Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

Um racismo mais ou menos sutil

separador Por Fernando Molica em 19 de junho de 2017 | Link | Comentários (0)

Bandeira alemao.jpg

Assinada por Claudia Fix, esta resenha de 'Bandeira negra, amor', foi publicada na edição de junho da revista alemã LateinAmerika Nachrichten.

'Bandeira negra, amor' ('Schwarz, meine Liebe') , de Fernando Molica, Edition Diá.

Em 1990, passei seis meses no Rio de Janeiro num apartamento no Leme, uma parte sossegada de Copacabana. Logo acima da rua, num morro, havia uma favela, Chapéu Mangueira. Esta vizinhança, mais um local de moradia de trabalhadores do que de pobreza extrema, era conhecida por conta de Benedita da Silva, a primeira mulher negra a chegar ao parlamento municipal, depois, ao estadual e, em seguida, ao Senado.

Foi bem perto de sua casa que três jovens foram atingidos por tiros. Um profissional de educação garantia que um dos rapazes tinha boa reputação (não era traficante de drogas) e cobrava a apuração do caso. É provável que a origem do rapaz, militar, e a proximidade com a casa de Benedita da Silva tenham ajudado a tornar o caso conhecido, mas os crimes nunca foram esclarecidos. Os disparos foram feitos de um carro da polícia, os jovens foram talvez vítimas atingidos de forma aleatória, provavelmente um recado, uma cobrança de dinheiro pela proteção oferecida.

O ponto de partida escolhido por Fernando Molica para seu romance 'Bandeira negra, amor', publicado em 2005, é semelhante: três adolescentes da Favela do Borel são encontrados mortos depois de terem sido torturados, um deles tinha assinado um contrato com um time de futebol inglês. Surge então a suspeita de que eles não teriam sido vítimas de uma guerra de quadrilhas de traficantes, haveria policiais envolvidos no caso. Assim como na vida real, a investigação do caso é complicada, assim com a apuração interna da polícia.

Os principais personagens deste romance - trata-se de um livro policial apenas de passagem - são os integrantes de um casal improvável, formado por Fred - um advogado negro e ativista de direitos humanos - e a branca Beatriz, major da Polícia Militar. Eles têm vidas independentes, mas secretamente trocam informações e permitem a Molica a possibilidade de tratar do tema real do romance, o racismo cotidiano no Brasil.

Fred, o respeitável dr. Frederico Cavalcanti de Souza, passou por todas as fases de uma educação destinada a "embranquecê-lo", o que incluía o uso, todas as noites, de uma touca destinada a alisar seu "cabelo ruim". Mesmo assim, apesar de seu terno bem cortado, ele ainda é confundido com um manobrista na saída de um restaurante - a cor da sua pele é um uniforme suficiente. Nestas circunstâncias, viver uma relação aberta com uma policial militar branca é algo impossível para ambos.

'Bandeira negra, amor' foi escrito quase que exclusivamente com longos monólogos interiores. Jornalista, Fernando Molica, desde 1982, trabalhou em vários jornais, na TV Globo e, atualmente, está na rádio CBN, no Rio de Janeiro. No livro, seus personagens utilizam uma poderosa linguagem do cotidiano brasileiro algo que, infelizmente, é um pouco perdido na tradução. Não que o livro seja mal traduzido, mas porque não há, na língua alemã, algo tão poderoso como um dialeto ou as gírias vindos de uma cultura jovem. Neste segundo romance, Molica abordou diversos pontos importantes e nos leva a lugares pouco conhecidos da "cidade maravilhosa" do Rio de Janeiro.


O diário de um Eduardo Cunha muito engraçado

separador Por Fernando Molica em 31 de maio de 2017 | Link | Comentários (0)

diario_da_cadeia_capa.jpg


Como muita gente, fiquei meio desconfiado ao saber do lançamento, pela Record, do 'Diário da cadeia', uma ficção escrita por Eduardo Cunha (pseudônimo). Tanto que não me animei muito a encarar suas 191 páginas. O estímulo para a leitura viria do Eduardo Cunha (o próprio), que chegou a conseguir uma liminar que proibia o livro - por conta de uma ordem judicial, o verdadeiro autor acabaria sendo revelado, trata-se do Ricardo Lísias (o próprio, não o personagem de 'Divórcio').

Semana passada, saí de um debate com o Lísias e o Carlos Andreazza (o editor verdadeiro, não o editor-personagem do 'Diário') decidido a começar a leitura - não me arrependi, o romance é divertidíssimo. Mais, fica evidente que a decisão de atribuir sua autoria ao EC-pseudônimo faz todo o sentido. Um livro é uma ficção narrada por um personagem, personagem construído por Lísias e que é livremente inspirado no EC (o próprio).

A grande sacada de Lísias foi levar EC a sério - algo que gera a farsa que viabiliza a comédia. Em seu 'Diário', uma narrativa confessional, que num primeiro momento não seria destinada à publicação, EC (pseudônimo) surge como alguém sincero, que acredita mesmo em Deus, que cita frases bíblicas, que não se vê como corrupto, que se considera alguém fundamental para o desenvolvimento brasileiro.

Um homem fascinado por arquivos, paranoico, vaidoso, autorreferente. Um autor que não admite que seu texto seja revisado; por conta disso, ao dizer que colocaria algo em xeque, escreve a palavra com "ch" - um ato falho compreensível, EC não desprezaria um cheque.

O político que, ainda presidente da Câmara, sustentava não ter contas na Suíça, mas "trusts", rejeita, em seu diário fake, a classificação de corrupto. Diz que políticos trabalham demais, fazem hora extra, e é razoável que recebam por este esforço. Para não sangrar os cofres públicos, a remuneração adicional viria de empresários: "Tomamos esta decisao para o Estado economizar e poder cuidar melhor da saúde e da educação", explica.

No 'Diário', Cunha demonstra orgulho por ter tirado o PT do poder e, assim, evitado que o Brasil se transformasse numa nova Venezuela, defende que aquilo que chamamos de corrupção não passa de uma bem montada engrenagem que leva ao progresso - dá como exemplo o crescimento do Rio de Janeiro durante o governo de Sérgio Cabral.

"O Brasil precisa voltar a respirar. Essa era a crença dele (Cabral) e por isso ele precisava de tanto oxigênio" - em conversas gravadas entre suspeitos de integrar o esquema liderado pelo então governador, a palavra "oxigênio" surge como sinônimo de propina.

EC (pseudônimo) elogia até mesmo Sérgio Moro, algoz do EC (o próprio). "É um juiz que não se intimida perante os advogados. Ele corta a voz deles e indefere tudo. (...). As vezes parece agir como eu agia na presidência da Câmara dos Deputados". Até que EC (o próprio) poderia ter sido o autor deste trecho.

Ao rolar a bola para que EC apresente suas justificativas, Lísias nos apresenta a um personagem tão fascinante quanto o EC real. Um homem talvez mais correto que o EC (o próprio). O personagem de Lísias acredita em seus bons propósitos, em sua missão política, econômica e religiosa - e por isso é tão engraçado. Arrisco dizer que o EC (o próprio) vai rir muito de EC (pseudônimo).



