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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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O voto do Bruxo

separador Por Fernando Molica em 20 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

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Os integrantes da ABL decidem nesta quinta quem vai ocupar a vaga de Zélia Gattai; a cadeira 23, que já foi de Machado de Assis. Fantasmas da Academia asseguram que há dois favoritos: o jornalista Luiz Paulo Horta e o escritor Antônio Torres, com alguma vantagem para o primeiro.

Quem conhece a ABL sabe que a instituição não se propõe a ser apenas uma casa de escritores, tem a ambição de reunir uma elite da inteligência nacional. Sim, exige que o postulante a uma cadeira tenha publicado, pelo menos, um livro. Mas não se define como uma reunião apenas de literatos: Nelson Pereira dos Santos está lá para provar isso.

Mas é claro que os escritores é que dão espírito e sentido à instituição. A credibilidade da ABL, tão abalada na ditadura, foi recuperada, em boa parte, graças à eleição de nomes como João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Ana Maria Machado, Moacyr Scliar e Nélida Piñon. Nas últimas duas décadas, a ABL voltou a respirar, recuperou prestígio e força.

Bem, sabe-se lá o que entra em jogo numa eleição pra Academia (volto a recomendar o excelente "Farda, fardão, camisola de dormir", do Jorge Amado). O Horta é um ótimo jornalista, articulista sóbrio, referência na divulgação e crítica da chamada música clássica. Mas, enfim, o Antônio Torres é um grande escritor, autor de alguns clássicos contemporâneos, traduzido e estudado em muitos países, vencedor dos prêmios Zaffari & Bourbon e Machado de Assis - este, oferecido pela própria ABL, pelo conjunto de sua obra.

Sei não: seria meio esquisito a Academia não eleger um vencedor de seu prêmio máximo, prêmio que leva o nome do fundador da Casa. Isso, no ano do centenário de Machado de Assis. Um acadêmico que vai se sentar na cadeira que foi d´Ele. Machado, tenho certeza, votaria em Torres.


Caymmi

separador Por Fernando Molica em 19 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Caymmi morreu de amor. Isso é bonito demais pra não ser ressaltado.


Derrota e paz para os caras do vôlei

separador Por Fernando Molica em 16 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

bernardinho.jpg
Escrevo sem saber a quantas anda o jogo de vôlei entre as seleções masculinas do Brasil e da Polônia (que já deve ter começado há uma hora). Escrevo, portanto, ainda com base na derrota do time do Bernardinho diante da Rússia.

Confesso que fiquei meio animado com a derrota, da mesma forma que achei bom o time perder a tal da Liga Mundial aqui no Rio. Não que seja um chato estraga-prazeres, um derrotista, um botafoguense esquisito (ô redundância...) que se sente incomodado com sucessões de vitórias.

Nada disso. Até gosto do profissionalismo do Bernardinho e de seus comandados, admiro a seriedade e a dedicação de todos, a maneira como eles focam em um objetivo e o perseguem de forma obstinada. Há dois anos, eles foram um belo contraponto à bagunça daquela seleção de futebol que se arrastou pelos gramados alemães. De uma certa maneira, o time do Bernardinho exerce uma função didática num país tão acostumado a resolver seus problemas de maneiras pouco ortodoxas.

Até aí, tudo bem. Mas, caramba, não consigo imaginar que a vida seja assim o tempo todo. Que pessoas possam viver suas vidas assim tão desesperadas, pilhadas, concentradas. OK, é o trabalho deles. Mas será que precisa ser assim? Alguém aí imagina ter um chefe como o Bernardinho? Alguém aí imagina ser como o Bernardinho? Não consigo ver como todo aquele estresse possa ser sinônimo da tal vida saudável geralmente associada ao esporte.

O calendário do vôlei internacional parece reforçar um pouco o problema. São muitas competições importantes, uma atrás da outra. O futebol tem apenas uma Copa do Mundo a quatro anos, tempo suficiente para que ocorra um descanso, e, mesmo, uma renovação de times e jogadores. No vôlei, não: olimpíadas, campeonato mundial e Liga Mundial se sucedem. Quando uma termina, começa a outra. Mal dá pra comemorar uma vitória: os caras tão lá pulando na quadra, dando peixinho, e vem o Bernardinho dizer que, no dia seguinte, eles têm que começar a pensar na competição seguinte. Que saco!

Talvez o quase imbatível esquadrão brasileiro esteja sendo vítima dele mesmo, de uma certa arrogância; vítima de sua pregação em favor de sacrifícios e esforços sem ter fim. Talvez os atletas sejam agora seus próprios algozes, ansiosos para poderem perder alguns jogos, desejosos da paz só fornecida por uma derrota que nos alivia do peso, do compromisso da vitória.

