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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Ninguém está livre da tortura

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

Pessoas que defendem ou justificam a tortura não se dão conta de um dado fundamental, ninguém está livre do arbítrio. Por exemplo: numa ditadura, um jovem oficial que fizesse planos para explodir bombas em quartéis dificilmente escaparia de sessões de tortura. Seus algozes fariam de tudo para que ele revelasse nomes de outros envolvidos com a trama. Isto ocorreria mesmo se o explosivo protesto fosse apenas uma manifestação favorável a um aumento de salários.

Numa ditadura, comerciantes ficam mais expostos à arbitrariedade de fiscais, taxistas não têm como se defender de excessos de PMs. Numa ditadura, o netinho de uma boa e tradicional família corre o risco de tomar muita pancada se for descoberto com um pouco de maconha. O filme 'O jardim dos Finzi-Contini', de Vittorio De Sica, mostra como uma família de judeus italianos achava que, por ser rica, nunca seria atingida pelo antissemitismo - claro que foi.

Inspirado em fatos ocorridos com seus antepassados, o amigo Rafael Cardoso descreve, em seu ótimo romance 'O remanescente' como banqueiros judeus alemães acabam vítimas do nazismo. A história da União Soviética também mostra como amigos do regime passaram a ser tratados como inimigos. Ninguém está seguro numa ditadura, nem mesmo aqueles que apoiam e comemoram sua implantação (por aqui, Carlos Lacerda e JK foram presos e tiveram seus direitos políticos cassados).


Policiais nas universidades

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

Entrei na UFRJ em março de 1979 (faz tempo, eu sei), nos últimos dias do governo Geisel. Logo de cara, uns caras apareceram na sala de aula convocando para uma manifestação contra a posse do general Figueiredo, que viria a ser o último presidente do ciclo ditatorial. Fiquei meio assustado, naquele tempo, manifestações ainda eram alvo de ataques da polícia. Não fui ao ato; depois, compareci a muitos outros.

A agitação política na ECO, Escola de Comunicação, na Praia Vermelha, era intensa, havia muita movimentação de tendências de esquerda. Eu tinha acabado de sair do comportado Colégio Metropolitano, no Méier, não sabia como me movimentar naquele emaranhado de siglas meio que sussurradas - PCB, PCdoB, AP, MEP, MR-8.Segredos bestas, numa faculdade pequena como a ECO, todo mundo sabia quem era quem.

Não cheguei a me envolver com aquelas organizações, por medo e por falta de convicção; continuei a cuidar de cineclubes. Mas conheci muita gente legal, interessante, inteligente, pessoas que sonhavam com um país melhor, mais justo, que, caramba, falavam até em revolução (o pessoal do PCB era muito sacaneado, chamado de reformista, por sua insistência numa transição pacífica para a democracia).

Era um negócio meio maluco, sem sentido, era óbvio que não haveria revolução alguma, o país seguiria um outro caminho no processo de redemocratização, e assim foi feito. Por que razão estou falando disso? Porque, apesar de toda a movimentação, de todos os panfletos, de todas as faixas contra a ditadura, apesar de todas aquelas teses revolucionárias mimeografadas, chatas pra cacete, que circulavam de mão em mão, nunca vi um policial dentro da minha universidade.

Desconfiávamos de espiões, de agentes infiltrados - claro que havia -, mas, insisto, nunca vi um policial por lá. Participei de debates, de reuniões com candidatos deste ou daquele partido, distribuí e recebi panfletos, mas nunca vi um policial naquele campus, que - soube depois - fora invadido pela PM anos antes, em 1968. Já passa das duas da manhã, acabei de chegar do trabalho. E estou assustado com as notícias que tratam de casos de repressão em universidades. É terrível saber que, por ordem judicial, estudantes estão sendo impedidos de exibir faixas (que sequer mencionam candidaturas) e de participar de debates. Universidades são locais de discussão, de troca, de busca de conhecimento. O que está acontecendo é muito grave, representa uma ameaça a cada um de nós. A Justiça tem que estar do lado da liberdade.


