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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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O nosso Paralamas

separador Por Fernando Molica em 18 de abril de 2021 | Link | Comentários (0)

Eu uso óculos (7,5 de miopia), as meninas do Méier pouco olhavam pra mim (as do Leblon sequer sabiam da minha existência). Esses dois requisitos talvez tenham sido decisivos para este não roqueiro se identificar com os Paralamas do Sucesso.

Também ajudou o fato de Herbert, Bi e Barone nunca terem apelado para as caras de mau tão características de grupos de rock. Meu gosto musical regado pelo movimento então conhecido como MPB - o samba foi chegando aos pouquinhos - não entendia bem o porquê de tantas caras fechadas nas capas dos LPs adorados por tantos amigos.

Enfim, os três pareciam ser gente boa, daqueles caras que ficam horas conversando sobre alguma besteira qualquer, que jogam bola, que não se preocupam em exalar marra e revolta.

Pareciam felizes em fazer músicas descomplicadas, em exaltar um colega e sua moto, em tratar com leveza algumas dores de amores, os nossos tantos erros, a inútil busca de um romance ideal.

Eles faziam um rock mais leve, chegado ao reggae, com uma ou outra balada tão ao gosto do garoto que, como eu, tinha sido criado ouvindo Roberto Carlos e tantos cantores populares que chegavam aos rádios de Piedade. No fundo, os três - nós quatro - somos muito românticos.

Também gostava, e gosto, do Barão Vermelho, das canções mais duras, que ressaltavam a poesia cortante de Cazuza. Mas, sei lá, nunca me vi amigo do Cazuza, talvez ele fosse zona sul demais, enturmado demais com um povo que não daria muita bola para um suburbano como eu - os Paralamas eram, principalmente, de Brasília, subúrbio da vida cultural brasileira.

Tudo isso é pra dizer que ontem, depois do plantão, vibrei muito com 'Os quatro Paralamas', dirigido por Roberto Berliner (querido colega de faculdade) e Paschoal Samora. O quarto Paralama é José Fortes, desde sempre empresário do grupo.

O filme não é uma análise da obra dos Paralamas. É mais uma bem montada coletânea de histórias e de registros de muitos shows, registrados, anos a fio, por Berliner, o Robertinho da ECO/UFRJ. Quase como uma versão ampliada e em movimento de fotos antigas que, no documentário, são exibidas por integrantes do grupo.

Fotos antigas, muitas delas grudadas umas nas outras, danificadas - cicatrizes que, como as imagens defeituosas de antigas fitas VHS, valorizam cada pedaço de história. São histórias de três garotos meio desajeitados que conseguiram fazer muito sucesso, que embalaram amores e separações (o CD 'Victoria', trabalho solo do Herbert já colocou muito band aid nos meus cotovelos e coração). História marcada pelo acidente que matou a mulher de Herbert e o deixou paraplégico.

Apesar da tragédia, os Paralamas não acabaram, não deixaram de tocar, de compor, de fazer shows. Herbert continua a gravar, a tocar, a cantar. Que bom - não deixa de ser alguma esperança num momento de tanta tristeza. Envelhecemos, apanhamos, mas insistimos na juventude.


Não ao bye bye life

separador Por Fernando Molica em 13 de abril de 2021 | Link | Comentários (0)

Lá se vão muitos anos quando vi 'All that jazz', filme, meio autobiográfico, em que o diretor e coreógrafo Bob Fosse trata de angústias e delírios diante da perspectiva da morte.
Não lembro de detalhes, mas sei que gostei muito do musical, da tensão meio trágica, meio divertida, daquela dança com a morte embalada por uma espécie de avaliação da vida errática do protagonista - um das canções era 'Bye bye life', melodia alegre recheada de versos como 'I think I'm gonna die´.

Escrevo este texto sob o impacto da morte do querido amigo Aloy Jupiara, de 56 anos, outra vítima da Covid-19. A interminável contagem de mortes - estamos a caminho das 400 mil - parece ter gerado um efeito anestésico, uma quase sensação de inevitabilidade, um bye, bye life que se reflete em atitudes irresponsáveis, por parte de governos e de muitos setores da população.

Como se, diante de um destino que parece se impor, tenhamos desligado a tecla que nos alerta para a tragédia. E, aí, a saída acabe sendo fazer festa, negar as formas de transmissão, manter comércio e bares abertos - é como se chamássemos a morte para a nossa mesa, brindássemos com ela, a levássemos às compras.

Como se não houvesse outros caminhos, outras possibilidades. Como se o Estado brasileiro não fosse capaz de, a exemplo de tantos e tantos países, encontrar maneiras de garantir sustento para trabalhadores e pequenos empresários que se sentem obrigados a sair de casa para arriscar suas vidas.

Precisamos acordar, sair deste pacto com a morte. A história é cheia de exemplos de populações que aceitaram a tragédia, que compactuaram com a própria morte. Temos que parar essa dança macabra, não podemos normalizar a ideia de morrermos todos no fim do filme.


