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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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Intervenção no Rio: uma coabitação complicada

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Salvo melhor juízo, esse decreto de intervenção parcial é muito complicado - a Constituição fala em intervenção, e ponto. Na prática, o governo do Rio foi fatiado, haverá um comando duplo, um para a segurança, o outro para o resto. Mas, no dia a dia, é impossível separar uma área da outra.

Se o interventor mandar suspender aulas em determinada área, o secretário de Educação será obrigado a concordar? O governador tem o direito de remanejar 20% das verbas orçamentárias - e se ele decidir retirar grana da segurança para cobrir um buraco na saúde? Como é que fica?

O decreto fala que o interventor poderá "requisitar, se necessário, os recursos financeiros, tecnológicos, estruturais e humanos do Estado do Rio de Janeiro afetos ao objeto e necessários à consecução do objetivo da intervenção." E se o governo estadual negar as requisições? Fica por isso mesmo?

A medida assinada por Temer deixa claro o limite do interventor, mas, ao mesmo tempo, dá poderes para o sujeito chutar o balde: "O Interventor fica subordinado ao Presidente da República e não está sujeito às normas estaduais que conflitarem com as medidas necessárias à execução da intervenção." Ou seja, em caso de conflito, valerá a palavra do interventor?

Para justificar a intervenção setorizada, o decreto cita "o disposto no Capítulo III do Título V da Constituição e no Título V da Constituição do Estado do Rio de Janeiro." Só que esses artigos capítulos não falam na possibilidade de intervenção parcial, tratam de definir segurança pública e os mecanismos para implementá-la.

Além disso, achei esquisito um decreto federal citar também a Constituição Estadual. Enfim, essa coabitação tende a ser muito complicada.


MDB-RJ tem novo dono - o nome dele é Moreira

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

A intervenção no Rio acaba de vez com o governo Pezão e representa um último golpe do governo federal no MDB fluminense. Preso desde novembro, Jorge Picciani, o presidente do partido no estado, nutria muitas diferenças com o grupo liderado por Michel Temer e Moreira Franco, ex-prefeito de Niterói e ex-governador do Rio de Janeiro. Em conversas com amigos, Picciani não economizava nas críticas ao hoje presidente.

A situação mudou apenas quando Picciani passou a apoiar o impeachment de Dilma Rousseff e a consequente ascensão de Temer - uma decisão que se revelaria decisiva para a derrubada da petista. A articulação rendeu a Leonardo Picciani, deputado federal e filho do cacique Jorge, um cargo de ministro no novo governo..

Com Cabral e Jorge Picciani presos e com Pezão liquidado politicamente, o MDB-RJ passa a ter um novo dono. O nome dele é Moreira.


RJ: responsáveis pela crise não estão nas favelas

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

O que faliu não foi apenas a segurança pública do Rio de Janeiro, mas toda a estrutura política-institucional do estado. A crise nacional, a queda do preço do petróleo, a prisão de lideranças do MDB, a divulgação da roubalheira comandada por Cabral, o fim das pedaladas financeiras do governo, os atrasos de salários do funcionalismo, a quebra dos serviços públicos e a inapetência administrativa de Pezão permitiram que todas as comportas fossem arrombadas.

Uma situação caótica como a vivida no RJ só é possível com a parceria de agentes públicos - e não falo apenas de policiais e de políticos. O caso da deputada Cristiane Brasil - suspeita de ter feito acordos eleitorais com traficantes - não é isolado. Esta cumplicidade é fundamental para garantir, por exemplo, o fluxo contínuo de armas e munição para bandidos e a imunidade dos territórios por eles controlados. Ou será que alguém acha que os chamados traficantes de favelas são capazes de negociar esse tipo de contrabando no exterior? Não haverá possibilidade de melhoria da situação sem que seja quebrada esta associação entre bandidos-bandidos e bandidos-agentes do Estado.

Os atrasos nos pagamentos de gratificações a policiais, o achatamento salarial, a redução de efetivo das corporações, os muitos problemas de estrutura (instalações precárias, falta de combustível, carros quebrados) e a sucessão de assassinatos de policiais militares e civis colaboraram para um afrouxamento do trabalho de repressão/investigação. Fica também difícil arriscar a própria vida para combater o crime num estado em que o ex-governador está na cadeia. A polícia ficou mais violenta, menos obediente, mais vulnerável em todos os aspectos. Violência policial está, quase sempre, não à eficiência, mas à corrupção.

Não é difícil também perceber o quanto as crises - econômica e moral - influenciam no comportamento de tantos jovens que acreditaram em promessas do governo. Jovens que viram falir o processo de pacificação de favelas, que testemunharam o abandono de seus bairros, que viram minguar as chances de emprego, que sofreram as consequências de atrasos de salários e aposentadorias de seus pais e avós, que lamentaram o fim de iniciativas como as bibliotecas comunitárias, que são tratados como inimigos pela polícia. Não dá pra exigir que todos esses adolescentes tenham respeito pelo Estado e esperança de uma vida melhor dentro dos caminhos institucionais - alguns perdem a paciência e partem pro confronto.

O Estado ficou uma bagunça, os assassinatos ocorridos nos últimos dias e a proliferação de arrastões comprovam. Mas a tragédia nas ruas é consequência direta da bagunça, da roubalheira, da cumplicidade e da incompetência de agentes do Estado. Eles é que começaram.