A estreia, quase cem anos depois, de `Sóror Mariana'

separador Por Fernando Molica em 18 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

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Uma ótima e emocionante notícia. Composta em 1920, e inédita até hoje, a ópera 'Sóror Mariana', do meu bisavô Julio Reis será, enfim, encenada. A estreia mundial ocorrerá nos dias 9 e 10 de novembro, em Curitiba, durante o Festival de Ópera do Paraná.
Em meu romance 'O inventário de Julio Reis' (Record) tratei da ópera, da ideia de JR de usar como libreto a peça do português Júlio Dantas, da doação para a montagem que recebeu do Congresso Nacional e da luta para liberar o dinheiro - a verba nunca saiu.

O lançamento do livro, em 2012, despertou alguma curiosidade em torno de JR, o pianista Joao Bittencourt lançou um CD e fez concertos com músicas do compositor, outros artistas passaram a incluir peças de suas autoria em shows. O maestro José Antônio Branco Bernardes Bernardes incluiu o poema sinfônico 'Vigília d`Armas' em apresentações da Orquestra Sinfônica da UniRio.

Há pouco mais de dois anos, recebi uma ligação do Gehad Hajar, diretor do Festival de Ópera do Paraná, que me falou do interesse em montar 'Sóror Mariana'. Na época, para atender a um pedido expresso do meu avô, Frederico Mário dos Reis, eu já havia doado todo o acervo de seu pai para a Biblioteca Nacional, que fez um belíssimo trabalho comandado pela Elizete Higino, algo que reforça a importância de um serviço público de excelência - todas as partituras originais foram digitalizadas e podem ser consultadas pela internet.

Gehad cumpriu a promessa e, daqui a menos de um mês, os amores proibidos de Mariana Alcoforado serão cantados em Curitiba. A passagem está comprada, hotel já foi reservado. Em tempos tão duros e tão difíceis, será um alento poder ouvir a composição de meu bisavô. Servirá também como homenagem ao meu vô Mário, que dedicou boa parte da sua vida tentando evitar que a obra de seu pai caísse no esquecimento. Obrigado ao Gehad, obrigado a todos que permitiram o encontro de `Sóror Mariana' com o público.Partiu Curitiba.


Os alemães não querem esquecer

separador Por Fernando Molica em 17 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

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Postei ontem um trecho do meu 'Uma selfie com Lenin' em que trato da plaquinha com o nome do Hitler incluída numa obra que, exposta no parlamento alemão, mostra o nome de todos os deputados que passaram pelo prédio antes do incêndio de 1933. Hoje publico outro trecho do romance, o que trata das pichações feitas no prédio por soldados soviéticos que ocuparam Berlim num dos atos derradeiros da guerra. As ofensas estão lá, marcas da tragédia nazista, barbárie que só foi possível pelo voto do povo alemão e pela colaboração de setores conservadores que viam em Hitler um mal menor diante da ameaça que vinha da esquerda. Os alemães sabem que não podem esquecer o que foi feito.

"Com a reunificação alemã, houve nova reforma para que o Reichstag voltasse a sediar o parlamento - e foi aí que os caras decidiram expor as ofensas. Nem todas ficaram, mas há muitas, por todos os lados, algumas bem próximas à sala ocupada pelo chanceler federal - a Angela Merkel é obrigada a vê-las sempre que vai para seu gabinete. Lembrei de uma professora da faculdade, ela sempre dizia que, depois da expulsão dos ingleses, chineses discutiram o que fazer com uma enorme estátua de São Jorge plantada em Pequim. "Foi derrubada?", perguntei. "Não, ganhou iluminação especial, feérica, para que ninguém se esquecesse do invasor, da ocupação", respondeu. Os alemães fizeram mais ou menos isso. Ao expor os xingamentos soviéticos em seu próprio parlamento, na sede de seu poder, lembram aos cidadãos o tamanho da merda feita por seus antepassados, dos crimes, do genocídio. Ressaltam que, por conta das cagadas pretéritas, todos são obrigados a conviver com as palavras para lá de duras pichadas pelos soldados soviéticos, os mesmos que comandariam o estupro de milhões de mulheres alemãs. Melhor conviver com dores pretéritas do que vivê-las fisicamente, é importante lembrar para não repetir."