É meio fora de moda falar em dialética, mas, que seja. Que os valorosos jogadores de vôlei, que tantas alegrias nos deram, possam ter o direito de se divertirem um pouco, longe da figura paterna-autoritária do Bernardinho (por falar nele, fico admirado com o seu filho, o Bruno, levantador do time. Como o rapaz gosta de tomar esporro. Além de ser filho do Bernardinho, resolveu jogar vôlei e acabou dando um jeito de ficar duplamente subordinado ao pai).


Roberto & Caetano - o inferno dos ingressos

separador Por Fernando Molica em 12 de agosto de 2008 | Link | Comentários (3)

Não vou, de novo, reproduzir aqui o passo-a-passo de uma tentativa de comprar ingressos pela internet. Já fiz isso uma vez, na época da Flip. Mas fica o registro e uma interrogação: por que, afinal, isso nunca dá certo? Estou, desde às 9h50, tentando comprar ingressos para o show do Roberto Carlos e do Caetano Veloso. O site da Tickektronic está, obviamente, travado. O contato por telefone também é impossível.

OK, o erro começa na organização: é meio complicado marcar para o Teatro Municipal um show que reúne dois dos mais representativos artistas do país; cantores e compositores que, cada um do seu jeito, marcaram os últimos 40 anos de nossa história musical e afetiva. Um show como esse, de apresentação única, teria que ocorrer num local bem maior.

Mas já que é assim - apresentação única no Teatro Municipal -, os caras poderiam ter armado um esquema minimamente decente para a venda de ingressos, né? Algo que não revelasse de maneira tão óbvia a incompetência e o descaso de quem é encarregado de fazer as vendas. Sei que amanhã vou ler nos jornais uma série de desculpas: a procura superou em muito as expectativas, o sistema da Ticketronic tem capacidade para atender a zilhões de internautas/hora, aquelas baboseiras de sempre.

Eles que inventassem um outro jeito qualquer para impedir a repetição de um processo irritante, que nos toma tempo e paciência. Aumento da capacidade do site, leilão de ingressos, sorteio pra ver quem poderia adquirir os bilhetes, qualquer coisa. O que não dá é pra fingir competência e atrapalhar a vida de muita gente.


Chororô tricolor

separador Por Fernando Molica em 07 de agosto de 2008 | Link | Comentários (5)

A história já está rolando em outros blogs e sites, mas é boa demais pra não ser reproduzida aqui. A sentença do juiz José de Arimatéia Beserra Macedo, do 25o. Juizado Especial Cível do Rio, é antológica. Em resumo: em julho passado, um torcedor do Fluminense - Carlos A.S. Baptista - recorreu à Justiça por se sentir ofendido com as gozações publicadas pelo jornal "Meia Hora". O tablóide fez uma uma série de brincadeiras sobre a derrota do tricolor para a LDU na final da Libertadores.

O juiz não perdoou, e, em português claríssimo - o que é raro entre seus pares -, deu uma lição de como um torcedor deve ser comportar. O Baptista ainda foi condenado a pagar as custas do processo.


"Primeiro registro que é absolutamente incrível que o Estado seja colocado a trabalhar e gastar dinheiro com uma demanda como a presente, mas... ossos do ofício!

Ressalto, desde já, estarem presentes todos os pressupostos de regular desenvolvimento do processo e as condições para o legítimo exercício da ação. O autor é capaz e está bem representado, o juízo é competente e a demanda está regularmente formada.

As partes são legítimas, há interesse de agir, já que a medida é útil na medida em que trará benefício ao autor, necessária, já que sem a intervenção judicial não poderia ser alcançado o que se pede, e o pedido, por sua vez, é juridicamente possível, tratando-se de compensação por dano moral e pedido de retratação.

O que não existe nem de longe é direito a proteger a absurda pretensão do reclamante. A questão é de direito e de mérito e assim será resolvida evitando-se maiores delongas com esse desperdício de tempo e dinheiro do Estado.

O reclamante, cujo time foi derrotado na final da Libertadores, sentiu-se ofendido com matérias publicadas pelo jornal reclamado, que, segundo ele, ridicularizavam os torcedores, incitavam a violência e traziam propaganda enganosa.