Aldir e o cor-de-rosa

separador Por Fernando Molica em 10 de maio de 2020 | Link | Comentários (0)

Quem mandou aceitar mediar, na Bienal do Livro, debate sobre uma coletânea chamada 'Meu querido canalha' e que teria a participação de, entre outros autores, Aldir Blanc? Eu aceitei.
Foi em 2004, 2005, por aí. Bienal não é como a Flip, tem um público mais amplo, muitas famílias, muitas crianças. E famílias e crianças lotavam o auditório do Riocentro. Na mesa havia outros autores, lembro do Geraldinho Carneiro.
Aldir chegou depois de algumas cervejas, meio tímido, sem jeito. Pra piorar, ao apagar um cigarro, abriu um buraco no forro plástico de um pufe que lhe servia de cadeira - o incidente fez com que ele ficasse ainda mais retraído.
O debate corria e ele, nada. Umas frases curtas, uns monossílabos. Até que, numa hora, ao perceber a plateia meio fria, ele deu uma empinada e, ao microfone, tratou de dar sua versão para o tema da conversa:
- Vocês querem, né? Canalha é o sujeito que, depois do amor, abraça a mulher amada pelas costas, deita-se em suas ancas nuas e decreta: 'Cu cor-de-rosa é sinal de bom coração'".
Do palco, vi mães tapando ouvidos de filhos, pais saindo apressados do auditório. Segurei o riso, fiz cara de estante e, tentando não perder o rebolado, continuei a conversa:
- É com você, Geraldinho.


A maioridade de 'Notícias do Mirandão'

separador Por Fernando Molica em 22 de março de 2020 | Link | Comentários (0)

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Neste mês de março, meu primeiro romance, 'Notícias do Mirandão' (Record), completa 18 anos. O livro foi bem acolhido, recebeu resenhas muito legais, no Brasil, na Alemanha e na França.

Depois dele vieram outros quatro romances, um livro-reportagem, um infantojuvenil e diversos contos espalhados em antologias/coletâneas.

Não é muito fácil conciliar o trabalho de ficcionista com o de jornalista. Trabalhamos com a escrita, com a tarefa de contar histórias, mas as coincidências não vão muito além disso. Partimos de premissas diferentes, seguimos caminhos até contraditórios.

O jornalismo, mesmo quando busca mudanças, parte de pressupostos institucionais, legais, tem um viés conservador - aqui, não no sentido político-ideológico, mas no de manutenção de valores básicos de uma sociedade, consagrados na legislação.

Por mais que registre diferentes versões, o jornalismo não escapa do certo-errado.A lei é sempre uma referência importante, ainda que essa lógica possa ser questionada/temperada pelos ventos que sopram da sociedade.

Muitas pautas que provocariam discussões e mudanças - direitos humanos, respeito a minorias, feminismo, casamento entre pessoas do mesmo sexo - foram levantadas pelos jornais.

A ficção não tem esse compromisso, trabalha com outra lógica. Como jornalista e cidadão, não tenho como não condenar um homem que joga a filha pela janela.
Como ficcionista, meu interesse seria, principalmente, entender o que faz um homem - um ser humano como qualquer um de nós - jogar a filha pela janela.

Não buscaria uma condenação ou uma absolvição, mas algo que permitisse entender a barbárie.

A dor da gente não sai no jornal, diz o samba de Luís Reis e Haroldo Barbosa, não por acaso citado no meu primeiro livro, romance que traz um jornalista como um dos protagonistas. Foi divertido usar a terceira pessoa ao tratar do sujeito - no momento de estrear na ficção foi bom deixar claro que estávamos em lados diferentes, eu, aqui; ele, lá.


Bolsonaro, construtor de nuvens carregadas

separador Por Fernando Molica em 22 de março de 2020 | Link | Comentários (0)

x-governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto costumava dizer que política era como nuvem: você olha e está de um jeito; olha de novo, e já mudou.

Nos últimos dias, as nuvens do céu de Jair Bolsonaro ficaram mais carregadas. Ao minimizar o coronavírus e ao desfiar orientações de seu próprio governo e participar de ato em Brasília, o presidente correu na direção do temporal, dos raios e das trovoadas.

Na ânsia de seguir os próprios instintos e certezas, ele cometeu o erro de chamar o vírus para a briga, de, como um colegial, desafiá-lo para um encontro nada amistoso na saída da escola. Saiu machucado da peleja, como revelaram várias pesquisas que medem a temperatura das redes sociais e atestam os panelaços que voltaram a fazer parte da trilha sonora das cidades.

Embriagado pelo sucesso da polarização que marca toda sua trajetória política, Bolsonaro não percebeu que, desta vez, estava arrumando problema com um inimigo poderoso, que já fez milhares de vítimas mundo afora. Esqueceu-se que seus eleitores também são contamináveis e que temem o novo coronavírus. Eleitores que queriam orientação.

O presidente tentou consertar o estrago. Mas as idas e vindas foram traduzidas visualmente na dificuldade que ele teve em colocar uma simples máscara no rosto. Bolsonaro pareceu assustado com a dimensão do problema que tentou negar e que, agora, desaba sobre sua cabeça.

Continua a passar a impressão de que não sabe bem o que fazer. Já deveria, por exemplo, ter convocado todos os governadores para uma conversa.