Uma vitória que não deveria ter ocorrido

separador Por Fernando Molica em 15 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Vamos lá, com um pouco mais de calma. Adoraria, como fez o querido e competentíssimo Leonardo Bruno hoje, no Globo, enxergar na vitória da (grande) Beija-Flor um triunfo da emoção sobre a frieza dos critérios técnicos que balizam o julgamento do desfile. Mas não consigo: a história do Carnaval revela o poder institucional da escola e a dificuldade que julgadores têm para puni-la. Duvido que o mesmo desfile seria vencedor caso fosse apresentado por qualquer outra agremiação.

Seria absurdo tirar pontos da Beija-Flor em quesitos como evolução, harmonia, mestre-sala e porta-bandeira, samba enredo - seu 'chão' é espetacular, nunca deixei de reconhecer. Mas foi absurdo que muitos pontos não tenham sido tirados em fantasias, alegorias e enredo (a própria- sinopse é confusa, fala num Frankestein vítima de preconceito - pelo que entendi, nós, povo brasileiro, é que seríamos o monstro repudiado e discriminado. Mas a realização do enredo foi ainda pior, indecifrável, uma mera colagem de mazelas não carnavalizadas, não interpretadas, o Frankestein não deve ter entendido nada).

Vi o desfile da entrada da pista, fiquei espantado com as alegorias (feias, nada criativas) e com as fantasias, óbvias, baseadas em lugares-comuns como ratos, gatunos, políticos engravatados com dinheiro saindo dos bolsos. A fantasia de barril de petróleo era constrangedoramente feia; a de dirigentes de futebol (figurantes que levavam símbolos de times em suas cartolas), patética de tão rasteira. E, como frisei em outro texto, não dá para levar caixão de estudante em alegoria. Não dá.

E há também uma questão fundamental: desfile de escola de samba, como qualquer outra criação artística, não é passeata. Arte é criação, interpretação, apresentação de leituras diferenciadas sobre diferentes temas. A Beija-Flor não fez nada disso, apenas enfileirou problemas, fez uma retrospectiva jornalística de fim de ano. O camarada Anderson Baltar desenvolveu muito bem o tema em artigo publicado antes da apuração.

Como frisou a amiga e pesquisadora de Carnaval Rachel Valença, a euforia despertada pelos desfiles da Beija-Flor e da Tuiuti revela também uma falta de canais de expressão política. As grandes manifestações que abriram caminho para o impeachment de Dilma Rousseff minguaram, os desmandos e escândalos do governo Temer não geraram protestos semelhantes.

OK, artes também podem ser canais de protesto (vale lembrar o papel da MPB durante a ditadura), mas é estranho que, no caso das escolas de samba, isso ocorra num regime democrático, que, com raras exceções, preserva o direito de manifestação. O furor causado pela Beija-Flor revela inconformismo de boa parte da população, mas também sua paralisia e incapacidade de organização, de protesto.

E, insisto, a escola apresentou um enredo conservador, que atribui todos os nossos males a um grupo de políticos ladrões: nós, que os elegemos, que eventualmente os derrubamos, não temos nada a ver com isso. Nós somos todos limpos, puros, nenhum de nós suborna guardas, nenhum de nós sonega impostos, nenhum de nós vende voto, nenhum de nós apoia polícia corrupta e violenta, nenhum de nós discursa contra os direitos humanos, nenhum de nós reclama de cotas, nenhum de nós ficou irritado ao ver negros em aviões, ninguém comparou aeroporto a rodoviária. Nenhum de nós apoia candidato à presidência que propõe bombardear favelas. A culpa é sempre dos outros - neste sentido, a Beija-Flor lavou a alma de muita gente, perdoou todos os seus pecados.

(Ah, achei justo a Mangueira, minha escola, perder pontos em comissão de frente e em bateria. Mereceria até ser punida pela alegoria que passou apagada. Mas queria apenas que tivesse havido o mesmo rigor com a escola declarada campeã).


Aniversário verde e rosa

separador Por Fernando Molica em 11 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

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Aniversário é como um réveillon particular, data que marca o encerramento de um ciclo e o início de outro. Daí a festa, as comemorações, os parabéns, os desejos de felicidades - o aniversário mostra que ultrapassamos 365 dias e temos outros tantos pela frente.

Nasci à 0h15 de um domingo de Carnaval, foi uma espécie de indicação, de alerta. Mais uma vez, o 12 de fevereiro vai cair durante a maior de nossas festas, e meu melhor presente veio meio por acaso, a possibilidade de substituir um amigo no carro da Mangueira que homenageará os blocos de rua - estarei entre os representantes do querido Imprensa Que Eu Gamo.

Nem gosto tanto assim de desfilar, prefiro o papel de espectador. Mas, depois de um 2017 tão difícil, achei que não dava pra recusar a possibilidade de comemorar meu aniversário no meio da escola que tanto amo, que me escolheu, que me seduziu com sua improvável e linda combinação de verde com rosa. Não dava pra dispensar esse jeito tão espetacular de marcar o fim de um ciclo e o início de outro - o desfile ocorrerá já na madrugada do dia 12.

É hora de, como na linda canção do Sidney Miller, reacender alegrias e salões. Momento de vestir a fantasia e de seguir o que diz o ótimo samba da Mangueira: pra ser feliz, irei - do meu jeito, meio desajeitado, vou como posso - no meio da multidão. Viva a Estação Primeira!