As matérias, no entanto, são apenas publicações das diversas gozações perpetradas pelas demais torcidas do Estado em razão da derrota do time do reclamante. Tais gozações são normais, esperadas e certas de vir sempre que um time perde qualquer partida, quanto mais um título importante que o técnico, jogadores e torcedores afirmavam certo e não veio. Mais.

As gozações são inerentes à existência do futebol, de modo que sem elas este não existiria porque muito de sua graça estaria perdida se um torcedor não pudesse debochar livremente dos outros.

É certo que o reclamante "zoou" os torcedores de outros times da cidade em razão de derrotas vergonhosas na mesma competição em que seu time foi derrotado, em razão de um dirigente fanfarrão ou em razão de uma choradeira com renúncia, e nem por isso pode o mesmo ser processado.

Ressalto que se o reclamante viu tudo isso e ficou quietinho, sem mangar de ninguém e sem se acabar de rir, - não ficou, mas utilizo-me dessa (im)possibilidade para aumentar a argumentação - deve procurar outros esportes para torcer, porque futebol sem deboche não dá!

Ainda que a matéria fosse elaborada pelo jornal reclamado, é possível à linha editorial ter um time para o qual torcer e, em conseqüência lógica de tal fato, praticar "zoações", o que, em se tratando de futebol, é algo necessário e salutar à existência do esporte. Registro que há jornais que não só têm a linha editorial apoiando um ou outro clube, como há os que são criados pelos torcedores para, dentre outras coisas, escarnecer os rivais, o que é perfeitamente viável.

Evidente, por todo o ângulo em que se olhe, que não há a menor condição de existir a mínima lesão que seja a qualquer bem da personalidade do reclamante. "Zoação" é algo inerente a qualquer um que escolha torcer por um time de futebol e vem junto com a escolha deste.

O aborrecimento decorrente do deboche alheio é inerente à escolha de uma equipe para torcer e, portanto, não gera dano moral, ainda que uma pessoa, por excesso de sensibilidade, se sinta ofendida e ridicularizada.

Continua o reclamante na sua petição afirmando que o reclamado incita a violência com sua conduta. É engraçado, porque o próprio reclamante afirma que teve que dar explicações à diretoria de seu local de trabalho em razão de desavenças com seus colegas. A inicial não é clara neste ponto, mas se houve briga em razão do reclamante não aceitar as gozações fica ainda mais evidente que o mesmo deve escolher outro esporte para emprestar sua torcida, porque, como já dito, futebol sem deboche, não dá! E o que é pior!

O reclamante, se brigou, discutiu ou se desentendeu foi porque quis, porque é de sua vontade e de sua índole e não porque houve uma publicação em jornal. Em momento algum o jornal sugere que haja briga, o que só ocorre em razão de eventual intolerância de quem briga, discute ou se desentende.

Por fim, o argumento mais surreal! A propaganda enganosa! Chega a ser inacreditável, mas o reclamante afirma que houve propaganda enganosa porque na capa do jornal há um chamado dizendo existir um pôster do seu time rumo ao mundial, mas no interior a página está com "uma foto com os jogadores (...) indo em direção a uma rede de supermercados".

Ora, e a que outro mundial o time do reclamante poderia ir se perdeu o título da Libertadores? Qualquer um que leia a reportagem, inclusive toda a torcida de tal time e em especial o reclamante, sabe, por óbvio, que jamais poderia existir foto da equipe indo à disputa do título mundial no Japão, porque isso nunca ocorreu.

A pretensão é tão absurda que para afastá-la a sentença precisaria apenas de uma frase: "Meu Deus, a que ponto nós chegamos??!!!", ou "Eu não acredito!!!" ou uma simples grunhido: "hum, hum", seguido do dispositivo de improcedência.

É difícil encontrar nos livros de direito um conceito preciso do que seria uma lide temerária, mas esta, caso chegue ao conhecimento de algum doutrinador, será utilizada como exemplo clássico para ajudar na conceituação.

O reclamante é litigante de má-fé por formular pretensão destituída de qualquer fundamento, utilizar-se do processo para conseguir objetivo ilegal, qual seja, ser compensado por dano inexistente, além de proceder de modo temerário ao ajuizar ação sabendo que não tem razão e cuja vitória jamais, em tempo algum, poderá alcançar.

Isto posto, julgo improcedente o pedido.

Condeno o reclamante como litigante de má-fé ao pagamento das custas, nos termos do caput do artigo 55 da Lei 9.099/95.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Após as formalidades legais, dê-se baixa e arquivem-se.

