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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Esquerda e direita

separador Por Fernando Molica em 30 de outubro de 2017 | Link | Comentários (0)

Até por ser botafoguense, começo a ficar muito irritado com essa lógica de Fla-Flu que tomou conta da vida brasileira. Qualquer gesto, qualquer opção, qualquer manifestação passou a ser enquadrada como "de esquerda" ou "de direita". Passam ao largo da briga as definições clássicas de esquerda e direita, questões de fundo econômico. O que vale é o fetiche.

Entram na conta da esquerda até mesmo propostas que, historicamente, estavam relacionadas à agenda liberal, como ecologia, feminismo e direitos de homossexuais. Não faz tanto tempo assim, a palavra de ordem na esquerda era jogar essas questões para depois da Revolução, até para não desviar o foco da luta pelo socialismo.

Mesmo a democracia representativa - que prevê a existência de partidos de todas matizes - tem mais a ver com o liberalismo (com a direita, portanto) do que com a esquerda, que, por décadas repetiu o mantra da ditadura do proletariado. Até o capitalismo era defendido com base na liberdade - liberdade de mercado implicaria em liberdade política (a China bagunçou o coreto, mas o princípio continua).

Agora, tudo foi pro espaço. Até por não poder mais associar corrupção apenas à esquerda, grupos conservadores rasgam bandeiras históricas do liberalismo para defender censura, fechamento de exposições, proibição de palestras. Setores mais radicais da esquerda entram na dança ao tentar impedir a exibição de um filme sobre um ideólogo da direita.

No fim das contas, teremos que fazer uma tabela: homem nu é de esquerda; mulher pelada (aquela parada machista, de exploração do corpo feminino) de direita. Novelas da Globo com seus casais gays são de esquerda; as da Record, de direita. Cabelos grisalhos são de esquerda; pintados (em nome de Deus, da família), de direita.
Candomblé é de esquerda; igrejas evangélicas são de direita. São Francisco de Assis é de esquerda; São Sebastião (usa vermelho, mas lutou ao lado dos portugueses), de direita.

Largo de São Francisco da Prainha é de esquerda; Praça Antero de Quental, de direita.Comida vegana é de esquerda; churrascaria, de direita. Praia do Leme é de esquerda; Ipanema é de direita; Paquetá (com todos aqueles blocos, festas do Raphael Vidal), de esquerda; Ilha do Governador, de direita. Mangueira é de esquerda; Beija-Flor, de direita. Sexo papai-mamãe é de direita; variações sobre o tema, de esquerda. Proibir exposição é coisa da direita; impedir biografias, da esquerda.

Enquanto a gente perde tempo com essas caricatas tentativas de categorização, o país afunda, a miséria aumenta, o emprego patina. Temas como as reformas trabalhista e previdenciária, que afetam todos nós, despertaram muito menos paixão. Enquanto isso, o poder - poder mesmo, entidade quase eterna entre nós - aproveita nossa distração e, ambidestro, rouba com as duas mãos e morre de rir de tantas idiotices.


O Mercado e o Cotidiano na 'Folha' de domingo

separador Por Fernando Molica em 29 de outubro de 2017 | Link | Comentários (0)

As contradições brasileiras são evidentes demais. A 'Folha' destaca hoje no caderno 'Cotidiano' uma ótima reportagem de três páginas sobre famílias que passam fome na cidade de São Paulo. A matéria é ilustrada com fotos de personagens e de suas geladeiras vazias. Aí você vira a página e dá de cara com uma foto - bonita, bem iluminada - de um balcão de supermercado entupido de alimentos, um anúncio imenso da rede St. Marche, um "mercado que entende de comida".

Também hoje, na capa do caderno 'Mercado', a 'Folha' chama para outra importante reportagem. Estudo internacional mostra que os ricaços brasileiros têm ganhos superiores aos franceses que estão no mesmo patamar - o 1% da população mais abonada daqui recebe mais que o 1% que, por lá, garante vaga no topo da pirâmide social.

Até os nomes dos cadernos ajudam a ressaltar as contradições. De um lado, a lógica do Mercado, do outro, a realidade do Cotidiano.


Aimó e a rica mitologia que desconhecemos

separador Por Fernando Molica em 27 de outubro de 2017 | Link | Comentários (0)

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Terminei de ler o encantador 'Aimó - Uma viagem pelo mundo dos orixás', de Reginaldo Prandi (Seguinte). O livro, como ele frisa, não é religioso, trata de mitologia, "a maior mitologia viva do mundo", como ressalta em uma Nota do Autor. É impressionante como abrimos mão de estudar mitos tão bonitos, tão complexos, tão instigantes e tão presentes na nossa cultura, em nosso cotidiano. Ninguém precisa acreditar em Zeus e em Atena para conhecer a mitologia grega, o mesmo deveria valer para as culturas vindas da África.

Assim como os deuses gregos e romanos e diferentemente dos santos católicos, os orixás não buscam a perfeição. Como os humanos, matam, traem, seduzem, cometem injustiças. Pecadores? Não, não existe a noção de pecado, trabalha-se com a construção de vidas, de tomadas de decisões que, certas ou erradas, geram consequências. Vidas que podem ser revividas, do Aiê para o Orum (da Terra para o mundo dos orixás e dos espíritos), num ciclo interminável, cheio de beleza e de tentativas de explicar nossa presença por aqui.

O livro trata do percurso de Aimó, menina que morreu escravizada, sem deixar história, indigna, portanto, de ser lembrada e cultuada pelos que ficaram vivos. Depois de apelar a Olorum ("Senhor do infinito/ Ordena que Obatalá/ Faça a criação do mundo", belíssimo samba da Beija-Flor de 1978), ela é conduzida por Ifá e Exu (orixás detentores, respectivamente, da memória e do movimento/transformação) por um caminho que lhe levará ao conhecimento de outros orixás. Caminha para poder escolher a mãe/orixá capaz de viabilizar seu retorno ao Aiê.

No percurso somos apresentados a diferentes possibilidades de vida e de explicações, de tentativas de compreensão dos muitos mistérios que cercam a vida. Num momento em que tantos posam de donos de tantas virtudes e certezas, o livro - que, insisto, não é religioso, não busca converter ninguém - releva nossas limitações, mostra que nem deuses são capazes de lidar de maneira perfeita com todas as complexidades e contradições presentes em cada ser humano. Afinal, como diz Oxalá a Aimó, vida serve para viver.