Bandidos que não são os de sempre

separador Por Fernando Molica em 07 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Seriado que trata de um grande traficante mexicano, 'El Chapo' mostra desde os primeiros capítulos que uma organização criminosa só é capaz de sobreviver e prosperar com o apoio/cumplicidade do aparelho estatal. Na hora em que choramos a morte de mais duas crianças cariocas é fundamental criticar o sistema de segurança e também ressaltar questões ligadas à desigualdade, à precariedade de serviços como saúde e educação; é importante citar a falta de esperança de milhares de jovens, sentimento gerado por condições de vida tão degradantes.

É impossível ignorar a óbvia parceria de setores do Estado com a criminalidade, algo que não esgota na tradicional associação entre bandidos-bandidos e bandidos-policiais, convênios que prosperam ainda mais na crise. O episódio da suposta ligação da deputada Cristiane Brasil com um grupo de traficantes é exemplar dos laços mais profundos de casos em que uma mão suja a outra.

Não dá pra dizer que a deputada é culpada, o caso ainda está sendo investigado, mas é lícito dizer que esse tipo de acordo - que envolve proteção institucional e garantia de domínio de território - é mais do que comum, sem ele a situação no Rio não teria chegado a um ponto tão absurdo.

Basta olhar para os bandidos que tanto nos assustam. São quase todos muito pobres, iletrados, incapazes de negociar importação de armas/drogas/munição. Muita gente faz isso por eles, gente que, de um modo geral, defende a violência da polícia e que não admite qualquer discussão sobre temas relevantes para a segurança pública, como a descriminalização do uso de drogas - os caras não querem tratar do fim de um negócio que gera lucros financeiros e políticos. Não podemos nos limitar a focar apenas nos bandidos de sempre.


Agressões no fim do desfile

separador Por Fernando Molica em 28 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Este país está muito doente. Hoje, por volta das 18h, fui constrangido por guardas municipais e xingado por duas ou três pessoas, cidadãos que, antigamente, eram chamados de "populares" pelos jornais.

Aos fatos: depois de acompanhar o ensaio da Beija-Flor na Avenida Atlântica, notei uma movimentação na esquina da Rua Paula Freitas. Um homem com cerca de 70/75 anos, vestido com uma camisa da escola de Nilópolis, reclamava do furto de seu cordão, apontava para dois suspeitos - jovens negros, que teriam, arrisco, em torno de 16/19 anos.

Guardas municipais - uns oito - fizeram seu trabalho, seguraram os dois suspeitos, um deles estava com o cordão, que foi entregue ao homem que havia sido furtado. Até aí, tudo certo. Só que, na Paula Freitas, a caminho do carro da GM, guardas começaram a agredir os dois detidos com golpes de cassetete. Os caras não tentaram fugir, eram magrinhos, estavam dominados. Mesmo assim, apanharam.

Corri então na direção dos guardas e reclamei. Eles estavam certos em prender os dois caras, mas não poderiam agredi-los, cheguei a me identificar como jornalista. Foi o que bastou para um dos guardas - L. Santos, cito de memória - começar a gritar comigo. Disse que a agressão aos detidos fora motivada por desacato: "Eu fui desacatado!", repetiu. Eu frisei que o fato, condenável, claro, não lhe dava o direito de agredir os dois sujeitos.

Foi quando outros dois GMs - um deles, uma mulher - entraram na discussão, deram razão ao colega. Tentei parabenizá-los pela recuperação do cordão e detenção dos acusados (estava sendo sincero), eles pareceram não me ouvir. O L. Santos, aos gritos, perguntou se eu tinha visto o ocorrido (sim, confirmei), se ficaria feliz se um parente tivesse sido furtado (não, respondi). Perguntou o que eu fizera para resolver o caso (nada, retruquei). Ele ressaltou que estava trabalhando, enquanto que eu estava me divertindo (tentei dizer que este era o trabalho dele, acho que ele não ouvi). O cara me culpou por eu estar me divertindo e, ele, trabalhando.

O guarda falava tão alto (afirmou que eu também usara um tom acima do razoável) que chamou a atenção de outras pessoas (reivindiquei, como cidadão, que ele falasse mais baixo, não adiantou muito). Um homem de uns 30 anos, um dos populares, começou a me xingar, disse que eu era um filho da puta, que deveria levar os bandidos para casa. Comentei com o guarda Santos que o cara estava me desacatando, ele me ignorou.

No fim das contas, fiquei com um certo medo de apanhar dos tais populares (um deles me filmava, como se eu tivesse feito algo errado). Tratei então de ficar perto dos GMs, eles, acreditei, não me agrediriam. Foi quando surgiu um anjo, um ex-colega da 'Folha de S.Paulo, que, acompanhado de sua mulher, me reconheceu, ficou ao meu lado. Fui com eles até a esquina, agradeci o apoio, fui embora.

Em meio a tantas tragédias, o fato pode parecer desimportante, mas não é assim. O caso demonstra a brutalidade que existe entre nós, o hábito do desrespeito à lei, a força da cultura do linchamento, a lógica dos fins que justificam quaisquer meios. Características que ajudam a explicar a popularidade daquele que, até a semana passada, era o segundo colocado nas pesquisas para presidente da República. Não ficarei surpreso ser ele for eleito.


Funk, samba e representatividade

separador Por Fernando Molica em 19 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Mais do que condenar o funk por músicas que reforçam o machismo, elogiam setores da bandidagem e naturalizam e mesmo estimulam a violência - aí incluída a sexual -, seria interessante ver nessas letras sintomas de uma realidade que não se resolve com a retirada de uma canção do Spotify. A censura não resolve nada.

