Na Flip - Talese e Lobo Antunes
Já escrevi no blog sobre a convivência entre o jornalista e o escritor, o tal do teclado que nos une e nos separa. Ontem, aqui em Paraty, acompanhei as entrevistas coletivas de dois grandes craques - e, admito, ídolos - o jornalista americano Gay Talese e o romancista português António Lobo Antunes. Dois ótimos encontros.
A conversa com o Talese foi emocionante. Aos 77 anos, o sujeito ficou de pé durante mais de uma hora, falou com muito carinho e entusiasmo de seu trabalho, do seu jeito de apurar. Na era da internet, em que mesmo estudantes de jornalismo adoram mandar questionários por e-mail, o cara repetia que o repórter "tem que estar lá", tem que ir atrás do fato, de seus personagens. "Não vá ao Google, vá aos locais", insistiu.
Elegantíssimo, filho de um alfaiate, Talese deu outros dois bons conselhos para os jornalistas presentes à entrevista: seja educado e esteja sempre bem vestido. Afinal, de uma forma metafórica ou não, repórteres sempre batem à porta dos outros e é preciso deixar claro que quem está ali não é um "ladrão ou alguém que vá pedir dinheiro ao entrevistado", concluiu.
Já Lobo Antunes é cáustico, irônico. Faz um certo ar blasé, de quem não está muito aí para festivais literários, para encontros com jornalistas. Mas é outro que esbanja entusiasmo pelo que faz, seu ofício é exercido com seriedade e disciplina. Fez uma bela defesa dos livros e da leitura e não poupou elogios a escritores brasileiros como Paulo Mendes Campos, João Ubaldo Ribeiro e José Cândido de Carvalho. Ao longo da entrevista, soltou várias frases de efeito - algumas irônicas, outras melancólicas:
. "Não há doenças, há falta de educação da natureza" (ele é médico);
. "Quem tem que ser inteligente é o livro, não o escritor. Se livros fossem publicados anonimamente poupavam-se muitos problemas";
. "Os livros que gosto foram feitos só para mim";
. "Escrever é empurrar nuvens para fazê-las chover em sua propriedade";
. "A morte de livros me dói mais do que a morte de algumas pessoas, como políticos e banqueiros. É claro que algumas mortes me doeram muito, como a de Garrincha".
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Dianne Reeves e Madonna
Sei lá por que razão, saí ontem do show da Dianne Reeves fazendo comparações entre a sensualidade exalada pela cantora no palco com a demonstrada por sua conterrânea Madonna (estive na sua apresentação dela no Maracanã). Dianne é mais velha que a colega (vai fazer 53 anos em outubro, Madonna apagará 51 velinhas em agosto), não tem o corpo malhado (ao contrário, suas gordurinhas ficam bem evidentes), não entra no palco como quem sobe num queijo de boate de strip-tease. Não assume, enfim, a postura vou-te-comer da Madonna. Mas, acreditem, Dianne é mais sensual que Madonna - e aqui não farei qualquer comentário sobre as diferenças entre o talento musical de uma e outra, aí também é covardia.
Tentando sistematizar: a sensualidade de Madonna é por demais produzida, siliconada, armada como a de um filme pornô. Tudo ali tem que dar certo, tudo vai dar certo, tudo é preparado para a grande performance. Isso fica evidente nos corpos - da cantora e de seus bailarinos -, nas roupas, nos cenários. Uma espécie de Disneylândia de um sexo que se mostra provocativo, mas, ao mesmo tempo, seguro porque virtual. O importante não é o sexo em si, a trepada, mas a ilusão do sexo ou da trepada. Madonna anda pegando o modelo Jesus? Deve estar, mas o que isso importa? O importante é que todos pensem que eles andam se pegando. O sexo em Madonna não tem a ver com prazer, mas com a lógica de um produto. Pode ser que ela se divirta fazendo todo aquele sexo que diz fazer - assim como é possível que atrizes pornôs gozem em suas performances diante das câmeras. Mas gozar ali não é importante, o importante é que nós - o público - acreditemos que elas estejam gozando. Assim como, na platéia, não sabemos se Madonna está cantando ou se está apenas fazendo mímica.
Já com Dianne é o contrário. A sensualidade tem a ver com sua própria história, uma história parecida com a de todos nós. Uma história - supomos - cheia de percalços, de idas e vindas, de falhas, de amores que deram certo e de amores que não deram em nada. A sensualidade daquela gorducha apertada numa blusa de malha laranja transparece aos poucos, ao longo das belíssimas interpretações, em movimentos de corpo, em um ou outro comentário. A sensualidade surge como conseqüência, não é pensada para protagonizar o espetáculo (até porque a mulher canta pacas e não tem exatamente o corpo de uma stripper). Sensualidade que tem a ver com histórias meio bobas, engraçadas, como a da sua admiração por George Clooney (com quem trabalhou em "Good Night and Good Luck"). Sensualidade quase adolescente quando ela confessa que adora a canção "Just my Imagination" - bonitinha, mas nada comparável a alguns clássicos de seu repertório. Enfim, uma sensualidade que tem a ver com a vida, com algumas daquelas belas histórias que ela canta.
Conclusão? Sei lá. Como disse lá em cima, nem sei porque estou falando sobre isso. Mas desconfio que, além de mandar muito bem no palco, a Dianne deve fazer um estrago em ambientes mais, digamos, restritos.
Obs: caraca! Fui dar uma pesquisada no You Tube e vi que alguém já postou um vídeo pirata da apresentação da Dianne ocorrida ontem. Aí vai o link (ela canta, justamente, "Just my Imagination")
O tal do diploma
A derrota da exigência de formação superior específica para o exercício do jornalismo não chega a ser uma surpresa. O placar - 8 a 1 - foi talvez mais elástico do que o previsto, mas o resultado do jogo era previsível. É o desfecho de uma campanha iniciada há cerca de 25 anos pela "Folha de S.Paulo" e que, posteriormente, foi adotada por outras empresas. Mesmo entre a categoria, muita gente boa passou a condenar a limitação para o exercício profissional estabelecida em lei.
Alguns fatores foram decisivos para a vitória. O Ministério Público, autor da iniciativa de questionar a exigência do curso específico, soube usar uma tese canhestra, porém de grande impacto: a liberdade de expressão não poderia ser limitada. O argumento é falho, quem exerce o jornalismo sabe que não somos pagos para dar opinião. O decreto-lei hoje derrubado não impedia que profissionais de outras áreas se manifestassem em jornais e revistas. É só conferir as páginas de opinião para se comprovar isso.