A liberdade de ser preso

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2017 | Link | Comentários (0)

Muitos dos que querem proibir obras de arte que ofederiam símbolos religiosos comemoram a decisão judicial que permite, nas redações do Enem, textos que, segundo a banca, possam incitar a violência também por questões de credo. Na ânsia de condenar o que consideram elementos da cartilha da esquerda, os sujeitos que impedem exposições defendem o direito de, no limite, xingarmos Jesus, Maomé, Oxalá, Buda e todos os seus fiéis seguidores.

O Manual de Redação do Enem diz que receberão nota zero redações que defendam "tortura, mutilação, execução sumária". Prevê a mesma punição para casos de "incitação a qualquer tipo de violência motivada por questões de raça, etnia, gênero, credo, condição física, origem geográfica ou socioeconômica; explicitação de qualquer forma de discurso de ódio (voltado contra grupos sociais específicos)."

Não é nada fácil definir limites à liberdade de expressão, ainda que seja muito complicado admitir, por exemplo, a pregação do racismo. Na dúvida, vale recorrer à lei. A Constituição garante nossa liberdade de opinião e impede a censura. Mas o Código Penal prevê que o crime de injúria (ofensa à dignidade e ao decoro) é agravado se consistir "na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência."

A Lei 7.716, de 1989, pune os crimes "resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional." Prevê cadeia para quem "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional." Também aponta o caminho da prisão para o sujeito que "fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo."

No fim das contas, o candidato ao Enem terá o direito de enaltecer a tortura e de ofender negros, judeus, árabes, índios, suecos, cearenses, paraibanos, argentinos, nigerianos, paulistas, cariocas, evangélicos, católicos, candomblecistas, muçulmanos, idosos, pessoas com deficiência. O cara não vai levar zero na redação, mas correrá o risco de ser processado e preso.


As janelas que nos separam

separador Por Fernando Molica em 25 de outubro de 2017 | Link | Comentários (0)

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Há alguns anos, criei uma espécie de índice de civilização baseado nas janelas de casas e apartamentos de lugares que visito. Nada a ver com luxo ou beleza, mas como a existência ou não de grades. O conceito é simples - são melhores (mais justas, vivas, agradáveis, solidárias, seguras) as cidades que têm menos grades.

Minha última experiência foi em Vancouver, onde estive no mês passado. Chega a ser surpreendente para os olhos cariocas perceber aquela sucessão de residências com muros baixos e desprovidas de barreiras de ferro e alumínio nas janelas. Por lá, grades são raras em áreas ricas e em subúrbios povoados por imigrantes chineses, bairros que lembram cenários de filmes americanos.

Janelas têm o objetivo de ventilar nossas casas, servem para permitir a circulação de ares e ideias - a palavra "janela" é com frequência usada como metáfora para uma abertura ao novo, para o diálogo. Janelas abertas são convite à conversa, à troca de impressões, de ideias, à interação de quem está dentro com quem está fora.

Nossas trancas acabam servindo de ilustração para este momento nacional de baixa permeabilidade, de reafirmação de conceitos e de convicções - assim como ladrões, a entrada de maneiras diferentes de encarar o mundo tem sido cada vez mais barrada entre nós.

De maneira mais ampla, movimentos urbanísticos das últimas décadas também buscaram o isolamento. A lógica dos conjuntos residenciais populares, fechados em si, apartados das vias urbanas, acabou replicada em lançamentos para ricos e para integrantes de diferentes faixas da classe média. Voltados para o próprio espaço, apartados, essas casas e prédios foram cortando a ligação com as cidades; o mundo externo, que fica fora das grades, passou a ser visto como ameaça, como território do outro, do estrangeiro, daquele que ameaça.

Em busca da segurança cercada, controlada por câmeras e agentes armados, condomínios ajudaram a degradar as ruas, a torná-las mais vazias e, portanto, inseguras.
As desigualdades, o medo do desconhecido, a segregação e a violência produziram no Brasil cidades que negam o conceito de cidade, que impedem o convívio, que tendem a se transformar em conglomerados de guetos, espaços restritos, fechados à interação, imensas janelas trancadas.

Um processo que, no fim das contas, acaba aproximando favelas de condomínios de classe média alta e de pedaços de bairros como o pra lá de chique Jardim Pernambuco, no Leblon. Todos, independentemente da renda de seus moradores, são áreas públicas (sim, inclusive condomínios como os da Barra) de acesso controlado, vigiadas por homens armados que restringem o acesso de estranhos. O Brasil tanto se esforçou para segregar que conseguiu adotar em áreas ricas a mesma lógica de favelas dominadas por traficantes ou milicianos. Estamos todos dominados.


'Révolution au Mirandão'

separador Por Fernando Molica em 25 de outubro de 2017 | Link | Comentários (0)

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E saiu a edição francesa do 'Notícias do Mirandão', resultado de muito esforço e carinho de pessoas como a Paula Anacaona (editora), das tradutoras Sandra Assunção e da Isabele Delatouche e de Elaine Penny. Ficou legal.


Saída da CBN

separador Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2017 | Link | Comentários (4)

No primeiro trimestre deste ano, formulei uma resposta para quem me perguntava o que vinha achando de fazer rádio: "Estou me divertindo muito, não imaginava que seria tão bom", dizia. Uma diversão no sentido amplo, havia prazer no aprendizado, no trabalho com uma equipe tão jovem e tão competente, na certeza de prestar uma espécie de serviço público, na busca de informações relevantes e exclusivas. Prazer em buzinar no ouvido de quem merecia, prazer imenso em conversar com entrevistados e ouvintes, em responder aos tantos e-mails com elogios e, mesmo, críticas.

Há alguns meses, soube que o neto de uma querida colega era fã do CBN Rio. O menino, de cinco anos, inteligente pacas, ligadíssimo nas notícias, é deficiente visual, seu contato com o mundo se dá principalmente pela audição. E o garoto, veja só, tornara-se fã do programa, dizia gostar muito de mim. Dias depois da revelação, chamei todo mundo - o menino, pais e avós foram ao estúdio. Foi uma festa, ficamos todos muito emocionados. Fiz uma rápida entrevista com ele que, ao ser perguntado sobre o que queria ser quando crescer, não vacilou: "Jornalista!", gritou ao microfone.