Fatos que são contextos

separador Por Fernando Molica em 29 de abril de 2017 | Link | Comentários (0)

Há fatos capazes de criar o próprio contexto, de tão significativos que são. Dos episódios ocorridos ontem no Rio, durante manifestações relacionadas à greve geral, dois são bem simbólicos: a foto que mostra PMs em posição de ataque ao lado da Biblioteca Nacional e a descoberta, no Theatro Municipal, de restos de 22 bombas e de três balas de borracha lançadas/disparadas por policiais (havia também duas pedras).

Os PMs formados ao lado da biblioteca foram flagrados pela fotógrafa Ana Carolina Fernandes ao lado de uma placa que expunha texto de Ana Maria Machado. Nele, a escritora diz que um sistema que facilita o acesso aos livros "estimula a imaginação e alimenta as defesas contra o autoritarismo e a opressão". A presença de bombas e balas num outro patrimônio cultural brasileiro, o Theatro Municipal, dispensa qualquer comentário.

Na manhã deste sábado, outro fato triste e simbólico, a morte da radialista Liza Carioca, uma das vítimas do acidente com carro alegórico da Paraíso da Tuiuti no Carnaval. Sim, morreu uma jornalista que escolheu para seu sobrenome profissional o gentílico que designa aqueles nascidos no Rio.

No fim das contas, sobram retratos trágicos e quase caricaturais que ilustram as condições em que PMs marcam presença na nossa maior biblioteca e no nosso principal teatro e que ressaltam mais uma morte carioca - uma vítima de nossa maior festa, a que melhor nos traduz.

Uma carioca como a estudante Maria Eduarda, como o motociclista Miguel Ayoub, como os moradores do Alemão Felipe Farias de Souza, Bruno de Souza, Gustavo Silva e Paulo Henrique; como o PM Alex Francisco de Carvalho, atropelado por bandidos que tentava interceptar. Todos vítimas da insanidade e da irresponsabilidade que vicejam entre nós.


'Uma selfie com Lenin' no 'Rascunho'

separador Por Fernando Molica em 23 de abril de 2017 | Link | Comentários (0)

Aqui, a resenha de 'Uma selfie com Lenin' publicada no 'Rascunho', o mais importante jornal sobre literatura do país. O texo é de Carla Bessa.

Jogo sujo

Como sugere o título, Uma selfie com Lenin, de Fernando Molica, é o instantâneo de uma história individual contra o pano de fundo do contexto histórico mundial. Ao passar em revista os últimos anos de sua vida, o protagonista constrói pontes entre o seu caos pessoal e a crise global, fazendo um balanço do seu tempo, um acerto de contas com ideologias e paixões deixadas para trás, em busca de um retorno ou recomeço.

Na superfície, o romance é uma longa carta à ex-namorada e ex-chefe, Eloísa, com a qual o protagonista trabalhara como assessor de políticos. Redigida no avião, durante um voo pela Europa, a missiva é a tentativa literal de ver as coisas de cima e traçar um mapa dos desencontros amorosos e profissionais vividos em um passado não muito distante. E faz, de rebarba, uma análise contundente e mordaz dos assim chamados "bastidores do poder" e das inquietações políticas dos últimos anos no Brasil e no mundo.

Olhando mais a fundo, o texto é uma crítica incisiva à manipulação de informações pelas mídias modernas. Movimentando-se com presteza estilística e embasamento histórico entre as linguagens jornalística e ficcional, Molica nos mostra o quanto somos manipuláveis. E que é exatamente desta falta de escrúpulos da qual se aproveitam tanto os assessores de políticos como os meios de comunicação em geral. Por exemplo, o cinema e a televisão, como ilustra no final do livro. As últimas lembranças são contadas em forma de um filme imaginário, numa narrativa com cortes rápidos como numa cena de perseguição, revelando exatamente a instrumentalização da nossa empatia: Torcemos pelo ladrão porque ele nos é simpático, mas também porque o furtado é um cafajeste ainda maior.

Arrumadeiras de motel

Sem perder o humor, o protagonista nos conta sobre sua frustração de ter deixado o trabalho na redação de um jornal para, por meio de Eloísa, se deixar seduzir pelas sinuosas perspectivas da assessoria política, mesmo sabendo que a maioria de seus clientes teria reputações mais do que duvidosas. O relato é denúncia e autodenúncia, a confissão de alguém que se reconhece culpado por conivência.

E não deixa de ser engraçado quando falo neles, nos nossos clientes, como se eu e você não tivéssemos nada a ver com isso... Éramos -- eu não sou mais -- como arrumadeiras de motel, que permitem que a sacanagem alheia seja feita em ambiente limpo, asséptico, sem risco de contaminação. ...Não participávamos do grosso da safadeza, mas, sem nossa ajuda, ela não se realizaria.

Desde o começo fica claro que a carta-conversa com Eloísa não passa de um pretexto para uma reflexão sobre a sua época e a sua própria história. Ao deixar o protagonista descrever a ascensão da namorada, Molica esboça o perfil de toda uma classe de redatores e assessores de imprensa. Com sua selfie, ele retrata uma classe jornalística resiliente, que se deixa gratificar por sua cumplicidade e ainda o faz não somente pela segurança financeira, mas por uma espécie de arrivismo que, no fim literal das contas, torna seus profissionais mais culpados do que os corruptos que o fazem por dinheiro:

Não era só pela grana, eu sei. Você jamais se prestaria a tanto por conta de algumas dezenas de milhares de reais. O importante era a briga, a disputa, a causa impossível.

O não-lugar da narrativa

Imprescindível para esta purgação por meio da escrita é o ambiente sem saída do avião que propicia a perspectiva claustrofóbico-reflexiva necessária para a fuga no relato. É ali de cima, literalmente "no ar", que o autor encontra o "não-lugar" ideal da narrativa, o enclausuramento que procurará uma válvula de escape na narração.

"Estou numa cápsula metálica a não sei quantos quilômetros de altura, num não território, sentado numa poltrona ao lado do corredor, sem acesso sequer a uma janelinha... Isso deve ter despertado esta minha vontade de lhe escrever -- talvez por estar no ar, sem referências, sem saber para que lado está o norte ou o sul..."

É neste limbo geográfico e temporal que ele se sente livre para deixar cair máscaras e faces. Entre uma revelação e outra sobre si, levanta o tapete da assessoria política no Brasil e deixa exposta a sujeira de um cotidiano entre políticos corruptos.

Mas a metáfora do "não-lugar" é ainda maior. Nela caberá também a falta de espaço da memória na agilidade do mundo digital de hoje, onde se torna obsoleta qualquer fixação de lembranças, já que o avanço tecnológico é mais rápido do que a nossa compreensão de seus meios: fotos, filmes, escritos. Isso porque, com o permanente desenvolvimento dos programas, "em pouco tempo não haverá como abrir aqueles velhos arquivos".

Assim, perderemos sutil e paulatinamente o senso de compromisso, de obrigações, já que nem as fotos nos confrontam mais com nossos rostos, simplesmente porque não são vistas, só tiradas.

"Criamos a foto sem memória, veja só, a foto que não cobra, que não apresenta qualquer fatura. Uma não foto, incapaz de nos encarar, de jogar na nossa cara o que fizemos de nossas vidas. Inventou-se -- tem certeza de que você não participou disso? Seria ideal para limpar o currículo/folha corrida de seus assessorados -- um passado que não retorna, que fica confinado numa ausência de memória, um desafio à psicanálise, eu, eu, eu, doutor Freud sifudeu."