A "Folha", além de levantar a lebre, teve também uma grande sacada ao batizar a campanha. O jornal não falava em formação profissional específica, mas em diploma. Soube reduzir o assunto a um aspecto cartorial, à posse de um canudo. Ter ou não ter o papel passou a ser a questão. Explorou também o caráter supostamente discriminatório da exigência, um argumento falacioso: universidades foram feitas para democratizar conhecimento. Não sei se eu, suburbano, filho de um contador e de uma dona de casa, teria conseguido chegar a uma redação de jornal se não tivesse cursado uma faculdade específica. A exigência legal - não apenas ela, claro - ajudou a profissionalizar o exercício do jornalismo, a democratizar suas portas de entrada. A formação que tive na universidade não chegou perto do ideal, mas foi a melhor que poderia ter tido, era a única - formal ou informal - que estava ao meu alcance. Não era parente ou amigo de jornalistas, não tinha qualquer pistolão. O curso universitário serviu como uma credencial para que eu pudesse ser recebido na primeira redação em que entrei para pedir um estágio. Isso ocorreu comigo e com muitos e muitos colegas.
A questão corporativa foi muito explorada. Isto, como se apenas os jornalistas tivessem essa postura. Em nenhum momento, se questionou a exigência de formação específica superior, assegurada por lei, para o exercício de outras profissões. Há reserva de mercado para arquivistas, economistas, profissionais de relações públicas, bibliotecários, secretários executivos, economistas domésticos. E, claro, para advogados: de acordo com Estatuto dos Advogados, criado pela própria corporação e que virou lei, uma pessoa não formada em direito não poderá sequer fazer a prova da OAB que o habilitaria a conquistar o direito de advogar. Mas não ouvi ninguém falando em acabar com a exigência de diploma para secretários executivos ou economistas domésticos.
Um bom argumento também foi o da vocação, como se não houvesse médicos, engenheiros, químicos e advogados vocacionados. No caso dos jornalistas, a vocação seria suficiente para um bom profissional. Não faltam, claro, exemplos de ótimos jornalistas não-formados em universidades. Pessoas vocacionadas, que tiveram sim uma formação específica, dentro das redações. Um processo ainda mais restritivo que o dos cursos de jornalismo. A universidade, insisto, democratizou essas oportunidades.
Nessa questão da vocação, o curioso é que só se falava nos grandes jornalistas sem-diploma. Nos ótimos exemplos de grandes profissionais que nunca cursaram jornalismo. Profissionais que se constituem mais em exceção do que em regra. Os defensores do fim do curso específico não trataram dos picaretas que enchiam redações, dos repórteres graneiros, coniventes com a polícia, com os políticos que lhes permitiam acumular o emprego no jornal com uma sinecura em alguma repartição pública. Nelson Rodrigues - um grande jornalista sem-diploma - soube retratar muito bem alguns dos péssimos profissionais com que conviveu. Insisto também: a exigência do curso específico ajudou no processo de profissionalização da imprensa exigido pelo próprio desenvolvimento social.
A goleada no Supremo também pode - desconfio - ser atribuída à crescente má vontade do judiciário com os jornalistas. Antes intocáveis, juízes, desembargadores e ministros de tribunais superiores passaram também a ser alvo de matérias. O relator do caso no STF, ministro Gilmar Mendes, foi um dos que tiveram muitas atitudes questionadas por jornalistas. Pode ser - pode, é apenas uma ilação - que isso tenha contribuído para a goleada. Juízes devem ser justos, mas sempre serão humanos.
As entidades representativas dos jornalistas também têm um papel relevante no resultado da votação. Elas, em momento algum, reconheceram a, de um modo geral, péssima qualidade dos cursos de formação profissional. Aferraram-se à defesa ampla, geral e irrestrita do diploma (sim, adotaram a denominação patronal para a questão) e não tiveram jogo de cintura para reconhecer os sinais de mudança. Mudança na correlação de forças e na própria sociedade. A internet confundiu os papéis, os jornalistas perderam o monopólio de informar - ninguém precisa de registro profissional para abrir um blog. Esse fenômeno foi ignorado. Procurou-se apenas bater pé pelo diploma e, se possível, ampliar sua exigência para outras funções nas redações. Pior: há alguns poucos anos, a Fenaj apresentou um projeto de criação de um conselho profissional mais preocupado em punir jornalistas do que em incentivar a qualificação e o bom exercício profissional. Não podia dar certo.
A Fenaj e os sindicatos de jornalistas também erraram ao não admitir a possibilidade de criação de cursos de pós-graduação que possibilitassem a concessão do registro de jornalista a profissionais formados em cursos superiores de outras áreas. Isso seria benéfico para a categoria, para os veículos, para o público. Isso também contribuiria para pressionar os cursos de graduação em jornalismo, que perderiam assim seu monopólio.
E agora? Acho que haverá poucas mudanças nas redações sérias. Por pior que sejam as faculdades de jornalismo, é melhor contratar alguém que, pelo menos, se mostre animado em seguir uma profissão tão esquisita e que já domine alguns de seus fundamentos. Em seu livro "Os jornais podem desaparecer?", Philip Meyer diz que, nos Estados Unidos, 79% (cito de cabeça) dos jornalistas que trabalham em redação são formados em jornalismo. Muitas faculdades de jornalismo devem fechar - o que é ótimo, a maioria nem deveria ter sido aberta.
Imagino que as consequências mais graves ocorrerão no serviço público. Com a desregulamentação absoluta, pode ser que voltemos à situação criada há alguns poucos anos, por esta mesma ação agora julgada em definitivo: qualquer pessoa - quer uma, mesmo que analfabeta - tinha o direito de requerer seu registro de jornalista. Se a lógica permanecer, será fácil preencher vagas de jornalistas com os apadrinhados da vez - isso, insisto, principalmente no serviço público: empresários não gostam de jogar dinheiro pela janela.
Enfim, não vejo grandes motivos para lamentar ou comemorar. Acho que teremos uma experiência interessante pela frente. E torço para que a sociedade brasileira - e aí incluídos seus meios de comunicação - se mostre disposta a lutar contra outras reservas de mercado no país. Até para não pegar mal, para não parecer perseguição.
Ética e democracia nas arquibancadas
Isso talvez ajude a explicar as discretas, senão medíocres, participações do Botafogo nos últimos campeonatos e torneios. Pesquisa do Ibope encomendada pela agência Blinder revela que os alvinegros são (somos), entre os torcedores dos times cariocas, os mais solidários e os que mais se dizem ligados a alguns princípios éticos. Vejamos alguns trechos da pequisa, publicada, domingo passado, por "O Globo".
. 47% dos torcedores do Vasco concordam com a frase "O mundo é dos mais espertos". Entre tricolores e rubro-negros, os percentuais de concordância são, respectivamente, 40% e 38%. Entre os que torcem pelo Botafogo, o percentual é de 33%.
. 40% de vascaínos e flamenguistas aceitam a seguinte formulação: "Eu me preocupo primeiro comigo, depois com os outros". O percentual de tricolores que se identificaram com esta definição foi de 35%; de alvinegros, 34%.