O samba-enredo que nasceu clássico

separador Por Fernando Molica em 15 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

Algumas obras de arte nascem clássicas - por sua beleza, por sua originalidade e pelo diálogo que propõem com seu tempo. É o caso do samba escolhido para ser cantado pela Mangueira em 2019. Composta por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, a canção faz uma leitura ampla e emocionante do enredo proposto pelo Leandro Vieira, um dos nossos maiores artistas contemporâneos.

Ao rever o passado, o samba trata do presente e faz um alerta em relação ao futuro. Ressalta personagens esquecidos, frisa a necessidade de tirarmos a poeira agarrada nos nossos porões: quem desconhece a história corre o risco de repetir erros e crimes. Mais do que um samba-enredo, já virou trilha sonora de nosso tempo.


Vocês querem liminar?

separador Por Fernando Molica em 01 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

Tudo ocorreu em menos de uma semana, às vésperas da eleição. As ações se desenrolaram no Poder Judiciário, o único composto por pessoas não eleitas pela sociedade. O único que tem o poder de mandar prender e mandar soltar.

1. A Justiça Federal aceitou denúncia contra 33 pessoas ligadas ao PSDB de São Paulo. As supostas irregularidades ocorreram entre 2004 e 2015.
2. Um ministro do Supremo autorizou entrevistas de Lula.
3. Outro ministro do Supremo anulou a decisão do colega citado no item 2, impediu que Lula concedesse entrevista e determinou censura prévia à imprensa, medida proibida pela Constituição, que deve ser defendida pelo STF.
4. O juiz Moro determinou a quebra do sigilo de parte de uma delação premiada que, como ele mesmo frisa no despacho, não será considerada no julgamento do processo.
5. O ministro do STF citado no item 2 anulou a decisão do ministro do item 3 que anulava sua autorização e voltou a permitir que Lula concedesse entrevista.
6. O presidente do Supremo anulou a anulação determinada pelo ministro do item 2, que anulava a decisão do ministro do item 3 que, por sua vez, anulava a decisão do ministro do item 2.

Talvez as tais instituições estejam funcionando de maneira excessiva.


Os ex-pobres

separador Por Fernando Molica em 01 de outubro de 2018 | Link | Comentários (0)

Mauro Paulino, do Datafolha, revela um dado impressionante na Globonews. Brasileiros que ascenderam nos governos petistas - eram 11% da população em 2001, são em torno de 30% - votam pesado em Bolsonaro.
Arrisco um palpite simplista: deixaram a pobreza e, agora, olham pra cima, não querem ser confundidos com pobres.


Os agressores e seus cúmplices

separador Por Fernando Molica em 28 de setembro de 2018 | Link | Comentários (0)

Nós, jornalistas, não somos donos da verdade. Volta e meia erramos - como nosso trabalho é público, as mancadas ou forçadas de barra são apontadas e discutidas. É do jogo. A sociedade tem o direito de questionar o que publicamos, de exigir retratação de erros, de, no limite, nos processar. É assim que funciona numa sociedade democrática. O problema é quando jornalistas passam a ser perseguidos por conta de reportagens que revelam crimes ou fatos constrangedores cometidos por integrantes de um determinado agrupamento político.

Os ataques partem de agressores sequer se dão ao trabalho de questionar o que foi publicado, apontar eventuais erros de apuração ou edição. Movidos pela fé e não pela lógica, atacam, difamam, caluniam, ameaçam. Covardes, com frequência se escondem atrás de nomes falsos. Fogem do debate, da necessária contraposição de ideias, a eles só interessa a divulgação de sua cartilha religiosa e o combate aos que consideram infiéis.

O mundo já acompanhou situações semelhantes, é o só ver o que aconteceu no processo de ascensão e consolidação do nazismo e do fascismo - não são os únicos exemplos. Esses sujeitos têm que pagar nos tribunais pelo que fazem. A ameaça e o constrangimento não são voltados apenas contra jornalistas, mas contra toda a sociedade, contra o direito de circulação de idéias e informações.

Tão grave quanto as ameaças é o silêncio cúmplice dos líderes políticos que inspiram os ataques. Eles também têm que ser responsabilizados. Por último: há aqueles que não ofendem ou ameaçam, mas vibram com os ataques, acham que os tais jornalistas merecem o que recebem.