A tragédia abriu os céus para governadores, até mesmo os eleitos na onda bolsonarista e que passaram a ser vistos como inimigos pelo presidente assim que deixaram claros seus projetos presidenciais.

João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio, não vacilaram em tomar medidas duras. O governador fluminense deixou de lado performances como a de dar socos no ar para comemorar a morte de um bandido, economizou nas bravatas, não ameaçou dar tiro na cabeça do coronavírus.

Doria foi na mesma linha. Os dois engrossaram o coro contra o governo federal, não negaram os problemas e anunciaram medidas práticas e muito restritivas. Pode-se discutir se não há exagero em algumas decisões, mas não há como negar que os dois, como praticamente todos os outros governadores, tentam agir.

Um dos sábios da política mineira, Magalhaes Pinto se esqueceu, porém, de dizer que nuvens políticas não são movidas apenas pelas condições climáticas, sofrem interferência direta das ações de seus protagonistas.

Doria, Witzel e outros governadores trataram de afastar as nuvens; Bolsonaro insistiu em semear o vento e, agora, assusta-se com a colheita.

(Artigo para o site da CNN, publicado em 20/3/20)


Vírus contra-ataca e anula jogada de Bolsonaro

separador Por Fernando Molica em 22 de março de 2020 | Link | Comentários (0)

presidente Jair Bolsonaro bem que tentou aplicar no novo coronavírus a velha receita de negar a veracidade de notícias desagradáveis. Ele já culpou a Venezuela pelo derrame de óleo no Nordeste, criticou a metodologia do IBGE de cálculo do desemprego, rechaçou informações oficiais sobre queimadas na Amazônia, escalou Leonardo DiCaprio no elenco de incendiários, classificou de fake news notícias comprovadas e checadas.

Tratava, assim, de enfrentar fatos com versões - tirava a bola de sua área, a mandava pra longe e corria para o abraço de sua torcida virtual, ávida por consumir qualquer explicação que jogue o problema no colo dos inimigos de sempre, reais ou imaginários. A tática garantia ao presidente, no mínimo, o benefício da dúvida. Na ânsia de enquadrar a realidade, Bolsonaro desqualificou até mesmo as urnas eletrônicas que atestaram sua vitória - já tem na manga a justificativa para uma eventual derrota em 2022.

Diante de notícias do agravamento da crise econômica mundial, o presidente tentou matar o coronavírus no peito. Minimizou a disseminação da doença, falou em "fantasia" e arrematou com uma nova acusação à imprensa. Não contava com a resiliência do micro-organismo, que não dá a mínima para os arroubos bolsonaristas. Provocado, o vírus atuou como o VAR do futebol - e a jogada presidencial acabou anulada.

Dois dias depois da fala de Bolsonaro, a Organização Mundial da Saúde classificou a disseminação do vírus de pandemia; até este domingo havia sido confirmada a contaminação de cinco pessoas que viajaram com Bolsonaro para os Estados Unidos.

Para piorar, houve a suspeita de que autoridades norte-americanas, entre elas o presidente Donald Trump, poderiam ter sido contaminadas por integrantes da comitiva brasileira.

Dessa vez, a bola chutada por Bolsonaro foi parar nos jardins da Casa Branca e quase quebra a vidraça da sede do governo dos Estados Unidos. Derrotado por um inimigo microscópico, o presidente acabou admitindo o tamanho do problema, e sequer pôde culpar os inimigos de sempre. Os vírus não têm ideologia.

Políticos, de um modo geral, detestam admitir erros. Bolsonaro não foge à regra - é um especialista em negar verdades mais absolutas, mesmo que tenha que brigar com a história, a matemática, a biologia, com as ciências em geral. Mas não custa ter esperança de que o episódio do coronavírus seja capaz de provocar uma reflexão na cabeça do presidente. Afinal, não é bom brigar com os fatos.

A exemplo do vírus, o desemprego, o pibinho e o aumento do dólar e da pobreza não são fantasia ou fruto de uma conspiração de jornalistas. Ignorar tantos problemas não faz com que deixem de existir. É melhor encará-los do que achar que o jogo está ganho e, depois, tomar uma bola entre as pernas e levar um gol de contra-ataque.

(Artigo para o site da CNN, publicado em 13/03/20.)


Réveillon de Copa, começo do fim

separador Por Fernando Molica em 31 de dezembro de 2019 | Link | Comentários (0)

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A decisão da prefeitura - chancelada pelo STJ - de permitir a privatização de trechos da praia durante a festa da virada do ano tem o potencial de marcar o início do fim de uma das mais belas festas populares do Rio e do país.

Sim, uma festa popular, criada por umbandistas nos anos 1960 pelo pai-de-santo Tata Tancredo (soube de seu papel outro dia, numa aula pública do Luiz Antonio Simas). A
Apropriada e ampliada pelos empresários turísticos e pelo poder público, a festa perdeu religiosidade, e cresceu de maneira inimaginável.

É impressionante que tanta gente se reúna de maneira pacífica para comemorar uma quase abstração, o início de um ano. Festeja-se algo intocável, que só existe graças a uma divisão arbitrária do tempo. Um ritual que resgatou uma das grandes tradições do Rio, a da mistura de pessoas de diferentes origens, cores e bolsos.