Pois é, meu pequeno e querido ouvinte, parceiro que passou a simbolizar todos os que nos acompanhavam ao longo das manhãs. Que você seja um grande jornalista como sua avó, colega que enfrentou tantos desafios e que brilhou em muitas redações. Mulher que encarou a ditadura, que constrangeu corruptos, que denunciou safadezas, que lutou e luta por um país mais justo, que deixou a concorrência de cabelo em pé. Uma mulher que, em resumo, fez jornalismo. Você tem um grande exemplo em casa. Que o jornalismo também seja pra você esse brinquedo tão sério, tão legal, tão bom, tão importante, tão necessário e tão divertido. Obrigado a você, obrigado aos outros ouvintes, a todos aqueles que têm se manifestado por conta da minha saída da rádio. Obrigado ao Júlio Lubianco, que me convidou para ancorar o CBN Rio, obrigado aos colegas que comigo lá trabalharam, que tanto me ensinaram. Obrigado pelo carinho, pela companhia, pela audiência. Até amanhã.


Brasil, o personagem de Fernando Molica

separador Por Fernando Molica em 01 de outubro de 2017 | Link | Comentários (0)

Matéria do 'Estado de Minas' publicada em 19/9/17.

Uma selfie com Lenin, livro que Fernando Molica vai discutir com o público hoje à noite, no projeto Sempre um papo, dialoga com os impasses do Brasil contemporâneo, mergulhado em profunda crise.

Jornalista - assim como o autor -, o protagonista do romance deixa o emprego de assessor de políticos. Dentro do avião rumo à Europa, ele escreve uma carta para a ex-namorada revelando sua frustração diante não só da engrenagem do poder, mas em relação à impotência de sua geração - e da própria esquerda - em virar o jogo. Faz o mea-culpa sobre o próprio comportamento que adotou.

O cenário não poderia ser mais propício: o Brasil de 2013/2014, época em que gigantescas manifestações ocuparam as ruas para reivindicar ética na política. A radicalização e a intolerância em que o país mergulhou servem de pano de fundo para a trama, além da reflexão do personagem a respeito de sua própria vida.

Molica, de 56 anos, que trabalhou em vários jornais do eixo Rio-São Paulo, explicou que seu romance não é sobre a política e a crise em si, mas sobre o impacto do atual momento histórico na vida das pessoas.

Para o jornalista, o cidadão se vê diante de impasses maiores do que aqueles experimentados durante o atentado do Riocentro, em 1981, e as eleições presidenciais disputadas por Lula e Fernando Collor, em 1989. Marcado pelo ódio, o enredo atual do país - em que se mesclam corrupção generalizada, Operação Lava-Jato, a postura do juiz Sergio Moro e o oportunismo dos políticos - é sufocante. Pior: põe em xeque a democracia.

Lançado em 2016, Uma selfie com Lenin foi definido por Antônio Torres, nome de destaque da literatura brasileira, como "curto romance em número de páginas, mas longo em significados, no qual as atualidades políticas, existenciais e 'lavajatórias' nele se colam com malícia, ambição, sedução, grana, num texto cheio de ginga, bem carioca."

Molica é também autor de Notícias do Mirandão (2002); O homem que morreu três vezes (2003); Bandeira negra, amor (2005); O ponto de partida (2008); e O inventário de Júlio Reis (2012).


Pão e vinho

separador Por Fernando Molica em 15 de setembro de 2017 | Link | Comentários (0)

Vale lembrar: um pedaço fino de pão não fermentado cortado em forma circular só se transforma em hóstia - no corpo de Cristo de acordo com a tradição católica - depois da consagração. Antes disso é apenas um pedaço fino de pão não fermentado cortado em forma circular.

Da mesma forma que uma garrafa de vinho é apenas uma garrafa de vinho -
e não o sangue de Jesus - antes da mesma consagração. Não se pode confundir um objeto sagrado com a sua representação.


O amor em caravanas

separador Por Fernando Molica em 06 de setembro de 2017 | Link | Comentários (0)


É mais do que razoável que 'As caravanas' seja a canção mais comentada do último CD do Chico Buarque - é forte, impactante, mexe numa ferida social, remete à carreira do compositor de tantas músicas de protesto. Mas, apesar de dar nome ao disco, esta é quase uma faixa solitária em uma quase coletânea de canções de amor.

É preciso ter coragem para, aos 73 anos, tocar no tema sem parecer ridículo, piegas ou saudosista. Num tempo de certezas, de intolerância, de masturbações públicas e ejaculações perdidas, Chico, mais uma vez, surpreende ao apresentar jeitos e ângulos inéditos para falar do mais velho de todos os temas. Mais, alinha três canções em que abre mão da lógica do pegador para confessar uns tantos fracassos amorosos.

De cara, derrama-se em 'Tua cantiga' - não tem o menor pudor de mandar versos como 'Basta soprar meu nome/ Com teu perfume/ Pra me atrair". Fala em pisar em plumas, promete alcançar a amada em qualquer lugar e ainda faz uma remissão a 'Futuros amantes' ao pedir que, lá na frente, quando ele não estiver mais aqui, a amada não deixe de se lembrar daquela cantiga de amor.

Em 'Blues pra Bia', fala de uma moça que não gosta de meninos. Nada de censurá-la, qual o quê, o narrador admite até virar menina para namorá-la. Na canção seguinte, fala de uma moça que só existe em devaneios, na esperança de ter um confuso casarão onde sonhos seriam reais e onde ela reinaria. "E uma cama onde à noite/Sonhasse comigo/ Talvez" - quer, mais do que tudo, ser amado. Repare que, até aqui, os narradores não pegaram ninguém. Na primeira música, a mulher está com outro; na segunda, com outras; na terceira, o alvo da paixão sequer existe.

