeiro. No livro, seus personagens utilizam uma poderosa linguagem do cotidiano brasileiro algo que, infelizmente, é um pouco perdido na tradução. Não que o livro seja mal traduzido, mas porque não há, na língua alemã, algo tão poderoso como um dialeto ou as gírias vindos de uma cultura jovem. Neste segundo romance, Molica abordou diversos pontos importantes e nos leva a lugares pouco conhecidos da "cidade maravilhosa" do Rio de Janeiro.


O diário de um Eduardo Cunha muito engraçado

separador Por Fernando Molica em 31 de maio de 2017 | Link | Comentários (0)

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Como muita gente, fiquei meio desconfiado ao saber do lançamento, pela Record, do 'Diário da cadeia', uma ficção escrita por Eduardo Cunha (pseudônimo). Tanto que não me animei muito a encarar suas 191 páginas. O estímulo para a leitura viria do Eduardo Cunha (o próprio), que chegou a conseguir uma liminar que proibia o livro - por conta de uma ordem judicial, o verdadeiro autor acabaria sendo revelado, trata-se do Ricardo Lísias (o próprio, não o personagem de 'Divórcio').

Semana passada, saí de um debate com o Lísias e o Carlos Andreazza (o editor verdadeiro, não o editor-personagem do 'Diário') decidido a começar a leitura - não me arrependi, o romance é divertidíssimo. Mais, fica evidente que a decisão de atribuir sua autoria ao EC-pseudônimo faz todo o sentido. Um livro é uma ficção narrada por um personagem, personagem construído por Lísias e que é livremente inspirado no EC (o próprio).

A grande sacada de Lísias foi levar EC a sério - algo que gera a farsa que viabiliza a comédia. Em seu 'Diário', uma narrativa confessional, que num primeiro momento não seria destinada à publicação, EC (pseudônimo) surge como alguém sincero, que acredita mesmo em Deus, que cita frases bíblicas, que não se vê como corrupto, que se considera alguém fundamental para o desenvolvimento brasileiro.

Um homem fascinado por arquivos, paranoico, vaidoso, autorreferente. Um autor que não admite que seu texto seja revisado; por conta disso, ao dizer que colocaria algo em xeque, escreve a palavra com "ch" - um ato falho compreensível, EC não desprezaria um cheque.

O político que, ainda presidente da Câmara, sustentava não ter contas na Suíça, mas "trusts", rejeita, em seu diário fake, a classificação de corrupto. Diz que políticos trabalham demais, fazem hora extra, e é razoável que recebam por este esforço. Para não sangrar os cofres públicos, a remuneração adicional viria de empresários: "Tomamos esta decisao para o Estado economizar e poder cuidar melhor da saúde e da educação", explica.

No 'Diário', Cunha demonstra orgulho por ter tirado o PT do poder e, assim, evitado que o Brasil se transformasse numa nova Venezuela, defende que aquilo que chamamos de corrupção não passa de uma bem montada engrenagem que leva ao progresso - dá como exemplo o crescimento do Rio de Janeiro durante o governo de Sérgio Cabral.

"O Brasil precisa voltar a respirar. Essa era a crença dele (Cabral) e por isso ele precisava de tanto oxigênio" - em conversas gravadas entre suspeitos de integrar o esquema liderado pelo então governador, a palavra "oxigênio" surge como sinônimo de propina.

EC (pseudônimo) elogia até mesmo Sérgio Moro, algoz do EC (o próprio). "É um juiz que não se intimida perante os advogados. Ele corta a voz deles e indefere tudo. (...). As vezes parece agir como eu agia na presidência da Câmara dos Deputados". Até que EC (o próprio) poderia ter sido o autor deste trecho.

Ao rolar a bola para que EC apresente suas justificativas, Lísias nos apresenta a um personagem tão fascinante quanto o EC real. Um homem talvez mais correto que o EC (o próprio). O personagem de Lísias acredita em seus bons propósitos, em sua missão política, econômica e religiosa - e por isso é tão engraçado. Arrisco dizer que o EC (o próprio) vai rir muito de EC (pseudônimo).



Fatos que são contextos

separador Por Fernando Molica em 29 de abril de 2017 | Link | Comentários (1)

Há fatos capazes de criar o próprio contexto, de tão significativos que são. Dos episódios ocorridos ontem no Rio, durante manifestações relacionadas à greve geral, dois são bem simbólicos: a foto que mostra PMs em posição de ataque ao lado da Biblioteca Nacional e a descoberta, no Theatro Municipal, de restos de 22 bombas e de três balas de borracha lançadas/disparadas por policiais (havia também duas pedras).

Os PMs formados ao lado da biblioteca foram flagrados pela fotógrafa Ana Carolina Fernandes ao lado de uma placa que expunha texto de Ana Maria Machado. Nele, a escritora diz que um sistema que facilita o acesso aos livros "estimula a imaginação e alimenta as defesas contra o autoritarismo e a opressão". A presença de bombas e balas num outro patrimônio cultural brasileiro, o Theatro Municipal, dispensa qualquer comentário.

Na manhã deste sábado, outro fato triste e simbólico, a morte da radialista Liza Carioca, uma das vítimas do acidente com carro alegórico da Paraíso da Tuiuti no Carnaval. Sim, morreu uma jornalista que escolheu para seu sobrenome profissional o gentílico que designa aqueles nascidos no Rio.

No fim das contas, sobram retratos trágicos e quase caricaturais que ilustram as condições em que PMs marcam presença na nossa maior biblioteca e no nosso principal teatro e que ressaltam mais uma morte carioca - uma vítima de nossa maior festa, a que melhor nos traduz.