A roupa branca e o pé na areia unificavam o público, escondiam as desigualdades. Sempre houve festas mais sofisticadas em apartamentos e hotéis, mas a confraternização mesmo era na praia, todo mundo junto e embriagado. Mais do que os fogos, mais do que o cenário, a participação popular é que deu liga e fama a um evento que acabou copiado no Brasil inteiro.

Pessoas quem moram longe, muito longe, atravessam o Rio, chegam de outras cidades, estados e países para acompanhar um evento que não se restringe à queima de fogos, algo que dura uns 15 minutos. As caravanas celebram a esperança, a ideia da renovação.

E, ao longo de décadas, isso vinha sendo feito de maneira democrática e pacífica (raros foram os incidentes registrados em Copacabana). Sim, nos últimos anos, quiosques e grupos de moradores trataram de cercar pedaços da praia - a apropriação do que é público é algo presente na vida brasileira, os sucessivos escândalos prova. Mas essa privatização era feita de maneira irregular, ilegal.

Ao legitimar o abuso, a prefeitura atacou a característica democrática da festa, legitimou e ampliou uma hierarquia no espaço público - há os com grana e os sem grana, os sem camarote e os com camarotes. A decisão também tem consequências na segurança, já que o ir e vir de mais de um milhão de pessoas ficou mais limitado por tantas cercas.

Esta foto, publicada hoje no Twitter pelo jornalista Victor Ferreira, mostra o tamanho do absurdo. Um abuso que pode marcar o fim do encanto da festa - é provável que, nos próximos anos, muita gente desista de ir a Copacabana, não dá pra começar um ciclo comemorando e ressaltando a própria exclusão


A Igreja e o Estado argentino

separador Por Fernando Molica em 26 de dezembro de 2019 | Link | Comentários (0)


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A necessária discussão sobre 'Dois papas' e o papel de Jorge Bergoglio (o atual papa) na ditadura deve levar em conta um ponto fundamental - a relação política e econômica entre o Estado argentino e a Igreja Católica.

O segundo artigo da Constituição argentina é claro ao dizer que "El Gobierno federal sostiene el culto católico apostólico romano". Este apoio é, inclusive, financeiro, e foi aprofundado ao longo da ditadura..

Em 1982, a lei 21.540 estabeleceu o pagamento, pelo Estado, de aposentadorias para bispos e arcebispos. Já a lei 22.950,de 1983, estabelece que o governo nacional contribuirá - dará dinheiro - para a formação do clero diocesano (padres formados em seminários das próprias dioceses, sem relação com ordens religiosas).

O artigo segundo amplia o benefício, e determina que o subsídio também será concedido para a formação de seminaristas de algumas ordens: mercedários, dominicanos, franciscanos, jesuítas (a de Bergoglio) e salesianos.

Claro que a dependência econômica em relação ao governo não determina uma subserviência dos religiosos, o filme mostra que muitos padres se rebelaram contra a ditadura. Mas esta relação íntima entre Estado e Igreja contribuiu muito para que, ao contrário do que houve no Brasil (onde bispos, padres e freiras tiveram papel importante na defesa da democracia), a hierarquia católica tenha colaborado tanto com os militares argentinos.

Para finalizar: há até pouco tempo, a Constituição argentina exigia que o presidente e o vice-presidente da República fossem católicos. Filho de uma família muçulmana, Carlos Menem teve que se converter ao catolicismo para poder ser presidente.


As praias iluminadas pelas velas de Iemanjá

separador Por Fernando Molica em 10 de dezembro de 2019 | Link | Comentários (0)

A decisão do prefeito Marcelo Crivella de incluir a música gospel no réveillon de Copacabana remete, de maneira contraditória, ao início da celebração da festa no litoral carioca. Uma festa umbandista, criada para saudar Iemanjá.

Nas noites do dia 31 de dezembro, era comum que meus pais me levassem para passear em praias cariocas. De formação católica, eles nunca foram chegados num tambor, numa curimba - nem numa missa, registro. Mas gostaram - e gostam - de festa. Os que os atraía às praias de Copacabana, Barra e Ilha do Governador não era a fé, mas, percebo hoje, o desfrute de um prazer estético e cultural.

Na noite do réveillon, as praias cariocas ficavam ainda mais lindas. Viraram imensos tapetes ornados pelas chamas das velas colocadas lado a lado, em pequenas covas cavadas na areia. Transformavam-se num palco improvável, já que a luz vinha do solo, não do alto - alguém aí pensou em estrelas que salpicavam nosso chão? Era por aí.

Por toda a areia, grupos tocavam atabaques, cantavam, homens e mulheres recebiam santo, distribuíam passes - católicos-apostólicos-macumbeiros de todas as gradações se aproximavam para receber aquela benção particular, que lhes garantiria um ano-novo com muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.

Iemanjá, que abriu as praias para os cariocas na noite do dia 31, aos poucos foi sendo jogada pra escanteio. Hotéis e restaurantes resolveram incrementar a festa com fogos de artifício, a comemoração caiu no gosto do público, foi encampada pela prefeitura e acabou se espalhando por outras praias, por outras cidades brasileiras.