Rio de Janeiro-RJ, 31 de julho de 2008.
José de Arimatéia Beserra Macedo
Juiz de Direito"


É Gil!

separador Por Fernando Molica em 05 de agosto de 2008 | Link | Comentários (1)

gil.jpg

Há algum tempo que vinha achando a carreira de Gilberto Gil vinha meio assim-assim. A impressão era de que ele vinha tocando a bola pro lado, cadenciando o jogo, esperando o tempo passar. Talvez o longo tempo à frente do Ministério da Cultura tenha colaborado para um período pouco criativo, talvez a inspiração estivesse secando com a idade - a voz a cada dia mais rouca reforçava um pouco esta idéia de cansaço/envelhecimento.

Mas ontem assisti ao novo show do ex-ministro, feito na entrega dos prêmios Tudo de Bom, uma promoção de "O Dia". No início foi meio esquisito, parecia haver um certo descompasso entre Gil e a platéia, entre Gil e ele mesmo. A animação que ele demonstrava no palco parecia meio solta, descolada, um pouco fora de contexto.

Mas eis que o velho e ótimo Gil renasceu numa canção nova, belíssima, "Não tenho medo da morte". Olha só este pedacinho da letra:

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou


A letra completa vai abaixo, a gravação pode ser ouvida no canto do site de Gil dedicado ao novo CD, "Banda larga cordel". Só para lembrar: o Gil é, entre nossos compositores, o que melhor trata da morte. É só lembrar de "Então vale a pena" ("Se a morte faz parte da vida/ E se vale a pena viver/ Então morrer vale a pena/ Se a gente teve o tempo para crescer").


Não tenho medo da morte
música e letra: Gilberto Gil

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.


Concurso de frases

separador Por Fernando Molica em 01 de agosto de 2008 | Link | Comentários (0)

Depois de ouvir frases sobre Goebbels, novo 11 de Setembro e violência assimilada já no ventre da mãe, deu vontade de criar um concurso de tiradas infelizes. Por exemplo: o Troféu Estupra Mas Não Mata. O vice-campeão ficaria com um prêmio de consolação, a medalha Relaxa e Goza.

O primeiro colocado receberia a coleção completa de todas as atas de reuniões da Rodada de Doha. Em alemão. O vice poderia ganhar o direito de fazer um tour pelo Complexo do Alemão num dos 12 caveirões da Polícia do Rio.


Amorim, o falastrão

separador Por Fernando Molica em 31 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

Será que vale dar uma examinada na água que andam servindo no Itamaraty?


Desindexação das armas

separador Por Fernando Molica em 31 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

E vamos pra segurança pública de novo. Rapidinho: já tem gente reclamando da decisão do secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, de restringir o uso do fuzil em áreas urbanas. A decisão foi anunciada em maio e reafirmada nos últimos dias.

Nunca troquei tiro, jamais apertei em gatilho, sei, apenas em tese (graças a Deus!) dos efeitos de um tiro de fuzil. Mas a idéia do Beltrame, respaldada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública, é interessante. Talvez sirva para iniciar uma espécie de desindexação da lógica armamentista que há algum tempo se impõe aqui no Rio.

Na época da inflação alta os preços eram indexados, um aumento puxava o outro, numa espiral sem fim. A situação é parecida no Rio: cada vez temos mais armamentos, cada vez mais pesados. Nessa brincadeira, as forças de segurança do estado acabaram proprietárias de 12 blindados, os caveirões - o que é uma doideira. Interromper a indexação das armas talvez seja um bom passo. é possível até que se dedique mais tempo para impedir que bandidos tenham acesso a armas e a munição de guerra.


"Predadores"

separador Por Fernando Molica em 29 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

Pepetela1.JPGTerminei ontem a leitura das 545 (!) páginas de "Predadores", de Pepetela, lançado por aqui durante a Flip. Bom? Ruim? Bem, mais ou menos. Se fosse ruim, eu não teria atravessado tantas e tantas páginas. O livro oferece um bom panorama da Angola pós-independência, mostra como uma nova elite foi sendo criada dentro e em torno da estrutura do MPLA, detalha os crimes e a cafonice de um novo-riquismo que emerge no novo país.

Isso tudo é legal, interessante, ajuda a entender um pouco o que se passa lá do outro lado do Atlântico. O problema do livro é outro. Os personagens são um tanto quanto esquemáticos. O predador-mor, o Vladimiro Caposso, é meio fdp demais, autoritário, corrupto, oportunista, sem qualquer escrúpulo. O Nacib, jovem idealista de origem pobre, apaixonado pela filha do VC, é um cara bem legal, sujeito boa-praça, esforçado, estudioso, meio bobão nas questões do amor.