MC Diguinho, autor de 'Surubinha de leve', diz que a música revela a realidade em que ele e muitos brasileiros vivem. O problema, no caso, não está em abordar uma dada realidade, a questão é outra: o incentivo e a exaltação de condutas criminosas - a letra é bem imperativa: "Taca a bebida/ taca a pica/ E abandona na rua".

Mas, sim. 'Surubinha' também ilustra uma realidade violenta, desumana, machista, cruel, um cotidiano presente na vida de milhões de jovens - no lugar da tríade sal-sol-sul entra a tiro-porrada-bomba. São jovens que nascem e crescem em áreas de urbanização precária, dominadas por vendedores de drogas ou milicianos e que veem no Estado um outro inimigo - amigos não disparam tiros a esmo de um helicóptero, não humilham, não torturam e matam. Seria patético cobrar desses jovens que tratassem de barquinhos que vão, de tardinhas que caem. A mesma sociedade que nega direitos básicos a moradores de favelas não pode querer determinar o que essas pessoas vão compor e cantar.

Com ou sem apologia a atividades criminosas, o funk exerce, já há algum tempo, o papel de cronista de áreas da cidade que só costumam ser notícia em caso de tiroteios. Um papel reconhecido por muitos e muitos jovens que se identificam com aquela realidade gritada por vozes esganiçadas, duras, fora do tom. A própria lógica de produção do funk, que dispensa o domínio de instrumentos musicais, reforça o papel do gênero como porta-voz da exclusão, de arte de subsistência.

E não vale falar em pressão da mídia, das rádios. Funk é música de pobre, demorou a ser reconhecido como gênero, ralou muito para encontrar espaço nos veículos tradicionais. Quem vive do comércio da música quer ganhar dinheiro, pode ser com samba, rock, ópera ou funk. Quem gosta de funk gosta porque gosta, não por ter sido obrigado.

A queridíssima Flavia Oliveira postou, nesta sexta, um misto de desabafo e lamento pelo fato do ensaio de sua Beija-Flor ter sido interrompido - e logo depois, encerrado - por uma cantora de funk. O protesto e a tristeza são legítimos (também fiquei chocado) mas permitem uma reflexão sobre a identidade que o samba vem assumindo nos últimos anos e seu progressivo distanciamento das comunidades que o embalaram.

Narcisistas, as escolas de samba parecem ter sido seduzidas pelo brilho que criaram para conquistar corações alheios ao seu mundo. Cultivaram tanto a relação com poderes externos (bicheiros, políticos, musas, rainhas) que fecharam os olhos para os responsáveis por seu nascimento e crescimento.

A perspectiva do show fez com que, aos poucos, muitos dos elementos que constituem o desfile fossem terceirizados, entregues a pessoas de fora, fenômeno que começou com o aspecto visual, com a chegada de carnavalescos com formação em belas artes. Alas de compositores perderam importância - hoje, qualquer pessoa pode inscrever samba nas escolas -, os ensaios passaram a ser feitos longe das comunidades - no grupo especial, a Mangueira é a única que ensaia em quadra que fica dentro de favela.

Este diálogo com setores externos vem desde o início das escolas cariocas, que sempre negociaram com poder e buscaram legitimação social. Mas esta porta aberta que viabilizou seu crescimento é a mesma que, agora, ameaça sua legitimidade. Os protestos contra a decisão do prefeito de reduzir a verba para as escolas foram tímidos e localizados. Um dos líderes de igreja entranhada em áreas populares, Marcelo Crivella sabia que seu gesto não teria consequências maiores.

O problema maior não é a existência de uma 'Surubinha de leve', mas o fato de a canção ter virado hit, ser admirada por milhões de pessoas, algo que demonstra insensibilidade, desumanização, desrespeito a direitos básicos. Mas demonstra também a irresponsabilidade social daqueles que deveriam gerar melhores condições de vida para a população. A surubinha é também consequência da grande suruba nacional, da violência em larga escala cometida e permitida pelo Estado.

MC Diguinho errou feio ao criar a tal canção, mas não dá pra negar que ele se inspirou no que vive, no que vê. Não dá para tratar o sintoma como causa de uma doença. Funk-exaltação da brutalidade e da violência sexual, 'Surubinha' é um alerta, um grito, um tiro como tantos outros. É fundamental entender que tiros são esses para tentar ao menos diminuir as condições que estimulam seus disparos.

Para encerrar: sempre lembro daquele suposto diálogo entre Picasso e um oficial nazista que tinha acabado de conhecer 'Guernica', quadro que denuncia os horrores do bombardeio à cidade feito, durante a Guerra Civil, por caças alemães. O sujeito teria perguntado ao pintor: "Foi você que fez isto?". Ele respondeu: "Não, foram vocês."


A surubinha e a bolsonarização

separador Por Fernando Molica em 17 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

A música 'Só surubinha de leve' é absurda, incentiva o estupro e, no limite, o homicídio de mulheres. Mas o mais espantoso e revelador sobre o Brasil é o fato de ter se transformado em sucesso. Melhor seria se tivesse sido banida pelos ouvintes, não pelo Spotify.

Vivemos numa sociedade em que muita gente acha legal e até engraçado ouvir/curtir uma canção que chama mulheres de "filhas da puta" e que ensina: "Taca a bebida/ Depois taca a pica/ E abandona na rua".