Acredite, você, que com seu silêncio ajuda a atiçar o ódio e a intolerância, corre o sério o risco de ser a próxima vítima da marcha autoritária. Vale recorrer ao velho chavão: o mais grave numa ditadura é o guarda da esquina, aquele que se vê capaz de cometer arbitrariedades contra qualquer um. Pode ser o PM que arma um flagrante contra seu filho, o guarda municipal que multa seu carro injustamente, o fiscal que inventa irregularidades na sua loja. Na ditadura, não temos como reclamar.


Os sem esperança

separador Por Fernando Molica em 21 de setembro de 2018 | Link | Comentários (0)

A última pesquisa Ibope dá uma boa pista para que possamos entender um pouco as intenções de voto. Entre os entrevistados, 49% disseram que estão pessimistas ou muito pessimistas em relação ao futuro do país. Apenas 22% estão otimistas ou muito otimistas (estes são apenas 2%).

Ou seja, praticamente a metade dos brasileiros acha que a situação vai piorar, isso representa mais do que o dobro daqueles que têm uma visão positiva do futuro. Eleição é, normalmente, um período de expectativa de dias melhores, mas não é o que ocorre desta vez. Sem esperanças, muita gente parece ter ligado o dane-se.

Ah, 22% dos entrevistados não manifestaram otimismo nem pessimismo; 6% não sabem e/ou não quiseram opinar.


Pitacos rápidos e pessoais

separador Por Fernando Molica em 18 de setembro de 2018 | Link | Comentários (0)

1. O Ibope de hoje indica que eleitores têm optado por candidatos que defendem posições claras, não querem saber dos que são mais ou menos isso ou aquilo.

. Marina Silva parece ser vítima de uma espécie de autogolpe - era de esquerda, migrou para posições mais conservadoras, radicalizadas com seu apoio a Aécio e ao impeachment. Agora, aparenta ter ficado no meio do caminho. O eleitor de esquerda acha que ela passou a ser de direita; o de direita, ainda vê nela uma petista. Ficou como aquela bola perdida no vôlei, a deixa-que-eu-deixo.
. Alckmin apostou que o país, cansado de conflitos e de escândalos, apostaria na conciliação - o problema é que, ainda outro dia, o PSDB foi pro ataque, pro tudo ou nada, apostou no impeachment, na entrega da Presidência para Temer. Fica difícil para o eleitor acreditar na sua bandeira branca. Pior ainda é o candidato dizer que faz oposição a um governo que seu partido integra. Ele também não tem como dizer que os tucanos passaram ao largo da corrupção.
. Ciro não peca pela dubiedade, ao contrário, tem um discurso direto, focado. Mas é provável que acabe engolido pela onda petista. Ele também gosta de não se ajudar. Quando muita gente achava (ainda acha) que ele seria mais palatável num segundo turno contra Bolsonaro, ele voltou a ser o Ciro de sempre, xingou um repórter e ainda pediu sua prisão.

2. Nesta semana, Haddad inaugurou uma versão própria do Lulinha Paz e Amor. Passou a acender uma vela para Lula e outra para o eleitor que rejeita o PT e que terá papel decisivo no segundo turno. Negou que vá indultar o ex-presidente e, na TV, encarnou o petista light, educado, aquele sujeito que, apesar das ideias de esquerda, não vai fazer feio na festa de Natal na casa dos sogros. O programa desta terça mostrou fotos do menino Haddad e ainda deu espaço para sua mulher falar como ele é legal. O cara é de família, veja só.

3. Já a campanha de Bolsonaro faz o caminho inverso. Nos últimos dias, Mourão, seu vice, desandou a falar impropriedades. Num só discurso citou países mulambos - numa evidente referência a nações africanas - e disse que mães e avós não conseguem cuidar direito de filhos e netos. Mais um pouco e petistas e pedetistas vão exigir que ele substitua o hospitalizado Bolsonaro nos próximos debates.


O sol que esquenta o mercado editorial*

separador Por Fernando Molica em 26 de agosto de 2018 | Link | Comentários (0)

É até sacanagem frisar que a biografia do Geovani ajuda na divulgação do livro. Claro que ajuda, mas, caramba, escritores de biografias semelhantes sequer conseguiam publicar livros, muitos continuam sem conseguir. Ao longo do tempo, histórias de vida como como as dele mais atrapalharam do que ajudaram. E de nada adiantaria o ótimo trabalho de marketing da editora se o livro não tivesse valor.