Nacib não chega a ser um antagonista explícito do VC - os dois, se me lembro bem, nem chegam a ter algum encontro. Mas o gajo é uma espécie de antagonista moral do protagonista: de um lado, VC, o mal encarnado que corrói as esperanças de um novo país, da pátria socialista dos sonhos; do outro, o idealista e trabalhador Nacib. Um outro personagem, o advogado Sebastião Lopes, também surge para fazer contraponto a VC.

Posto em desgraça logo depois da independência - acusado de ter posições contrárias ao novo regime -, Lopes, pelo contrário, encarna os "verdadeiros" ideais do MPLA. Ex-amigo de VC, o reencontra lá na frente, quase no fim do livro: permanece pobre, advogado de pobres, mas é um homem honrado, ungido pela força de princípios. "Sentiu alguma inveja, há muitos anos ninguém lhe olhava daquela maneira, grata e humedecida, com respeito também" - neste trecho, Pepetela diz como VC se sente ao ver o respeito que pobres devotavam a Lopes.

Pois. O livro ajuda a entender Angola, a África e, de certa maneira, o próprio Brasil - há um pouco de VC no comportamento deslumbrado, corrupto e atabalhoado de muitos dos que chegaram ao poder no últimos anos. Mas "Predadores" fica a dever como literatura, arrisca pouco na tentativa de entedimento de homens e de suas contradições. O jogo não é tão simples, não se resume a bons e maus.


"Nome próprio"

separador Por Fernando Molica em 26 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

nomeproprio.jpg

O filme do Murilo Salles vale o ingresso com sobras. Pela ótima interpretação de Leandra Leal, pelas belíssimas e ágeis imagens captadas pelo próprio Murilo, pelas bem sacadas soluções de inserção de textos na tela, pela trama-meio-sem-trama de uma adorável/detestável jovem blogueira que vive e escreve de forma furiosa (chega a dizer algo como "pra mim, o caos é ordem").

O mergulho de "Nome próprio" no tal universo feminino é corajoso, sensível e tem, entre outras, uma cena antológica: a Camila, personagem principal, sai de mais uma de suas complicadíssimas relações e, angustiada, com pouca grana (se apropriou de alguma do ex), vai a uma... sapataria e compra um belo e caro par de botas. Só quem nunca viveu com uma mulher desconhece esta curiosa atração que sapatos em geral, e botas em particular, exercem sobre esses seres tão particulares.


O direito de matar

separador Por Fernando Molica em 24 de julho de 2008 | Link | Comentários (5)

O debate sobre direitos individuais e coletivos é sempre meio complicado. Até que ponto vai o meu direito, em que lugar começa o direito da coletividade? Principalmente, a partir de que referência a sociedade/coletividade tem direito a cercear meu direito individual? Boas e velhas perguntas. Bem, tudo isso é pra falar no desembargador do Rio que deu uma espécie de 'habeas-copos' (a expressão é de um amigo lá do Dia) para um agente de segurança.

Com base num dispositivo da Constituição que dá a qualquer um o direito de não fazer prova contra si mesmo, o desembargador emitiu pro segurança um salvo-conduto: o sujeito não está obrigado a se submeter a testes que comprovem sua eventual embriaguez.

Sei lá, longe de ser abstêmio. Mas há muito tempo que vinha evitando dirigir depois de beber. Tinha lá minha tabela particular, uma margem de tolerância que permitia - ou não - uma combinação entre álcool e volante. Claro que a Lei Seca atrapalhou um pouco minha vida. Mas, na boa: que bom que ela foi sancionada. Eu posso ter o direito de fazer o que bem entender da minha vida, mas não tenho o direito de ferrar com a vida de ninguém. As primeiras estatísticas são transparentes: o número de mortes no trânsito despencou depois da Lei.

É até engraçado, achei que a grita contra a Lei ia ser maior, que haveria protestos mais consistentes contra uma suposta invasão do Estado na vida do cidadão. Mas não, foi tudo mais ou menos tranqüilo. Pelo que sei, até a molecada aceitou as novas regras do jogo sem chiar muito. Até acho que havia um, sei lá, certo desejo recalcado de repressão: é como se as pessoas desejassem algo que as protegesse, que estabelecesse limites ("Proteja-me do que desejo", como escreveu uma artista plástica que, há alguns anos, saiu projetando frases como esta em montanhas e prédios aqui do Rio).

Com o cinto de segurança foi mais ou menos assim. Muitos tinham um certo pudor de usá-lo: a obrigação os livrou do mico. Usar o cinto deixou de ser um sintoma de fraqueza, de caretice, passou a ser algo necessário: quem descumprisse a lei tomava multa.