Ainda vamos sofrer muitas consequências desse processo de desumanização, de sistemática demonização dos direitos humanos, de naturalização da violência, de propagação da intolerância e de exaltação da brutalidade e do machismo.

Uma lógica que tem a ver com a exclusão, com a ignorância, com descaso com a educação - os tiros são esses, nós somos o alvo. Ninguém fica impune ao processo de bolsonarização.


O menino e a foto do réveillon

separador Por Fernando Molica em 02 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (1)

Por conta daquela linda e já famosa foto do menino no réveillon, muita gente questiona o direito de se fotografar e vender a imagem de uma criança. Na boa, o fotógrafo não fez nada errado. Pelo contrário, fez a foto que marcou a festa, uma imagem que, de tão boa, permite tantas e várias interpretações.

A foto foi feita em local público e a imagem não tem nada de degradante, não se poderia acionar o ECA para impedir sua divulgação. Trata-se apenas do registro de um menino (é negro, mas poderia ser branco) fascinado pelo brilho dos fogos. Aquele olhar poderia ser meu, eu poderia ser aquele menino.

No mais: se fosse necessário pedir autorização do fotografado para divulgar imagens captadas em locais públicos ninguém poderia mais publicar fotos de violência policial. Até bandidos flagrados em suas atividades teriam que autorizar a divulgação de suas imagens.

Será que deveria ter sido proibida a imagem da menina que, no Vietnam, foi vítima do napalm? Trata-se de uma foto bem mais delicada, a menina estava nua. Mas foi uma foto fundamental, que traduziu o horror daquela guerra absurda. E as imagens de vítimas de campos de concentração? Deveriam ser censuradas, o mundo deveria ser impedido de constatar aquele martírio coletivo?

Não podemos cair na lógica da censura, da proibição. Como frisou a Andréa Pachá num comentário sobre a mesma foto do réveillon, é preciso ter cuidado com a criminalização das artes. Já tivemos bons exemplos dessa maluquice no ano passado.

E, sim, o cara pode vender a foto, A foto pertence ao fotógrafo, ele foi o único sujeito que, entre milhões de pessoas, teve a sensibilidade e a técnica de registrar aquela cena. Ele, Lucas Landau, é o autor da obra, parabéns pra ele.


João, o algoz do João

separador Por Fernando Molica em 30 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

João Gilberto é vítima de sua busca pela perfeição, de sua luta obsessiva pela perfeita combinação de voz com instrumento; tornou-se refém da missão de subverter o óbvio.

Entregou-se tanto que perdeu contato com a música possível de ser feita, isolou-se, gravou acompanhado apenas do próprio violão, o único admissível pelo seu grau de exigência. Chegou ao ponto de sequer autorizar o relançamento de seus antigos discos.

Há alguns anos, a Companhia das Letras lançou o livro 'Ho-ba-la-lá', em que o jornalista alemão Marc Fischer narra sua busca por João Gilberto, suas tentativas de aproximação, de entrevistá-lo. No texto, ele conta ter recebido conselhos para não chegar perto demais do ídolo, muitos lhe alertaram do risco que corria, tratava-se de uma órbita perigosa, que vitimara algumas pessoas. Fischer suicidou-se antes da publicação do livro.

Que João tenha paz nesses seus últimos anos de vida. E que 2018 nos chegue leve, que tenhamos ciência e mesmo orgulho de nossas limitações. Viva João Gilberto!


"Romance muito recomendável" - resenha da edição francesa de 'Notícias do Mirandão'

separador Por Fernando Molica em 30 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

O blog francês Bob Polar Express publicou esta resenha sobre o 'Notícias do MIrandão' ('Révolution au Mirandão').


Quando o acaso faz as coisas corretas. Nós descobrimos esta editora participando da massa crítica do Babelio. Para aqueles que não sabem, é simplesmente escolher um livro em uma longa lista e aguardar. Caso você receba uma exemplar, é necessário publicar uma crítica no site. O título deste romance nos atraiu, bem como o resumo. E descobrir um novo editor parecia interessante, especialmente pelo que oferece - "literatura mista, brasileira, regionalista, soco poético". Mas por que essa escolha do nome Anacaona? Ela era uma princesa haitiana que lutou contra os invasores espanhóis quando chegaram à América - e se tornou, por extensão, um símbolo de mulheres guerreiras e resistentes. As escolhas editoriais confirmaram o nosso interesse: a chamada literatura "minoritária", bem como as diferentes coleções Urbana, Terra, Epoca: "Escrever é uma arma", "Uma terra e suas raízes", "A diversidade das vozes contemporâneas". Escolha agradável, não é?
 
Nós entramos nesta favela fictícia - mas muito perto da realidade - nos passos de um jovem estudante branco - é possível notar que ele não passar por necessidades de sobrevivência - que decidiu parar de estudar para para se envolver em uma luta ideológica. Com uma predisposição oratória, ele é notado pelo chefe da organização de extrema-esquerda Conexão Revolucionária. Assim, irá se engajar numa trama, que faz fronteira com o documentário-ficção, que nos conduzirá de reuniões a debates, deliberações plenas de controvérsias para finalmente chegar a uma decisão final. A revolução está em andamento. Mas os argumentos e os meios de sua implementação parecem um tanto excessivos: esse processo supõe uma luta armada, uma guerra de guerrilha. Uma ONG se instala na favela, que servirá de posto avançado do grupo. Contatos essenciais são criados com um dos líderes da comunidade e com ... o chefe do tráfico de drogas da comunidade. Os primeiros efeitos são sentidos, geram uma mudança favorável. É essa iniciativa louca que descreverá o autor com um realismo mais convincente - ele é um jornalista - tanto por seu quadro como por seus personagens e pelo papel a eles atribuído.
 