O amor só se realiza em 'Dueto', uma canção quase infantil, que remete a promessas feitas por pré-adolescentes que buscam nos astros - nos evangelhos, nos orixá - a certeza de uma relação que se pretende eterna. Mas os protagonistas da valsinha crescem depressa, e, diante de uma possível ameaça, tratam de mandar para o espaço todos os supostos fiadores de sua paixão, sabem que cabe apenas a eles construir a própria história.

Uma aventura como a da faixa anterior, que trata de um outro tipo de amor. Nela, um menino ansioso crescer, para largar a mão do pai, pergunta, num rasgo de medo, onde o chão acaba e principia toda a arrebentação. Uma jogada de risco, assim como amar uma moça comprometida, uma outra que não gosta de rapazes e uma terceira que sequer existe. Nunca se sabe o tamanho do abismo que existe atrás de cada onda, de cada paixão, em Massarandupió e em qualquer outro lugar. É preciso ir lá conferir, mesmo que, para isso, tenhamos que largar a mão que por tanto tempo nos segurou e guiou.


Obra de Julio Reis digitalizada

separador Por Fernando Molica em 20 de agosto de 2017 | Link | Comentários (0)

Em 2012, cumpri um desejo de meu avo Frederico Mario dos Reis e doei para a Biblioteca Nacional todo o acervo de seu pai, meu bisavô, personagem principal do romance 'O inventario de Julio Reis', que eu acabara de lançar. O material incluía livros, recortes de jornais (JR também era critico musical) e, principalmente, partituras originais de óperas, serenatas, canções e poemas sinfônicos.

Na época, Elizete Higino, do setor de musica da BN, me disse que os manuscritos seriam digitalizados e disponibilizados no site da instituição. A promessa foi cumprida, aquelas partituras que meu avô guardava com tanto carinho - e que, por décadas, tentou fazer com que fossem executadas - podem ser alcançadas com alguns cliques, basta digitar o nome do compositor em http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.html.

Por muitos anos, eu, que não sou musico, manuseei aquele material, folhas amareladas que traziam o resultado de tanto trabalho de meu bisavô, um funcionário publico que morreu pobre, frustrado por não ver cumprida a promessa de liberação da verba, aprovada pelo Senado, que permitiria a montagem de sua opera 'Sóror Mariana'. Foi meu avô que me levou a concertos, graças a ele eu conheci um outro tipo de musica, sou muito grato a ele também por isso.

A publicação do livro permitiu que a obra de Julio Reis voltasse a circular. O pianista Joao Bittencourt gravou um CD dedicado ao compositor (pode ser ouvido e baixado aqui e apresentou o repertório em diversos recitais, o maestro Branco Bernardes incluiu 'Vigília d'Armas' no repertório de um concerto da Orquestra Sinfônica da UniRio, JR passou a ser citado em trabalhos acadêmicos, muitas de suas partituras editadas foram incluídas no Projeto Sesc Partituras. Agora, os manuscritos de 18 de suas criações podem ser consultados com facilidade no site da BN. Aqui, no meu site, há também partituras publicadas no início do século 20 - valsas, polcas, marzucas e tangos brasileiros, para piano e piano e flauta (entre elas, 'Alvorada das rosas', dedicada ao grande flautista Patápio Silva). Lá está também a versão revisada e digitalizada de 'Vigília d'Armas'. Que sejam tocadas.


'Joaquim'

separador Por Fernando Molica em 13 de agosto de 2017 | Link | Comentários (0)

Só outro dia vi 'Joaquim', do Marcelo Gomes. Belíssimo filme, que tenta descobrir quem era Tiradentes. Um homem apaixonado por uma escrava, revoltado com sua não promoção, frustrado por uma infrutífera busca do ouro. O filme foca nas circunstâncias que fizeram com que ele embarcasse num projeto libertário conduzido por uma elite mineira.

Um herói quase gente como a gente, fruto do embate entre conflitos pessoais e um vago projeto político. Um cara legal, pouco compatível com a figura forjada por uma república golpista que, como dissecou José Murilo de Carvalho, buscava um símbolo para se legitimar. Grande Joaquim José da Silva Xavier


O gosto da vitória

separador Por Fernando Molica em 08 de agosto de 2017 | Link | Comentários (0)

(Sinais, sinais. Na antevéspera de mais um jogo decisivo, esbarrei por acaso, no computador, com texto que fiz para o livro '95 - A tua estrela brilha', do Claudio Portella e do Rafael Casé. Um relato particular da epopeia do título de 1995).


Em homenagem ao Biriba, aposto um pacote grande de Royal Canin: garanto que nenhum alvinegro acreditava, no início de 1995, na possibilidade de o Botafogo ser campeão brasileiro naquele ano. Apesar de aguerrido e de contar com o artilheiro Túlio, o time, bem acertado pelo técnico Paulo Autuori, não tinha muito ibope nem com o presidente do clube, Carlos Augusto Montenegro - ele havia declarado que a chance do título nacional só existiria em 1996.

Desconfio que boa parte das esquisitices que se manifestam no Botafogo e em seus torcedores tem a ver com nossas três datas de nascimento - as relativas à fundação dos clubes de remo, de futebol e de futebol e regatas. Nenhum astrólogo consegue trabalhar com tantas possibilidades de combinação, tudo conosco é meio esquisito. Tanto que comecei a desconfiar na possibilidade de chegarmos mais longe no campeonato ao ver um jogo em que seríamos derrotados.

Perdemos ( 2 a 1 para o Palmeiras, lá em Presidente Prudente) mas jogamos bem, muito bem. Sabe quando você, evitando alardear otimismo, cutuca o amigo ao lado e diz algo como "sei não, mas...". Pois. Ali, naquele jogo, sexta rodada do primeiro turno, deu para murmurar o sei não. Na partida seguinte, ganhamos do Grêmio, em Porto Alegre ("Sei não..."); mais à frente, despachamos o time da Gávea, que tinha Romário, Sávio e Edmundo - mas, PQP, o Túlio é que era o artilheiro do Brasil.

E assim fomos avançando, jeito de mineiro come-quieto, que finge não querer nada e vira dono de banco, poeta maior, presidente da República no lugar do titular expulso de campo. Chegando, chegando. Na última rodada da fase classificatória, metemos 3 a 1 no Santos, uma prévia do que viria para a frente. Na semifinal, despachamos o Cruzeiro - e que venha o Peixe de novo.