. Outra frase: "As pessoas deveriam ajudar mais a resolver os problemas sociais". Entre os rubro-negros, a concordância é de 83%; entre vascaínos e tricolores, o percentual sobe um pontinho, 84%. Já no caso dos alvinegros, o índice dispara para 93%.
Bem, é claro que os resultados podem ser questionados. Nem sempre quem se diz ético se comporta como tal. De qualquer forma, fico orgulhoso com o resultado. Mas, sei não, temo que esses números confirmem uma tendência, um sentimento que tem me angustiado. No fundo, temo que nós, alvinegros, estejamos ficando meio velhos, meio fora do compasso, do ritmo do jogo que tem sido jogado. O que, diga-se de passagem, não chega a ser ruim. Há um momento em que é bom dizer que não se quer mais brincar.
O jogo - o futebol e tudo que o cerca - tem ficado meio avassalador: a mesma pesquisa revela que torcedores do rubro-negro representam inacreditáveis 58% da população carioca (não faz muito tempo, o percentual era de 50%). Isso, mais do que uma preferência clubística, revela uma lógica que segue na direção de um pensamento único, de uma hegemonia que zomba de quem não faz parte dela. Outro dia, um amigo escritor, gaúcho recém-chegado ao Rio, se dizia assustado com os flamenguistas que praticamente o constrangiam a adotar a simpatia pelo rubro-negro. "Aqui no Rio, você tem que ser Flamengo", diziam.
Sei não, a história revela que a tendência à unanimidade nunca dá certo, sempre deságua em algum fascismo. A diversidade - de idéias, de comportamentos, de visões de mundo - é que produz um certo equilíbrio. Somos todos arrogantes e vaidosos demais, tendemos ao autoritarismo, precisamos do contraditório para segurarmos nossas pontas. Pior, em grupo somos mais propensos à covardia, à prática de humilhar o diferente, aquele que não se enquadra, que se recusa a entrar na corrente pra frente.
Em resumo: a avalanche rubro-negra é uma ameaça à democracia.
Obs: o amigo gaúcho, colorado de coração, adotou o Botafogo aqui no Rio.
As novas máquinas
O acidente com o avião da Air France me fez lembrar da participação do escritor argentino César Aira na Flip de 2007. Ele, de cara, leu um texto bem interessante sobre uma característica das máquinas modernas, computadorizadas. Em linhas gerais, disse que, pela primeira vez na história da humanidade, era impossível descobrir o segredo de uma máquina apenas com sua desmontagem.
Explico: o funcionamento de um velho fusca ou de um fogão tradicional está explícito em suas peças, na lógica de sua montagem e de seu encaixe. Um bom mecânico é capaz de desmontar um fusca, peça a peça, e explicar como aquilo funciona - carburador, platinado, câmbio. E, em tese, teria capacidade de remontar o carrinho.
A automação complicou esse processo: se eu desmontar este computador em que escrevo, encontrarei apenas fios e circuitos. Não há, aqui dentro desta máquina, nada que sugira suas diversas finalidades - neste momento, servir de suporte para este texto. Bem diferente, portanto, da máquina de escrever que eu cheguei a utilizar em redações de jornais: era um instrumento mecânico, movido por minhas mãos. O apertar de uma tecla movia algumas peças e, uma delas, ia de encontro a uma fita que carimbava um sinal gráfico numa folha de papel.
Os aviões antigos, como o Electra, seriam como as máquinas de escrever. Um bom mecânico saberia explicar como aquele negócio funcionava e voava. Era um mecanismo emprenhado de uma lógica visível e reconhecível, mais, digamos, humana. Já o Airbus, moderno e todo computadorizado, trabalha em um outro patamar. Trata-se de uma máquina que não confia nos seres humanos, que se quer melhor que seus criadores. É mais sensível, razoável, inteligente - capaz de analisar cada situação para tomar decisões mais corretas e equilibradas. É uma máquina que corrige o ser humano, que duvida de suas ordens: se um comandante quiser jogar o avião contra uma montanha, os sistemas do Airbus o impedirão. É programado para evitar atitudes radicais. O problema é que, volta e meia, é preciso ser radical para se salvar um avião.
Como diz o jargão jornalístico, as causas do acidente ainda são desconhecidas. Mas os jornais já aventam a possibilidade de problemas no sistema do avião. Em algum momento, a máquina pode ter gritado para seus, em tese, comandantes: "Segura aí, tô fora". Ou seja, a máquina pode ter dado pau. Isso, a dez mil metros de altura. E aí, cabe a dois seres humanos a responsabilidade de domar um aparelho construído para não ser dominado, para desconfiar dos homens. Segura, peão.
Obs: há muitos anos, uma falta repentina de luz no início da noite fez apagar todos os textos que estavam sendo escritos pelos repórteres da Sucursal Rio da Folha. O meu texto, inclusive. Houve uma gritaria, todos reclamamos, xingamos. Nisso, o Janio de Freitas, que então resistia aos computadores, saiu de sua sala sorridente, brandindo as laudas preenchidas em sua máquina de escrever. De sacanagem, ainda comentou em voz alta que, no caso dele, a falta de luz não causara a perda de qualquer informação.
Meu último trema
Para ressaltar "as línguas faladas dentro da Língua", Marcelo Moutinho e Jorge Sá-Reis, organizadores do Dicionário amoroso da língua portuguesa, optaram por não seguir as normas do novo acordo ortográfico. Os contos e poemas dos autores de países de quatro continentes foram publicados do jeito que mais parece traduzir a maneira que cada um tem de falar e pensar.
Antes que um protesto de características saudosistas, a decisão de Moutinho e de Sá-Reis reforça um ponto básico de toda essa discussão em torno do acordo. Até que ponto a diversidade ameaça uma unidade, no caso, a da língua portuguesa? Arrisco dizer que seria o contrário: a diversidade - de sotaques, de expressões, de jeitos de falar - até colabora para a formação de uma unidade dinâmica, corajosa, capaz de exprimir diversidade dentro de um conjunto que não pára de absorver mudanças.
Insisto num ponto que já levantei aqui. As diferenças ortográficas em nada impediam a leitura de autores do lado de lá do Atlântico. Mais, tornavam a aventura ainda mais saborosa, divertida. O grave é que o tal acordo procura formalizar uma maneira inédita de escrever o português. Não se buscou uma unidade em torno de consensos já existentes. Partiu-se para a criação de uma novilíngua que tenta construir pontes desnecessárias e que ajudam a enfear a paisagem.
Falou-se na necessidade de uma única norma culta, que preservasse o idioma, que facilitasse sua difusão internacional. É até engraçado falar em preservação numa época em que todos falam entre si, que as formas de comunicação estão tão acessíveis. Ao longo dos séculos, o português foi implantado nos confins da África e da Amazônia e soube resistir ao isolamento, à possibilidade de criação de dialetos. Falamos todos a mesma língua, não seria agora que, já bem grandinha, ela iria se perder.