Uma carioca como a estudante Maria Eduarda, como o motociclista Miguel Ayoub, como os moradores do Alemão Felipe Farias de Souza, Bruno de Souza, Gustavo Silva e Paulo Henrique; como o PM Alex Francisco de Carvalho, atropelado por bandidos que tentava interceptar. Todos vítimas da insanidade e da irresponsabilidade que vicejam entre nós.


'Uma selfie com Lenin' no 'Rascunho'

separador Por Fernando Molica em 23 de abril de 2017 | Link | Comentários (0)

Aqui, a resenha de 'Uma selfie com Lenin' publicada no 'Rascunho', o mais importante jornal sobre literatura do país. O texo é de Carla Bessa.

Jogo sujo

Como sugere o título, Uma selfie com Lenin, de Fernando Molica, é o instantâneo de uma história individual contra o pano de fundo do contexto histórico mundial. Ao passar em revista os últimos anos de sua vida, o protagonista constrói pontes entre o seu caos pessoal e a crise global, fazendo um balanço do seu tempo, um acerto de contas com ideologias e paixões deixadas para trás, em busca de um retorno ou recomeço.

Na superfície, o romance é uma longa carta à ex-namorada e ex-chefe, Eloísa, com a qual o protagonista trabalhara como assessor de políticos. Redigida no avião, durante um voo pela Europa, a missiva é a tentativa literal de ver as coisas de cima e traçar um mapa dos desencontros amorosos e profissionais vividos em um passado não muito distante. E faz, de rebarba, uma análise contundente e mordaz dos assim chamados "bastidores do poder" e das inquietações políticas dos últimos anos no Brasil e no mundo.

Olhando mais a fundo, o texto é uma crítica incisiva à manipulação de informações pelas mídias modernas. Movimentando-se com presteza estilística e embasamento histórico entre as linguagens jornalística e ficcional, Molica nos mostra o quanto somos manipuláveis. E que é exatamente desta falta de escrúpulos da qual se aproveitam tanto os assessores de políticos como os meios de comunicação em geral. Por exemplo, o cinema e a televisão, como ilustra no final do livro. As últimas lembranças são contadas em forma de um filme imaginário, numa narrativa com cortes rápidos como numa cena de perseguição, revelando exatamente a instrumentalização da nossa empatia: Torcemos pelo ladrão porque ele nos é simpático, mas também porque o furtado é um cafajeste ainda maior.

Arrumadeiras de motel

Sem perder o humor, o protagonista nos conta sobre sua frustração de ter deixado o trabalho na redação de um jornal para, por meio de Eloísa, se deixar seduzir pelas sinuosas perspectivas da assessoria política, mesmo sabendo que a maioria de seus clientes teria reputações mais do que duvidosas. O relato é denúncia e autodenúncia, a confissão de alguém que se reconhece culpado por conivência.

E não deixa de ser engraçado quando falo neles, nos nossos clientes, como se eu e você não tivéssemos nada a ver com isso... Éramos -- eu não sou mais -- como arrumadeiras de motel, que permitem que a sacanagem alheia seja feita em ambiente limpo, asséptico, sem risco de contaminação. ...Não participávamos do grosso da safadeza, mas, sem nossa ajuda, ela não se realizaria.

Desde o começo fica claro que a carta-conversa com Eloísa não passa de um pretexto para uma reflexão sobre a sua época e a sua própria história. Ao deixar o protagonista descrever a ascensão da namorada, Molica esboça o perfil de toda uma classe de redatores e assessores de imprensa. Com sua selfie, ele retrata uma classe jornalística resiliente, que se deixa gratificar por sua cumplicidade e ainda o faz não somente pela segurança financeira, mas por uma espécie de arrivismo que, no fim literal das contas, torna seus profissionais mais culpados do que os corruptos que o fazem por dinheiro:

Não era só pela grana, eu sei. Você jamais se prestaria a tanto por conta de algumas dezenas de milhares de reais. O importante era a briga, a disputa, a causa impossível.

O não-lugar da narrativa

Imprescindível para esta purgação por meio da escrita é o ambiente sem saída do avião que propicia a perspectiva claustrofóbico-reflexiva necessária para a fuga no relato. É ali de cima, literalmente "no ar", que o autor encontra o "não-lugar" ideal da narrativa, o enclausuramento que procurará uma válvula de escape na narração.

"Estou numa cápsula metálica a não sei quantos quilômetros de altura, num não território, sentado numa poltrona ao lado do corredor, sem acesso sequer a uma janelinha... Isso deve ter despertado esta minha vontade de lhe escrever -- talvez por estar no ar, sem referências, sem saber para que lado está o norte ou o sul..."

É neste limbo geográfico e temporal que ele se sente livre para deixar cair máscaras e faces. Entre uma revelação e outra sobre si, levanta o tapete da assessoria política no Brasil e deixa exposta a sujeira de um cotidiano entre políticos corruptos.

Mas a metáfora do "não-lugar" é ainda maior. Nela caberá também a falta de espaço da memória na agilidade do mundo digital de hoje, onde se torna obsoleta qualquer fixação de lembranças, já que o avanço tecnológico é mais rápido do que a nossa compreensão de seus meios: fotos, filmes, escritos. Isso porque, com o permanente desenvolvimento dos programas, "em pouco tempo não haverá como abrir aqueles velhos arquivos".

Assim, perderemos sutil e paulatinamente o senso de compromisso, de obrigações, já que nem as fotos nos confrontam mais com nossos rostos, simplesmente porque não são vistas, só tiradas.

"Criamos a foto sem memória, veja só, a foto que não cobra, que não apresenta qualquer fatura. Uma não foto, incapaz de nos encarar, de jogar na nossa cara o que fizemos de nossas vidas. Inventou-se -- tem certeza de que você não participou disso? Seria ideal para limpar o currículo/folha corrida de seus assessorados -- um passado que não retorna, que fica confinado numa ausência de memória, um desafio à psicanálise, eu, eu, eu, doutor Freud sifudeu."

Por falar em memória

Aproveitando a deixa da memória (ou da sua ausência), como demarcação do eu no contexto global, o protagonista guarnece seu relato com protocolos de visitas a museus, essas instituições que são, per se, os baluartes da conservação da memória. Ao defrontar-se com os resquícios da história dos povos europeus, o autor aproveita o ensejo para um passeio reflexivo pelos anais das colonizações. E nos apresenta um verdadeiro catálogo das falcatruas dos colonizadores europeus, como, por exemplo, o hábito dos franceses de levarem de suas colônias papagaios, frutos e índios brasileiros para a Europa, como evidências do exótico. Ou as máscaras fabricadas pelos holandeses a partir de um molde de gesso tomado dos rostos de homens e mulheres de suas colônias. Em outro momento, denuncia a incrível cara de pau de um embaixador do Reino Unido que, depois de se apropriar de objetos culturais valiosíssimos de uma de suas colônias, sob o pretexto de salvaguardá-los da destruição, simplesmente os vende (!) em seu país.

"Eles e colonizadores de outros países salvaram as peças da mesma forma que se diziam interessados em salvar almas de africanos, orientais e americanos, todos invadidos, mortos, espoliados. Dá para imaginá-los dizendo algo como viemos aqui para salvá-los de vocês mesmos, para proteger as lindas obras de arte dos povos que as criaram."

Mensagem na garrafa

O final do romance traz uma confissão, um mascarado pedido de desculpas e uma apologia à cultura da lembrança. O protagonista recorda uma visita ao parlamento alemão, em Berlim, onde a memória do Nacional-Socialismo é perpetuada por uma obra de arte que lembra os horrores da Segunda Guerra, bem no centro do poder. Houve protestos por parte da população, as pessoas chegaram a danificar a peça, mas sua permanência foi garantida por lei. Ali, a lembrança é mantida viva e fica sujeita a joelhadas e chutes, mas também à reflexão.

Como se quisesse nos convencer de que é no centro da memória que se encontra a semente do perdão, o protagonista volta, no final do livro, à reflexão feita no início, de que é só assumindo o personagem no qual se transformou que poderá se livrar dele.

O que fica é a catarse pelo relato enquanto mensagem numa garrafa.


'Mirandão' na França

separador Por Fernando Molica em 10 de abril de 2017 | Link | Comentários (0)

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Uma ótima notícia, anunciada hoje pelo Ancelmo Gois. O 'Notícias do Mirandão', meu primeiro romance, será lançado na França, ainda em 2017, pela Anacaona, especializada em autores brasileiros - em seu catálogo estão, entre outros, Raimundo Carrero, Marçal Aquino, Marcelino Freire e José Lins do Rego.

A editora quer, em 2018, publicar o 'Bandeira negra, amor', que saiu por aqui em 2005. O 'Mirandão' foi lançado na Alemanha em 2006, pela Nautilus.


Yevtushenko e o sapoti afrodisíaco de Brizola

separador Por Fernando Molica em 02 de abril de 2017 | Link | Comentários (0)

Acabei de saber da morte, aos 85 anos, do poeta russo Evgueni Yevtushenko. Em 1987, ele veio ao Rio durante o Carnaval, e foi levado pelo Brizola, então governador do Rio, para ver os desfiles no Sambódromo.

Eu estava ao lado da dupla durante a apresentação da Estácio, que apresentou um enredo que tratava do sapoti, aquela simpática fruta cujo sabor tinha ganhara, no mercado, o nome de tutti-frutti: "Isso virou tutti-frutti/ Tutti-multinacional/ Virou goma de mascar/ Roda pra lá e pra cá/ Na boca do pessoal", dizia o samba.

Para ressaltar as qualidades do sapoti, componentes da escola distribuíam sachês com a fragância característica do fruto - um dos saquinhos foi parar nas mãos do poeta. Sem saber o que fazer com aquele negócio, Yevtushenko pediu ajuda ao Brizola que, com o auxílio do tradutor, declarou: "Diz pra ele que o perfume é afrodisíaco!"

Naqueles tempos pré-viagra, ao ouvir o comentário do governador, o respeitável homem de letras não vacilou e ali mesmo, na frente de todo mundo, e diante daquele memorável desfile de corpos, enfiou o nariz no sachê e tratou de dar uma bela, longa e esperançosa cafungada.


A decisão de Moro, o embaraço à Justiça e a liberdade de expressão

separador Por Fernando Molica em 23 de março de 2017 | Link | Comentários (2)

A decisão de Sérgio Moro de investigar o blogueiro Eduardo Guimarães por suposto embaraço ao trabalho da Justiça representa uma ameaça à liberdade de expressão. Em despacho/decisão (reproduzido abaixo), o juiz excluiu da investigação que resultou na condução coercitiva do blogueiro apenas os elementos ligados à identificação de sua fonte de informação.

Até por conta de manifestações de entidades de jornalistas (chega a citar a Abraji), Moro admitiu que a atividade do suspeito poderia ser caracterizada como jornalística. Foi um avanço, sem dúvida, mas insuficiente. O despacho/decisão tem pontos delicados, que merecem uma discussão mais atenta.