Falei que foi um ano esquisito. Tão estranho que, no primeiro jogo da final, fui ao Maracanã com meu filho mais velho (o outro tinha só quatro anos) e - absurdo! - aceitei a companhia de um adversário, meu querido amigo santista Hermann Nass. Mas eles é que estavam otimistas, que tinham certeza do título, da vitória. A arrogância era tamanha que os caras comemoram a derrota de 2 a 1 aqui no Rio - mais à frente, morreriam pela boca, como frisaria um jornal carioca que tinha, como editor de esportes, um nada discreto alvinegro, o Cesar Seabra.

Vi a última partida em casa, um apartamento na Tijuca, cercado de todas as precauções prescritas no Manual Alvinegro de Sobrevivência, livro que decoramos antes mesmo de nascer. Superstições? Nada disso, apenas cuidados básicos, como usar aquela camisa e aquela cueca, manter aberta (ou fechada, sei lá, já faz tempo) a porta do quarto, impedir qualquer aproximação da então patroa, torcedora do time que evito nominar (ainda mais agora, na hora do jogo).

Jogo, que jogo? Não lembro de quase nada. Lembro do gol do Túlio (Maravilha, faz mais um pra gente ver!) - gol que só viria a ser contestado no intervalo, graças ao tira-teima. Na hora (confiram no VT, no Youtube), nenhum jogador santista reclamou, levantou o braço, correu pra cima do juiz ou do bandeira. Eles ainda empataram - um gol irregular, o Capixaba conduzira a bola com a mão antes de passá-la para o Marcelo Passos.

Tenso, comecei a delirar, meus olhos me traíam, tentavam fazer com que eu acreditasse numa sucessão de bolas chutadas no nosso gol, todas defendidas pelo Vagner. Nada daquilo aconteceu, ninguém poderia agarrar tanto assim (Jefferson não conta, estou aqui falando de seres humanos, não de ETs dotados de poderes sobrenaturais).

Acho que, depois do jogo, passei por General Severiano, tenho uma vaga memória de algum sanduíche e de incontáveis chopes no Cervantes. Ficou também, e para sempre, um adorável sabor de Seven Up, desde então, meu refrigerante favorito, Dom Pérignon de qualquer botafoguense.


A Flip de Lima Barreto e dos leitores

separador Por Fernando Molica em 31 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

O protagonismo de autores brasileiros nesta Flip é outro ponto que merece ser ressaltado. Um fato relacionado à ausência de nomes estrangeiros mais consagrados (lembro de uma edição em que havia dois vencedores do Nobel de Literatura), à qualidade dos brasileiros convidados e ao tema geral do evento. Lima Barreto não foi apenas um homenageado, foi uma referência para quase todos os debates.

Ao tratar de temas tão presentes no nosso cotidiano - racismo, periferias, exclusão, machismo -, a Flip colaborou para ressaltar a produção contemporânea brasileira e para aproximá-la dos leitores. Estes são fundamentais - é tão óbvio dizer isto - para que livros façam algum sentido na vida de um país, não é razoável que o universo literário fique restrito ao clube de autores, editores, agentes, divulgadores e jornalistas.

Em outras Flips, as festas mais comentadas eram as promovidas por editoras. Desta vez, o bom foi ficar na rua, dançar na praia, cantar na roda de samba. Um movimento que promoveu uma integração tão necessária para um mercado que não pode se conformar em viver numa espécie de condomínio fechado.


As estátuas de Budapeste

separador Por Fernando Molica em 16 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

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"Estátuas mais divertidas estão nos arredores de Budapeste. Com o fim do comunismo, muitas das representações do poder soviético foram destruídas, mas sobraram algumas dezenas delas. O que fazer com aquele lixo estético-ideológico que representava o invasor? Você mandaria jogar tudo no lixo -- imagina, aquela velharia de mau gosto, que exaltava o comunismo, os pobres, o proletariado, a revolução, tudo o que você mais detesta. Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam da lembrança dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo. Este, representado por homens e mulheres altivos, olhares fixos no horizonte, para o futuro da libertação proletária. Dá para imaginá-los cantando a "Internacional", o apelo aos famélicos da Terra. Antes vetustos, temidos e compenetrados, os personagens mumificados em bronze ficaram apenas ridículos, testemunhos de uma religião acabada. São como sombras de tempos em que havia certeza do destino comum, da redenção dos povos, da pátria sem amos. (...) Do lado direito, ainda na área externa, sobre um pedestal, cópia das botas de uma gigantesca estátua de Stálin destruída na revolução de 1956. Ao lado do portão, somos observados por Marx, Engels e Lenin -- como se nos perguntassem se vamos mesmo entrar, se queremos mesmo abandonar qualquer eventual esperança no socialismo."

Trecho do romance 'Uma selfie com Lenin'.

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A raiva de São Januário

separador Por Fernando Molica em 09 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

Pode ser um certo delírio, mas não consigo deixar de associar a confusão de ontem em São Januário a uma explosão que tem, em suas raízes, questões que superam o campo de jogo e a derrota para o Flamengo.

Há pouco mais de um ano, a raiva com o governo petista era canalizada para as grandes manifestações - rolava um ódio um tanto quanto irracional e pipocavam tiroteios virtuais nas redes sociais, mas tudo isso era levado para as ruas, que abrigavam o desejo de mudança de boa parte da população.

Os que eram contra o impeachment também se organizaram e promoveram grandes manifestações, ainda que menores que as da oposição. Havia revolta e indignação dos dois lados, mas todos tinham alguma esperança. As raivas foram levadas para o campo institucional, que tratou de desalojar a então presidente.

Hoje, mesmo diante de tantas evidências que envolvem o Temer e seus principais auxiliares, as ruas estão quietas, há poucas e esvaziadas manifestações, as panelas parecem ter voltado para o fogão. Há uma uma perigosa apatia no ar.

Em 1998, quando estava no 'Fantástico', eu e o cinegrafista Lucio Rodrigues aproveitamos uma viagem à Colômbia para, sem qualquer produção prévia, entrar na selva e mostrar um acampamento das FARC, chegamos a entrevistar um importante comandante da guerrilha, o Joaquín Gómez.