Testemunha e vítima de tantas perseguições, o povo do santo não brigou, não bateu pé contra a invasão. Recolheu seus tambores, transferiu a homenagem para a véspera do réveillon, resolveu não brigar. Talvez tenha errado ao abrir mão dessa espécie de usucapião cultural, mas optou por um caminho mais pacífico.

Nada contra cantos e louvores de outras crenças, a pluralidade e a diversidade sempre merecem ser festejadas. Mas não deixa de ser triste ver que, mais uma vez, os criadores da festa acabaram expulsos de campo, algo comum num país tão preconceituoso, que insiste em rechaçar aqueles responsáveis por grande parte de nossa cultura, que tanto nos ensinaram a dançar, a batucar, a cantar e a rezar. O Brasil insiste em brigar com seu passado, com sua memória - uma receita infalível para sabotar o nosso presente e o nosso futuro.

*

Por falar nisso: daqui a pouco, às 15h desta terça, 10 de dezembro, o amigo Luiz Antônio Simas estará no Bar Madrid, na Tijuca, falando sobre essas antigas demonstrações de fé no réveillon - vai mostrar como, apesar de tudo, os inventores da festa encontraram frestas que mantêm vivos seus cantos, danças e tambores.


Troquem o pauteiro

separador Por Fernando Molica em 26 de novembro de 2019 | Link | Comentários (0)

É preciso trocar o pauteiro do Brasil. É importante e necessário discutir previdência, reforma tributária, redução/manutenção de direitos trabalhistas, privatização ou não de estatais, medidas contra a criminalidade.

Mas não dá pra discutir oportunidade ou não de um novo AI-5, não dá para achar razoável reprimir - até com violência - manifestações que sequer existem. Não dá pra relativizar direitos de qualquer cidadão, não dá pra questionar garantias constitucionais.

É preciso refazer a pauta, recolocá-la nos trilhos. Uma ditadura, explícita ou disfarçada, não pode entrar na discussão. Temos que ter cuidado para não naturalizarmos o absurdo, o grotesco, o inegociável.


Deixem que berrem

separador Por Fernando Molica em 26 de novembro de 2019 | Link | Comentários (0)

"Os esperançosos e revoltados que esperneiem, que berrem, que profetizem a não realização da Copa, que façam todo o alarde possível. Pelo visto, ainda têm expectativas de mudanças, não os invejo, azar o deles. (...) Diante do desespero, dos planos de fuga, das atualizações de saldos bancários na Suíça e naquelas ilhotas de nomes esquisitos, você exigirá tranquilidade, saberá fazer valer cada ruga acumulada no rosto e imobilizada por sucessivas e mensais injeções de botox. (...) Deixem que esses putos berrem, se esgoelem. Deixem que quebrem, joguem pedras, queimem, que pensem que venceram, que mudaram, que trocaram. Deixem que subam a rampa, que discursem. Todos terão que vir à Casa, serão obrigados a limpar os pés, aprenderão a usar talheres, a escolher vinhos. Se orgulharão do uso dos diferentes garfos e facas, nos agradecerão a gentileza de recebê-los, adorarão os vinhos vagabundos de rótulo francês, rebotalho do rebotalho, que beberão estalando a língua no palato. Sei que será assim porque foi assim comigo. (...) E o babaca aqui lambia suas palavras, chupava seus argumentos, gozava com as suas conclusões. Eu aprendi com você, me lambuzei de você, eu virei você. Acabei retirado do meu trabalho, da minha rua, fui esvaziado, desidratado. Você fez comigo o que, em breve, vocês farão com esses milhões que se abraçam nas ruas."

Trechos do romance 'Uma selfie com Lenin', que lancei em 2016, pela Record.

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A tabelinha de Paulo Scott com Laurentino Gomes

separador Por Fernando Molica em 14 de novembro de 2019 | Link | Comentários (0)

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Emendei Marrom e amarelo, do Paulo Scott, com Escravidão, do Laurentino Gomes. Os dois livros foram comprados ao mesmo tempo, vieram na mesma sacola - desde então, não param de conversar, falam o tempo todo da tragédia do desterro e da escravidão de milhões de seres humanos, um processo determinante na formação do nosso país, do povo brasileiro.

A escravidão nas Américas teve cor, um componente fundamental, transmitido de geração em geração. Mais do que uma referência aos antepassados e lembrança do terror histórico, a cor negra que, com maior ou menor intensidade, marca os corpos de quase todos os brasileiros, funciona como alerta - impede que esqueçamos o que houve, o que foi feito e o tanto que ainda precisa ser cobrado e conquistado.

Somos, quase todos, herdeiros de um paradoxo, descendentes de escravizados e de seus antigos donos. Alguns (ou muitos) de nossos antepassados foram chicoteados/violentados por outros de nossos ancestrais. É impossível dizer que não somos, individualmente, resultado de um ou de muitos estupros. Durante séculos tentamos diluir essa tragédia, negá-la, uma tarefa facilitada para os mais amarelos e tornada quase impossível para os marrons.