Sei não, fico meio comovido ao ler, no meu conto que integra o Dicionário, a palavra "conseqüências": foi talvez a última vez que terei conseguido imprimir um trema em um livro. Talvez, só de sacanagem, dê o nome de Müller a algum futuro personagem. Os caras do acordo, afinal, decidiram respeitar o trema dos nomes próprios.
Tim Lopes - por Bruno, seu filho
O dia de hoje, 2 de junho, marca mais um aniversário do assassinato de um dos mais competentes jornalistas que conheci, o queridíssimo Tim Lopes, morto em 2002 quando fazia uma reportagem na Vila Cruzeiro. Seu filho, o também jornalista Bruno Quintella, com quem tive o prazer de trabalhar na Globo, acaba de me enviar um belíssimo texto sobre seu pai. Fico honrado - e emocionado pacas - em publicá-lo. Aí vai, é a melhor homenagem que se pode fazer ao nosso colega.
Hoje eu poderia escrever mais uma vez sobre violência. Sobre tráfico de drogas e de armas. Também poderia discorrer ideias ou pensamentos criticando a política de segurança do estado - ou a falta dela. Muros da discórdia.
Ou falar de assassinatos e torturas. Crimes e mortes.
Falar sobre impunidade, redução de pena, progressão de regime, guerra de tribunais e tribunais de guerra. Legitimação do estado democrático de direito ou sua proclamação, ainda que tardia. Censura à imprensa por parte do governo. Censura à imprensa por parte do tráfico - ou da milícia. Relembar casos do jornalista Tim Lopes, da equipe de reportagem do jornal "O Dia" e do bravo fotógrafo André Az, por exemplo. Ou do crescente número de mulheres grávidas vítimas da violência. Filhos que morrem dentro das mães: mães que morrem dentro dos filhos.
Também não seria novidade levantar outras questões, como o inferno que viveram agora - ou vivem - moradores de Copacabana e do Leme. Isso era coisa do subúrbio e zona norte, claro, fora Rocinha. Poderia reverenciar os últimos feitos em comunidades como o Batan, Cidade de Deus, Santa Marta, Chapéu-Mangueira. Vila Cruzeiro?
Não, não vou tocar nesse assunto. Nem deveria, porque estamos cansados da violência, vivemos em eterno estado de ressaca moral, ou melhor, ressaca social. São comerciantes, empresários, policiais, taxistas, jornaleiros, jornalistas, fotógrafos: trabalhadores. São chefes de família. Nem todos são pais, mas todos são filhos. A violência não escolhe profissão nem cartáter. A violência, sim, é indiscutivelmente democrática.
Mas não. Hoje quero falar do meu pai. Não do jornalista Tim Lopes. Mas do pai Tim Lopes. Alguém mais sente essa falta? Não. Ninguém. A saudade é imensa e, há sete anos, todo mês de junho é assim. A temperatura é mais amena, mas o frio é sempre maior. O silêncio do outono fala mais alto. Lembro da minha infância, correndo pela redação do Jornal do Brasil, de O Dia. Dos almoços de domingo, dos jogos do Vasco no Maracanã, ainda quando começavam às cinco da tarde. "Olha, vai de calça, senão não dá pra entrar na tribuna de honra do Maraca" ou " aquele ali é Touguinhó, puta jornalista" ou ainda "Ih, o Aydano tá ali... Foge, foge, porque ele é flamenguista". O convite "Quer entrar em campo? Niltinho (fotógrafo) vai te colocar na boa, cola com ele, vai, vai" e a ideia sugestiva: "Vamos de ônibus, porque se formos de táxi, não vai rolar grana pro lanche no intervalo do jogo". E íamos, pai e filho, em direção ao Maracanã, eu de boné e calça num calor de fevereiro: "Se você vai de boné, mermão, não pode sentar na janela. Vai dar mole? Nego do lado de fora leva logo na mão grande. Fica esperto" - advertia ele, temendo pela minha falta de malandragem, coisa de quem foi criado nesse feudo social chamado Zona Sul.
Lembro dos almoços em botequins, cafés da manhã em padarias, da praia no Posto 8, da festa junina da Mangueira, do sítio de Saracuruna, do pôr do sol no Arpoador, dos passeios pelo calçadão, das viagens, da mesada, das matérias que vi nascer em mesas de bar - e depois estampadas na primeira página dos jornais. Outras que abriam o Jornal Nacional, ou ainda, as reportagens "do boa noite do JN. Vê lá, filhote, creditozinho do teu pai." E eu via, porque não sabia ainda que vaidade e orgulho eram coisas diferentes.
O jornalista Tim Lopes era o meu pai? Não. O meu pai era o jornalista Tim Lopes. Como filho e também jornalista, não é fácil separar uma coisa da outra. Não que devamos desvencilhá-las, mas acho que sinto mais falta de um do que de outro. Não convivi com o jornalista Tim Lopes nas redações. Ouço as histórias, imagino os detalhes, como teria sido, como ele teria reagido em determinada situação, como conseguiu aquela entrevista. É como se percorresse um caminho de volta ao passado, sem nunca tê-lo vivido, mas que é trilhado pela saudade dos amigos e pela memória das matérias. Ler reportagens antigas, ou ainda ouvir "você é filho do Tim? Ô rapaz, teu pai certa vez...", me fazem ficar mais perto dele, do jornalista. Nunca vou saber como seria, mas posso ter uma ideia de como foi. Mas não em relação ao pai. Essa é a saudade que dilacera o homem.
Todo dia o meu pai morre, porque acordo com ele vivo. Ouço suas palavras, me divirto com suas gargalhadas, me assusto com suas broncas em voz baixa, suas risadas desordenadas, seu olhar de criança. Mas no final do dia, acabo lembrando que ele não está mais aqui. Que não volta mais. Que nunca mais meu pai vai me dar um pito ou um abraço apertado, ou vai dizer: "meu filho, que orgulho! você agora é jornalista". O que dá coragem de seguir em frente, é que todo dia meu pai, depois de morrer nasce mais forte, dentro de mim. E começo a entender: nunca me deixou. Sinto sua presença mesmo sem saber quando nem onde. Não saber, mas sentir.
O amor de pai e filho não cabe em palavras nem lágrimas. Elas são apenas afluentes da saudade. O amor de filho aumenta a cada dia. E todo mês de junho, entre o dia de morte de meu pai e o dia do meu nascimento, separados por dez dias, me sinto mais próximo dele. Não porque vou ficando mais velho, mas porque vou me tornando mais homem, açoitado pela crueldade da morte, mas fortalecido pelo sofrimento da vida.