Naqueles poucos dias, apuramos que a esquerda institucional sequer era representada no Congresso boliviano, reflexo do 'Bogotazo', revolta ocorrida no fim dos anos 1940 e que ainda marca o país. Décadas depois, a direita estava no poder; a esquerda, armada, na selva, aliada ao narcotráfico.

Voltei para o Rio assustado com a Colômbia e um pouco aliviado com a realidade brasileira. Apesar dos pesares, a situação institucional por aqui era bem melhor. O PSDB estava no governo e as reivindicações da esquerda eram representadas pelo PT e por entidades como a CUT e o MST. Apesar de um ou outro arranhão, todos jogavam o jogo dentro da legalidade.

O ódio gerado em 2014, o inconformismo com a nova vitória petista, a derrubada da Dilma e a ascensão de Temer e de seu novíssimo programa de governo abriram uma brecha na nossa tranquilidade institucional. Tudo foi feito dentro das regras constitucionais, mas, como o TSE acabou de nos mostrar, há diversas maneiras de se aplicar as regras, algo que aumenta a desconfiança em relação às tão propaladas instituições. O pau que dá em Chico pode não ser o mesmo que dá em Francisco.

No fim das contas, a recessão, o desemprego e a violência aumentaram, os cortes no orçamento começam a mostrar suas consequências, estamos diante da possibilidade de encararmos o terceiro presidente em pouco mais de um ano, quase todos os partidos têm envolvimento com alguma forma de corrupção.

As ruas, violentas, povoadas de miseráveis e de consumidores de crack, estão quietas, mas acumulam muita raiva. Uma raiva que, como ocorreu ontem no estádio do Vasco, pode voltar a explodir pontualmente, estimulada por qualquer pretexto, por uma simples derrota em casa. No meio do caos, não vai dar pra ficar berrando algo como "Acreditem nas instituições!".


Um racismo mais ou menos sutil

separador Por Fernando Molica em 19 de junho de 2017 | Link | Comentários (0)

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Assinada por Claudia Fix, esta resenha de 'Bandeira negra, amor', foi publicada na edição de junho da revista alemã LateinAmerika Nachrichten.

'Bandeira negra, amor' ('Schwarz, meine Liebe') , de Fernando Molica, Edition Diá.

Em 1990, passei seis meses no Rio de Janeiro num apartamento no Leme, uma parte sossegada de Copacabana. Logo acima da rua, num morro, havia uma favela, Chapéu Mangueira. Esta vizinhança, mais um local de moradia de trabalhadores do que de pobreza extrema, era conhecida por conta de Benedita da Silva, a primeira mulher negra a chegar ao parlamento municipal, depois, ao estadual e, em seguida, ao Senado.

Foi bem perto de sua casa que três jovens foram atingidos por tiros. Um profissional de educação garantia que um dos rapazes tinha boa reputação (não era traficante de drogas) e cobrava a apuração do caso. É provável que a origem do rapaz, militar, e a proximidade com a casa de Benedita da Silva tenham ajudado a tornar o caso conhecido, mas os crimes nunca foram esclarecidos. Os disparos foram feitos de um carro da polícia, os jovens foram talvez vítimas atingidos de forma aleatória, provavelmente um recado, uma cobrança de dinheiro pela proteção oferecida.

O ponto de partida escolhido por Fernando Molica para seu romance 'Bandeira negra, amor', publicado em 2005, é semelhante: três adolescentes da Favela do Borel são encontrados mortos depois de terem sido torturados, um deles tinha assinado um contrato com um time de futebol inglês. Surge então a suspeita de que eles não teriam sido vítimas de uma guerra de quadrilhas de traficantes, haveria policiais envolvidos no caso. Assim como na vida real, a investigação do caso é complicada, assim com a apuração interna da polícia.

Os principais personagens deste romance - trata-se de um livro policial apenas de passagem - são os integrantes de um casal improvável, formado por Fred - um advogado negro e ativista de direitos humanos - e a branca Beatriz, major da Polícia Militar. Eles têm vidas independentes, mas secretamente trocam informações e permitem a Molica a possibilidade de tratar do tema real do romance, o racismo cotidiano no Brasil.

Fred, o respeitável dr. Frederico Cavalcanti de Souza, passou por todas as fases de uma educação destinada a "embranquecê-lo", o que incluía o uso, todas as noites, de uma touca destinada a alisar seu "cabelo ruim". Mesmo assim, apesar de seu terno bem cortado, ele ainda é confundido com um manobrista na saída de um restaurante - a cor da sua pele é um uniforme suficiente. Nestas circunstâncias, viver uma relação aberta com uma policial militar branca é algo impossível para ambos.

'Bandeira negra, amor' foi escrito quase que exclusivamente com longos monólogos interiores. Jornalista, Fernando Molica, desde 1982, trabalhou em vários jornais, na TV Globo e, atualmente, está na rádio CBN, no Rio de Janeiro. No livro, seus personagens utilizam uma poderosa linguagem do cotidiano brasileiro algo que, infelizmente, é um pouco perdido na tradução. Não que o livro seja mal traduzido, mas porque não há, na língua alemã, algo tão poderoso como um dialeto ou as gírias vindos de uma cultura jovem. Neste segundo romance, Molica abordou diversos pontos importantes e nos leva a lugares pouco conhecidos da "cidade maravilhosa" do Rio de Janeiro.


O diário de um Eduardo Cunha muito engraçado

separador Por Fernando Molica em 31 de maio de 2017 | Link | Comentários (0)

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Como muita gente, fiquei meio desconfiado ao saber do lançamento, pela Record, do 'Diário da cadeia', uma ficção escrita por Eduardo Cunha (pseudônimo). Tanto que não me animei muito a encarar suas 191 páginas. O estímulo para a leitura viria do Eduardo Cunha (o próprio), que chegou a conseguir uma liminar que proibia o livro - por conta de uma ordem judicial, o verdadeiro autor acabaria sendo revelado, trata-se do Ricardo Lísias (o próprio, não o personagem de 'Divórcio').

Semana passada, saí de um debate com o Lísias e o Carlos Andreazza (o editor verdadeiro, não o editor-personagem do 'Diário') decidido a começar a leitura - não me arrependi, o romance é divertidíssimo. Mais, fica evidente que a decisão de atribuir sua autoria ao EC-pseudônimo faz todo o sentido. Um livro é uma ficção narrada por um personagem, personagem construído por Lísias e que é livremente inspirado no EC (o próprio).