A negação só aprofundou o impasse e a injustiça. Basta andar nas ruas, dar uma olhada nas estatísticas. A escravidão e o racismo afetam a vida de todos nós, impedem qualquer projeto de construção de uma sociedade que tenha alguns mínimos denominadores em comum. Ao longo de 500 anos, apostamos na exclusão, no isolamento, no disfarce, na construção de guetos. Deu no que deu.

Precisamos discutir nosso passado, lidar com nossos paradoxos e encaminhar saídas plurais e abrangentes. Precisamos nos conhecer melhor - a leitura dos dois livros é importante para isso -, precisamos parar de nos negar.


Uma outra Antígona

separador Por Fernando Molica em 10 de novembro de 2019 | Link | Comentários (0)

Na noite deste domingo, ao sair da apresentação de 'Antígona', encontrei uma vizinha na plateia, sobrinha de um desaparecido político, jovem sequestrado e morto pela ditadura.

O encontro representou um novo e improvisado ato da peça, que trata da punição aplicada a Antígona, mulher que desobedeceu o rei de Tebas e ousou tentar enterrar o corpo do irmão.

A mãe do desaparecido - ela morava ao meu lado, no apartamento onde vive a neta - foi como Antígona; ao longo de muitos anos procurou pelo filho, foi humilhada, desrespeitada. Morreu com mais de 90 anos sem saber o que foi feito do corpo do filho.


A estreia de uma ópera centenária

separador Por Fernando Molica em 25 de outubro de 2019 | Link | Comentários (0)

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Na sexta, 1o de novembro, haverá a estreia de uma ópera composta há 108 anos. Depois de passar mais de um século encaixotada, 'Marília de Dirceu', de Julio Reis, será mostrada ao público na abertura da quinta edição do Festival de Ópera do Paraná, evento criado e conduzido por Gehad Hajar. No ano passado, o mesmo festival promoveu a estreia de 'Sóror Mariana', outra ópera de Julio Reis, composta em 1920.

A apresentação dessas duas obras ilustra a dificuldade de tantos e tantos criadores - músicos, artistas de um modo geral -, que penam para fazer com que seus trabalhos sejam conhecidos pelo público. 'Sóror Mariana' - que será reapresentada este ano - é um caso exemplar. Ainda nos anos 1920, Julio Reis conseguiu que o Senado aprovasse uma verba destinada à montagem da ópera, ele morreu em 1933, sem conseguir que o dinheiro fosse liberado.

Soube de histórias ligadas a JR por uma questão familiar - sou bisneto dele. Ao longo de muitos anos, acompanhei a luta de meu avô materno, Frederico Mário dos Reis, para tentar fazer com que composições de seu pai fossem executadas.

Ao longo de dezenas de anos, ele enviou cartas para jornais e para autoridades, procurou músicos - eu cheguei a acompanhá-lo num encontro com um famoso maestro, a quem foi entregue cópia da partitura do poema sinfônico 'Vigília d'Armas`. Ele examinou a obra, a elogiou, e nunca mais deu qualquer retorno. Meu avô, pianista amador, de limitados conhecimentos musicais, morreu há quase 30 anos, morreu sem voltar a ouvir qualquer composição de seu pai.

Durante anos pensei em escrever sobre a saga de JR. Em 2012, enfim, publiquei pela Record o romance 'O inventário de Julio Reis'. No mesmo ano, o maestro Branco Bernardes, então regente da Orquestra Sinfônica da UniRio, incluiu 'Vigília d'Armas' em um concerto.

Contratado pela editora para tocar músicas de JR no lançamento do livro, o pianista João Bittencourt ficou tão entusiasmado com as polcas, mazurcas e valsas que resolveu - e conseguiu - gravar um belíssimo CD, 'João Bittencourt apresenta Julio Reis'.

Gehad Hajar tomou conhecimento do romance, e procurou saber mais do compositor. Há alguns anos ele me ligou, falou de sua intenção de montar algumas das óperas do meu bisavô. Na época, eu já havia atendido a um pedido do meu avô, e doara todo o acervo de JR - partituras, livros, recortes de jornais - para a Biblioteca Nacional. A BN cumpriu seu papel de instituição pública, e digitalizou todas as partituras, hoje disponíveis em seu site.

Bem, 'Marília de Dirceu' e 'Sóror Mariana' serão apresentadas, dias 1 e 2, no Teatro Londrina, em Curitiba, pela Companhia Paranaense de Ópera, A direção musical é de - Elena Moukhorkina Moreno e a direção geral, de Gehad Hajar. A entrada é franca - mais detalhes, no site do evento. Apareçam.

Ah, 'O inventário de Julio Reis' pode ser encontrado na Amazon por R$ 14,46. Outras livrarias listadas no site da própria Amazon oferecem o romance por preços ainda inferiores.