Lançado em meio a uma grave crise do mercado editorial, 'O sol na cabeça` levanta discussões importantes sobre a publicação de autores brasileiros contemporâneos. O sucesso comercial do livro mostra que, sim, há mercado para publicações de qualidade, que livro de prêmio pode ser também livro de vendas. Há um público capaz de comprar esses livros, desde que saiba de sua existência, que confie nos editores, que tenha acesso a um material crítico rigoroso, mais preocupado em discutir o autor do que em ressaltar teses e qualidades do resenhista.

Por conta da recessão e da ameaça de fechamento de grandes varejistas, as editoras passaram a jogar na retranca, reduziram e adiaram lançamentos, diminuíram contratações. Isto é péssimo, mas pode ser bom. Com menos dinheiro, o mercado tende a ser mais seletivo, deverá cuidar melhor do que é lançado. Livro é um produto complicado, artesanal, que não combina com a lógica de produção em massa. Um livro é fruto de muito trabalho de todos os envolvidos em sua produção - é justo e, mais do que nunca, necessário, que cada um seja tratado de maneira cuidadosa por todos os que fazem parte desse processo, o que inclui jornalistas que selecionam o que merece ou não ser divulgado.

Divulgação, repito, não faz milagre, não transforma livro ruim em bom. Mas possibilita que um bom livro seja lido, que não seja apenas mais um entre os tantos e tantos que, todos os dias, formam trincheiras nas mesas de repórteres e editores de cultura. Trincheiras que, com frequência, assumem o papel de impedir a chegada de qualquer novidade.

*Este texto é um comentário que fiz sobre post de Henrique Rodrigues no Facebook sobre o livro 'O sol da cabeça', de Geovani Martins.


A guerra dos pobres

separador Por Fernando Molica em 20 de agosto de 2018 | Link | Comentários (0)

Dois militares do Exército - um cabo e um soldado - estão entre os pobres mortos hoje em mais uma etapa da guerra contra a venda de drogas no Rio. Outros cinco homens também morreram na Penha, Zona Norte, suspeitos de envolvimento com o crime. Todos morreram numa guerra que dura mais de 30 anos e que só é mantida porque quase todos os seus mortos são pobres - moradores de favelas, bandidos, policiais e, agora, militares de baixa patente das Forças Armadas. Uma guerra que é estimulada por aqueles que, de um modo geral, não são pobres, que não vão para a linha de frente, que não tomam tiros.


Pelé mantém distância de Pelé

separador Por Fernando Molica em 24 de junho de 2018 | Link | Comentários (0)

Pelé volta e meia era ironizado por se referir a si mesmo na terceira pessoa: em suas nem sempre felizes declarações, ele sempre falava/fala "no Pelé". O que poderia parecer arrogância é uma demonstração de sabedoria, algo que fica mais evidente diante do egocentrismo desastrado de tantos ídolos pop, jogadores de futebol ou não. Jovens que acreditam mesmo ser aquilo tudo que falam deles, pessoas que estariam além da condição humana, deuses intocáveis, inquestionáveis, donos de todas as razões.

Astro aos 16 anos, campeão do mundo aos 17, Pelé deve ter percebido que não seria fácil ser Pelé, o maior jogador do esporte mais popular do mundo. Ninguém suportaria o peso de ser Pelé o tempo todo. Daí, ele terceirizou o personagem, o fato de seu nome profissional ser um apelido facilitou o processo, ajudou a marcar as diferenças entre o Edson e o Pelé, É como se ele mantivesse uma distância segura do personagem, do "rei de todos os estádios", do Atleta do Século, do homem que fez parar uma guerra, do jogador que ganhou três das quatro copas que disputou. Até para Pelé, Pelé é uma outra pessoa.