A grande sacada de Lísias foi levar EC a sério - algo que gera a farsa que viabiliza a comédia. Em seu 'Diário', uma narrativa confessional, que num primeiro momento não seria destinada à publicação, EC (pseudônimo) surge como alguém sincero, que acredita mesmo em Deus, que cita frases bíblicas, que não se vê como corrupto, que se considera alguém fundamental para o desenvolvimento brasileiro.

Um homem fascinado por arquivos, paranoico, vaidoso, autorreferente. Um autor que não admite que seu texto seja revisado; por conta disso, ao dizer que colocaria algo em xeque, escreve a palavra com "ch" - um ato falho compreensível, EC não desprezaria um cheque.

O político que, ainda presidente da Câmara, sustentava não ter contas na Suíça, mas "trusts", rejeita, em seu diário fake, a classificação de corrupto. Diz que políticos trabalham demais, fazem hora extra, e é razoável que recebam por este esforço. Para não sangrar os cofres públicos, a remuneração adicional viria de empresários: "Tomamos esta decisao para o Estado economizar e poder cuidar melhor da saúde e da educação", explica.

No 'Diário', Cunha demonstra orgulho por ter tirado o PT do poder e, assim, evitado que o Brasil se transformasse numa nova Venezuela, defende que aquilo que chamamos de corrupção não passa de uma bem montada engrenagem que leva ao progresso - dá como exemplo o crescimento do Rio de Janeiro durante o governo de Sérgio Cabral.

"O Brasil precisa voltar a respirar. Essa era a crença dele (Cabral) e por isso ele precisava de tanto oxigênio" - em conversas gravadas entre suspeitos de integrar o esquema liderado pelo então governador, a palavra "oxigênio" surge como sinônimo de propina.

EC (pseudônimo) elogia até mesmo Sérgio Moro, algoz do EC (o próprio). "É um juiz que não se intimida perante os advogados. Ele corta a voz deles e indefere tudo. (...). As vezes parece agir como eu agia na presidência da Câmara dos Deputados". Até que EC (o próprio) poderia ter sido o autor deste trecho.

Ao rolar a bola para que EC apresente suas justificativas, Lísias nos apresenta a um personagem tão fascinante quanto o EC real. Um homem talvez mais correto que o EC (o próprio). O personagem de Lísias acredita em seus bons propósitos, em sua missão política, econômica e religiosa - e por isso é tão engraçado. Arrisco dizer que o EC (o próprio) vai rir muito de EC (pseudônimo).



Fatos que são contextos

separador Por Fernando Molica em 29 de abril de 2017 | Link | Comentários (1)

Há fatos capazes de criar o próprio contexto, de tão significativos que são. Dos episódios ocorridos ontem no Rio, durante manifestações relacionadas à greve geral, dois são bem simbólicos: a foto que mostra PMs em posição de ataque ao lado da Biblioteca Nacional e a descoberta, no Theatro Municipal, de restos de 22 bombas e de três balas de borracha lançadas/disparadas por policiais (havia também duas pedras).

Os PMs formados ao lado da biblioteca foram flagrados pela fotógrafa Ana Carolina Fernandes ao lado de uma placa que expunha texto de Ana Maria Machado. Nele, a escritora diz que um sistema que facilita o acesso aos livros "estimula a imaginação e alimenta as defesas contra o autoritarismo e a opressão". A presença de bombas e balas num outro patrimônio cultural brasileiro, o Theatro Municipal, dispensa qualquer comentário.

Na manhã deste sábado, outro fato triste e simbólico, a morte da radialista Liza Carioca, uma das vítimas do acidente com carro alegórico da Paraíso da Tuiuti no Carnaval. Sim, morreu uma jornalista que escolheu para seu sobrenome profissional o gentílico que designa aqueles nascidos no Rio.

No fim das contas, sobram retratos trágicos e quase caricaturais que ilustram as condições em que PMs marcam presença na nossa maior biblioteca e no nosso principal teatro e que ressaltam mais uma morte carioca - uma vítima de nossa maior festa, a que melhor nos traduz.

Uma carioca como a estudante Maria Eduarda, como o motociclista Miguel Ayoub, como os moradores do Alemão Felipe Farias de Souza, Bruno de Souza, Gustavo Silva e Paulo Henrique; como o PM Alex Francisco de Carvalho, atropelado por bandidos que tentava interceptar. Todos vítimas da insanidade e da irresponsabilidade que vicejam entre nós.


'Uma selfie com Lenin' no 'Rascunho'

separador Por Fernando Molica em 23 de abril de 2017 | Link | Comentários (0)

Aqui, a resenha de 'Uma selfie com Lenin' publicada no 'Rascunho', o mais importante jornal sobre literatura do país. O texo é de Carla Bessa.

Jogo sujo

Como sugere o título, Uma selfie com Lenin, de Fernando Molica, é o instantâneo de uma história individual contra o pano de fundo do contexto histórico mundial. Ao passar em revista os últimos anos de sua vida, o protagonista constrói pontes entre o seu caos pessoal e a crise global, fazendo um balanço do seu tempo, um acerto de contas com ideologias e paixões deixadas para trás, em busca de um retorno ou recomeço.

Na superfície, o romance é uma longa carta à ex-namorada e ex-chefe, Eloísa, com a qual o protagonista trabalhara como assessor de políticos. Redigida no avião, durante um voo pela Europa, a missiva é a tentativa literal de ver as coisas de cima e traçar um mapa dos desencontros amorosos e profissionais vividos em um passado não muito distante. E faz, de rebarba, uma análise contundente e mordaz dos assim chamados "bastidores do poder" e das inquietações políticas dos últimos anos no Brasil e no mundo.

Olhando mais a fundo, o texto é uma crítica incisiva à manipulação de informações pelas mídias modernas. Movimentando-se com presteza estilística e embasamento histórico entre as linguagens jornalística e ficcional, Molica nos mostra o quanto somos manipuláveis. E que é exatamente desta falta de escrúpulos da qual se aproveitam tanto os assessores de políticos como os meios de comunicação em geral. Por exemplo, o cinema e a televisão, como ilustra no final do livro. As últimas lembranças são contadas em forma de um filme imaginário, numa narrativa com cortes rápidos como numa cena de perseguição, revelando exatamente a instrumentalização da nossa empatia: Torcemos pelo ladrão porque ele nos é simpático, mas também porque o furtado é um cafajeste ainda maior.

Arrumadeiras de motel

Sem perder o humor, o protagonista nos conta sobre sua frustração de ter deixado o trabalho na redação de um jornal para, por meio de Eloísa, se deixar seduzir pelas sinuosas perspectivas da assessoria política, mesmo sabendo que a maioria de seus clientes teria reputações mais do que duvidosas. O relato é denúncia e autodenúncia, a confissão de alguém que se reconhece culpado por conivência.

E não deixa de ser engraçado quando falo neles, nos nossos clientes, como se eu e você não tivéssemos nada a ver com isso... Éramos -- eu não sou mais -- como arrumadeiras de motel, que permitem que a sacanagem alheia seja feita em ambiente limpo, asséptico, sem risco de contaminação. ...Não participávamos do grosso da safadeza, mas, sem nossa ajuda, ela não se realizaria.

Desde o começo fica claro que a carta-conversa com Eloísa não passa de um pretexto para uma reflexão sobre a sua época e a sua própria história. Ao deixar o protagonista descrever a ascensão da namorada, Molica esboça o perfil de toda uma classe de redatores e assessores de imprensa. Com sua selfie, ele retrata uma classe jornalística resiliente, que se deixa gratificar por sua cumplicidade e ainda o faz não somente pela segurança financeira, mas por uma espécie de arrivismo que, no fim literal das contas, torna seus profissionais mais culpados do que os corruptos que o fazem por dinheiro:

Não era só pela grana, eu sei. Você jamais se prestaria a tanto por conta de algumas dezenas de milhares de reais. O importante era a briga, a disputa, a causa impossível.

O não-lugar da narrativa

Imprescindível para esta purgação por meio da escrita é o ambiente sem saída do avião que propicia a perspectiva claustrofóbico-reflexiva necessária para a fuga no relato. É ali de cima, literalmente "no ar", que o autor encontra o "não-lugar" ideal da narrativa, o enclausuramento que procurará uma válvula de escape na narração.

"Estou numa cápsula metálica a não sei quantos quilômetros de altura, num não território, sentado numa poltrona ao lado do corredor, sem acesso sequer a uma janelinha... Isso deve ter despertado esta minha vontade de lhe escrever -- talvez por estar no ar, sem referências, sem saber para que lado está o norte ou o sul..."

É neste limbo geográfico e temporal que ele se sente livre para deixar cair máscaras e faces. Entre uma revelação e outra sobre si, levanta o tapete da assessoria política no Brasil e deixa exposta a sujeira de um cotidiano entre políticos corruptos.

Mas a metáfora do "não-lugar" é ainda maior. Nela caberá também a falta de espaço da memória na agilidade do mundo digital de hoje, onde se torna obsoleta qualquer fixação de lembranças, já que o avanço tecnológico é mais rápido do que a nossa compreensão de seus meios: fotos, filmes, escritos. Isso porque, com o permanente desenvolvimento dos programas, "em pouco tempo não haverá como abrir aqueles velhos arquivos".

Assim, perderemos sutil e paulatinamente o senso de compromisso, de obrigações, já que nem as fotos nos confrontam mais com nossos rostos, simplesmente porque não são vistas, só tiradas.

"Criamos a foto sem memória, veja só, a foto que não cobra, que não apresenta qualquer fatura. Uma não foto, incapaz de nos encarar, de jogar na nossa cara o que fizemos de nossas vidas. Inventou-se -- tem certeza de que você não participou disso? Seria ideal para limpar o currículo/folha corrida de seus assessorados -- um passado que não retorna, que fica confinado numa ausência de memória, um desafio à psicanálise, eu, eu, eu, doutor Freud sifudeu."

Por falar em memória

Aproveitando a deixa da memória (ou da sua ausência), como demarcação do eu no contexto global, o protagonista guarnece seu relato com protocolos de visitas a museus, essas instituições que são, per se, os baluartes da conservação da memória. Ao defrontar-se com os resquícios da história dos povos europeus, o autor aproveita o ensejo para um passeio reflexivo pelos anais das colonizações. E nos apresenta um verdadeiro catálogo das falcatruas dos colonizadores europeus, como, por exemplo, o hábito dos franceses de levarem de suas colônias papagaios, frutos e índios brasileiros para a Europa, como evidências do exótico. Ou as máscaras fabricadas pelos holandeses a partir de um molde de gesso tomado dos rostos de homens e mulheres de suas colônias. Em outro momento, denuncia a incrível cara de pau de um embaixador do Reino Unido que, depois de se apropriar de objetos culturais valiosíssimos de uma de suas colônias, sob o pretexto de salvaguardá-los da destruição, simplesmente os vende (!) em seu país.

"Eles e colonizadores de outros países salvaram as peças da mesma forma que se diziam interessados em salvar almas de africanos, orientais e americanos, todos invadidos, mortos, espoliados. Dá para imaginá-los dizendo algo como viemos aqui para salvá-los de vocês mesmos, para proteger as lindas obras de arte dos povos que as criaram."

Mensagem na garrafa

O final do romance traz uma confissão, um mascarado pedido de desculpas e uma apologia à cultura da lembrança. O protagonista recorda uma visita ao parlamento alemão, em Berlim, onde a memória do Nacional-Socialismo é perpetuada por uma obra de arte que lembra os horrores da Segunda Guerra, bem no centro do poder. Houve protestos por parte da população, as pessoas chegaram a danificar a peça, mas sua permanência foi garantida por lei. Ali, a lembrança é mantida viva e fica sujeita a joelhadas e chutes, mas também à reflexão.

Como se quisesse nos convencer de que é no centro da memória que se encontra a semente do perdão, o protagonista volta, no final do livro, à reflexão feita no início, de que é só assumindo o personagem no qual se transformou que poderá se livrar dele.

O que fica é a catarse pelo relato enquanto mensagem numa garrafa.


BG
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