Por falar em memória

Aproveitando a deixa da memória (ou da sua ausência), como demarcação do eu no contexto global, o protagonista guarnece seu relato com protocolos de visitas a museus, essas instituições que são, per se, os baluartes da conservação da memória. Ao defrontar-se com os resquícios da história dos povos europeus, o autor aproveita o ensejo para um passeio reflexivo pelos anais das colonizações. E nos apresenta um verdadeiro catálogo das falcatruas dos colonizadores europeus, como, por exemplo, o hábito dos franceses de levarem de suas colônias papagaios, frutos e índios brasileiros para a Europa, como evidências do exótico. Ou as máscaras fabricadas pelos holandeses a partir de um molde de gesso tomado dos rostos de homens e mulheres de suas colônias. Em outro momento, denuncia a incrível cara de pau de um embaixador do Reino Unido que, depois de se apropriar de objetos culturais valiosíssimos de uma de suas colônias, sob o pretexto de salvaguardá-los da destruição, simplesmente os vende (!) em seu país.

"Eles e colonizadores de outros países salvaram as peças da mesma forma que se diziam interessados em salvar almas de africanos, orientais e americanos, todos invadidos, mortos, espoliados. Dá para imaginá-los dizendo algo como viemos aqui para salvá-los de vocês mesmos, para proteger as lindas obras de arte dos povos que as criaram."

Mensagem na garrafa

O final do romance traz uma confissão, um mascarado pedido de desculpas e uma apologia à cultura da lembrança. O protagonista recorda uma visita ao parlamento alemão, em Berlim, onde a memória do Nacional-Socialismo é perpetuada por uma obra de arte que lembra os horrores da Segunda Guerra, bem no centro do poder. Houve protestos por parte da população, as pessoas chegaram a danificar a peça, mas sua permanência foi garantida por lei. Ali, a lembrança é mantida viva e fica sujeita a joelhadas e chutes, mas também à reflexão.

Como se quisesse nos convencer de que é no centro da memória que se encontra a semente do perdão, o protagonista volta, no final do livro, à reflexão feita no início, de que é só assumindo o personagem no qual se transformou que poderá se livrar dele.

O que fica é a catarse pelo relato enquanto mensagem numa garrafa.


'Mirandão' na França

separador Por Fernando Molica em 10 de abril de 2017 | Link | Comentários (0)

AncelmoMIrandao.jpg

Uma ótima notícia, anunciada hoje pelo Ancelmo Gois. O 'Notícias do Mirandão', meu primeiro romance, será lançado na França, ainda em 2017, pela Anacaona, especializada em autores brasileiros - em seu catálogo estão, entre outros, Raimundo Carrero, Marçal Aquino, Marcelino Freire e José Lins do Rego.

A editora quer, em 2018, publicar o 'Bandeira negra, amor', que saiu por aqui em 2005. O 'Mirandão' foi lançado na Alemanha em 2006, pela Nautilus.


Yevtushenko e o sapoti afrodisíaco de Brizola

separador Por Fernando Molica em 02 de abril de 2017 | Link | Comentários (0)

Acabei de saber da morte, aos 85 anos, do poeta russo Evgueni Yevtushenko. Em 1987, ele veio ao Rio durante o Carnaval, e foi levado pelo Brizola, então governador do Rio, para ver os desfiles no Sambódromo.

Eu estava ao lado da dupla durante a apresentação da Estácio, que apresentou um enredo que tratava do sapoti, aquela simpática fruta cujo sabor tinha ganhara, no mercado, o nome de tutti-frutti: "Isso virou tutti-frutti/ Tutti-multinacional/ Virou goma de mascar/ Roda pra lá e pra cá/ Na boca do pessoal", dizia o samba.

Para ressaltar as qualidades do sapoti, componentes da escola distribuíam sachês com a fragância característica do fruto - um dos saquinhos foi parar nas mãos do poeta. Sem saber o que fazer com aquele negócio, Yevtushenko pediu ajuda ao Brizola que, com o auxílio do tradutor, declarou: "Diz pra ele que o perfume é afrodisíaco!"

Naqueles tempos pré-viagra, ao ouvir o comentário do governador, o respeitável homem de letras não vacilou e ali mesmo, na frente de todo mundo, e diante daquele memorável desfile de corpos, enfiou o nariz no sachê e tratou de dar uma bela, longa e esperançosa cafungada.


A decisão de Moro, o embaraço à Justiça e a liberdade de expressão

separador Por Fernando Molica em 23 de março de 2017 | Link | Comentários (2)

A decisão de Sérgio Moro de investigar o blogueiro Eduardo Guimarães por suposto embaraço ao trabalho da Justiça representa uma ameaça à liberdade de expressão. Em despacho/decisão (reproduzido abaixo), o juiz excluiu da investigação que resultou na condução coercitiva do blogueiro apenas os elementos ligados à identificação de sua fonte de informação.

Até por conta de manifestações de entidades de jornalistas (chega a citar a Abraji), Moro admitiu que a atividade do suspeito poderia ser caracterizada como jornalística. Foi um avanço, sem dúvida, mas insuficiente. O despacho/decisão tem pontos delicados, que merecem uma discussão mais atenta.

O juiz insiste na existência de norma constitucional que garante o resguardo do sigilo da fonte para jornalistas. O problema é que a Constituição não limita este direito a uma categoria, fala em resguardo do sigilo da fonte quando "necessário ao exercício profissional". Isto vale para jornalistas e para médicos, engenheiros, pipoqueiros, porteiros de motel. Mais: o texto assegura a todos o acesso à informação ("É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional"). Diz, portanto, que todos os cidadãos têm o direito de ter informações, e de proteger suas fontes caso isto seja necessário por razões profissionais.

Ainda Segundo Moro, o blog de Guimarães "destina-se apenas a permitir o exercício de sua própria liberdade de expressão e veicular propaganda político partidária". E completa: "Apesar da relevância desses direitos, a eles não são pertinentes a proteção constitucional do sigilo de fonte." A ressalva do juiz é muito questionável, um jornalista do jornal do PT, do PSDB ou da Rede não deixa de ser jornalista, e o jornal em que trabalha não deixa de ser um jornal (um jornal parcial, partidário, descompromissado com a notícia, mas um jornal). Não cabe ao Judiciário definir que jornalistas/cidadãos têm direito ao sigilo.

O mais grave porém na decisão de Moro é a afirmação de que o Guimarães continuará a ser investigado por suposto embaraço à Justiça. Isto por ter revelado a informação sobre a condução coercitiva do Lula - revelar para a parte investigada e publicar a informação no blog.

Um jornalista vazar uma informação para parte interessada no processo representa uma falha ética grave, mas o gesto não pode, no caso, ser considerado crime, já que Guimarães não trabalha na Justiça, na Receita, na Polícia ou no MP. Crime seria se um funcionário público com acesso às investigações vazasse uma informação para um terceiro, principalmente, para um alvo do processo. É bem provável que a fonte do Guimarães tenha cometido um crime, mas ele, não.

Vários policiais e promotores já tentaram investigar jornalistas que publicaram informações sigilosas. Os advogados das publicações sempre bateram pé num ponto: a guarda do sigilo cabe aos funcionários encarregados de protegê-lo, o jornalista que recebe a informação não comete crime ao divulgá-la.