O assalto em Viracopos e o caminhão do Lamarca

separador Por Fernando Molica em 17 de outubro de 2019 | Link | Comentários (0)

homemque.jpgO uso, no assalto ocorrido no Aeroporto de Viracopos, de um carro pintado como os da Aeronáutica remete a um episódio de janeiro de 1969 que desencadearia a perseguição à VPR, grupo guerrilheiro que atuou no país durante a ditadura. O plano previa o roubo - expropriação, na linguagem então usada - de centenas de fuzis do Exército e ataques a locais como o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Para entrar no quartel - onde servia o capitão Carlos Lamarca -, os guerrilheiros utilizariam um caminhão roubado, que, levado para um sítio, seria pintado de verde-oliva e ganharia os símbolos do Exército. A movimentação de homens envolvidos na clonagem chamou a atenção de um garoto. Ele foi ver o que se passava, e levou passa-fora do pessoal da VPR. O menino reclamou com os pais, e a história chegou aos ouvidos da polícia. O plano foi descoberto, o roubo dos fuzis acabou antecipado, numa operação feita às pressas.
Cheguei a citar o episódio no livro-reportagem 'O homem que morreu tres vezes", que trata de um personagem até então obscuro, o advogado Antonio Expedito Carvalho Perera:

"O armamento que permitiria o soar das explosivas trombetas revolucionárias seria retirado, nos dias 25 e 26 de janeiro, do quartel do 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. Lá, a VPR estruturara um núcleo em torno do capitão Carlos Lamarca,do sargento Darcy Rodrigues, do cabo José Mariane Ferreira Alves e do soldado Carlos Roberto Zanirato -- todos desertariam do Exército com as armas expropriadas. Depoimentos arquivados no STM revelam que, desde meados de 1968, munição de Quitaúna vinha sendo desviada e entregue para Rodrigues, líder de um grupo de discussão política no quartel. O sargento acabou sendo o responsável pela aproximação de Lamarca, até então um simpatizante do PCB, dos grupos que formariam a VPR.
As armas, entre elas 563 fuzis automáticos leves (FAL),73 seriam transportadas em um caminhão roubado, um Chevrolet fabricado em 1961, placa 74-45-21, que pertencia à Transportadora Radar. O caminhão fora levado para um sítio em Itapecerica da Serra, a 30 quilômetros de São Paulo, ondeseria pintado de maneira a ficar semelhante aos utilizados pelo Exército brasileiro. O veículo acabou descoberto dois dias antes da data prevista para a deserção. Acabaram presos Hermes Camargo Batista, Ismael Antônio de Souza, Oswaldo Antônio dos Santos e Pedro Lobo de Oliveira. A apreensão do caminhão marcou o início do inquérito que resultaria no processo contra a VPR. O delegado Wanderico de Arruda Moraes registrou que, além do caminhão, foram encontrados papel para "fazer bombas", cadernetas de telefones pertencentes a Pedro Lobo de Oliveira e a Oswaldo Antônio dos Santos, uma folha com "abecedário em código" e anotações que seriam utilizadas para a fabricação de projéteis.
A queda do caminhão forçou uma antecipação dos planos de fuga do quartel e o cancelamento da pirotecnia revolucionária. Era impossível prever por quanto tempo os presos resistiriam à tortura, tinham sido pegos com uma prova irrefutável, um caminhão sendo pintado de verde-oliva e com os
símbolos do Exército. No dia seguinte, 24 de janeiro, Lamarca, Rodrigues, Mariane e Zanirato deixam o quartel em uma Kombi -- dentro dela, as armas que conseguiram amealhar: 63 fuzis, cinco metralhadoras, revólveres e
munição. Na pressa, se deram conta de que não tinham para onde ir. Começaria aí a sucessão de trocas de esconderijos que culminaria com diversas prisões, inclusive a de Perera."


O futuro está na esquina

separador Por Fernando Molica em 12 de outubro de 2019 | Link | Comentários (0)

'Bacurau' é ambientado no futuro; 'Coringa', no passado. Ambos tratam de fatos ambientados em cidades fictícias. Mas saí do cinema com a sensação de que, em breve, poderão ser vistos como documentários.


O chefe e o roteiro

separador Por Fernando Molica em 16 de agosto de 2019 | Link | Comentários (0)

- Quem foi o irresponsável que aprovou este roteiro?
- Como assim, chefe?
- Como assim? Vocês querem que eu perca o emprego, que vá pra embaixada na Coreia do Norte? Ninguém leu o edital? Filmes, agora, só com temas de família, nada de safadeza.
- Mas estamos atentos, chefe...
- Atentos, sei... Olha isso aqui: "Beije-me com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho." Amor melhor que vinho! Sexo e álcool na mesma frase!
- Mas, mas...
- Mas é o cacete. E essa frase? "Às éguas dos carros de Faraó te comparo, ó meu amor." O cara compara a mulher a um bando de éguas! E vocês querem que o dinheiro público seja usado nisso...
- Eu posso explicar...
- Cala a boca, rapaz. Depois de ser comparada a uma cavala, a mulher diz: "O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios.". Ramalhete de mirra entre os seios! Vocês querem que cena de Espanhola seja filmada com verba federal, é o fim!
- Mas...
- Não pode putaria, não pode sexo. E ainda tem cena gay, ideologia de gênero! Leia isso aqui: "O meu amado é semelhante ao gamo, ou ao filho do veado." Filho do veado!?! E tome de nudez, nudez,nudez: "Os contornos de tuas coxas são como jóias, trabalhadas por mãos de artista. O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios.Os teus dois seios como dois filhos gêmeos de gazela." Parece aquela coluna da 'Ele & Ela'. Porra, acabou, acabou, tá tudo vetado. Nada disso vai ser filmado. Pra mim, chega, eu vou pra casa. Amanhã, todo mundo às 8h aqui. Quero descobrir quem aprovou essa indecência.

(...)

- Xi, o chefe ficou irritado.
- E quem é que vai contar pra ele que o roteiro é bíblico, adaptação do 'Cântico dos cânticos'?
- Não vou contar nada, melhor deixar pra lá. Vou tratar de vetar uma outra proposta. Aquela história de homem e mulher pelados no meio da selva não vai rolar. Ainda tem uma cobra e uma maçã na parada. Se isso passa, a gente vai pra rua.


Aquarela do João

separador Por Fernando Molica em 06 de julho de 2019 | Link | Comentários (0)

Há muito que João Gilberto não era mais uma trilha sonora compatível com o Brasil. O país ficou mais bruto, cruel, vulgar, desumano; rompeu com qualquer projeto de carinho, de amor, de busca de alguma paz. O Brasil desafinou, deixou-se embalar pelo ódio, pela repetição de certezas e de chavões - nem a nossa música escapou de tamanha banalização.
João Gilberto apostou no incerto, inventou um jeito de cantar e de tocar violão, mirou a utopia, a afinação absoluta. Sacrificou a própria sanidade em busca no inalcançável, é possível que tenha morrido frustrado por não ter atingido tamanha perfeição. Fomos testemunhas privilegiadas de sua jornada.

Há pouco, ao saber de sua morte, cantarolei `Chega de saudade`, lembrei do dia em que, disfarçado de publicitário, acompanhei o que seria um ensaio dele com Tom Jobim num hotel de Ipanema. João chegou atrasado, foi no quarto da suíte afinar o violão e, ali, a uns três ou quatro metros de onde eu estava, cantou várias vezes a já pra lá de conhecida canção - meninos eu vi, eu ouvi.

Mas acho que essa gravação de 'Aquarela do Brasil' traduz melhor o momento da morte de João. Aqui, Gil e Caetano não escondem a alegria de cantar ao lado do mestre de todos, dá pra sentir a reverência pelo mais velho, por aquele que abriu caminho pra tanta gente.
Ouvir esses três baianos cantando o mineiro Ary Barroso é lindo e triste, remete a um passado em que acreditávamos num país que, no futuro, seria mais justo e doce. O país decidiu se perder, mas, até por conta desses grandes artistas, ainda dá para ter esperança num Brasil melhor, mais bonito, mais harmônico e delicado - pra mim, pra todos nós.


Mendonça, o nosso craque

separador Por Fernando Molica em 05 de julho de 2019 | Link | Comentários (0)

Mendonca.jpeg

Mendonça, ídolo de minha adolescência, morreu hoje. Alvinegros que tenham 35 anos ou menos não têm ideia da importância do cara para o Botafogo, onde jogou de 1975 a 1982. No período da Grande Seca, aquele em que ficamos duas décadas sem um reles título, Mendonça foi o nosso grande craque. Depois do roubo sofrido na final do Carioca de 1971, o Botafogo teve muitas dificuldades para montar um bom time, com frequência arrumou equipes sofríveis, cheias de jogadores esforçados.

Houve exceções, claro, mas a situação era terrível. Pra piorar, o Flamengo montou aquele timaço e o Vasco, liderado por Roberto, também tinha uma grande equipe.E nesse período surgiu o Mendonça, nossa - como era chamado - Estrela Solitária. Não foi um super craque, um jogador excepcional, a Wikipedia me diz que ele jogou apenas duas vezes pela seleção brasileira (a concorrência era grande na época).

Mas era o nosso craque, o craque da nossa aldeia. O craque que aplicou o drible Baila Comigo no grande Júnior. Assim como Heleno de Freitas, Mendonça não foi campeão pelo Botafogo - mas uma daquelas coisas que só acontecem com a gente. Mas é um dos meus grandes ídolos, o cara que, em festas tão complicadas, nos botou para dançar, cantar, gritar e pular. Valeu, Mendonça.


Viramos alvo

separador Por Fernando Molica em 08 de maio de 2019 | Link | Comentários (1)

O decreto sobre armas é ainda pior que o divulgado. Agora, integrantes de várias categorias profissionais terão porte de armas, inclusive políticos eleitos (em tese, todos honestos, equilibrados, incapazes de fazer mal a qualquer pessoa) e jornalistas que trabalham em coberturas policiais.

Com uma canetada, Bolsonaro transformou repórteres em alvo dos bandidos - os caras vão passar a achar que todos nós estamos armados e, que portanto, podemos atirar contra eles, é bem mais provável que eles disparem na nossa direção. Assaltantes terão mais um motivo para abordar caminhoneiros: além de carga a ser roubada, eles, em tese, terão armas que poderão ser arrecadadas.

Se andar armado fosse garantia de manutenção de integridade física, tantos policiais não seriam mortos no país. Mais uma vez, o governo transfere para a sociedade a responsabilidade de cuidar da segurança, um dever do Estado.


BG
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