Bem, ontem o desembargador Antônio José Carvalho imitou um colega de São Paulo e achou que a Constitução garante a todos o direito de encher a cara e, em seguida, dirigir. Aguardemos novas liminares, novos beneficiados e, principalmente, aguardemos as estatísticas de acidentes de cada fim de semana. Esperemos também que o beneficiado pela liminar, o Marcos Aurélio Lisboa Rodrigues, seja prudente.


Entreposto

separador Por Fernando Molica em 22 de julho de 2008 | Link | Comentários (2)

Acabo de ler que o jogador do Vasco Philippe Coutinho foi vendido para a Internazionale de Milão por 3,8 milhões de euros - uns R$ 10 milhões. Bem, o Philippe tem 16 anos de idade e nunca jogou no time principal do Vasco. Boa sorte ao Philippe, que seja feliz. Mas, caramba, será que nunca vamos parar com esse negócio de importação e exportação de gente? Sei lá, dá uma certa vergonha, uma certa tristeza.


Oficina de contos

separador Por Fernando Molica em 21 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

O amigo Marcelo Moutinho começa, no dia 7 de agosto, uma oficina de contos na Estação das Letras. Nas aulas, os alunos serão provocados a escrever contos a partir de temas que serão buscados nos jornais, em canções ou mesmo em outras narrativas literárias. Recomendo, pra quem quiser conhecer um pouco do trabalho do Moutinho, a leitura do seu último livro, "Somos todos iguais nesta noite", editado pela Rocco. Um livro cheio de histórias ágeis, de toques precisos e de primeira. Vale também uma passada em seu blog/site. Ah, as aulas serão às quintas, das 19h30 às 21h30 - a oficina irá até dezembro.


"A Gazeta"

separador Por Fernando Molica em 19 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

Segue resenha de "O ponto da partida" publicada, hoje, 19 de julho, no jornal "A Gazeta", de Vitória.


Um homem em busca de uma história
(Tiago Zanoli - A Gazeta)

Pode-se ter a idéia de que, para um repórter policial, a violência é uma rotina vista com indiferença, como se a cobertura diária dos crimes tivesse um efeito anestésico. Mas até jornalistas experientes e velhos de guerra podem ter dificuldade para suportar o horror da brutalidade que cerca ruas e esquinas dos grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro.

Em meio ao belo cenário carioca, Ricardo Menezes, um repórter de meia-idade, busca no passado uma válvula de escape que lhe dê forças para lidar com mais um assassinato. Saudosista, ele se agarra aos versos de Nelson Cavaquinho e às lembranças de um jornalismo "romântico" que não viveu, com seus personagens folclóricos, a exemplo de um certo João Carniça - que não sabia escrever, mas "apurava pacas".

Uma daquelas velhas histórias curiosas e engraçadas, que o faça rir, é tudo o que deseja Ricardo, o protagonista de "O Ponto da Partida". Lançado recentemente pela editora Record, é o terceiro romance do jornalista e escritor Fernando Molica, autor de "Notícias do Mirandão" (2002), "O Homem que Morreu Três Vezes" (2003) e "Bandeira Negra, Amor" (2005).

Por meio de uma narrativa não-linear, intercalando primeira e terceira pessoas, Molica apresenta um personagem em crise de meia-idade, dividido e preso ao passado, incapaz de compreender e conviver com a nova geração - aqui representada por seus próprios filhos e pelos jovens jornalistas que enchem as redações de hoje.

Passado

A estrutura se alterna em três tempos: o momento presente, em que Ricardo está de plantão diante de um cadáver na praia do Arpoador; um passado recente, com cenas ocorridas naquele mesmo dia; e outro mais antigo, que revê toda a trajetória pessoal e profissional do protagonista.

Enquanto aguarda, durante toda uma madrugada, que a polícia recolha o corpo esquartejado de uma mulher, Ricardo revira os arquivos de sua memória, em busca de mais uma história do saudoso João Carniça. Desejando encontrar conforto, acaba tendo de enfrentar seus próprios demônios, como as lembranças do fracasso como pai de família e do desprezo dos filhos.

O homicídio, que serve de mote para o livro e foi tirado de uma situação real vivida pelo autor, é apenas pano de fundo para a história. Em vez de se concentrar na solução do crime, como nos romances policiais, Fernando Molica fecha o foco no personagem - sua subjetividade, seus desejos, suas angústias.