Maradona, mais cultuado na Argentina do que Pelé é por aqui (ninguém criou uma igreja com seu nome), foi um dos que sucumbiram ao peso de ser quem é. Pelé, não. E olha que nosso camisa 10 não reconheceu uma filha, sequer foi visitá-la em seu leito de morte, esteve envolvido naquele caso de desvio de grana destinada ao Unicef. Mas, aí, ele pode alegar que as safadezas foram feitas pelo Edson, não pelo Pelé. Eu, que tanto critiquei as caneladas que ele cometeu fora de campo, uma vez me vi pegando autógrafo do cara. Questionado, respondi que pedira a dedicatória ao grande Pelé, o jogador que mais perto chegou da perfeição, não ao Edson.


Neymar e a nossa intolerância

separador Por Fernando Molica em 24 de junho de 2018 | Link | Comentários (0)

Essa discussão em torno do Neymar revela, mais uma vez, o quanto estamos incapazes de ponderar, de debater, de trocar ideias. Virou um outro pega-pra-capar, um outro coxinhas versus mortadelas, camisas amarelas contra vermelhas. Caramba, calma. O cara, cracaço, joga pacas, é de longe o melhor jogador do time. Isso não impede que ele exagere ao cavar faltas, que demonstre imaturidade e incapacidade de ser contrariado, que, por ser tão irritadiço, tome cartões amarelos desnecessários, que podem atrapalhar a trajetória da seleção.

O caso Neymar foi transformado em uma peleja entre libertários e repressores, entre os que veem no cara uma reencarnação dos ideais de 1968 e os defensores da ordem, do progresso, do simsinhô. A polarização impede conversas, dificulta reflexões, anula qualquer possibilidade de debate. Duvido que os defensores do camisa 10 considerem que ele é assim tão espetacular e perfeito, tenho certeza que aqueles que o criticam de forma pontual - estou entre estes - sabem o quanto é cara é bom de bola, e fundamental. Com suas qualidades e problemas, Neymar é um cara contraditório, não tentemos reduzi-lo a alguém menor, linear, previsível. E torçamos por ele, pela seleção.


Um novo jogo

separador Por Fernando Molica em 29 de maio de 2018 | Link | Comentários (0)

Esta longa mobilização dos caminhoneiros reforça algo que tinha ficado meio evidente em 2013: a sociedade que se move guiada pelas cercas da institucionalidade (aí incluo políticos, jornalistas, analistas, acadêmicos) não está preparada para enfrentar situações que escapam do padrão consagrado por muitos anos.

Sabemos encarar/cobrir greves tradicionais, aquelas que têm pautas, lideranças e adversários determinados. Ouvimos sindicato, governo, patronato, acompanhamos a movimentação da polícia, as negociações, assembleias. O problema é que, até por conta da crise e do desemprego, essas greves sumiram, as que restaram ficaram praticamente restritas ao setor público.

A internet e o WhatsApp acabaram com o samba de poucas notas dos movimentos tradicionais, sindicatos e centrais sindicais foram pro espaço, a sucessivas roubalheiras em governos minaram a confiança nos políticos, que ficaram órfãos de representatividade. Assim como as passeatas de 2013, a greve de caminhoneiros não se restringe a um pequeno e significativo número de pautas (que, em linhas gerais, foram atendidas) e de vozes.

O movimento expressa diferentes insatisfações, com o governo, com o presidente, com o país, com a chegada de tantas mudanças, com a eclosão de tantos medos. Não se trata mais de um organizado desfile no Sambódromo, mas de anárquicas apresentações de infinitos blocos do Eu Sozinho. Não é só por 46 centavos, alguém já disse.

O problema não são os boatos espalhados pelos celulares, mas o fato de que tanta gente acredita neles, gente que quer acreditar em algo, em medidas milagrosas, em artigos da Constituição que jamais existiram.

É complicado quando a política vira uma questão de fé. As instituições - tão maltratadas nos últimos anos - demonstram não ter capacidade para lidar com algo tão novo e intangível. Daí a crença num Salvador, num Dom Sebastião que ressurja de espada em punho, radiante em seu uniforme verde-oliva. O jogo, agora, ficou sem regras, é em outro campo, ninguém liga para os juízes e para as federações - ninguém confia mais no Tapetão. Temos que lidar com isso, até para que, em breve, possamos todos colocar a bola no chão e definir um novo jeito de jogar.