A lógica adotada por Moro vai no sentido oposto, ele considera como possível crime até a divulgação do fato sigiloso no blog, como ressaltou: "Há fundada suspeita de que a decisão judicial teria sido, indevidamente, divulgada em blog de Carlos Eduardo Cairo Guimarães e ainda previamente informada por ele aos próprios investigados."

Pelo texto do juiz, qualquer jornalista que publique informações sigilosas pode ser acusado de obstrução da Justiça, o que representaria uma ameaça permanente ao jornalismo e ao exercício da cidadania de um modo geral. Um promotor não pode revelar a um investigado que ele será preso no dia seguinte. Mas se o promotor comentar o fato com alguém de fora da investigação, esta pessoa não cometerá crime se fizer a tal comunicação ao suspeito. O cara poderá ser chamado de traidor, safado e mau caráter - mas não de criminoso. A manutenção do segredo, vale insistir, é dever de quem cabe legalmente protegê-lo.

Moro tem o direito de querer investigar a fonte das informações passadas ao Guimarães, alguém provavelmente ligado à estrutura do Estado. Mas extrapola ao investigar um cidadão que, de posse de uma informação, fez com ela o que bem entendia.

No limite, pela interpretação do juiz da Lava Jato, um jornalista poderia ser acusado de atrapalhar a aplicação da Justiça até mesmo se, ao saber de medida a ser tomada contra Fulano, ligasse para ele para cumprir o dever de ouvir o outro lado. Cometeria crime também ao publicar a informação. Nesses três anos de Lava Jato, não foram os jornalistas os responsáveis pelo vazamento de tantas e tantas informações, eles apenas publicaram o que receberam de pessoas que, elas sim, violaram o compromisso do sigilo.


Aqui, o despacho/decisão de Moro:

PEDIDO DE BUSCA E APREENSÃO CRIMINAL Nº 5008762-24.2017.4.04.7000/PR

REQUERENTE: POLÍCIA FEDERAL/PR
ACUSADO: CARLOS EDUARDO CAIRO GUIMARAES
DESPACHO/DECISÃO
Trata-se de processo no qual foi autorizado, a pedido da autoridade policial e do MPF, buscas e apreensões e condução coercitiva em relação à Rosicler Veigel, Francisco José de Abreu Duarte e Carlos Eduardo Cairo Guimarães.
As medidas foram cumpridas em 21/03/2017.
A medidas em questão, bem como as quebras de sigilo de dados telefônicos e anteriores, visam investigar supostos crimes de Rosicler Veigel, Francisco José de Abreu Duarte e Carlos Eduardo Cairo Guimarães.
Em síntese, foi, em cognição sumária, divulgada, em 26/02/2016, indevidamente decisão judicial de quebra de sigilo fiscal de Luiz Inácio Lula da Silva, de empresas e associados, com pré anúncio dos investigados e locais que seriam objeto de busca e apreensão autorizada no processo 5006617-29.2016.4.04.7000.
Há fundada suspeita de que a decisão judicial teria sido, indevidamente, divulgada em blog de Carlos Eduardo Cairo Guimarães e ainda previamente informada por ele aos próprios investigados.
Ao deferir as medidas de investigação em relação a Carlos Eduardo Cairo Guimarães teve-se presente o entendimento de que ele não exerceria a profissão de jornalista e portanto não teria sigilo de fonte a ser resguardado (decisão de 14/03/2017, evento 9).
Este Juízo chegou a indeferir, antes, em 01/02/2017 (evento 36 do processo 5064406-83.2016.4.04.7000), a quebra do sigilo de dados dele, mas houve insistência pela autoridade policial e pelo MPF e, com base nos argumentos apresentados, este julgador reviu o posicionamento anterior e concedeu a medida pretendida (evento 52 do processo 5064406-83.2016.4.04.7000). Transcreve-se o então fundamentado:
"(...)
Ambos se manifestaram insistindo na quebra (eventos 37 e 47). Argumentam que, além da divulgação dos dados de investigação sigilosa no "Blog da Cidadania", haveria indícios de que ele teria repassado previamente as informações aos investigados. Além disso, informam que não há elementos probatórios que apontem que referida pessoa seria de fato profissional jornalista ou que exerceria essa profissão.
Melhor examinando o blog em questão, http://www.blogdacidadania.com.br/, acesso na presente data, constato que ele não aparenta ser propriamente espaço de jornalismo, mas sim de propaganda política, ilustrada por informação em destaque, embora ultrapassada, de que o titular seria candidato a vereador para a cidade de São Paulo (PCdoB).
Blog da Cidadania | por Eduardo Guimarães
www.blogdacidadania.com.br
por Eduardo Guimarães ... Blog questiona Corregedoria sobre juiz que calunia petistas em geral • 17/03/17 • 11:44

Constam nos links do blog comentários do próprio titular do blog sobre fatos do dia ou matérias jornalísticas, usualmente de natureza política.
Pelo levantamento feito pela Polícia Federal, constatou-se ainda que junto ao Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Eduardo Cairo Guimarães qualifica-se como exercente da profissão de "comerciante" e não de jornalista (evento 37). Também constatado que ele é sócio gerente de empresas atuantes no ramo do comércio e não de jornalismo.
Como já adiantado, a garantia do sigilo de fonte do art. 5º, XIV, da Constituição Federal é fundamental e protege diretamente o jornalista e sua fonte e, indiretamente a liberdade de imprensa e o acesso à informação.
Apesar de não ser absolutamente necessário o diploma de jornalista para o exercício da profissão, as provas colacionadas indicam que Carlos Eduardo Cairo Guimarães não é jornalista, com ou sem diploma, e que seu blog destina-se apenas a permitir o exercício de sua própria liberdade de expressão e veicular propaganda político partidária.
Apesar da relevância desses direitos, a eles não são pertinentes a proteção constitucional do sigilo de fonte.
Por outro lado, não se trata aqui de investigar a livre manifestação da expressão, mas divulgação indevida de dados sigilosos a investigados e a terceiros através do referido blog, colocando em risco à investigação".
Certamente, não desconhece esse julgador que a profissão de jornalista pode ser exercida sem diploma de curso superior na área. Entretanto, o mero fato de alguém ser titular de um blog na internet não o transforma em jornalista automaticamente.
No caso, a avaliação do conteúdo do blog, contendo inclusive propaganda político-partidária, como banner para campanha do próprio titular do blog para vereador em São Paulo pelo PCdoB, levou à conclusão de que, como o conteúdo do blog não seria eminentemente jornalístico, então o investigado Carlos Eduardo Cairo Guimarães não exerceria a profissão de jornalista, utilizando o blog somente para permitir exercício de sua própria liberdade de expressão e veicular propaganda político partidária. Embora a liberdade de expressão e as preferências partidárias devam ser respeitadas, não abrangem elas sigilo de fonte.
Em particular, a utilização do blog para veicular propaganda político-partidária do próprio titular para cargo político parece desnaturar a natureza jornalística da atividade.
Essa conclusão ainda tinha o apoio na forma como o próprio investigado se autoqualificava, em cadastros públicos, como do TSE, já que não se identificava como jornalista, mas como comerciante.
Ouvido, na data da realização das buscas e apreensões, novamente qualificou-se como "representante comercial" e não como jornalista.
Em conduta também distante ao profissional do jornalismo, revelou, de pronto, ao ser indagado pela autoridade policial e sem qualquer espécie de coação, quem seria a sua fonte de informação acerca da quebra do sigilo fiscal de Luiz Inácio Lula da Silva e associados. Um verdadeiro jornalista não revelaria jamais sua fonte.
Confirmou ainda que não só divulgou a informação em seu blog, mas antes comunicou-a a assessor do investigado.
Por outro lado, o objetivo da investigação não era propriamente a de identificar a fonte da informação do blog, já que ela já estava, em cognição sumária, identificada desde o início, mas sim principalmente apurar se de fato o seu titular havia comunicado a decisão aos investigados previamente à própria divulgação no blog e a à diligência de busca e apreensão.
Cumpre, porém, reconhecer que, desde a diligência, houve manifestações públicas de alguns respeitados jornalistas e de associações de jornalistas questionando a investigação e defendendo que parte da atividade de Eduardo Cairo Guimarães seria de natureza jornalística. Externaram ainda preocupação quanto ao risco da quebra de sigilo de fonte jornalística em investigação criminal.
Entre elas a ABRAJI - Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, associação de destacada reputação e que divulgou nota nesse sentido em 22/03/2017 (http://www.abraji.org.br/?id=90&id_noticia=3763).
Pois bem, a definição de jornalista e a extensão do sigilo de fonte são conceitos normativos e, como tais, como quaisquer outros, sujeitos à interpretação do aplicador da lei, no caso o julgador.
Não obstante, a manifestação de alguns membros da classe dos jornalistas e de algumas associações de jornalistas no sentido de que parte da atividade de Eduardo Cairo Guimarães teria natureza jornalística, embora não vincule o Juízo, não pode ser ignorada como elemento probatório e valorativo.
Nesse contexto e considerando o valor da imprensa livre em uma democracia e não sendo a intenção deste julgador ou das demais autoridades envolvidas na investigação colocar em risco essa liberdade e o sigilo de fonte, é o caso de rever o posicionamento anterior e melhor delimitar o objeto do processo.
Deve a investigação prosseguir em relação às condutas de violação do sigilo funcional pelo agente público envolvido e, quanto aos demais, somente pelo suposto embaraço à investigação pela comunicação da decisão judicial sigilosa diretamente aos próprios investigados, já que esta conduta não está, em príncípio, protegida juridicamente pela liberdade de imprensa.
Deve ser excluído do processo e do resultado das quebras de sigilo de dados, sigilo telemático e de busca e apreensão, isso em endereços eletrônicos e nos endereços de Carlos Eduardo Cairo Guimarães, qualquer elemento probatório relativo à identificação da fonte da informação.
Caso demonstrado que também Francisco José de Abreu Duarte exercia a profissão de jornalista, estenderei tal exclusão a ele.
De igual forma, fica excluída como prova, do depoimento de Carlos Eduardo Cairo Guimarães, a revelação, embora ele não tenha sido forçado a ela, da identidade de sua fonte.
A exclusão não abrange elementos probatórios relativos à divulgação, em princípio indevida, da decisão judicial aos próprios investigados.
Ciência à autoridade policial, ao MPF e às Defesas já cadastradas.
Embora tenha mantido o sigilo sobre esse processo até o momento para preservar as investigações, ele não mais se faz necessário, após a oitiva dos investigados, e nem mais é apropriado, sendo salutar o escrutínio público sobre o processo e a própria ação da Justiça. Assim, levanto o sigilo determinado sobre este feito.
Quanto ao compartilhamento das provas com a Corregedoria da Receita Federal (evento 30), deverá ela aguardar a conclusão do inquérito.
Curitiba, 23 de março de 2017.


Faltou enredo para Ivete

separador Por Fernando Molica em 28 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Pra não dizer que não falei da Grande Rio. Não gosto do seu repertório, mas não posso negar que Ivete Sangalo é a maior artista pop que temos (talvez fosse melhor dizer o melhor artista pop, para incluir os homens na parada). Sua presença na comissão de frente foi espetacular, prova de talento, competência, dedicação.

O problema é que, ao contrário de outros artistas já homenageados no Sambódromo - Bethânia, Roberto Carlos, Braguinha, Luiz Gonzaga, Lamartine e outros tantos -, a carreira de Ivete não tem lá muitas ligações com a história brasileira, mesmo com uma história informal, cultural, construída ao longo do tempo na relação entre ela e o público. Seu sucesso é fruto de um extremo talento, o que não rende muito material para um enredo.

Talvez a escola pudesse ter driblado isso se tivesse investido mais na relação da cantora com os trios elétricos, com a axé music. Ivete surgiria assim como o principal estrela de um movimento artístico e cultural relevante, que conquistou milhões de fãs, que criou um modelo de carnaval que se espalhou pelo país e que gerou filhotes até no Rio (os blocos que fazem shows de música pop têm relação direta com a lógica do carnaval baiano).

Mas o enredo ficou muito centrado só na Ivete, que tem uma história legal, de sucesso, mas uma história meio simples - a menina do interior que foi, viu, e venceu. No fim das contas, acabou rolando um carro para The Voice Brasil. É pouco para um enredo. No mais, foi muito legal ver o carinho do público carioca com mais esta baiana que bota o país pra cantar.


Leandro Vieira rima com Mangueira

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

O pouco que conheço de escolas de samba mostra como é delicada a relação entre elas e os carnavalescos. Numa escola há incontáveis saberes e, pelo menos, seis mil egos (por baixo, 1,5 por desfilante). Não é fácil estabelecer uma relação produtiva e colaborativa com tanta gente e com tanto conhecimento acumulado - cada vez que piso na quadra da Mangueira penso em Cartola, Nelson Cavaquinho, seu Delegado, Mocinha, Neide, Carlos Cachaça, dona Neuma - e tantos, e tantos.

Aí a diretoria contrata um cara de fora da comunidade que passa a determinar enredo, definir alegorias, fantasias, volta e meia palpita no samba. E o sujeito tem o direito de fazer isso, foi contratado para exerrcer esta função. Entre os grandes nomes, há os carnavalescos-bandeirantes, colonizadores que, embora talentosos e bem-intencionados, dão pouca bola para a tradição de cada escola e procuram impor seu jogo. Costuma dar certo em escolas de menor tradição, que ainda buscam um estilo.

E há aqueles que conseguem uma ótima sintonia com a escola - Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues e Renato Lage sacaram que a Mocidade, famosa por sua bateria, estava prontinha para ousar. Os integrantes da escola de formação do Salgueiro, moldada por Fernando Pamplona, souberam desenvolver a lógica de integração - por maiores que fossem os delírios de Joãosinho Trinta. Rosa Magalhães e Imperatriz pareciam ter nascido uma para a outra.

Leandro Vieira rima com Mangueira. Chegou lá para preparar o Carnaval de 2016 e, como não quer nada, organizou a escola para o título. Apresentou um enredo que tinha tudo a ver com ele e com a escola. Tudo indica que fará o mesmo na madrugada de amanhã. Ele implica um pouco demais com a combinação verde e rosa - em 1984, Max Lopes, outro que se integrou muito à escola mostrou que as duas cores podiam conviver muito bem -, mas isso é um detalhe que não chega a complicar. O cara se entendeu com a escola, e a escola com ele. Com o Leandro, a Mangueira voltou a exercer sua grandeza de sempre.

Hoje, o Léo Dias diz que o Leandro está praticamente acertado com o Salgueiro, que perderá o Renato Lage. E aí, não como jornalista, mas como mangueirense, protocolo minha reivindicação à diretoria da Verde e Rosa: Não deixe o Leandro sair/ Não deixe o Leandro vazar.


Uma Iracema frustrante na Beija-Flor

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Estava no Sambódromo quando Joãosinho Trinta e Laíla - dois de nossos maiores artistas, em qualquer área - encheram a pista de mendigos que teatralizaram e colocaram de cabeça pra baixo o cortejo das escolas. Meninos, eu vi - e como sou grato por isso. Não sou, portanto, avesso a novidades, Ao contrário, o samba e as escolas sobrevivem porque são capazes de unir tradição e inovação.

O problema, portanto, do desfile da Beija-Flor que vi na manhã de hoje não tem a ver com novidade, mas com realização. Eu estava numa frisa, na mesma altura da pista, e não consegui perceber a tal teatralização de cenas do enredo. Vi apenas zilhões de índios com fantasias simples, que tinham apenas algumas variações. Só fui ver as tais cenas no compacto exibido há pouco pela Globo.

O espetáculo das escolas de samba tem características bem peculiares. É feito a céu aberto, em via pública, para 70 mil pessoas. Não conta com elementos que, num espaço fechado, induzem a atenção do público, como a iluminação. O único texto formal é a letra do samba-enredo (a grande maioria do público não tem acesso ao roteiro delhadado dos desfiles, nem teria paciência para ler aquele calhamaço - isso é carnaval, caramba). Ou seja, os elementos de um desfile têm que ficar bem claros, bem evidentes - desfile é ópera italiana, Verdi na veia, não é cantata barroca; é Tim Maia, não João Gilberto.

Não se pode querer um desfile apenas para uns poucos ilustrados, bem-informados, e bem localizados no Sambódromo. Como uma boa novela das nove, um ótimo desfile tem que ser inovador e, ao mesmo tempo, ter uma carga de redundância que permita ser entendido por um público imenso. E, nisso, a Beija-Flor falhou. É uma pena, a ideia de radiacalizar a teatralização, de estabelecer uma nova forma de narrar o enredo é bem legal, tomara que não seja esquecida.

OK, teve a ruptura com o esquema das alas, a novidade de fantasias iguais, mas diferentes. O problema é que isso não ajudou no desfile, ficou a curiosidade pela curiosidade. Saí do Sambódromo lembrando do caso daquele cantor de jazz que veio ao Brasil há uns 30 anos. Na época, a imprensa destacava que ele era capaz de imitar vários instrumentos, ou seja, frisava uma mera curiosidade. Prefiro ouvir um saxofone a um sujeito que imite um saxofone. Uma inovação tem que ser boa por conta de seu resultado. Vale o descrito.


Os riscos do Sambódromo

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Estava no Setor 10, bem longe do local onde ocorreu o acidente com o carro da Tuiuti, mas já estive muitas e muitas vezes ali diante do Setor 1, acompanhei, dali, a entrada na Avenida de incontáveis escolas. Então, algumas observações.

1. O Sambódromo foi concebido por duas pessoas que jamais haviam estado num desfile, Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro. Tanto que, ao longo dos anos, a obra teve que sofrer diversas adaptações. É complicado aproximar as arquibancadas da Apoteose e remover aquele obstáculo, o 'M' gigante no fim da pista, mas dá pra ampliar o espaço, na esquina com a Presidente Vargas, que serve de entrada para os carros alegóricos. Talvez seja possível 'morder' um pedaço da arquibancada do Setor 1. Os carros ficaram grandes demais, a manobra de entrada, que implica numa curva de quase 90 graus, é absurda, quase impossível. É comum que alguns carros tenham dificuldades de entrar no Sambódromo, o que abre buracos na escola. Depois de feita a manobra, motoristas aceleram aqueles monstrengos para recuperar o tempo perdido, o que aumenta o risco de acidentes.

2. Tem gente demais na pista, e a concentração é muito maior ali no Setor 1 - a responsabilidade disso é da Liesa. Em tese, na pista deveriam ficar apenas as pessoas que desfilam.

3. Hoje de madrugada, o Aydano André Motta provocava: existe habilitação para motorista de carro alegórico? Carro alegórico não é caminhão, não é ônibus, frisava. Acrescento: é maior do que praticamente todos os veículos, tem formato irregular, é alto pacas, carrega muitas pessoas - centenas, até. A visibilidade do motorista é comprometida pela decoração da alegoria, o cara depende, muitas vezes, apenas das orientações de um sujeito que está na pista. Há bafômetro para motorista de carro alegórico?

4. Há normas técnicas para carros alegóricos, algum padrão que defina relações entre peso, altura, comprimento? Há definição de qual tem que ser a área de visão do motorista? Antigamente, os carros tinham que ser empurrados, hoje, podem ter motor. São, portanto, carros motorizados que circulam por uma via pública, a Marquês de Sapucaí. OK, não é necessário que os carros tenham placa.

5. Como ressaltou um mestre-sala, acho que da Tuiuti, essa história de pintar a pista de desfile é complicada. Carros são feitos para rodar no asfalto, que é poroso. A pintura torna o piso mais escorregadio, ainda mais sob chuva. Isso aumenta o risco de derrapagens de componentes e dos carros alegóricos.


'Brasil de volta ao começo' - revista alemã sobre 'Uma selfie com Lenin'

separador Por Fernando Molica em 12 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Texto de Michael Kleger publicado na revista alemã 'Literatur Nascrichten', associa 'Uma selfie com Lenin' ao desencanto ocorrido nos últimos anos no Brasil: "Os anos democráticos e abundantes ficaram rapidamente para trás", afirma Kegler, tradutor especializado em literatura de língua portuguesa (ele fez as versões em alemão do 'Notícias do Mirandão' e 'Bandeira negra, amor').

A matéria trata também de livros do João Paulo Cuenca e do Fernando Bonassi e teve este trecho gentilmente traduzido pela Tamara Menezes:


Ainda no início da Era Lula, alguns anos atrás, o jornalista Fernando Molica descreveu em seu romance 'Notícias do Mirandão' traduzido pela Nautilus em 2006, como a conjuntura, em sintonia com a ingenuidade dos personagens, arruinou uma revolução na favela. Desta vez, um jornalista que já foi de esquerda viaja pela Europa e manda para casa 'Uma selfie com Lenin' (Record 2016).

O livro registra um longo monólogo interno de alguém que se deixou corromper. Primeiro por amor, depois por dinheiro, ele foi contra suas convicções em relação à rede de corrupção da política brasileira. E finalmente resolveu tudo com uma mala cheia de dinheiro.

"Você estava certa quando, presumo, mandou que ficassem quietos todos aqueles babacas assustados com as manifestações. Alguns poucos daqueles ladrões filhos da puta, e não me refiro apenas aos seus clientes, devem ter se ferrado. Há os que exageram na ânsia de mergulhar no dinheiro alheio, não conseguem parar de roubar, de aumentar aquela riqueza que lhes chega de um jeito tão fácil. Estes, uns novos-ricos deslumbrados, são os que se afogam. Os mais discretos continuam felizes, vivos e prósperos. (...) No fim a casa sempre vence."

O Brasil está de volta ao começo. Os anos democráticos e abundantes ficaram rapidamente para trás. Perplexos, alguns ainda esfregam os olhos para tentar entender. Mas a literatura brasileira já compreendeu. O clima é tropical como sempre e "No fim, a casa sempre vence."


A jurisprudência da Lava Jato

separador Por Fernando Molica em 11 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

O caso Moreira Franco revela como algumas medidas tomadas pela Lava Jato ou sob sua inspiração criaram precedentes delicados para a Justiça brasileira. Em tese, tanto o Lula quanto o Moreira teriam o direito de assumir ministérios. Ambos são cidadãos em pleno gozo de seus direitos políticos, não foram condenados sequer em primeira instância.

Pela lei brasileira, suspeitos, indiciados, denunciados e réus não são considerados culpados. Tanto que Lula e Moreira poderiam, hoje, concorrer à Presidência da República, e o eleito teria direito de assumir o cargo.

A histeria gerada pela nomeação de Lula gerou uma pedalada judicial, até mesmo uma prova obtida ilegalmente, a tal gravação do 'Bessias' serviu de pretexto para anular a posse do ex-presidente. Criou-se um precedente que, agora, complica a vida de um dos principais articuladores do impeachment.

O caso gerou também um paradoxo. Ao anular a posse do Lula, considerada uma tentativa de obstrução da Justiça, o Gilmar Mendes passou recibo na tese de que o STF, corte em que atua, é conivente com impunidade, Curiosidade: no governo FHC, o cargo de Advogado Geral da União ganhou status de ministro para que seu titular - Gilmar Mendes! - escapasse de um processo movido contra ele na primeira instância.

Criticos a determinadas atitudes tomadas pela Lava Jato são, com frequência, execrados, chamados de coniventes com a corrupção. Muitos deles apenas vinham alertando para o risco de, em nome do necessário combate à roubalheira institucionalizada, ocorrer uma derrubada de princípios fundamentais, de garantias asseguradas pela Constituição. Não tem jeito: os atalhos que permitiram prisões e condenações passaram a valer para todo mundo, até para aqueles que tanto se empenharam na derrubada da Dilma.


'Bandeira negra' - nova resenha alemã

separador Por Fernando Molica em 10 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

A revista 'Brasilien-Nachrichten', fundada em 1976 na Alemanha, publicou esta resenha sobre o 'Bandeira negra, amor', lançado por lá pela Editions Diá. O texto é assinado por
Anne Reyers e foi traduzido com a ajuda do Google.

resenharevistabrasileria.jpg

Três adolescentes são encontrados mortos, eram suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas, todos moravam numa favela. O caso deveria ser investigado? Seria um evento de rotina se não fosse Fred, um advogado negro e ativista de direitos humanos. Ele sua namorada, a policial branca Beatriz buscam impedir que isso aconteça e tentam quebrar o muro de silêncio, corrupção e racismo. A trama inclui um pedaço de pano tratado como relíquia por Fred e . que teria pertencido a Arthur Friedenreich, o primeiro craque negro do futebol brasileiro. Como funcionaria esse conjunto?

Como em 'Notícias do Mirandão', Molica trata do Rio e da corrupção. O texto é às vezes eufórico em relação a mudanças, mas tem também um caráter niilista, que duvida de quaisquer alterações. Neste ponto, 'Bandeira negra, amor' é como o livro 'Cidade do jogo'. Para citar um comentário do jornal 'Correio Braziliense': "Poucas vezes a questão racial no Brasil tem sido trata com tanta propriedade como no romance 'Bandeira negra, amor'". Não há nada a ser acrescentado.


'Bandeira negra' na revista do mercado editorial alemão

separador Por Fernando Molica em 05 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)


resenhafoto.jpg

A revista 'Börsenblatt - Wochenmagazin für den Deutschen Buchhandel', fundada em 1834(!) pela Associação de Editores e Livreiros alemães, publicou uma pequena resenha, bem legal, sobre o 'Bandeira negra, amor', lançado por lá pela Editora Diá com o título de 'Schwarz, meine Liebe'. Anita Djafari, a autora do texto, só reclamou das notas explicativas incluídas na tradução. O comentário foi traduzido com a ajuda do Google:

Três mortos e um advogado que perdera muito na vida: o romance policial de Fernando Molica se passa no Rio de Janeiro, trata de racismo, poder policial e corporativismo das instituições. Três adolescentes negros, moradores de favela, são encontrados mortos. Mas ninguém parece interessado em resolver o crime. O caso poderia ser esquecido, mas um jovem advogado, Frederico, cujos pais tentaram convencê-lo que ele não era negro, apenas um pouco escuro, vai além. Engajado numa organização de defesa de direitos humanos e envolvido com uma policial branca, ele segue na pista de um crime que, infelizmente, ocorre todos os dias no Brasil. O romance tem uma narrativa tranquila, entremeada com um certo furor e com um olhar para o passado e para os motivos de Frederico. Apenas as muitas notas de pé de página atrapalham a leitura.


'Meu menino vadio' tem a força e a sinceridade da melhor ficção

separador Por Fernando Molica em 01 de fevereiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Ainda não terminei de ler 'Meu menino vadio' (Intrínseca), livro em que o jornalista Luiz Fernando Vianna relata a delicadíssima relação com seu filho autista, o Henrique, um adolescente de 16 anos. De tão bom, o livro encarna um aparente paradoxo: expõe com tanta sinceridade vacilos, erros e mancadas do narrador (o próprio LFV) que parece até ficção. Tem um despojamento que raras vezes pode ser lido em obras que carregam o compromisso com a fidelidade aos fatos. Ainda mais no caso em que o autor narra a própria história, uma história pesada, cheia de dramas e caneladas.

Logo no subtítulo, Luiz Fernando deixa claro sua filiação ao sincericídio: 'Histórias de um garoto autista e seu pai estranho'. Como assim, "estranho"? Uma estranheza que acaba potencializada e se torna ainda mais visível com o nascimento de uma criança que, com o tempo, revelaria-se enquadrada no espectro autista.

E aí, o autor não deixa por menos. Apesar de todas as crises com a ex-mulher (que, munida de ordem obtida às escondidas num plantão judicial, carregara o filho para morar na Austrália!), declara, por escrito: "Esta não é uma história de mocinho e vilão. Henrique não é vítima de um destrambelhamento unilateral, mas de duas pessoas com fraturas psíquicas e de caráter". Atire a primeira página quem já tiver lido tamanha exposição das próprias vísceras num relato de não-ficção.

E que tal este trecho aqui?

"Se eu queria ter um filho autista? Não. Deixaria de ter se a ciência permitisse saber do diagnóstico ainda na gestação? Sim. O que a convivência com ele me proporciona mais: prazer ou angústia? Angústia. Ainda assim, amo meu filho? Mais do que qualquer palavra pode traduzir".

Na ficção, nos protegemos mais. Uma vez, numa entrevista, uma repórter de um jornal baiano reclamou de citações pouco elogiosas à axé music que encontrara no 'Notícias do Mirandão'. Eu saí pela tangente: a verborragia era do personagem, não minha. Na ficção, misturamos/inventamos/reciclamos fatos, disfarçamos confissões, temos mais chances de expor falhas/erros/canalhices cometidas por nós mesmos ou por pessoas próximas (a velha história-chavão de, aqui e ali, fingir a dor que deveras sentimos).

Nos últimos anos, tenho repetido que, ao contrário do que imaginei ao lançar meu primeiro romance, o trabalho jornalístico não tem nada a ver com o ato de escrever ficção. Naquele, nos subordinamos aos fatos, ao que pode ser comprovado (Sérgio Cabral, por exemplo, é tecnicamente inocente até ser condenado). Tamanha responsabilidade nos impede, muitas vezes, de dizer o óbvio. Na ficção é mais complicado recorrer a subterfúgios, eufemismos, usar de maneira ilimitada a palavra "suposto" (ladrão, corrupto, assassino). Na ficção é mais difícil enganar e mentir.

Em 'Meu menino vadio', LFV consegue a proeza de unir o rigor jornalístico a uma sinceridade de ficcionista que trata de personagens inventados. O resultado é muito impactante. O livro não é apenas sobre um pai e seu filho autista, mas sobre pais e filhos, sobre relações que envolvem amor e carinho, sobre todos que somos - admitamos - muito estranhos. Trata de expectativas que cultivamos em relação a pessoas que tanto amamos, pessoas que nem sempre são como achamos que elas seriam. E daí? Nós também não somos o que gostaríamos mesmo de ser.


O discurso e a história

separador Por Fernando Molica em 26 de janeiro de 2017 | Link | Comentários (0)

O discurso representou um marco: crítica à queda da renda da população, defesa dos ideais nacionais, proposta de um modelo de comércio internacional mais justo para o país, restrições à saída do capital nacional.

Foi pronunciado, em 23 de março de 1933, por Adolf Hitler, que então assumia plenos poderes. Deu no que deu.

Trechos:

. Em seu conjunto, as "conquistas da Revolução" foram agradáveis a uma pequena parcela de nosso povo, porém, para a esmagadora maioria, pelo menos enquanto esta tinha que ganhar seu pão de cada dia pelo próprio esforço, foram infinitamente tristes.

. Nosso povo sofreu uma queda do nível de vida em todas as áreas no decorrer dos últimos 14 anos...

. À medida que o governo está decidido a proceder com a desintoxicação política e moral de nossa vida pública, ele consegue e assegura as condições para uma verdadeira e profunda vida religiosa.

. Simultaneamente com essa política de purificação de nossa vida pública, o governo do Reich procederá um inteiro expurgo moral do corpo da nação. Todo sistema educacional, o teatro, o cinema, a literatura, a imprensa e o rádio - tudo será empregado como um meio para este fim e dessa forma avaliado.

. Nossas instituições legais devem servir acima de tudo para a manutenção desta comunidade nacional.

. Estamos plenamente advertidos de que necessitaremos da ligação com o mundo exterior, e que a colocação dos produtos alemães no mercado mundial assegura a existência de muitos milhões de nossos concidadãos. Também sabemos quais são as condições necessárias para uma boa troca de serviços entre as nações do mundo. Porque a Alemanha foi durante anos compelida a prestar serviços sem receber um equivalente, com o resultado de que a tarefa de manter a Alemanha como um participante ativo na troca de produtos não pertence tanto à política comercial como à política financeira.

. O governo do Reich também é, por esse motivo, obrigado a manter as restrições ao escoamento do capital para fora das fronteiras da Alemanha


A saideira do Al-Farabi - relançamento coletivo no sábado

separador Por Fernando Molica em 23 de janeiro de 2017 | Link | Comentários (0)

Sobre a saideira do Al-Farabi. Além da roda de choro, haverá um relançamento coletivo de livros de autores que são (somos!) amigos e frequentadores da casa. Os livros, graças à colaboração de diversas editoras (Record, Rocco, Mórula e Pallas), serão vendidos com um desconto de, pelo menos, 20% sobre o preço de capa. A renda servirá para ajudar o Al-Farabi a quitar algumas pendências.

Levarei exemplares de 'Notícias do Mirandão', 'O homem que morreu três vezes', 'O inventário de Julio Reis', 'O ponto da partida', 'Bandeira negra, amor' e 'O misterioso craque da Vila Belmira'.

Outros escritores que confirmaram presença são Alberto Mussa, Aydano André Motta, Bárbara Pereira, Flávio Izhaki, Ivan Soter, Luiz Antonio Simas, Marcelo Moutinho e Maurício Barros de Castro.

A festa começará às 13h do próximo sábado, dia 28. O Al-Farabi fica na Rua do Rosário 30.


Piauí encontra Trump

separador Por Fernando Molica em 13 de dezembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Publicada na 'Piauí' de dezembro, a reportagem da Daniela Pinheiro sobre o papel da imprensa na eleição doTrump é espetacular. Ela foi para os EUA mostrar como seria a vitória da Hillary na ótica dos repórteres do Washington Post - acabou fazendo um ótimo balanço dos erros, omissões e, mesmo, acertos dos jornais. Muitos colegas admitem que faltou apurar, viajar, desbravar o que se passava na cabeça de tantos americanos.

Na matéria, jornalistas fazem autocrítica, reconhecem que foram driblados pelo Trump, que o milionário soube criar fatos absurdos e escandalosos com o único objetivo de ganhar popularidade. Um dos entrevistados, editorialista do Post, diz algo bem interessante. Segundo ele, é preciso relativizar o conceito de imparcialidade da imprensa quando um dos candidatos é mentiroso, racista e demagogo.

Um repórter conta como conseguiu, de maneira completamente fora dos padrões, apurar que Trump mentia ao dizer que doara milhões de dólares para instituições de caridade. Numa pequena cidade a pouco mais de duas horas de NY, Daniela mostra como os jornais perderam importância para a boataria da internet, a tal da pós-verdade.

O melhor, talvez, é a frase do Martin Baron, editor-chefe do Post (é aquele que, no Boston Globe, teve papel fundamental na descoberta de casos de pedofilia na Igreja Católica). Ele diz que jornalistas não são bons para fazer previsões, mas adoram fazer muitas suposições "acerca de tudo". E conclui: "Meu conselho sempre é: deixe-se impressionar. O antídoto de previsões erradas é ir pra rua e apurar. Formule perguntas e as responda objetivamente, não presuma nada."


Suborno não é Caixa 2 - a bancada da Odebrecht

separador Por Fernando Molica em 12 de dezembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Implico com eufemismos: favela não é comunidade, prostituta não é garota de programa, recessão não é crescimento negativo. E casos de suborno, como os muitos detalhados pelo Claudio Melo Filho, ex-diretor da Odebrecht, não deveriam ser chamados de Caixa 2, uma classificação que parece tentar amenizar um crime grave.

Claro que é preciso investigar as acusações, ninguém é totalmente confiável nesse universo. Mas é preciso tipificar de maneira correta o que ele afirmou.

Na delação, ele deixou claro que as contribuições - ocorridas não necessariamente em períodos de campanha - tinham o objetivo de garantir a aprovação de projetos de interesse da empreiteira. Ou seja, ele disse que comprava os votos de parlamentares em projetos levados ao Congresso Nacional - falou até em "conta a ser paga".

Olha só o que ele declarou:

"O propósito da empresa, assim, era manter uma relação frequente de concessões financeiras e pedidos de apoio com esses políticos, em típica situação de privatização indevida de agentes políticos em favor de interesses empresariais nem sempre republicanos."

Segundo o denunciante, a Odebrecht subornava parlamentares de maneira sistemática, mecanismo que garantiu ao conglomerado a aprovação de várias pautas de seu interesse. O grupo, mais do que financiar a eleição de deputados e senadores, criou sua própria bancada no Congresso.


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site