O protagonista, boêmio confesso, interfere na história de tempo em tempo. A narrativa em primeira pessoa assume o tom coloquial de uma conversa de botequim. Ricardo despeja seu desabafo, recheado de nostalgia e desencanto, profissional e pessoal. O tom de sua voz, no entanto, em vez de melancolia, revela um senso de humor cáustico.

Divorciado de Adélia, uma advogada bem-sucedida e corrupta, ele manifesta seu ódio pela ex-mulher e não poupa críticas aos próprios filhos: a fútil e consumista Caroline e Carlos, que faz questão de ser o oposto de tudo aquilo que o pai representa. Apesar disso, Ricardo reconhece que não é totalmente inocente pelo casamento frustrado e o abismo afetivo que o separa dos filhos.

Ao final, com o dia já clareando, o corpo abandonado na praia é recolhido, e Fernando reserva uma virada surpreendente para o seu desiludido protagonista. De duas outras derrotas pessoais, surge a perspectiva de uma nova vida e um recomeço. Caminhando pelas ruas do Rio, Ricardo alimenta a esperança de que "o sol há de brilhar mais uma vez".

Confira

Fernando Molica
O Ponto da Partida
Record 192 páginas
Quanto: R$ 32, em média

Trecho do livro

Pode parecer engraçado, mas, naquela época, repórter não precisava escrever. Sério. O João Carniça era um que não conseguia juntar duas palavras. Mas apurava pacas, era complicado correr com ele, muito garoto novo penou, tomou furo do João. Ele, coitado, nem tentava escrever. Só que começou a chegar nas redações uma molecada de faculdade, uns cabeludos de livro debaixo do braço, de bolsa de couro, e, principalmente, umas menininhas de calças jeans, de camiseta, sem sutiã, umas gracinhas.

Todos sabiam escrever, iam pra máquina e disparavam, igual a metralhadora. E o João ficava cabreiro, meio envergonhado com aquela história de chegar da rua e ir direto até a mesa do seu redator, é, havia um redator que cuidava dele, um personal writer: não era todo mundo que conseguia transformar em matéria a apuração dele, aquelas anotações complicadas, rabiscadas num bloco seboso, meio nojento. Mas o João chegava, ia pra frente do redator e começava a contar a história. Engraçadíssimo, tinha gente que parava de trabalhar só pra ver. O João quase se perfilava diante do cara, punha os óculos de leitura, dava uma lambida no indicador, virava uma página do bloco e começava a recitar.

Ele tinha uma voz forte, assim meio de barítono; não ditava, declamava a ocorrência. O começo era quase sempre o mesmo: "Uma viatura comandada pelo sargento Fulano de Tal, da Polícia Militar..." Ou então: "Como decorrência" - ele adorava o "como decorrência"- "das investigações conduzidas pelo delegado Melquíades Peixoto, do 25º Distrito, a polícia logrou êxito ao prender o marginal Carlinhos do Cabuçu, que desde ontem deixou de se constituir em um perigo para a sociedade." O tal do delegado Peixoto era compadre do João, estava sempre naqueles ditados que ele fazia para o redator.

O sujeito ficava ali, ouvindo a lengalenga, e ia transformando aquilo em matéria, em texto publicável. Mas o João foi se chateando, se sentindo meio humilhado, era um dos poucos que não escreviam matéria. Ficava assim meio triste quando via aquelas mocinhas bonitas, novinhas, redigindo o próprio texto. E pediu pra começar a escrever. Conversou com o redator, tomou algumas lições, faça isso, aquilo, evite os adjetivos, não precisa dar sempre o nome do delegado, do sargento, do soldado, cuidado com as acusações. E, claro, não repita palavras, isso empobrece o texto, cansa o leitor. O João ouvia, anotava, arrumava aquelas coisas todas na cabeça. Ficou impressionado com aquela história de não repetir palavras: "Ah, é assim, é?" E num belo dia foi fazer uma matéria sobre o assassinato de um pescador, o cara, sei lá, morava em Niterói, parece que tinha sido esfaqueado pela mulher, um negócio desses. Tinha bebido demais, o de sempre.

Como diria o João, consta que - ele também gostava muito do "consta que" - a dona Maria, a mulher do pescador, estava meio puta naquele dia, cansada de trabalhar, de cuidar das crianças, de aturar ordem de marido bêbado. O sujeito chegou em casa tarde, trocando perna, falando enrolado, com aquela penca de peixe fedorento nas mãos, mandando a mulher ir pra cozinha cuidar do jantar. E, ainda por cima, ameaçando encher a coitada de porrada. Foi o limite. Baixou um caboclo nela, que perdeu a paciência, pegou um facão e, vupt!, abriu um rasgo deste tamanho na barriga do velho homem do mar. O João Carniça foi lá, enrolou os policiais, conseguiu conversar com a mulher, falou com os filhos, apurou tudo, todos os detalhes. Chegou na redação orgulhoso, nariz meio empinado.