A primeira vez que andei sozinho na rua devia ter uns sete anos. Desci do antigo apartamento de meu pai, na Rua Jangadeiros, e fui à lanchonete da esquina comprar caldo de cana e pastel de queijo. Tudo era aventura: até apertar o botão do elevador. Atravessei a rua, estiquei a mão com o dinheiro e fiz o pedido. Lembro que comi em pé, só, olhando do balcão para a janela onde meu pai me fitava cuidadoso, mas desviava o olhar de quando em quando, para que eu tivesse a ligeira sensação de que estava sozinho no mundo. Aí, quando o flagrava me olhando de volta, ele acenava discretamente, esticando o polegar da mão direita e arriscava um assovio malandro, que só eu reconheceria. Ele sorria, sei porque enxergava seus dentes de longe. Talvez porque estivesse sorrindo com o coração. Estávamos felizes. E depois de limpar a boca com as costas da mão, me dirigi de volta pra casa, cheio de pose, aos sete anos, pensando: a rua é um palco onde tudo pode acontecer. Mal sabia eu que já era jornalista naquele tempo.
Hoje sinto que estou andando pela primeira vez não na rua, mas na vida. E meu pai me olha de outro lugar e não da janela do apartamento. Ainda ouço o assovio malandro, lembrando feliz daquele tempo. Esse Tim Lopes não morreu.
E toda vez que volto pra casa, fecho os olhos, e consigo vê-lo esticando o polegar, sorriso malandro e penso: o coração é um palco onde tudo pode acontecer.
As festas
1. Mais do mesmo: o insuportável processo de compra de ingressos para a Flip virou uma espécie de tradição. Talvez, um dia, nos lembremos disso como da lama que ameaçava nos engolir na primeira edição do Rock in Rio - sim, eu fui. Pior, cobri. Mas, na boa: é quase inacreditável constatar que os caras conseguem trazer o McEwan, o Coetzee, o Lobo Antunes, o Gay Talese - e não conseguem articular um sistema decente para a venda dos ingressos.
2. Para lembrar: hoje, na Travessa de Ipanema, a partir das19h30, lançamento do Dicionário amoroso da língua portuguesa. Estarei lá - devo chegar um pouquinho mais tarde, é preciso fechar a coluna antes - com o Moutinho (organizador), Antônio Torres, Flávio Izhaki, Heloisa Seixas, Antonio Cícero, Armando Freitas Filho, Marcelino Freire, Ondjaki, Adriana Lisboa, Alexei Bueno, Tatiana Salem Levy e Henrique Rodrigues. Fundamental: nada de vinho branco. Teremos vinho verde, cerveja, caldinho de feijão e bolinho de bacalhau. Inté.
Faixa
Em comentário ao post anterior (leiam!), o bravo Zé Sérgio, dono do ótimo blog "Quem é vivo sempre aparece", conta como as tiras de papel de seu eletro viraram faixa de campeão em 89. Lembrei então do triste destino de minha faixa de campeão carioca, comprada na saída do Maracanã.
O jogo terminou tarde pacas, não havia táxis nem ônibus. Como o Chico não apareceu, eu não tinha com quem beber. Não havia combinado nada com ninguém - até porque alvinegro não combina comemorar título que ainda não ganhou. Na época, vale lembrar, não havia celular. Saí do estádio e comecei a caminhar na direção de casa, morava no Grajaú. Passei ali pela Universidade do Chopp que existia na Tijuca, bebi um pouco, comemorei - e segui a pé para casa, feliz da vida com a faixa de campeão no peito.
Eis que, ao passar diante do Quartel da PE (aquele mesmo, o das torturas), na Barão de Mesquita, vi no horizonte a aproximação de um grupo de jovens. Uns 50 caras. Mais: uns 50 sujeitos em cujas camisas predominavam as cores preta e vermelha. Ou seja, eu caminhava em direção a um bando de rubro-negros, rubro-negros irritados por terem perdido um título para o Botafogo (no time deles, dirigido por Telê Santava, havia jogadores como Zico, Bebeto e Leonardo).
Fazer o quê? Havia uma rua à direita, poderia ter tentado escapar por ali. Achei meio perigoso, os caras poderiam vir atrás de mim. Optei pelo tudo ou nada: entrei no meio da turba. Logo de cara, um sujeito puxou a minha faixa e eu, acreditem, tentei protestar. Um segundo gritou algo como "mete a porrada nesse mané" - uma sugestão que, achei, repercutiu bem no grupo. Quando eu já me preparava para apanhar ou para ensaiar um discurso sobre a paz universal e a irmandade entre os povos, um dos sujeitos, um curioso e raro exemplar de rubro-negro sensato, gritou:
- Deixa o cara ir embora, porra!
O sujeito tinha prestígio, a sugestão foi acatada. Eu, feliz da vida com o título e com o alvará de soltura, ainda cometi a besteira de recuperar a faixa, perguntei por ela. Mas o tal rubro-negro sensato demonstrou que era até mais sensato do que eu. Virou-se para mim e disse:
- Mermão, tu tá no lucro. Vai embora.
Segui o conselho e fui para casa onde, feliz da vida, dei um beijo de campeão no meu então único filho, que tinha dois anos de idade.
Réu confesso
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Uma nota no site Comunique-se me fez lembrar de um dos momentos mais gloriosos e ridículos da minha vida, quando, no dia 21 de junho de 1989, o Botafogo voltou a ser campeão carioca - o último título tinha sido conquistado em 1968!
A notícia do Comunique-se é a seguinte:
A Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro (Acerj) divulgou comunicado pedindo que os profissionais não comemorem os gols de seus times dentro da tribuna de imprensa do Maracanã. Os associados podem frequentar o espaço mesmo quando não estão em serviço, mas devem respeitar os colegas que estão trabalhando.
Pois. Assisti ao jogo da tribuna de imprensa. Isso, por puro acaso. O igualmente alvinegro Chico Santos, que iria comigo ao Maracanã, teve que ficar até mais tarde na redação, a sucursal da Folha. Para não ficar sozinho, eu, que já tinha comprado ingresso, fui para tribuna (na época, era credenciado). Se me comportei? Merecia levar um cartão vermelho da Acerj. Lembro que terminei o jogo de pé sobre os braços das cadeiras, pulando abraçado com um outro colega botafoguense. O mais curioso é que, algumas filas abaixo, o Dapieve comemorava a vitória com aquele seu jeitão britânico - sentado, aplaudindo discreta e pausadamente o time.
Aqui, link para matéria do Globo Esporte que noticiou a conquista do título.
Cuenca, Brizola e os pides
O episódio do Cuenca e da festa da Adidas em uma casa cheia de referências ao nazismo faz lembrar uma história que o Brizola adorava contar. Dizia ele, quando queria associar alguém a uma situação meio condenável/constrangedora: "O sujeito tem olhos de jacaré, rabo de jacaré, boca de jacaré, couro de jacaré... E vem dizer que não é jacaré?!?!?!?!" OK, não dá pra dizer que o dono dal casa alugada para a Adidas seja simpático ao nazismo. Mas que ele deu muito mole, deu.
Ah, outra boa história, esta da época da Revolução dos Cravos e que envolve a Pide, a terrível polícia secreta salazarista. Dizia-se então em Portugal que, depois do 25 de Abril, um sujeito que denunciasse um pide receberia uma recompensa de 10 mil escudos. Dois pides, 20 mil escudos. Três pides, 30 mil escudos. Interessado na recompensa, um amigo pergunta a outro:
- Mas, ó pá, e se o gajo entregaire quatro pides? Receberá 40 mil escudos?
- Não - responde o amigo. - Se ele entregaire quatro pides vai preso porque conhece pides demais.
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A capa
Aí vai a capa do Dicionário amoroso da língua portuguesa, que a Casa da Palavra lança, no próximo dia 2, a partir das 19h30, na Travessa de Ipanema.
Uma bela Canção
Tenho uma velha implicância com hinos militares, aquela história de matar, trucidar, aniquilar. Admito também uma certa implicância com militares; fui criado durante a ditadura, caramba. A insistência das Forças Armadas em defender golpistas e torturadores só contribui para a manutenção dessa, digamos, distância crítica.
Mas nem por isso deixo de reconhecer feitos importantes, como a meio improvisada - e nem por isso menos heróica - participação dos brasileiros na 2ª Guerra. Nossos pracinhas lutaram do lado certo, ajudaram a enterrar o nazi-fascismo. Palmas para eles. Palmas emocionadas também para a "Canção do Expedicionário", belíssimo hino de Spartaco Rossi e Guilherme de Almeida que embalou sonhos, cultivou esperanças e consolou medos e pesadelos ao longo da campanha na Itália. Não sei quando a ouvi pela primeira vez, sei que sempre a achei belíssima, cheguei a utilizá-la algumas vezes para sonorizar reportagens de TV.
Ontem, ao passar pelo ótimo blog "Histórias do Brasil", do amigo alvinegro Luiz Antonio Simas, li um post específico sobre a "Canção do Expedicionário". Simas fez alguns comentários e colocou links para a letra e para uma gravação do hino. É de arrepiar.
Sempre questionei aquela história de classificar o povo brasileiro como pacífico. Somos até violentos em excesso, basta olhar em volta. A longa experiência escravocrata também desmente esta tese pacifista. Mas, de qualquer forma, não deixa de ser legal ter um hino de guerra que pouco fala em combate. Um hino lírico, que exalta a terra natal e, citando um conhecido poema, ressalta a vontade de voltar - "Não permita Deus que eu morra/Sem que volte para lá". E tome de falar em "praias sedosas", "montanhas alterosas", "pampas", "seringal","margens crespas dos rios", "luar do meu sertão", "braços mornos de Moema/ Lábios de mel de Iracema". Há trechos particularmente belos:
"Do azul mais cheio de luz,
Cheio de estrelas prateadas
Que se ajoelham deslumbradas,
Fazendo o sinal da Cruz !"
e
"E de uma Pátria que eu tenho
No bojo do meu violão;
Que de viver em meu peito
Foi até tomando jeito
De um enorme coração."
Sei não, acho que Cartola teria prazer em assinar versos como esses. Bem, aí vão duas dicas: visitar o blog do Simas e ouvir a bela Canção.
Língua amorosa
No próximo dia 2, a partir das 19h30, haverá o lançamento, na Travessa de Ipanema, do Dicionário amoroso da língua portuguesa, livro transatlântico editado pela Casa da Palavra e organizado pelo Marcelo Moutinho e pelo português Jorge Reis-Sá. Escritores do Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e Timor-Leste foram convidados a desenvolver um conto ou poema a partir de uma palavra de sua livre escolha. Fiquei muito feliz em ser convocado, estarei lá, na letra B do dicionário. Um detalhe importante: o livro NÃO levará em conta as normas do tal acordo ortográfico - diria que é uma espécie de último suspiro de um português escrito com sotaque próprio. Apareçam, a festa promete ser bonita, pá.
Abaixo, a lista dos autores:
Brasil: Adriana Lisboa, Alexei Bueno, Amílcar Bettega, Antônio Cícero, Antônio Torres, Armando Freitas Filho, Bruna Lombardi, Fabrício Carpinejar, Fernando Molica, Flávio Izhaki, Glauco Mattoso, Heloísa Seixas, Henrique Rodrigues, José Fernandes da Silveira, Marcelino Freire, Marcelo Moutinho, Mariana Ianelli, Paulo Henriques Britto, Raimundo Carrero e Tatiana Salem Levy
Portugal: António José Teixeira, Cláudia Galhos, Desidério Murcho, Francisco José Viegas, Jorge Reis-Sá, Jorge Rocha, José Luis Peixoto, Manuela Ribeiro, Paulo Brody e Rui Lage
Angola: Ana Paula Tavares, João Melo e Ondjaki
Moçambique: Guita Jr.
Timor Leste: Luís Cardoso
Crueldade
Simonal - ninguém sabe o duro que dei é um flme sobre a crueldade. A crueldade é talvez o eixo que une os diferente momentos do (ótimo) documentário. Não parece, mas o gene do mal está presente até no início do filme, dedicado à ascensão e glória do cantor: um negro marrento, filho de empregada doméstica, dono de um talento espetacular, um sujeito capaz de hipnotizar platéias brancas e bem-nascidas que, ao seu comando, ficavam a repetir versos como "Uma vez eskindolêlê, iê iê/ Outra vez, eskindolálá".
Aquele mundo, aquela riqueza, aquele deslumbre não tinham sido feitos para ele, o Brasil não foi feito para admitir um sucesso daqueles, um sucesso conquistado por um sujeito com as características de Simonal. Ele, a exemplo do seu contemporâneo Paulo César (que, ao ir para o Corinthians, ganharia o horroroso e grudento apelido de "Caju"), era um negro que fazia questão de não saber qual era o seu lugar, o lugar reservado para fenômenos como ele. Melhor: sabia, e não concordava com isso. Ganhava seu (muito) dinheiro e tratou de gastá-lo como queria, de gastá-lo como qualquer um, como qualquer branco (lembro agora de uma cena do "Assalto ao trem pagador": o personagem do Reginaldo Farias, o louro mentor do assalto, diz para Tião Medonho que, ele, branco, podia usar a grana, comprar carros, esbanjar dinheiro. Ninguém estranharia. Já o Tião, negro, tinha que continuar na favela. Um negro com dinheiro chamaria a atenção de todo mundo).
No início dos anos 70, aquilo que então se chamava de "sistema" (assim mesmo, com aspas) tratou de armar uma vingança para Simonal, aquele negro abusado. Uma crueldade, digamos, sistêmica, social. Despreparado para tanto sucesso, o cantor cavou sua tragédia ao, brasileiramente, procurar na brutalidade a solução para um problema. Como bem ressalta Nelson Motta no filme: um outro cidadão, mais bem educado, com melhor entendimento dos códigos sociais e institucionais, teria reagido de outra maneira diante da suspeição de estar sendo roubado. Contrataria advogados, contadores, iria à Justiça. Simonal fez o que muitos brasileiros fariam: partiu para a porrada, para a covardia, apelou para a lei dos mais fortes (poucos anos antes, os militares tinham feito o mesmo para depor Jango). Foi cruel (olha a crueldade aí de novo) com seu contador. Achou que, por ser Simonal, estaria impune. Sifu - como diria o povo do "Pasquim". Até por ser Simonal - um cara famoso, artista de sucesso - não poderia feito aquilo.
Mas fez: arrogante, ainda se vangloriou de seus supostos bons contatos entre os poderosos de então (no fundo, reciclou o então muito usado "Sabe com quem está falando?"). Fez o que muita gente fazia. Ainda mais naquele tempo em que o apoio à ditadura era muito grande (era sim: o país crescia muito, ganhava-se muito dinheiro, o Médici era aplaudido no Maracanã: em Piedade, morríamos de medo dos tais terroristas que seqüestravam diplomatas e assaltavam bancos). Simonal não sacou bem os códigos: o sabe-com-quem-está-falando nunca devia ser dito em público. Empresários e políticos que faturavam com a ditadura, que apoiavam e financiavam a Oban, eram contidos em suas declarações, não elogiavam gorilas, fingiam não saber da tortura. Eles sabiam como se portar, muitos deles ainda estão por aí, ricos e cheios de prestígio. Simonal não sabia essa regra, não tinha sido preparado para isso. Provou então da crueldade do tal sistema - aquele mundo de sucesso não era para pretos arrogantes como ele. Simonal mostrou que não sabia se comportar, não sabia jogar o jogo. Apelou para a crueldade explícita - deu no que deu.
Crueldade que se voltaria contra ele de maneira arrasadora. Virou bode expiatório, aquele não era um período para sutilezas, nada pior que ser considerado um dedo-duro, sequer foi defendido por seus supostos amigos/mlitares/gorilas. O resto, todo mundo sabe, o filme apenas acrescenta detalhes dramáticos e patéticos sobre a decadência de Simonal. Talvez seus descendentes tenham até o direito de reivindicar uma daquelas indenizações: por caminhos tortos, Simonal, o algoz do contador, acabou vítima da ditadura.
Detalhe: o filme mostra uma foto de Simonal em que, se não me engano, aparece, ao fundo, o locutor Cesar de Alencar, outro que foi chamado de dedo-duro por artistas que com ele trabalharam na Rádio Nacional.
RF e RC
Em meio ao disse-me-disse em torno da saída de Rubem Fonseca da Companhia das Letras, li num jornal algo que me surpreendeu: as vendas dos seus últimos livros patinaram entre 15 mi e 20 mil exemplares. Um ótimo patamar para a literatura brasileira contemporânea, mas números baixíssimos quando falamos de um escritor que já lançou ótimos livros, que não deixa de ser referência e não pára de despertar paixões - contra e a favor - entre nós.
OK, seus últimos livros pouco acrescentam à sua obra, tendem à repetição, são meio assim-assim. Mas todos foram recebidos com festa. Capas nos cadernos literários, resenhas quase sempre elogiosas ilustradas por uma foto do autor feita de forma clandestina.
Sei não, acho que há algo errado nessa história toda. Ou o cara continua bom e o público ficou mais desinteressado, ou o sujeito piorou e os leitores têm tem toda razão em não dar muita bola para seus novos livros. Pode haver também uma combinação desses e de outros fatores. De qualquer forma, fica a impressão de um certo conservadorismo de quem dita as regras do bom/ruim, do divulgável/não-divulgável. Livro de Rubem Fonseca não é CD de Roberto Carlos para conquistar espaço apenas por inércia. Isso é injusto com o leitor e também com o próprio RF.
Desfalques
Primeiro, Maicosuel e Reinaldo; agora, Carlos Fuentes - ele não virá para a Flip. A vida é dura. O mexicano alegou motivos pessoais, diz a organização - ou seja, não há motivo explícito. Até porque nunca ouvi falar em motivos impessoais. Acho que vou pedir um desconto no hotel.
Páginas amarelas - O Rio e os Jogos
Em fevereiro de 1997, há 12 anos, publiquei o artigo abaixo em "O Globo". Era um comentário sobre ôba-ôba criado em torno da candidatura do Rio aos Jogos Olimpícos de 2004. Acho que vale republicá-lo.
Uma cidade maior que os Jogos
Nada como um olhar estrangeiro para nos revelar aquilo que, por costume ou conveniência, nos recusamos a ver. Os integrantes da missão do Comitê Olímpico Internacional que analisaram a candidatura do Rio aos Jogos de 2004 cumpriram um pouco o papel daqueles antigos visitantes que, na época da colônia, passaram por aqui e que até hoje nos ajudam a ver o Brasil.
Chega a ser espantoso que alguns manifestem surpresa com algumas observações negativas feitas no relatório do COI sobre a candidatura carioca. Pelo que dizem os jornais, os autores do documento registraram a festa, o nosso desejo de sediar as Olimpíadas. Mas deixaram claro que boas intenções não bastam - e eles têm justificadas dúvidas sobre nossa vontade de, em sete anos, equacionarmos problemas sociais que, ao longo de quase cinco séculos, vêm sendo .despachados para o fim da fila.
Não se pode acusar os patrocinadores da candidatura de tentarem esconder nossas mazelas: inspirados por Betinho, souberam transformar a desvantagem em um gol que se espera de placa: o miserê crônico não representaria um obstáculo aos Jogos; ao contrário, estes se constituiriam em um grande catalisador de soluções para os nossos problemas. De tão bom, o argumento acabou sendo registrado no tal relatório do COI. Já é meio-gol.
Por vias mais ou menos tortas, a argumentação acaba revelando o constrangimento de um país que, em busca dos Jogos, é obrigado a admitir que ainda não se esforçou em oferecer o mínimo de dignidade para a maioria de seus habitantes. O raciocínio de que as Olimpíadas é que acenderão esta chama redentora não deixa de ser uma nova versão para a tese do país do futuro (lembram?); uma conclamação na, linha do "desta vez vai".
Nisto tudo, porém, há algo a comemorar. De olho nas Olimpíadas, estamos descobrindo o óbvio: que a pobreza, a falta de saneamento básico e de transporte coletivo, a poluição, a criminalidade, o grau de desigualdade social por aqui verificado - enfim, todas estas formas de violência - são incompatíveis com um projeto de uma convivência social mais harmônica e saudável.
Vá lá que esta descoberta foi meio assim por acaso. O objetivo primeiro é o de se conquistar as Olimpíadas. A melhoria das condições de vida da população entra como uma espécie de subproduto, mas isto já é um grande avanço.
Resta esperar que - independentemente da decisão do COI sobre a cidade olímpica - frutifique entre nós uma lição que, de tão velha, não mereceria ser aqui repetida: a de que não é possível se perpetuar uma situação social como a nossa.
O problema não é a eventual inviabilidade de sediarmos uma Olimpíada, mas a impossibilidade de continuarmos a viver em uma cidade e em um país com tantas mazelas. O que está em jogo não é uma Olimpíada, mas a nossa sobrevivência. Uma eventual derrota da candidatura do Rio não deve ser encarada como uma tragédia, mas como um estímulo para que, enfim, passemos a encarar nossos velhos problemas.
Uma cidade que seja boa para a maioria de seus habitantes será excelente para abrigar uma Olimpíada. Um Rio mais justo e humano seria quase que imbatível na disputa por qualquer evento internacional. O que é bom para nós também seria bom para eles.
Mesmo que os Jogos não venham, a luta por uma cidade melhor - inspirada pela candidatura - já seria uma espécie de milagre a ser creditado na conta do tal espírito que, além de Olímpico, neste caso, mereceria também o direito de ser chamado de Santo.
Os muros da realidade
Ainda sobre aquela questão da realidade e suas representações. Lembro que há um cacetal de anos, quando tentava fazer um documentário em Super-8 sobre as filas para a compra de feijão, dei de cara com uma revista de cinema paulistana. Os caras brincavam com uma foto do Lula - ele mesmo, então líder sindical - carregado por companheiros. Da boca do Lula saía um balão, como o das histórias em quadrinhos. Dentro do balão, em francês (ô esquerda chique), a frase: "O cinema-verdade não existe!".
Por que cito isso? É porque, semana passada, vi o Entre os muros da escola, ótimo longa francês dirigido por Laurent Cantet. Uma ficção sobre conflitos em uma escola pública parisiense. Um filme baseado num livro e que tem o maior jeitão de documentário: ausência de trilha sonora, atores não-profissionais, câmeras e fotografia que imitam a pegada do cinema dito documental. Tudo - diálogos, planos, interpretação - dá a tal idéia de realidade, de cinema-verdade.
É aqui que está a grande jogada. Para fazer sua ficção, o diretor vestiu seu filme com as roupas do que se classifica de "real", fingiu que se tratava de um documentário (e, aí, acabou brincando com a idéia de que um documentário documenta, exprime a realidade). Ao trazer para a ficção os chavões estéticos do bom documentário, o filme ajudou a confundir ainda mais a tão delicada fronteira entre realidade e ficção. O filme, diriam rotuladores mais ortodoxos, é real, retrata a realidade de uma França contemporânea, os muitos impasses, os choques entre diversas culturas. Mas o filme é apenas uma das infinitas possibilidades de se ver aquela realidade. Não passa de mais um certo olhar.
Entre os muros da escola é uma ficção que se finge ser documentário e que, por isso, documenta o único elemento que qualquer filme - ficcional ou documentário - pode, com absoluta sinceridade, documentar: a visão de seu realizador, o embate entre quem filma/monta e quem/o que é filmado. Traduz a única verdade do cinema - ou do teatro, ou da literatura, ou da pintura. Afinal, o cinema-verdade, de uma verdade-absoluta, não existe.
Pecados capitais
Não quero, de maneira alguma, aliviar a barra e a responsabilidade de deputados-agentes de viagens e dos policiais que pararam seus carros (nossos carros, são veículos oficiais) de maneira irregular para assistirem à posse do novo chefe da Polícia Civil do Rio. Os caras erraram feio e merecem ser punidos.
Mas, sei não, acho que os sujeitos fizeram o que a maioria do bravo povo brasileiro adoraria fazer: 1. botar a família (aí incluídos amigos, amantes, a galera da pelada) pra viajar às custas dos cofres públicos; 2. chegar no centro da cidade, de qualquer cidade, e parar o carro no primeiro espaço disponível - sobre a calçada, em fila dupla, dane-se.
Suponho que exista mesmo uma profunda inveja da possibilidade de se cometer transgressões como essas. É simples: parlamentares e tiras são gente como a gente, saíram da mesma sociedade, das mesmas ruas, jogaram bola nos mesmos campos. Foram criados em um universo em que o acesso ao emprego público - e, em muitos casos, ao então bom ensino público - se dava por meio da amizade, do jeitinho, do quebra um galho aí pra mim, parceiro.
O processo civilizatório é bom, mas é chato. Nos obriga a comer de boca fechada, a não cuspir na rua, a não palitar dentes na mesa, a não parar carros sobre a calçada. Nos obriga a estudar para passar em concurso público, a não furar filas. Tudo na base do não. Claro que isso tem suas vantagens: a vida fica melhor quando todos aceitam abrir mão de algumas trogloditices em troca de um abstrato, mas facilmente reconhecível, bem comum.
Minha mais marcante experiência européia foi em Londres, em 1985: numa rua onde não havia sinais de trânsito, pisei numa faixa de pedestres e os carros pararam! Assim, na moral. Isso, em Abbey Road, com aqueles londrinos certamente irritadíssimos com os turistas babacas que cismavam em posar para fotos imitando os Beatles. É chato pisar no freio? Claro que é. Mas o sujeito pisa no freio sabendo que outros farão o mesmo gesto na hora em que os filhos dele - ou seus pais ou avós - estarão atravessando outras ruas. Pronto, eu faço, você faz, todos fazemos - e a vida fica melhor.
O problema é que fazer acordos como o aí de cima implica em abrir mão de privilégios - nesse ponto, como diriam meus bisavós, a porca torce o rabo. Ninguém gosta disso. Um exemplo escandaloso disso é a grita com a possibilidade de reforma dos mecanismos de incentivos fiscais para a produção artística. Tem gente que, com a maior cara-de-pau, continua achando muito justo que empresas privadas tenham direito a receber de volta todo o dinheiro que aplicam no financiamento de um show ou de uma peça de teatro. Repito: todo o dinheiro. Isso, para espetáculos montados em espaços comerciais, com cobrança de ingressos. Mexer nisso é um sacrilégio.
O Brasil é, reconheçamos, espetacular: os caras inventaram um jeito de fazer com que quase 200 milhões de pessoas paguem compulsoriamente o ingresso de uma peça que vai ser vista por 20 mil pessoas. E os produtores da peça não são obrigados a fazer temporadas populares. Nada disso, Sei lá, mas não vejo muita diferença entre fazer isso e estacionar em local proibido ou em levar a parentada para viajar de graça.