O poster de Dines

separador Por Fernando Molica em 22 de maio de 2018 | Link | Comentários (0)

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Parece exagero dizer que me sinto órfão com a morte do Alberto Dines, nunca trabalhei com ele, nunca tivemos muita proximidade. Mas estive algumas vezes em seu 'Observatório da Imprensa'; nos seus 80 anos, fiz, ao lado do Bruno Trezena, uma entrevista com o aniversariante para 'O Dia'. Uma conversa em que ele reafirmou sua fé nos jornais e no jornalismo.

Em 2016, a Abraji concedeu ao Dines o prêmio de Contribuição ao Jornalismo - tive a honra de, na abertura de nosso congresso, fazer a entrega da homenagem à sua mulher, a também jornalista Norma Couri. Hoje, ao saber da morte deste grande cara, fiquei muito triste. Doente há alguns anos, com dificuldades financeiras - como é dura e cruel essa nossa profissão -, Dines continuava a ser uma referência, principalmente num momento tão difícil como o atual, delicado para o país e para a própria imprensa.

Tenho o maior orgulho deste quadro, pendurado em casa, no meu escritório. Em 2014, fui ao JB e comprei a reprodução fotográfica da capa em que o jornal deu um olé na censura ao noticiar o golpe no Chile, ocorrido em 1973. A história é célebre: jornais tinham que ser discretos em suas primeiras páginas, nada de manchete e foto sobre o caso. Dines, que estava em casa, voltou à redação e fez este primor de criatividade e coragem, algo que me emociona sempre - ele fez a capa mais chamativa de todas, sem título, sem foto. Por conta do gesto, acabaria demitido.

Pedi então para que o Dines autografasse a cópia - ele o fez, com o cuidado de só fazer a dedicatória na margem. "Não se pode escrever na obra", ressalvou - uma outra lição. Obrigado por tudo, mestre. Meu reflexo na foto do quadro é proposital, de alguma forma, da maneira menos arrogante e cabotina possível, procuro ser digno deste reflexo.


Mortes injustificáveis

separador Por Fernando Molica em 10 de maio de 2018 | Link | Comentários (0)

Mais um PM, um sargento, foi morto hoje na Rocinha, moradores e um outro policial foram feridos. A guerra por lá tem mais de 30 anos, não há vencedores, apenas derrotados. O que justifica tantas mortes ao longo de tantos anos? Como explicar a morte do sargento para seus quatro filhos? Ele não morreu por uma causa nobre, contra o nazismo, por exemplo. Será que os agora órfãos acharão razoável ouvir que seu pai foi morto numa guerra interminável que, no limite, tenta impedir que algumas pessoas vendam e outras comprem determinados produtos?

Os que defendem a guerra contra as drogas não pregam apenas a morte de bandidos, estimulam também a morte de policiais e de pessoas comuns. Esses entusiastas da guerra sabem que eles e seus filhos não serão vítimas dessas batalhas. Sabem que, com raras exceções, os mortos serão os pobres de sempre: bandidos, policiais, moradores de favelas. Já que se fala tanto em guerra, talvez seja o caso de criar um serviço policial-militar obrigatório, todos os jovens, homens e mulheres, ricos ou pobres, brancos e pretos, seriam obrigados a ficar um ano na PM, teriam que subir favelas, dar e levar tiros. É possível que, assim, com seus filhos ameaçados, os senhores das nossas guerras particulares deixassem de mandar os filhos dos outros para a morte.


Dona Ivone gira

separador Por Fernando Molica em 17 de abril de 2018 | Link | Comentários (0)

Perdi a conta das vezes em que, nessas tantas rodas, girei os braços para marcar os versos que viravam e reviravam meu avesso, que citavam a tristeza que rolara nos meus olhos e que afivelara o peito ferido pela faca-lâmina tão afiada, traduzida na música de Dona Ivone Lara e na letra de Hermínio Bello de Carvalho. Rodei tanto, pra lá e pra cá, idas e vindas, caminhos que iam, que voltavam, que se refaziam, que insistiam. Mas quem disse que te esqueço, mas quem disse que eu mereço? Um merecer, noto agora, dúbio: queixa que remete a uma dor imensa, mas também gozo que comemora, surpreso, um grande prazer - quem disse que mereço tanto? Desde que o samba é samba é assim, o samba roda, o samba gira, o samba é jira. Dona Ivone me ajuda a girar, a seguir.


ACM, Roberto Marinho e a reação ao discurso de Délio

separador Por Fernando Molica em 04 de abril de 2018 | Link | Comentários (0)

"Violento discurso de Délio provoca enérgica reações". A manchete, em cinco colunas e duas linhas, ocupava o alto da capa de 'O Globo' em 5 de setembro de 1984 e tratava de uma das mais importantes crises ocorridas no ocaso da ditadura.

Na véspera, em Salvador, o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, desancara políticos governistas que se recusavam a apoiar Paulo Maluf, candidato oficial à sucessão do presidente Figueiredo e já na época associado a diversos casos de corrupção. O grupo, que formaria o PFL, aderira a Tancredo Neves, do PMDB.

Ao lado de Figueiredo e de Maluf. o brigadeiro chamou os dissidentes de "covardes" e "traidores", condenou os "conchavos com a esquerda incendiária".

Um dos tais dissidentes, Antônio Carlos Magalhães, ex-governador baiano, não refugou. Soltou uma nota violentíssima, disse que "trair a Revolução de 1964" era "apoiar Maluf para presidente". "Trair os propósitos de seriedade e dignidade da vida pública é fazer o jogo de um corrupto", continuou.

ACM lembrou a promessa de Figueiredo de transformar o país numa democracia. Frisou que não se faz democracia com ameaças inúteis, porque o povo não se intimida."

Ao lado do texto que acompanhava a manchete, o jornal publicou um editorial em que condenava o discurso de Délio, chegava a ironizar suas "metáforas de enigmática interpretação". 'O Globo' ressaltava que o ministro era "autoridade do Executivo e chefe militar" e não líder ou militante partidário.

O caso foi decisivo para consolidar a vitória de Tancredo, do PMDB, na eleição indireta. Reforçou também que os militares haviam mesmo abraçado a candidatura de um político nascido na ditadura e que desde sempre fora identificado com a corrupção. O verno "malufar" era então usado nas ruas como sinônimo de roubar.

Anos depois, repórter da 'Folha', conversei com Roberto Marinho sobre o episódio. Ele revelou que ele e o velho amigo ACM haviam combinado os termos da reação ao discurso de Délio.


Os nomes dos generais

separador Por Fernando Molica em 04 de abril de 2018 | Link | Comentários (0)

Comecei na profissão durante o governo do general João Baptista Figueiredo, o último da ditadura. Na época, era fundamental cobrir solenidades como as formaturas na Aman e as visitas dos ministros militares ao Rio (não havia Ministério da Defesa). Saíamos quase no tapa para conseguir declarações dos militares sobre o processo de abertura, eleições diretas. Ficávamos eufóricos com cada palavra arrancada. Até hoje sei os nomes dos ministros do Exército (Walter Pires), Marinha (Maximiano da Fonseca) e da Aeronáutica (Délio Jardim de Matos). Na sucursal do Estadão havia até um repórter, Helio Contreiras, especializado na cobertura de militares.

Pouco depois, fiz, para a Folha, uma grande matéria sobre o processo que gerou a Constituição de 1946, passei umas duas semanas internado na Biblioteca Nacional lendo jornais da época. Fiquei espantado como, naqueles tempos, era importante ouvir chefes militares. Jornais, com frequência, publicavam o que determinado general, almirante ou brigadeiro pensava sobre a política brasileira. E, ao contrário dos ministros do Figueiredo, os militares dos anos 1940 falavam muito. Falavam e agiam, como provam os movimentos que desaguariam em 1964.

Militares ainda foram personagens importantes na transição para o governo José Sarney, seguraram o tranco no impeachment de Collor. Ao longo das últimas décadas, demonstraram respeitar o poder civil, passaram a cuidar das funções inerentes à carreira. Durante cerca de duas décadas, a cobertura de solenidades militares deixou de ser relevante. Agora, em meio a sucessivas crises, militares rompem o silêncio e voltam a falar em voz alta, não se constrangem em tratar da situação política do país. Repórteres voltaram a ter que decorar nomes dos comandantes das Forças Armadas - não consigo achar isso bom pra ninguém, nem mesmo para os chefes militares.


BG
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