Aproveitou que era um plantão, tinha menos gente trabalhando, o seu redator estava de folga. Resolveu escrever o texto. E ia pensando, nada de enfileirar nomes de policiais, nada de adjetivos e, principalmente, nada de repetir palavras. Sentou-se diante da máquina e taquitiquicati, pá-pápá, tuc-tuc-tuc, pow, pow. Saiu catando milho, dando porrada na Remington. O cara chegava a suar, coitado, de tão nervoso. Sabia que a redação estava de olho nele, todo mundo dava um jeito de levantar, ir no café, passar por ali pra ver como o João se virava naquele trabalho de parto. Depois de quase duas horas, ele tirou a última lauda da máquina e se levantou. A lata do lixo estava cheia de laudas amassadas, rasgadas. Mas ele, coitado, sorria orgulhoso, aquele sorrisão bonito, que mostrava o canino de ouro. Foi então ao editor, acho que era o Magalhães, e entregou as duas laudas, dobradinhas. "Taí, chefe, é só dar uma lida e mandar pra oficina." E o Magalhães, tenho quase certeza que era ele, começou a ler. O lide, o início da matéria, estava até correto, o problema foi na hora em que ele descreveu o momento do crime, a porra da preocupação de não repetir as palavras. Ficou mais ou menos assim: "O pescador entrou na cozinha com os peixes nas mãos e disse para a esposa: "Mulher, frite os mesmos!"

Pra não repetir a palavra peixes, o João Carniça disse que o pescador tinha mandado a mulher fritar "os mesmos"! O Magalhães ficou vermelho, começou a rir, tentava segurar o riso e não conseguia, não queria humilhar o João, todo mundo gostava muito dele, mas não deu, o sujeito foi ficando sufocado de tanto prender o riso. "Frite os mesmos!" A lauda circulou de mão em mão, bateu todos os recordes internos de leitura. Claro que aquele absurdo não foi publicado, um redator deu um jeito. Mas a história ficou, né? Pior é que, no dia seguinte, o dono do boteco que fica ali embaixo do jornal colocou no cardápio do almoço, naquele quadro-negro, bem na entrada do bar: "Prato do dia: Mesmos fritos com feijão, arroz e salada." Todo mundo comeu peixe naquele dia, uma sacanagem. Neguinho ria e comia, ria e comia. Coitado do João.


Tu e você

separador Por Fernando Molica em 17 de julho de 2008 | Link | Comentários (2)

Sempre achei meio esquisita essa diferenciação que fazemos ao nos dirigimos a outras pessoas: dependendo da idade e da situação social do interlocutor usamos o "senhor/senhora" ou, simplesmente, o "você" (ainda que ultimamente, pelo menos aqui no Rio, o "você" tem sido substituído pelo "tu", mesmo com o verbo na terceira pessoa).

Mas fiquemos no "senhor/senhora" e no "você". É algo que revela muito de nossa sociedade. Por definição, o porteiro chama o proprietário de "senhor" e é por ele tratado por "você" - mesmo que o funcionário do prédio seja mais velho que o dono do apartamento. Da mesma forma, tendemos a chamar o médico de "senhor". O mesmo vale para os entrevistados - a menos que eles sejam artistas ou atletas. Tanto que, na prática, o "senhor" virou um pronome pessoal, de tratamento.

Em inglês, o "you" resolve qualquer parada. Em francês é um pouco mais complexo, claro: usa-se o "vous" e o "tu" dependendo do grau de intimidade que se tem com o interlocutor. Eu precisei voltar a Portugal para descobrir que, por lá, eles também usam a mesma diferenciação: "você" (que vem de "vossemecê"/"vosmecê" - "vossa mercê") para pessoas não-íntimas e "tu" para amigos, mulheres, maridos, filhos.

Claro que não se muda uso da língua por decreto - a não ser, claro, em situações revolucionárias, "cidadão Fulano", "camarada Beltrano". Mas não deixa de ser uma pena que não tenhamos transposto para cá essa prática lusa.


Aviso aos navegantes

separador Por Fernando Molica em 17 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

Cuidado com provedores como o/a Locaweb, que contratei para colocar o site e o blog no ar. