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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Viramos alvo

separador Por Fernando Molica em 08 de maio de 2019 | Link | Comentários (0)

O decreto sobre armas é ainda pior que o divulgado. Agora, integrantes de várias categorias profissionais terão porte de armas, inclusive políticos eleitos (em tese, todos honestos, equilibrados, incapazes de fazer mal a qualquer pessoa) e jornalistas que trabalham em coberturas policiais.

Com uma canetada, Bolsonaro transformou repórteres em alvo dos bandidos - os caras vão passar a achar que todos nós estamos armados e, que portanto, podemos atirar contra eles, é bem mais provável que eles disparem na nossa direção. Assaltantes terão mais um motivo para abordar caminhoneiros: além de carga a ser roubada, eles, em tese, terão armas que poderão ser arrecadadas.

Se andar armado fosse garantia de manutenção de integridade física, tantos policiais não seriam mortos no país. Mais uma vez, o governo transfere para a sociedade a responsabilidade de cuidar da segurança, um dever do Estado.


Colecionadores

separador Por Fernando Molica em 08 de maio de 2019 | Link | Comentários (0)

Sempre achei esquisito esse negócio de colecionador de armas. Como assim, ter em casa uma quantidade imensa de objetos que podem matar, que têm posse e uso restritos ou proibidos para os demais cidadãos? OK, tem gente que tesão em colecionar selos, outros preferem camisas de times, garrafas de coca-cola, latas de cerveja, autógrafos de famosos, calcinhas, cuecas. Mas são todos objetos inofensivos, que apenas dão prazer, preenchem alguma carência. É difícil colocar armas no mesmo pacote.

Por esta lógica, brasileiros também deveriam ser autorizados a colecionar outros produtos proibidos/restritos, como drogas ilegais, urânio enriquecido, sei lá. No mínimo, tais armas colecionáveis deveriam passar por um processo que as tornasse inofensivas - serviriam apenas para coleção.

Além do mais, a concentração dessas armas em um só lugar é uma tentação para bandidos - os caras roubam armas de empresas de segurança, até de instalações policiais e militares. Agora, com o decreto presidencial, os tais colecionadores poderão também transportar suas armas municiadas, algo que não tem a menor lógica e representa um risco para todo mundo


Bolsolavismo

separador Por Fernando Molica em 08 de maio de 2019 | Link | Comentários (0)

Os sucessivos chutes nas canelas dos generais e a tolerância presidencial revelam a essência do governo, um projeto que pode ser chamado de bolsolavismo.


O risco de venezualização

separador Por Fernando Molica em 30 de abril de 2019 | Link | Comentários (0)

Durante a campanha eleitoral falou-se muito em risco de venezualização do Brasil. Isto, numa óbvia referência à possibilidade de um novo governo de esquerda (de centro-esquerda, né?). Depois de passar uma semana em Caracas (muito pouco tempo, é evidente), arrisco dizer que a possibilidade de replicarmos a Venezuela existe, mas por conta da radicalização do processo político.

O que levou a Venezuela a esta crise não foi apenas a briga do chavismo com as forças conservadoras, mas, principalmente, a incapacidade de conversa e de convivência das diferentes visões. O chavismo faz parte do processo de radicalização, mas seria injusto não reconhecer que este movimento foi gerado pela intolerância de seus adversários. O chavismo golpeou, mas também foi vítima de golpes.

A injustiça, a violência política, o militarismo e a concentração de renda que marcam a sociedade venezuelana foram os fatores que permitiram a ascensão de Chávez. A radicalização que marcou seu governo é também fruto dessa histórica incapacidade de tolerância. O que há na Venezuela é uma ruptura do processo institucional gerado pela inviabilidade de convivência democrática, do respeito ao outro.

Brasileiros têm todo o direito de detestar o PT, assim como outros brasileiros têm o direito de defender os governos petistas. A questão fundamental é, porém, reconhecer a possibilidade e, mesmo, a necessidade da divergência. As manifestações de 2013/14, o impeachment, a prisão de Lula, o atentado a Bolsonaro, as incertezas geradas pelo Judiciário e as eleições radicalizaram todo o processo.

Empossado, o novo presidente brasileiro não fez qualquer esforço para esfriar os ânimos: ao contrário, joga o tempo todo no Fla-Flu, na demonização de quem se opõe a ele. É absurdo que um ministro da Educação decida cortar verbas de universidades acusadas de promover "balbúrdia" - um tipo de retaliação inconcebível na lógica republicana. E este é apenas o último exemplo de intolerância praticado pelo governo.

O risco de uma venezualização não tem a ver com o resultado eleitoral, mas com a proliferação de práticas não democráticas, com o crescimento da incapacidade de convivência, com a prática de tratar adversário como inimigo. É preciso baixar a bola, reconhecer que todos os brasileiros são livres para ter suas posições políticas e que todas são legítimas, desde que respeitem a existência do contraditório e da diversidade. Um presidente não é dono de um país, governa para aliados e adversários, todos somos cidadãos, todos pagamos impostos. E todos vamos nos ferrar se isso aqui virar Venezuela.


Venezuela: fome e revolta

separador Por Fernando Molica em 30 de abril de 2019 | Link | Comentários (0)

Sobre a situação na Venezuela, vale ouvir o que disse Lula na entrevista da semana passada - e ele não pode ser chamado de anti-chavista::

"Eu não esqueço o dia que eu fui na Venezuela visitar a base do Fuso, e o Hugo Chávez me contando, todo entusiasmado, engenheiro soviético montando lá... e eu tinha saído do hotel, que não tinha leite nem ovo. Eu falei "Chávez, você não sabe que a segurança alimentar é a arma mais importante para um país? Aí você gastou não sei quantos bilhões nisso aqui...E é capaz de ter uma guerra e você e os soldados não terem força...não tinha leite nem ovo no hotel, Chávez...".

Em janeiro, estive em Caracas por uma semana. Seis anos depois da morte do Chávez, a situação era muito pior. Fui em áreas pobres da cidade, em favelas. Em todos os lugares, mesmo em redutos chavistas, ouvi a mesma queixa: "Tenho fome." Não há ideologia que resista a algo tão básico. A oposição, antes concentrada nos ricos e nas classes médicas, ganhou força entre os mais pobres. A gasolina, na prática, é de graça, mas o trânsito havia melhorado, muitos carros não circulavam por falta de peças de reposição. Era difícil trocar dólares por moeda local, não havia sequer papel moeda suficiente, os bancos limitavam os saques, todo mundo só usava cartão. Um simples almoço tinha que ser pago com bolos de notas. O país parecia derreter.

Em seu governo, Chávez enfrentou o conservadorismo venezuelano, melhorou a qualidade de vida dos mais pobres, mas, ao mesmo tempo, aumentou a dependência do país em relação ao petróleo, brigou com todo mundo (e todo mundo brigou com ele) e embicou numa lógica autoritária e militarista - militares, da ativa, controlam toda a economia, até mesmo a distribuição de alimentos (há o general que cuida do arroz, outro responsável pela carne, um terceiro que trata de papel higiênico - tudo isso é oficial). Além disso, criou guardas e milícias, armou muita gente para controlar a oposição (de larga tradição golpista, é bom ressaltar).

No Brasil, muita gente da esquerda acusa o PT de ter conciliado demais com a elite e com os muitos PMDBs. Na Venezuela, Chávez se isolou e foi isolado. Depois de sua morte, a situação degringolou de vez, Maduro não tem o talento do antecessor, sua capacidade de articulação e de mobilização. Diante da crise, o atual presidente optou pelo enfrentamento, pelo rompimento com práticas democráticas, pelas prisões arbitrárias e pela tortura. Seria difícil não haver uma revolta - e, insisto, as pessoas estão com fome.

Adendo provocado pelo pertinente comentário do Flávio Izhaki: não dá pra dizer que o caminho de conciliação adotado pelo PT era o único possível, até por conta dos acordos espúrios que a prática envolveu. E, no fim das contas, o PT acabou derrubado. Nada é simples: não é possível resumir a história e dizer que Chávez errou e que Lula acertou. A questão é bem mais complexa, e envolve tradições políticas e culturais dos dois países. Os caras lá têm um histórico de conflitos bem mais pesado que o nosso. Fica também um medo - além do conflito esquerda/direita, há a demonstração clara dos riscos de um processo de radicalização. O processo de intolerância adotado no Brasil nos últimos anos, e radicalizado nos últimos meses, é muito preocupante.


Países não têm ideologia

separador Por Fernando Molica em 08 de março de 2019 | Link | Comentários (0)

Na sua fala de ontem, Bolsonaro falou em cumprimento "da missão" ao lado de pessoas de bem, que amam a pátria, respeitam a família, "que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa". Apenas países totalitários têm ideologia, de esquerda ou de direita - mesmo assim é algo, a história prova, temporário.

Países do leste europeu estiveram socialistas, parecia algo eterno, a história mostrou que não. Ditaduras de direita também foram pro saco. Sociedades democráticas têm compromisso com a possibilidade de escolher governos de diferentes visões ideológicas, numa eleição votam mais à esquerda; em outra, mais à direita - é o que tem acontecido por aqui. E é bom que seja assim.

Achar que o Brasil têm uma ideologia - não por acaso, a mesma do atual presidente - é uma forma de desconsiderar a diversidade que caracteriza o país, de diferenciar a população, de dizer que um cidadão é melhor do que o outro por conta de suas afinidades político-partidárias.

Não, todos, de esquerda ou de direita - e mesmo os que não são vinculados a qualquer visão ideológica, talvez a maioria da população - temos o mesmo direito, todos pagamos impostos, todos temos o direito de influenciarmos na escolha dos rumos que serão adotados pelos governos. Governos que, por um determinado período, representarão um jeito de enxergar o mundo.


Vento sopra, terreiro treme

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2019 | Link | Comentários (0)

Sei não (quem sabe é o Luiz Antonio Simas, só dou palpite), mas desde que ouvi os sambas do Salgueiro e da Portela achei que as águas de março iam desabar no desfile. Uma escola fala de Xangô, orixá dos raios e trovões; a outra, de Yansã/Oyá, que manda nos ventos e nas tempestades.

O samba da Portela chega a pedir: "Eparrei Oyá, Eparrei/ Sopra o vento, me faz sonhar". Já o do Salgueiro (que também cita Oyá), tem um verso fortíssimo, que remete à Justiça de Xangô: "Machado desce e o terreiro treme". Tá tudo tremendo, sinal de que tem muita injustiça no nosso terreiro.


Alfredinho morreu de Brasil

separador Por Fernando Molica em 02 de março de 2019 | Link | Comentários (0)

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Lá no Bip, há pouco, nos perguntávamos sobre causa da morte do Alfredinho. Falávamos de tireoide, disso, daquilo - e, mesmo, do conjunto da obra. Arrisco dizer que ele morreu por não aguentar mais a dureza do país. Morreu por não suportar tanta estupidez, tanto ódio, tanta negação da vida. Alfredinho ressaltava os projetos sociais do Bip, pedia dinheiro para ajudar famílias muito pobres - no banheiro do bar há cartazes, em português e em inglês, que pedem colaboração "pra caixinha".

Em dezembro, ele demonstrava preocupação com a dificuldade de arrumar um local para fazer comida para a população de rua, brasileiros que, no dia 24, ficavam sem comer: "Os restaurantes fecham na noite de Natal", frisou naquele seu grito que ficava meio preso na garganta, voz que teimava em não sair direito. Ele alertava que, na noite da ceia natalina, não haveria sobras para alimentar tanta gente. Eu nunca havia pensado que a véspera de Natal seria terrível para os que não têm casa, para os que não têm o que comer. Alfredinho nos lembrava que havia muita gente que dependia de sobras.

Ele morreu hoje, sábado de Carnaval. Morreu - insisto - porque, apesar de tantas broncas, de tantos esporros, era doce demais. O Brasil ficou amargo, duro, insensível. O país ficou de um jeito que os mais sensíveis não conseguem aguentar. Alfredinho morreu de Brasil.


Dei meu sangue pelo Imprensa

separador Por Fernando Molica em 02 de março de 2019 | Link | Comentários (0)

Carnavais. Já dei meu sangue pelo Imprensa Que Eu Gamo. Há muitos anos, quando o Aziz Filho ainda tinha cabelos brancos, eu o Alexandre Medeiros fomos acompanhar a saída do bloco. Estávamos meio tristes, havíamos perdido a disputa do samba para a parceria do Marceu Vieira, mas não queríamos deixar o amigo triste. Logo na saída, o Marceu nos viu, e nos chamou para subirmos no carro de som. Resistimos, queríamos ficar no chão. Mas ele insistiu, insistiu. Subimos.

Do nosso jeito, ajudamos a puxar o samba: "Deu no New York Times/ Que a Garota de Ipanema é fofa". E ficamos lá, bebendo e cantando, seguindo o sambão. Já no fim do desfile, ali perto da casa de saúde, o mané aqui resolveu fazer graça - e fui puxar o samba na parte traseira do carro. Fui, e, bêbado-samba, caí naquele buraco onde fica a escada que dá acesso à parte superior do trio elétrico. Desabei, mas abri os cotovelos, me apoiei no piso do carro, não rolei escada abaixo - e não deixei cair o microfone!

Só que, na queda, bati com a canela esquerda nas bordas do tal acesso, o que causou um pequeno corte. Terminado o desfile eu estava ali, sangrando. Fomos ao Lamas jantar. No caminho, o Alexandre comprou uma caixa de band-aids - os curativos vinham decorados com os Smurfs. Como continuava a sangrar, do Lamas fui pro Hospital Samaritano, onde tomei pontos na perna. Semanas depois, por conta de um pirapaque qualquer, voltei ao hospital - e fui reconhecido por um médico: "Vocë que esteve outro dia aqui, né? Bêbado e com camisa de bloco...".


Eu, puxador de samba do Monobloco

separador Por Fernando Molica em 02 de março de 2019 | Link | Comentários (0)

Carnavais. Há mais de dez anos, ainda na Globo, fui cobrir um desfile do Monobloco na Avenida Atläntica. No alto do carro de som, entrevistei quem precisava entrevistar, o cinegrafista passou a fazer imagens adicionais. O bloco começou a tocar 'Contos de areia', lindo samba da Portela. Animado, vestido com a camisa Globeleza, comecei a acompanhar a letra, fiquei lá cantarolando e - do meu jeito, pra lá de desajeitado - sambando. Eis que alguém nota minha animação e trata de me entregar um microfone. Não refuguei, e entrei no coro dos puxadores: "Paulo Benjamim de Oliveira/ Fez esse mundo crescer/ Okê, okê, Oxóssi/ Faz nossa gente sambar". Durou pouco, não cheguei a atrapalhar a cantoria. Mas foi divertido.


No futebol, a compra e venda de meninos

separador Por Fernando Molica em 17 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Matéria do Globo de hoje sobre meninos que sonham em jogar futebol fala de um garoto de 11 anos que, há dois anos veio de Palmas (TO) para treinar no Fluminense - está agora no Vasco. Ele tem um empresário, que banca a estada de sua família no Rio. Ou seja, desde os nove anos que ele tem um empresário, o dono de sua vida profissional. Construído com base na escravidão, o Brasil mantém a tradição de compra e venda de gente. No caso, de compra e venda de crianças, algo que só prospera por conta da miséria, da dificuldade que famílias pobres têm de ascender pelos mecanismos que deveriam ser acessíveis a todos
.
Nada contra um garoto bom de bola querer ser jogador de futebol (todos já sonhamos com isso), mas não dá para jogar tanta responsabilidade nas contas de uma criança, submetê-la a uma lógica de treinamento pesada, não dá para que ela seja obrigada a ser adulta tão cedo.- esse menino sabe que o futuro de sua família depende dele. E, principalmente, não dá para que crianças e adolescentes tenham suas vidas presas a contratos que sequer poderiam ter sido assinados com menores de 16 anos.


A perversão e o prazer de matar

separador Por Fernando Molica em 15 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

As imagens que mostram o assassinato do jovem Pedro Gonzaga por Davi Ricardo Moreira Amâncio, segurança do supermercado Extra, revelam o absurdo grau de perversidade em que vivemos. Já seria imperdoável se o assassino "por escusável medo, surpresa ou violenta emoção" (reproduzo as palavras usadas em projeto apresentado pelo governo federal) tivesse matado o rapaz com um tiro, ou com um soco. Mas não, ele comete o homicídio de forma lenta, pensada, brutal, mesmo estando diante de dezenas de pessoas. Parece ter prazer ao se deitar sobre o corpo de sua vítima enquanto aperta seu pescoço. Atua de maneira tão natural que, enquanto mata, chega a discutir com uma mulher que tenta impedir o crime.

Seus colegas de trabalho, seguranças como ele, nada fazem para evitar o crime - um deles, chega a tentar impedir a filmagem da cena. O comportamento dos outros seguranças mostra que perversidade não é apenas do assassino, está generalizada entre nós. Poucas vezes vi alto tão absurdo, tão correspondente à hoje clássica expressão banalidade do mal cunhada por Hannah Arendt. O cara mata porque se acha no dever - mais do que no direito - de matar. Mata, mata, mata é o que ouve todos os dias, é o grito que vem das ruas e dos palácios. Tem que matar, tem que matar, é o que ele repete, é o que ele faz.

Ele está do lado da maioria, dos que gritam, dos que aplaudem chacinas, do lado daqueles que, no lugar de fazer cumprir a lei, registraram seu crime como algo menor, culposo, não intencional. É possível que sequer fosse indiciado se não houvesse imagens de seu crime. Afinal, a vítima era mais uma daquelas que, por sua cor e por sua classe social, precisam provar o tempo todo que são inocentes - muitas vezes, são mortas antes disso. Pouco depois do homicídio já havia a versão, contestada pelas imagens de câmera do supermercado, de que o rapaz teria tentado roubar a arma do segurança (como se isso justificasse seu assassinato). Estamos nos transformando numa sociedade de assassinos, num país que mata por perversão, que tem prazer em matar.Todos que gritam pela morte são cúmplices daquele segurança.

Obs: o site do Globo publicou na noite desta sexta a que Pedro Gonzaga, o jovem morto, morava na Barra, era de uma família de classe média e sofria com a dependência química. Isto apenas reforça que nenhum de nós está livre também da violência praticada por agentes de segurança, públicos ou privados. O grito de morte atrai mais mortes, é óbvio.


O bloco do seu Jair

separador Por Fernando Molica em 14 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Os mandatos de Jair Bolsonaro na Câmara foram marcados pelo isolamento. Até para conseguir se destacar em meio ao anonimato do baixo clero, ele tratou de vestir apenas a camisa do próprio bloco, o do Eu Sozinho. Desfilava opiniões que, pelo inusitado, provocavam horror em muitos eleitores e gozo em tantos outros, não buscava alianças, não participava de articulações. Ficou na confortável posição de radical que, sem amarras, podia apontar o dedo para qualquer um. Um sambista de raiz. Com isso, cultivou a imagem de independência e de honestidade - não se metia em tramoias, não fazia o velho do jogo do toma lá-dá cá, ficou à margem dos bicheiros e patronos que costumam mandar em nossos carnavais.

O figurino lhe foi essencial para, na campanha, apresentar-se como o candidato "contra tudo o que está aí". Presidente, ele parece não ter abandonado a marca de folião solitário. Seu bloco ganhou filhos-puxadores de samba, alguns ritmistas de confiança, dois esforçados diretores de harmonia (Guedes e Moro) e diversos foliões que desfilam apenas para chamar a atenção para seus egos e fantasias ("Olha ali aquela de Menina-Rosa", "E aquele de Caçador de Comunistas", "Que original o folião vestido de Eu lavo meu carvalho"). Há também os seguranças, aqueles fortões de patentes altas e bigodes grossos que sustentam as cordas e tentam manter tudo nos conformes - caras que já demonstram um certo cansaço pela trabalheira.

Mas o bloco gira em torno do presidente, que manda e desmanda: reclama da bateria, diante de um escorregão, manda o mestre-sala voltar para suas origens. Levado para o alto do carro de som por dezenas de milhões de votos, Bolsonaro continua a agir isolado, como nos tempos de parlamentar. O problema é que, agora, não dá pra fazer tudo sozinho, ele precisa do apoio dos demais componentes - todos têm direito a voto nas assembleias do bloco, eles é que vão decidir o rumo do cortejo; no limite podem até interromper o desfile, como fizeram com Collor e Dilma. Jair fala grosso, não vacila ao expulsar parceiros de folia, mas corre o risco de mandar todo mundo pra casa e acabar isolado, sem samba e sem enredo, tendo sobre os ombros apenas as cinzas da quarta-feira.


Mortes que causam mortes

separador Por Fernando Molica em 11 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Comemorada por muita gente, a execução de bandidos como a que provavelmente ocorreu semana passada em Santa Teresa, no Rio, serve apenas de mais combustível para a violência. Ano passado, entrevistei o comandante da PM de Brusque, Santa Catarina, a cidade com menor índice de homicídios do país. Entre outros pontos, ele frisou: 1. polícia violenta não é uma boa polícia; 2. o bandido precisa ter a chance de se render e de ter esta rendição respeitada. Ele explicou que quando bandidos percebem que não têm chance de rendição, eles atiram mais, lutam mais. A lógica é simples: já que vou morrer mesmo, tento levar um (um policial) comigo. Quem aplaude policiais que executam bandidos apoia a barbárie e estimula novos confrontos, novas mortes - não apenas de bandidos, mas também de policiais e de pessoas inocentes.


A profissão de todos nós

separador Por Fernando Molica em 08 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Eu e quase todos os meninos que conheço queríamos ser jogadores de futebol. Podemos gostar muito de nossos ofícios, mas sabemos que, limitados, exercermos uma segunda opção profissional. O que desejávamos mesmo era jogar bola, vestir a camisa de nossos times, fazer gol no Maracanã, erguer taças, dar voltas olímpicas, correr para os abraços, mandar beijo pra menina bonita da escola que estaria nos vendo na TV ou na arquibancada. Os meninos que morreram hoje estavam quase realizando também o nosso sonho. O sonho de viver para jogar bola, nosso primeiro e inesquecível brinquedo, o único que nos acompanha por toda a vida.


Um tatu e sua carapaça

separador Por Fernando Molica em 13 de janeiro de 2019 | Link | Comentários (0)

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Embalado por uma caprichosa edição da Nós, Tatu, romance de estreia da francesa Paula Anacaona, é um divertido - e por vezes angustiante - passeio pelas relações de classe no Brasil, revela um olhar estrangeiro sobre as tensões que marcam o racismo entre nós. Uma visão original - a protagonista, Victoria, é filha de pai negro e mãe branca. E é rica, muito rica, e muito poderosa, preside uma grande empresa que tem sede em São Paulo.

As características da personagem - estrangeira, negra e milionária - permitem que ela tenha uma visão original do nosso cotidiano. Mais: fazem com que viva num permanente desconforto por não saber onde se encaixar numa sociedade desacostumada a conviver com pessoas assim. Nem ela sabe bem como administrar as próprias contradições.

No início do livro, Victoria se depara com o próprio preconceito - estranha quando um negro que usa dreadlocks a chama de "sister", Como assim? "(,,,) não tenho nada em comum com esse rasta, fora a cor da pele, ainda que minha seja mais clara (...)." Ao longo do romance, narrado em primeira pessoa, descobre que sim, tinha muito em comum com o Negro (citado assim, com maiúscula).

Ela percebe que precisava criar o próprio papel, redefinir seus relacionamentos com a própria cor, com outros negros, com o Brasil, com a França, com os pais, com os ex-maridos, Irônica, não abre mão de definições cruéis para personagens que cruzam seu caminho, não poupa nem mesmo aqueles que a recebem num sarau literário promovido na periferia paulistana. Não nega seu lugar de observação, ainda que o saiba limitado. Tão restrito que, para facilitar a busca de si, resolve criar personagens, mulheres que representam diferentes possibilidades para sua vida.

O tatu do título é uma referência à comparação feita por aquele que viria a ocupar o posto de Segundo-Marido: "Você me lembra um tatu. Com sua carapaça, sua armadura de escamas, sua maneia de se enrolar sobre si mesma para se tornar uma bola compacta, impossível de abrir, de incomodar, de penetrar...". O livro narra a tentativa de Victoria-Tatu de buscar uma uma saída, de não ficar apenas rolando por aí num território cheio de armadilhas.


'Noir & Blanc'

separador Por Fernando Molica em 04 de janeiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Saiu a capa da edição francesa do meu 'Bandeira negra, amor'. O romance - que recebeu por lá o título 'Noir & Blanc' - será lançado em março pela editora Anacaona.

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Fotos de uma exposição

separador Por Fernando Molica em 04 de janeiro de 2019 | Link | Comentários (0)

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As três fotos, todas do Walter Firmo, estão agrupadas numa mesma parede. Numa, uma baiana desce o Morro da Mangueira; na outra, crianças brincam de mestre-sala e porta-bandeira (a menina usa uma vassoura como mastro); a terceira é tomada pelo no sangue que jorrara da mão do ritmista e que colore o surdo.

As imagens, que integram a exposição O Rio do Samba - resistência e reinvenção, são líricas, belas, emocionantes. Resumem e expandem os saberes, paixões e valores que formam o universo da cultura brasileira. Nelas nos reconhecemos, nos encontramos. Em tempos tão difíceis e cruéis, as fotos nos reconciliam com a nossa história e apontam para um futuro que só será bom se souber respeitar o seu passado, o nosso passado.

Não brinquei de mestre-sala, não desci morro fantasiado, não sei sambar ou batucar. Mas, ao longo da vida, soube aplaudir e me emocionar com quem fez isso por mim - pessoas que, de certa forma, fizeram tudo isso tudo comigo, do meu lado. As imagens tratam de alegria, de reverência, de entrega e de fé - sim, fé além da religiosa, fé em deuses que cantam, dançam e que se incorporam no cotidiano de todos que brincam, trabalham e sonham com um mundo melhor.

A exposição, lotada de imagens e de outras peças igualmente impactantes, fica no Museu de Arte do Rio até o fim de março. É imperdível, essencial. É de deixar a gente tonto, de encher nossos olhos de beleza e de lágrimas.


Ninguém está livre da tortura

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

Pessoas que defendem ou justificam a tortura não se dão conta de um dado fundamental, ninguém está livre do arbítrio. Por exemplo: numa ditadura, um jovem oficial que fizesse planos para explodir bombas em quartéis dificilmente escaparia de sessões de tortura. Seus algozes fariam de tudo para que ele revelasse nomes de outros envolvidos com a trama. Isto ocorreria mesmo se o explosivo protesto fosse apenas uma manifestação favorável a um aumento de salários.

Numa ditadura, comerciantes ficam mais expostos à arbitrariedade de fiscais, taxistas não têm como se defender de excessos de PMs. Numa ditadura, o netinho de uma boa e tradicional família corre o risco de tomar muita pancada se for descoberto com um pouco de maconha. O filme 'O jardim dos Finzi-Contini', de Vittorio De Sica, mostra como uma família de judeus italianos achava que, por ser rica, nunca seria atingida pelo antissemitismo - claro que foi.

Inspirado em fatos ocorridos com seus antepassados, o amigo Rafael Cardoso descreve, em seu ótimo romance 'O remanescente' como banqueiros judeus alemães acabam vítimas do nazismo. A história da União Soviética também mostra como amigos do regime passaram a ser tratados como inimigos. Ninguém está seguro numa ditadura, nem mesmo aqueles que apoiam e comemoram sua implantação (por aqui, Carlos Lacerda e JK foram presos e tiveram seus direitos políticos cassados).


Policiais nas universidades

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

Entrei na UFRJ em março de 1979 (faz tempo, eu sei), nos últimos dias do governo Geisel. Logo de cara, uns caras apareceram na sala de aula convocando para uma manifestação contra a posse do general Figueiredo, que viria a ser o último presidente do ciclo ditatorial. Fiquei meio assustado, naquele tempo, manifestações ainda eram alvo de ataques da polícia. Não fui ao ato; depois, compareci a muitos outros.

A agitação política na ECO, Escola de Comunicação, na Praia Vermelha, era intensa, havia muita movimentação de tendências de esquerda. Eu tinha acabado de sair do comportado Colégio Metropolitano, no Méier, não sabia como me movimentar naquele emaranhado de siglas meio que sussurradas - PCB, PCdoB, AP, MEP, MR-8.Segredos bestas, numa faculdade pequena como a ECO, todo mundo sabia quem era quem.

Não cheguei a me envolver com aquelas organizações, por medo e por falta de convicção; continuei a cuidar de cineclubes. Mas conheci muita gente legal, interessante, inteligente, pessoas que sonhavam com um país melhor, mais justo, que, caramba, falavam até em revolução (o pessoal do PCB era muito sacaneado, chamado de reformista, por sua insistência numa transição pacífica para a democracia).

Era um negócio meio maluco, sem sentido, era óbvio que não haveria revolução alguma, o país seguiria um outro caminho no processo de redemocratização, e assim foi feito. Por que razão estou falando disso? Porque, apesar de toda a movimentação, de todos os panfletos, de todas as faixas contra a ditadura, apesar de todas aquelas teses revolucionárias mimeografadas, chatas pra cacete, que circulavam de mão em mão, nunca vi um policial dentro da minha universidade.

Desconfiávamos de espiões, de agentes infiltrados - claro que havia -, mas, insisto, nunca vi um policial por lá. Participei de debates, de reuniões com candidatos deste ou daquele partido, distribuí e recebi panfletos, mas nunca vi um policial naquele campus, que - soube depois - fora invadido pela PM anos antes, em 1968. Já passa das duas da manhã, acabei de chegar do trabalho. E estou assustado com as notícias que tratam de casos de repressão em universidades. É terrível saber que, por ordem judicial, estudantes estão sendo impedidos de exibir faixas (que sequer mencionam candidaturas) e de participar de debates. Universidades são locais de discussão, de troca, de busca de conhecimento. O que está acontecendo é muito grave, representa uma ameaça a cada um de nós. A Justiça tem que estar do lado da liberdade.


BG
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