O juiz insiste na existência de norma constitucional que garante o resguardo do sigilo da fonte para jornalistas. O problema é que a Constituição não limita este direito a uma categoria, fala em resguardo do sigilo da fonte quando "necessário ao exercício profissional". Isto vale para jornalistas e para médicos, engenheiros, pipoqueiros, porteiros de motel. Mais: o texto assegura a todos o acesso à informação ("É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional"). Diz, portanto, que todos os cidadãos têm o direito de ter informações, e de proteger suas fontes caso isto seja necessário por razões profissionais.

Ainda Segundo Moro, o blog de Guimarães "destina-se apenas a permitir o exercício de sua própria liberdade de expressão e veicular propaganda político partidária". E completa: "Apesar da relevância desses direitos, a eles não são pertinentes a proteção constitucional do sigilo de fonte." A ressalva do juiz é muito questionável, um jornalista do jornal do PT, do PSDB ou da Rede não deixa de ser jornalista, e o jornal em que trabalha não deixa de ser um jornal (um jornal parcial, partidário, descompromissado com a notícia, mas um jornal). Não cabe ao Judiciário definir que jornalistas/cidadãos têm direito ao sigilo.

O mais grave porém na decisão de Moro é a afirmação de que o Guimarães continuará a ser investigado por suposto embaraço à Justiça. Isto por ter revelado a informação sobre a condução coercitiva do Lula - revelar para a parte investigada e publicar a informação no blog.

Um jornalista vazar uma informação para parte interessada no processo representa uma falha ética grave, mas o gesto não pode, no caso, ser considerado crime, já que Guimarães não trabalha na Justiça, na Receita, na Polícia ou no MP. Crime seria se um funcionário público com acesso às investigações vazasse uma informação para um terceiro, principalmente, para um alvo do processo. É bem provável que a fonte do Guimarães tenha cometido um crime, mas ele, não.

Vários policiais e promotores já tentaram investigar jornalistas que publicaram informações sigilosas. Os advogados das publicações sempre bateram pé num ponto: a guarda do sigilo cabe aos funcionários encarregados de protegê-lo, o jornalista que recebe a informação não comete crime ao divulgá-la.

A lógica adotada por Moro vai no sentido oposto, ele considera como possível crime até a divulgação do fato sigiloso no blog, como ressaltou: "Há fundada suspeita de que a decisão judicial teria sido, indevidamente, divulgada em blog de Carlos Eduardo Cairo Guimarães e ainda previamente informada por ele aos próprios investigados."

Pelo texto do juiz, qualquer jornalista que publique informações sigilosas pode ser acusado de obstrução da Justiça, o que representaria uma ameaça permanente ao jornalismo e ao exercício da cidadania de um modo geral. Um promotor não pode revelar a um investigado que ele será preso no dia seguinte. Mas se o promotor comentar o fato com alguém de fora da investigação, esta pessoa não cometerá crime se fizer a tal comunicação ao suspeito. O cara poderá ser chamado de traidor, safado e mau caráter - mas não de criminoso. A manutenção do segredo, vale insistir, é dever de quem cabe legalmente protegê-lo.

Moro tem o direito de querer investigar a fonte das informações passadas ao Guimarães, alguém provavelmente ligado à estrutura do Estado. Mas extrapola ao investigar um cidadão que, de posse de uma informação, fez com ela o que bem entendia.

No limite, pela interpretação do juiz da Lava Jato, um jornalista poderia ser acusado de atrapalhar a aplicação da Justiça até mesmo se, ao saber de medida a ser tomada contra Fulano, ligasse para ele para cumprir o dever de ouvir o outro lado. Cometeria crime também ao publicar a informação. Nesses três anos de Lava Jato, não foram os jornalistas os responsáveis pelo vazamento de tantas e tantas informações, eles apenas publicaram o que receberam de pessoas que, elas sim, violaram o compromisso do sigilo.


Aqui, o despacho/decisão de Moro:

PEDIDO DE BUSCA E APREENSÃO CRIMINAL Nº 5008762-24.2017.4.04.7000/PR

REQUERENTE: POLÍCIA FEDERAL/PR
ACUSADO: CARLOS EDUARDO CAIRO GUIMARAES
DESPACHO/DECISÃO
Trata-se de processo no qual foi autorizado, a pedido da autoridade policial e do MPF, buscas e apreensões e condução coercitiva em relação à Rosicler Veigel, Francisco José de Abreu Duarte e Carlos Eduardo Cairo Guimarães.
As medidas foram cumpridas em 21/03/2017.
A medidas em questão, bem como as quebras de sigilo de dados telefônicos e anteriores, visam investigar supostos crimes de Rosicler Veigel, Francisco José de Abreu Duarte e Carlos Eduardo Cairo Guimarães.
Em síntese, foi, em cognição sumária, divulgada, em 26/02/2016, indevidamente decisão judicial de quebra de sigilo fiscal de Luiz Inácio Lula da Silva, de empresas e associados, com pré anúncio dos investigados e locais que seriam objeto de busca e apreensão autorizada no processo 5006617-29.2016.4.04.7000.
Há fundada suspeita de que a decisão judicial teria sido, indevidamente, divulgada em blog de Carlos Eduardo Cairo Guimarães e ainda previamente informada por ele aos próprios investigados.
Ao deferir as medidas de investigação em relação a Carlos Eduardo Cairo Guimarães teve-se presente o entendimento de que ele não exerceria a profissão de jornalista e portanto não teria sigilo de fonte a ser resguardado (decisão de 14/03/2017, evento 9).
Este Juízo chegou a indeferir, antes, em 01/02/2017 (evento 36 do processo 5064406-83.2016.4.04.7000), a quebra do sigilo de dados dele, mas houve insistência pela autoridade policial e pelo MPF e, com base nos argumentos apresentados, este julgador reviu o posicionamento anterior e concedeu a medida pretendida (evento 52 do processo 5064406-83.2016.4.04.7000). Transcreve-se o então fundamentado:
"(...)
Ambos se manifestaram insistindo na quebra (eventos 37 e 47). Argumentam que, além da divulgação dos dados de investigação sigilosa no "Blog da Cidadania", haveria indícios de que ele teria repassado previamente as informações aos investigados. Além disso, informam que não há elementos probatórios que apontem que referida pessoa seria de fato profissional jornalista ou que exerceria essa profissão.
Melhor examinando o blog em questão, http://www.blogdacidadania.com.br/, acesso na presente data, constato que ele não aparenta ser propriamente espaço de jornalismo, mas sim de propaganda política, ilustrada por informação em destaque, embora ultrapassada, de que o titular seria candidato a vereador para a cidade de São Paulo (PCdoB).
Blog da Cidadania | por Eduardo Guimarães
www.blogdacidadania.com.br
por Eduardo Guimarães ... Blog questiona Corregedoria sobre juiz que calunia petistas em geral • 17/03/17 • 11:44

Constam nos links do blog comentários do próprio titular do blog sobre fatos do dia ou matérias jornalísticas, usualmente de natureza política.
Pelo levantamento feito pela Polícia Federal, constatou-se ainda que junto ao Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Eduardo Cairo Guimarães qualifica-se como exercente da profissão de "comerciante" e não de jornalista (evento 37). Também constatado que ele é sócio gerente de empresas atuantes no ramo do comércio e não de jornalismo.
Como já adiantado, a garantia do sigilo de fonte do art. 5º, XIV, da Constituição Federal é fundamental e protege diretamente o jornalista e sua fonte e, indiretamente a liberdade de imprensa e o acesso à informação.
Apesar de não ser absolutamente necessário o diploma de jornalista para o exercício da profissão, as provas colacionadas indicam que Carlos Eduardo Cairo Guimarães não é jornalista, com ou sem diploma, e que seu blog destina-se apenas a permitir o exercício de sua própria liberdade de expressão e veicular propaganda político partidária.
Apesar da relevância desses direitos, a eles não são pertinentes a proteção constitucional do sigilo de fonte.
Por outro lado, não se trata aqui de investigar a livre manifestação da expressão, mas divulgação indevida de dados sigilosos a investigados e a terceiros através do referido blog, colocando em risco à investigação".
Certamente, não desconhece esse julgador que a profissão de jornalista pode ser exercida sem diploma de curso superior na área. Entretanto, o mero fato de alguém ser titular de um blog na internet não o transforma em jornalista automaticamente.
No caso, a avaliação do conteúdo do blog, contendo inclusive propaganda político-partidária, como banner para campanha do próprio titular do blog para vereador em São Paulo pelo PCdoB, levou à conclusão de que, como o conteúdo do blog não seria eminentemente jornalístico, então o investigado Carlos Eduardo Cairo Guimarães não exerceria a profissão de jornalista, utilizando o blog somente para permitir exercício de sua própria liberdade de expressão e veicular propaganda político partidária. Embora a liberdade de expressão e as preferências partidárias devam ser respeitadas, não abrangem elas sigilo de fonte.
Em particular, a utilização do blog para veicular propaganda político-partidária do próprio titular para cargo político parece desnaturar a natureza jornalística da atividade.
Essa conclusão ainda tinha o apoio na forma como o próprio investigado se autoqualificava, em cadastros públicos, como do TSE, já que não se identificava como jornalista, mas como comerciante.
Ouvido, na data da realização das buscas e apreensões, novamente qualificou-se como "representante comercial" e não como jornalista.
Em conduta também distante ao profissional do jornalismo, revelou, de pronto, ao ser indagado pela autoridade policial e sem qualquer espécie de coação, quem seria a sua fonte de informação acerca da quebra do sigilo fiscal de Luiz Inácio Lula da Silva e associados. Um verdadeiro jornalista não revelaria jamais sua fonte.
Confirmou ainda que não só divulgou a informação em seu blog, mas antes comunicou-a a assessor do investigado.
Por outro lado, o objetivo da investigação não era propriamente a de identificar a fonte da informação do blog, já que ela já estava, em cognição sumária, identificada desde o início, mas sim principalmente apurar se de fato o seu titular havia comunicado a decisão aos investigados previamente à própria divulgação no blog e a à diligência de busca e apreensão.
Cumpre, porém, reconhecer que, desde a diligência, houve manifestações públicas de alguns respeitados jornalistas e de associações de jornalistas questionando a investigação e defendendo que parte da atividade de Eduardo Cairo Guimarães seria de natureza jornalística. Externaram ainda preocupação quanto ao risco da quebra de sigilo de fonte jornalística em investigação criminal.
Entre elas a ABRAJI - Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, associação de destacada reputação e que divulgou nota nesse sentido em 22/03/2017 (http://www.abraji.org.br/?id=90&id_noticia=3763).
Pois bem, a definição de jornalista e a extensão do sigilo de fonte são conceitos normativos e, como tais, como quaisquer outros, sujeitos à interpretação do aplicador da lei, no caso o julgador.
Não obstante, a manifestação de alguns membros da classe dos jornalistas e de algumas associações de jornalistas no sentido de que parte da atividade de Eduardo Cairo Guimarães teria natureza jornalística, embora não vincule o Juízo, não pode ser ignorada como elemento probatório e valorativo.
Nesse contexto e considerando o valor da imprensa livre em uma democracia e não sendo a intenção deste julgador ou das demais autoridades envolvidas na investigação colocar em risco essa liberdade e o sigilo de fonte, é o caso de rever o posicionamento anterior e melhor delimitar o objeto do processo.
Deve a investigação prosseguir em relação às condutas de violação do sigilo funcional pelo agente público envolvido e, quanto aos demais, somente pelo suposto embaraço à investigação pela comunicação da decisão judicial sigilosa diretamente aos próprios investigados, já que esta conduta não está, em príncípio, protegida juridicamente pela liberdade de imprensa.
Deve ser excluído do processo e do resultado das quebras de sigilo de dados, sigilo telemático e de busca e apreensão, isso em endereços eletrônicos e nos endereços de Carlos Eduardo Cairo Guimarães, qualquer elemento probatório relativo à identificação da fonte da informação.
Caso demonstrado que também Francisco José de Abreu Duarte exercia a profissão de jornalista, estenderei tal exclusão a ele.
De igual forma, fica excluída como prova, do depoimento de Carlos Eduardo Cairo Guimarães, a revelação, embora ele não tenha sido forçado a ela, da identidade de sua fonte.
A exclusão não abrange elementos probatórios relativos à divulgação, em princípio indevida, da decisão judicial aos próprios investigados.
Ciência à autoridade policial, ao MPF e às Defesas já cadastradas.
Embora tenha mantido o sigilo sobre esse processo até o momento para preservar as investigações, ele não mais se faz necessário, após a oitiva dos investigados, e nem mais é apropriado, sendo salutar o escrutínio público sobre o processo e a própria ação da Justiça. Assim, levanto o sigilo determinado sobre este feito.
Quanto ao compartilhamento das provas com a Corregedoria da Receita Federal (evento 30), deverá ela aguardar a conclusão do inquérito.
Curitiba, 23 de março de 2017.


Faltou enredo para Ivete

separador Por Fernando Molica em 28 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Pra não dizer que não falei da Grande Rio. Não gosto do seu repertório, mas não posso negar que Ivete Sangalo é a maior artista pop que temos (talvez fosse melhor dizer o melhor artista pop, para incluir os homens na parada). Sua presença na comissão de frente foi espetacular, prova de talento, competência, dedicação.

O problema é que, ao contrário de outros artistas já homenageados no Sambódromo - Bethânia, Roberto Carlos, Braguinha, Luiz Gonzaga, Lamartine e outros tantos -, a carreira de Ivete não tem lá muitas ligações com a história brasileira, mesmo com uma história informal, cultural, construída ao longo do tempo na relação entre ela e o público. Seu sucesso é fruto de um extremo talento, o que não rende muito material para um enredo.

Talvez a escola pudesse ter driblado isso se tivesse investido mais na relação da cantora com os trios elétricos, com a axé music. Ivete surgiria assim como o principal estrela de um movimento artístico e cultural relevante, que conquistou milhões de fãs, que criou um modelo de carnaval que se espalhou pelo país e que gerou filhotes até no Rio (os blocos que fazem shows de música pop têm relação direta com a lógica do carnaval baiano).

Mas o enredo ficou muito centrado só na Ivete, que tem uma história legal, de sucesso, mas uma história meio simples - a menina do interior que foi, viu, e venceu. No fim das contas, acabou rolando um carro para The Voice Brasil. É pouco para um enredo. No mais, foi muito legal ver o carinho do público carioca com mais esta baiana que bota o país pra cantar.


Leandro Vieira rima com Mangueira

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

O pouco que conheço de escolas de samba mostra como é delicada a relação entre elas e os carnavalescos. Numa escola há incontáveis saberes e, pelo menos, seis mil egos (por baixo, 1,5 por desfilante). Não é fácil estabelecer uma relação produtiva e colaborativa com tanta gente e com tanto conhecimento acumulado - cada vez que piso na quadra da Mangueira penso em Cartola, Nelson Cavaquinho, seu Delegado, Mocinha, Neide, Carlos Cachaça, dona Neuma - e tantos, e tantos.

Aí a diretoria contrata um cara de fora da comunidade que passa a determinar enredo, definir alegorias, fantasias, volta e meia palpita no samba. E o sujeito tem o direito de fazer isso, foi contratado para exerrcer esta função. Entre os grandes nomes, há os carnavalescos-bandeirantes, colonizadores que, embora talentosos e bem-intencionados, dão pouca bola para a tradição de cada escola e procuram impor seu jogo. Costuma dar certo em escolas de menor tradição, que ainda buscam um estilo.

E há aqueles que conseguem uma ótima sintonia com a escola - Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues e Renato Lage sacaram que a Mocidade, famosa por sua bateria, estava prontinha para ousar. Os integrantes da escola de formação do Salgueiro, moldada por Fernando Pamplona, souberam desenvolver a lógica de integração - por maiores que fossem os delírios de Joãosinho Trinta. Rosa Magalhães e Imperatriz pareciam ter nascido uma para a outra.

Leandro Vieira rima com Mangueira. Chegou lá para preparar o Carnaval de 2016 e, como não quer nada, organizou a escola para o título. Apresentou um enredo que tinha tudo a ver com ele e com a escola. Tudo indica que fará o mesmo na madrugada de amanhã. Ele implica um pouco demais com a combinação verde e rosa - em 1984, Max Lopes, outro que se integrou muito à escola mostrou que as duas cores podiam conviver muito bem -, mas isso é um detalhe que não chega a complicar. O cara se entendeu com a escola, e a escola com ele. Com o Leandro, a Mangueira voltou a exercer sua grandeza de sempre.

Hoje, o Léo Dias diz que o Leandro está praticamente acertado com o Salgueiro, que perderá o Renato Lage. E aí, não como jornalista, mas como mangueirense, protocolo minha reivindicação à diretoria da Verde e Rosa: Não deixe o Leandro sair/ Não deixe o Leandro vazar.


Uma Iracema frustrante na Beija-Flor

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Estava no Sambódromo quando Joãosinho Trinta e Laíla - dois de nossos maiores artistas, em qualquer área - encheram a pista de mendigos que teatralizaram e colocaram de cabeça pra baixo o cortejo das escolas. Meninos, eu vi - e como sou grato por isso. Não sou, portanto, avesso a novidades, Ao contrário, o samba e as escolas sobrevivem porque são capazes de unir tradição e inovação.

O problema, portanto, do desfile da Beija-Flor que vi na manhã de hoje não tem a ver com novidade, mas com realização. Eu estava numa frisa, na mesma altura da pista, e não consegui perceber a tal teatralização de cenas do enredo. Vi apenas zilhões de índios com fantasias simples, que tinham apenas algumas variações. Só fui ver as tais cenas no compacto exibido há pouco pela Globo.

O espetáculo das escolas de samba tem características bem peculiares. É feito a céu aberto, em via pública, para 70 mil pessoas. Não conta com elementos que, num espaço fechado, induzem a atenção do público, como a iluminação. O único texto formal é a letra do samba-enredo (a grande maioria do público não tem acesso ao roteiro delhadado dos desfiles, nem teria paciência para ler aquele calhamaço - isso é carnaval, caramba). Ou seja, os elementos de um desfile têm que ficar bem claros, bem evidentes - desfile é ópera italiana, Verdi na veia, não é cantata barroca; é Tim Maia, não João Gilberto.

Não se pode querer um desfile apenas para uns poucos ilustrados, bem-informados, e bem localizados no Sambódromo. Como uma boa novela das nove, um ótimo desfile tem que ser inovador e, ao mesmo tempo, ter uma carga de redundância que permita ser entendido por um público imenso. E, nisso, a Beija-Flor falhou. É uma pena, a ideia de radiacalizar a teatralização, de estabelecer uma nova forma de narrar o enredo é bem legal, tomara que não seja esquecida.

OK, teve a ruptura com o esquema das alas, a novidade de fantasias iguais, mas diferentes. O problema é que isso não ajudou no desfile, ficou a curiosidade pela curiosidade. Saí do Sambódromo lembrando do caso daquele cantor de jazz que veio ao Brasil há uns 30 anos. Na época, a imprensa destacava que ele era capaz de imitar vários instrumentos, ou seja, frisava uma mera curiosidade. Prefiro ouvir um saxofone a um sujeito que imite um saxofone. Uma inovação tem que ser boa por conta de seu resultado. Vale o descrito.


Os riscos do Sambódromo

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Estava no Setor 10, bem longe do local onde ocorreu o acidente com o carro da Tuiuti, mas já estive muitas e muitas vezes ali diante do Setor 1, acompanhei, dali, a entrada na Avenida de incontáveis escolas. Então, algumas observações.

1. O Sambódromo foi concebido por duas pessoas que jamais haviam estado num desfile, Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro. Tanto que, ao longo dos anos, a obra teve que sofrer diversas adaptações. É complicado aproximar as arquibancadas da Apoteose e remover aquele obstáculo, o 'M' gigante no fim da pista, mas dá pra ampliar o espaço, na esquina com a Presidente Vargas, que serve de entrada para os carros alegóricos. Talvez seja possível 'morder' um pedaço da arquibancada do Setor 1. Os carros ficaram grandes demais, a manobra de entrada, que implica numa curva de quase 90 graus, é absurda, quase impossível. É comum que alguns carros tenham dificuldades de entrar no Sambódromo, o que abre buracos na escola. Depois de feita a manobra, motoristas aceleram aqueles monstrengos para recuperar o tempo perdido, o que aumenta o risco de acidentes.

2. Tem gente demais na pista, e a concentração é muito maior ali no Setor 1 - a responsabilidade disso é da Liesa. Em tese, na pista deveriam ficar apenas as pessoas que desfilam.

3. Hoje de madrugada, o Aydano André Motta provocava: existe habilitação para motorista de carro alegórico? Carro alegórico não é caminhão, não é ônibus, frisava. Acrescento: é maior do que praticamente todos os veículos, tem formato irregular, é alto pacas, carrega muitas pessoas - centenas, até. A visibilidade do motorista é comprometida pela decoração da alegoria, o cara depende, muitas vezes, apenas das orientações de um sujeito que está na pista. Há bafômetro para motorista de carro alegórico?

4. Há normas técnicas para carros alegóricos, algum padrão que defina relações entre peso, altura, comprimento? Há definição de qual tem que ser a área de visão do motorista? Antigamente, os carros tinham que ser empurrados, hoje, podem ter motor. São, portanto, carros motorizados que circulam por uma via pública, a Marquês de Sapucaí. OK, não é necessário que os carros tenham placa.

5. Como ressaltou um mestre-sala, acho que da Tuiuti, essa história de pintar a pista de desfile é complicada. Carros são feitos para rodar no asfalto, que é poroso. A pintura torna o piso mais escorregadio, ainda mais sob chuva. Isso aumenta o risco de derrapagens de componentes e dos carros alegóricos.


'Brasil de volta ao começo' - revista alemã sobre 'Uma selfie com Lenin'

separador Por Fernando Molica em 12 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Texto de Michael Kleger publicado na revista alemã 'Literatur Nascrichten', associa 'Uma selfie com Lenin' ao desencanto ocorrido nos últimos anos no Brasil: "Os anos democráticos e abundantes ficaram rapidamente para trás", afirma Kegler, tradutor especializado em literatura de língua portuguesa (ele fez as versões em alemão do 'Notícias do Mirandão' e 'Bandeira negra, amor').

A matéria trata também de livros do João Paulo Cuenca e do Fernando Bonassi e teve este trecho gentilmente traduzido pela Tamara Menezes:


Ainda no início da Era Lula, alguns anos atrás, o jornalista Fernando Molica descreveu em seu romance 'Notícias do Mirandão' traduzido pela Nautilus em 2006, como a conjuntura, em sintonia com a ingenuidade dos personagens, arruinou uma revolução na favela. Desta vez, um jornalista que já foi de esquerda viaja pela Europa e manda para casa 'Uma selfie com Lenin' (Record 2016).

O livro registra um longo monólogo interno de alguém que se deixou corromper. Primeiro por amor, depois por dinheiro, ele foi contra suas convicções em relação à rede de corrupção da política brasileira. E finalmente resolveu tudo com uma mala cheia de dinheiro.

"Você estava certa quando, presumo, mandou que ficassem quietos todos aqueles babacas assustados com as manifestações. Alguns poucos daqueles ladrões filhos da puta, e não me refiro apenas aos seus clientes, devem ter se ferrado. Há os que exageram na ânsia de mergulhar no dinheiro alheio, não conseguem parar de roubar, de aumentar aquela riqueza que lhes chega de um jeito tão fácil. Estes, uns novos-ricos deslumbrados, são os que se afogam. Os mais discretos continuam felizes, vivos e prósperos. (...) No fim a casa sempre vence."

O Brasil está de volta ao começo. Os anos democráticos e abundantes ficaram rapidamente para trás. Perplexos, alguns ainda esfregam os olhos para tentar entender. Mas a literatura brasileira já compreendeu. O clima é tropical como sempre e "No fim, a casa sempre vence."


A jurisprudência da Lava Jato

separador Por Fernando Molica em 11 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

O caso Moreira Franco revela como algumas medidas tomadas pela Lava Jato ou sob sua inspiração criaram precedentes delicados para a Justiça brasileira. Em tese, tanto o Lula quanto o Moreira teriam o direito de assumir ministérios. Ambos são cidadãos em pleno gozo de seus direitos políticos, não foram condenados sequer em primeira instância.

Pela lei brasileira, suspeitos, indiciados, denunciados e réus não são considerados culpados. Tanto que Lula e Moreira poderiam, hoje, concorrer à Presidência da República, e o eleito teria direito de assumir o cargo.

A histeria gerada pela nomeação de Lula gerou uma pedalada judicial, até mesmo uma prova obtida ilegalmente, a tal gravação do 'Bessias' serviu de pretexto para anular a posse do ex-presidente. Criou-se um precedente que, agora, complica a vida de um dos principais articuladores do impeachment.

O caso gerou também um paradoxo. Ao anular a posse do Lula, considerada uma tentativa de obstrução da Justiça, o Gilmar Mendes passou recibo na tese de que o STF, corte em que atua, é conivente com impunidade, Curiosidade: no governo FHC, o cargo de Advogado Geral da União ganhou status de ministro para que seu titular - Gilmar Mendes! - escapasse de um processo movido contra ele na primeira instância.

Criticos a determinadas atitudes tomadas pela Lava Jato são, com frequência, execrados, chamados de coniventes com a corrupção. Muitos deles apenas vinham alertando para o risco de, em nome do necessário combate à roubalheira institucionalizada, ocorrer uma derrubada de princípios fundamentais, de garantias asseguradas pela Constituição. Não tem jeito: os atalhos que permitiram prisões e condenações passaram a valer para todo mundo, até para aqueles que tanto se empenharam na derrubada da Dilma.


'Bandeira negra' - nova resenha alemã

separador Por Fernando Molica em 10 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

A revista 'Brasilien-Nachrichten', fundada em 1976 na Alemanha, publicou esta resenha sobre o 'Bandeira negra, amor', lançado por lá pela Editions Diá. O texto é assinado por
Anne Reyers e foi traduzido com a ajuda do Google.

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Três adolescentes são encontrados mortos, eram suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas, todos moravam numa favela. O caso deveria ser investigado? Seria um evento de rotina se não fosse Fred, um advogado negro e ativista de direitos humanos. Ele sua namorada, a policial branca Beatriz buscam impedir que isso aconteça e tentam quebrar o muro de silêncio, corrupção e racismo. A trama inclui um pedaço de pano tratado como relíquia por Fred e . que teria pertencido a Arthur Friedenreich, o primeiro craque negro do futebol brasileiro. Como funcionaria esse conjunto?

Como em 'Notícias do Mirandão', Molica trata do Rio e da corrupção. O texto é às vezes eufórico em relação a mudanças, mas tem também um caráter niilista, que duvida de quaisquer alterações. Neste ponto, 'Bandeira negra, amor' é como o livro 'Cidade do jogo'. Para citar um comentário do jornal 'Correio Braziliense': "Poucas vezes a questão racial no Brasil tem sido trata com tanta propriedade como no romance 'Bandeira negra, amor'". Não há nada a ser acrescentado.


BG
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