Dizer que esta revolução pode ser condenada ao fracasso não representa um spoiler porque tudo sugere - através dos vários eventos - que não se derruba um regime estabelecido sem um exército de combatentes. Mas a intenção de Molica é menos compor um enredo do que usá-lo para nos permitir observar as flagrantes desigualdades sociais que são acompanhadas por corrupção generalizada - polícia, líderes - e exploração de soluções ilícitas. Claro, há descontentamento nas favelas, que ocupam 280 hectares do Rio, mas, se as pessoas conseguem sobreviver, elas também enfrentam uma guerra entre policiais e traficantes de drogas com várias mortes por semana. Isso impõe sua lei. É essa violência física e social que acontece entre cada linha. Considerar a possibilidade de uma revolução socialista pode não ser apenas o retrato fictício de um autor engajado, já que o Brasil já experimentou uma série de revoltas coletivas - especialmente em 2013, mas os manifestantes eram da classe média.
 
'Notícias do Mirandão' é uma novela social onde a obscuridade é imposta por uma violência latente - que servirá para desencadear o processo. O pivô da história é político. Seguir a vida cotidiana das pessoas desta favela é tão enriquecedor quanto emocionante. A questão do uso da violência contra a violência persiste na história. O da aproximação utópica entre ricos e pobres, brancos e negros, encontra uma resposta. A melhoria das condições de vida permanece sem solução. Molica escreve com sua caneta de repórter, mas não negligencia o ritmo e a intensidade das relações, das relações de poder. E então, há esta breve história de amor ... Romance muito recomendável.
 
Menção: as edições de Anacaona, lembre-se deste nome.

 
"Revolução Mirandao", Fernando Molica, edições Anacaona, coleção Urbana, traduzido do português por Sandra Assunçao e Isabelle Delatouche, publicado em 26/10/2017, 200 páginas.


Ano Novo

separador Por Fernando Molica em 29 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

A Andréa Pachá lembrou hoje deste texto que publiquei há três anos em O DIA. Com base em seu livro 'Segredo de justiça', tratei de expectativas trazidas por um ano novo. Vale republicá-lo, acho.

Comecei a ler semana passada, em pleno período de Natal e Ano Novo, 'Segredo de justiça', escrito por Andréa Pachá a partir de casos que vivenciou como juíza em varas de família. Foi bom ter iniciado a leitura nesta época em que somos meio instados a fazer um balanço do que se passou e a planejar o ano seguinte. Tendemos a achar que os fogos do Réveillon vão apertar um botão capaz de fazer uma faxina em nós mesmos e, ao mesmo tempo, acionar uma espécie de GPS que ao longo de 365 dias nos guiará por caminhos seguros, cheios de paz, amor e prosperidade.

Mas nada é garantido. Como é frisado num dos primeiros contos, é simples decidir a vida pelo retrovisor, detectar erros anos depois de cometidos -- há algumas décadas, um jogador de futebol declarou que só fazia prognósticos depois dos jogos. As histórias do livro envolvem dramas comuns, nem por isso banais: traições, divórcios, amores transformados em ódio, disputas por pensões alimentícias e pelos filhos.

Mesmo obrigada por ofício a decidir, Andréa não se coloca no papel de Deus, escapa do maniqueísmo de definir o certo e o errado. Compreensiva, busca alternativas, acordos que levem em conta as razões de cada uma das partes. "Maíra, não existe sonho errado. Sonhamos os sonhos possíveis. E nos esforçamos para acertar", diz a narradora -- uma juíza -- à mulher que, depois de forçar a separação, usava os filhos para provocar o retorno do ex-marido.

Espantada com a rapidez que temos para julgar a partir da leitura dos jornais, Andréa consegue entender a mãe que, depois de anos, optou por viver longe do filho esquizofrênico, deixado com o ex-marido. A autora se diz incapaz de condenar aquele comportamento: "(...) não existe um modelo que possa ser imposto a todas as mães naquelas circunstâncias", explica.

Botafoguense, acostumada, portanto, aos altos e baixos, ciente de nossas limitações, à quase certeza de que a euforia traz alguma dor, a autora, ao revisar tantos dramas, não insinua que a vida nos condena a uma segunda divisão; o livro é até otimista. Como afirmavam os palmeirenses e, agora, repetem os alvinegros, amor não tem divisão -- um jeito de dizer que o bom mesmo é jogar. Criança, percebi, depois de uma passagem de ano, que nada havia mudado; apesar da barulheira e da festa, o céu continuava igual. Mais tarde entendi a importância do ritual, da necessidade de um marco para o recomeço. Ao revelar dúvidas, ao buscar saídas, Andréa nos fornece uma espécie de habeas corpus que ajuda a sarar feridas e a abrir caminhos nesta virada de ano.


Chegaram!

separador Por Fernando Molica em 29 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

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Depois de 73 dias de viagem(!), chegaram, finalmente, os exemplares da edição francesa do 'Notícias do Mirandão'. A editora é a Anacaona.


Blocódromo: a exclusão cultivada

separador Por Fernando Molica em 28 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

O tal local fechado para a apresentação de blocos a ser criado pela prefeitura corre o risco de reunir muita gente, afinal de contas, a iniciativa segue a lógica da separação que tanto sucesso tem feito entre nós. Mais, reforça a tendência - estimulada pelo prefeito - de retirada de simbolismo das tradições culturais cariocas. Higienizada, domesticada, apartada de seu contexto e de suas origens, a manifestação vira evento.

Para o blocódromo irão todos aqueles que temem as ruas, que detestam o que chamam de 'mistura', uma característica fundamental do Rio, responsável, entre outras, pela criação, pelo crescimento e pela consolidação do samba. Por lá, não haverá camelôs no meio do bloco, será menor o risco de furtos - vai vigorar a ideia de um Rio cenário, exclusivo, limitado, chegou a hora dessa gente que se acha diferenciada mostrar seu valor (e seu temor). Uma gente que, divorciada da cidade, quer uma cidade paralela, um feudo controlado e vigiado.

Mas a lógica de segregação no carnaval vem de longe, tem também como porta-estandartes blocos da Zona Sul e do Centro que há muito cultivam a prática de não revelar o horário de seus desfiles, estratégia para afastar indesejáveis, pessoas que moram longe, nos subúrbios, que não integram aqueles grupos de bem-nascidos. Na ânsia de exclusividade, esses blocos adotam a linha de condomínios fechados, de privatização de espaço público, querem a rua, que é de todos, apenas para eles - deveriam desfilar em seus playgrounds.

As atitudes do governo Crivella que atentam contra a cultura popular e o carnaval têm que ser criticadas, mas é preciso reconhecer que ele sabe onde pisa. Não teria comprado briga com as escolas de samba se não soubesse o quanto essas agremiações se afastaram de suas bases, perderam boa parte de seus vínculos com as comunidades que deveriam legitimá-las.

O prefeito sabe também que, até por conta de suas atividades ilícitas, muitos dos históricos patronos de escolas evitam brigar com o poder público - historicamente, tentam algum tipo de parceria, cumplicidade ou associação com aqueles que mandam no Estado. É a exclusão tão desejada e cultivada por tantos setores da sociedade é que permite ao prefeito pôr corda nos blocos e minar as bases de manifestações ligadas à festa e à contestação.


Carnaval com roleta

separador Por Fernando Molica em 27 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

Essa história de blocódromo chega a ser patética, uma demonstração de desconhecimento da cidade, de seu povo e das suas tradições. Brincar num bloco tem a ver com ocupação da rua, com a (perdão pela palavra) ressignificação do espaço público - entra a fantasia, saem o trabalho, a gravata, a obrigação.

Trata-se de um desafogo temporário que só faz sentido se realizado em lugares abertos. Algo semelhante a outros tipos de manifestações públicas, como políticas ou religiosas. Todos - foliões, políticos e religiosos - precisam da rua, para brincar, mostrar força ou fé. Não dá pra fazer procissões católicas ou megaeventos evangélicos em igrejas. Não dá pra homenagear Iemanjá numa piscina, né mesmo, Luiz Antonio Simas?

O renascimento dos blocos de rua no Rio está também ligado à elitização e ao excesso de organização das escolas de samba. O espetáculo ficou tão certinho que perdeu muito de sua capacidade de expressar o sentido libertário do carnaval, ganhou outra dimensão. Num processo (perdão de novo) dialético, o engessamento dos desfiles - desde 1984 emoldurados pela dureza do concreto armado - abriu caminho para os blocos, com dinheiro ou sem dinheiro a gente brinca.

Claro que, numa cidade grande como o Rio, o crescimento dos blocos geraria problemas, provocaria transtornos. Ao longo dos últimos anos, essas questões vinham sendo mais ou menos equacionadas, a quantidade de banheiros químicos aumentou, os blocos maiores foram retirados da Zona Sul e levados para o Centro. O caminho da negociação é o único possível, não dá pra retirar o carnaval do Rio assim como não é possível aterrar nossas praias ou acabar com nossas montanhas.

O Rio já viveu a fase de remoção de favelas, volta e meia há quem proponha limites à circulação de ônibus que levam suburbanos às praias da Zona Sul. A tentativa de enquadramento dos blocos faz parte do mesmo processo de separação, de manutenção de privilégios, de criação de feudos, O morador de Bangu é tão dono da praia de Ipanema como qualquer proprietário de cobertura da Vieira Souto. Espaços públicos são de todos.

No primeiro parágrafo falei em desconhecimento da cidade, mas a criação do blocódromo pode ser também o contrário, uma medida pensada por gente que conhece tanto a cidade que prefere vê-la enquadrada, domesticada, desprovida de sua força criativa e contestadora. Um Rio que tenha favelas cercadas, praias de acesso controlado e carnaval com roleta.


Brincar com o bumbum

separador Por Fernando Molica em 19 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

Concordo com aqueles que destacam, no novo clipe da Anitta, a presença do universo da favela e uma postura feminista. Mas friso um outro ponto, uma apenas aparente contradição entre os universos infantil (presente na melodia e no arranjo) e o adulto (representado pela letra e pelas imagens).

Ouvida sem as palavras, a canção lembra as compostas para um público infantil - melodia simples e repetitiva, marcação insistente, feita por som semelhante ao de instrumento de sopro e que faz lembrar o uso da tuba em bandas do interior.

Ao "pom, pom, pom" da marcação foram acrescentadas imagens e letra forte insinuação sexual ("Desce, rebola gostoso/ Empina me olhando/ Te pego de jeito"). Uma combinação que apenas parece não fazer muito sentido.

Mas o verso que fala em brincar com o bumbum indica que não há contradição. Embora não haja crianças nas imagens, a união entre os universos adulto e infantil não foi por acaso. Brincadeira e bumbum remetem ao imaginário de crianças, mas brincar com bumbum é para adultos.

'Vai malandra', como produto cultural representativo do seu tempo e do seu lugar, ressalta, entre outras características do país, uma realidade de adultos presos a uma estética musical infantil e de crianças que se acham adultas. Fará sucesso nas festas de todas as faixas etárias.


Chico com ágio

separador Por Fernando Molica em 17 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

O site Viagogo (https://www.viagogo.com/) está vendendo, com ágio, ingressos para a temporada carioca de Chico Buarque, que começa no próximo dia 4.

Uma meia entrada para o setor 1, diante do palco, que custa R$ 245,00 na tabela oficial, estava sendo oferecida, neste domingo, por R$ 657,00, um valor 2,68 vezes superior.

Para o setor 3, a meia entrada, que sai por R$ 170,00 na tabela oficial, estava disponível no site por R$ 333,00.

Na bilheteria, a inteira para o setor 2 custa R$ 420,00 - no site, sai por R$ 756,00.

A alta procura pelos ingressos - quase todos foram vendidos - fez com que fossem programadas oito apresentações extras.


Os mortos distantes

separador Por Fernando Molica em 17 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

Os dados sobre homicídios dissecados no ótimo material publicado por 'O Globo' revelam também a falta de iniciativas para tentar interromper a barbárie. Um imobilismo relacionado ao perfil da grande maioria das vítimas, pessoas pobres e negras, brasileiros que em boa parte da sociedade geram tanta empatia quanto aqueles assassinados na Síria, na Faixa de Gaza ou em algum país africano cujo nome esquecemos entre uma tragédia e outra. Não são encarados como vizinhos, mas como invasores que sequer deveriam ter nascido.

Muitos dos homicídios entre nós são festejados; na dúvida, morador de favela é sempre suspeito, sua inocência tem que ser provada até depois da morte - a frase "Ele era trabalhador" virou chavão em coberturas de crimes, uma espécie de atestado de bons antecedentes apresentado por parentes e amigos da vítima.

A simples suspeita, geralmente lançada pela polícia, de que o morto tinha algum tipo de ligação com atividades criminosas serve de justificativa para casos evidentes de assassinato. A violência policial - que tem vítimas e endereços bem definidos - é estimulada, quem defende o respeito à lei é chamado de defensor de bandidos, a expressão direitos humanos ganhou conotação negativa entre nós. Mesmo a eficiência na apuração de homicídios está ligada ao CEP das vítimas, o que estimula a impunidade e mantém o processo seletivo de escolha dos futuros cadáveres.

Não custa repetir que somos herdeiros de uma sociedade em que seres humanos eram donos de outros seres humanos, em que a tortura e o assassinato de pessoas escravizadas eram encarados como necessários à manutenção da ordem e das instituições. Uma lógica que não foi de todo abandonada, o trabalho escravo permanece, a violência continua seletiva (é só comparar índices de criminalidade em áreas ricas e pobres de nossas cidades), ainda é grande a resistência a mudanças que permitam a diminuição de uma desigualdade absurda e que se mantém intacta na vida e na morte. Só haverá queda significativa no número de homicídios quando os mortos passarem a ser vistos como nossos.


Sobre fotos, selfies e esquecimento

separador Por Fernando Molica em 09 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)


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"Como ouvir hoje uma fita de rolo, ver um filme em Super 8, um vídeo VHS? Como abrir um arquivo gravado em algum disquete? O caminho será o mesmo para as nossas fotos, nossas selfies, nossos vídeos. O esquecimento passivo não servirá apenas para os amores, a morte física dos fotografados fará com que sumam os registros de seus rostos, de seus corpos, de suas expressões. Hoje ainda é simples deixar no fundo de alguma gaveta as fotos de avós, de bisavôs. Quem, no futuro, ou seja, daqui a três ou quatro anos, terá saco para ficar transferindo as imagens dos velhinhos de cá para lá, quem vai tratar de atualizar o armazenamento daqueles registros? Aos poucos, tudo se perderá, sem drama, sem cerimônias de despedida. Como são fotos virtuais, fluidas, desprovidas do suporte do papel, serão esquecidas, abandonadas em algum cemitério de computadores. Não ficarão nem como registro de época, a ausência delas é que marcará uma época que independe do tempo, onde não haverá passado, um mundo radicalmente contemporâneo, em que fotos servirão apenas para lembrar do ato de se bater uma foto. Ninguém mais suporta baixar tantas e tantas imagens, o relevante é o clique, o instante, o ato de conferir, na hora, o resultado. Não é preciso rever a foto, recordá-la. Vale, no máximo, postá-la em alguma rede social. (...) Criamos a foto sem memória, veja só, a foto que não cobra, que não apresenta qualquer fatura. Uma não foto, incapaz de nos encarar, de jogar na nossa cara o que fizemos de nossas vidas. Inventou-se -- tem certeza de que você não participou disso? Seria ideal para limpar o currículo/folha corrida de seus assessorados -- um passado que não retorna, que fica confinado numa ausência de memória, um desafio à psicanálise, eu, eu, eu, doutor Freud sifudeu."

('Uma selfie com Lenin', Record, 2016).


BG
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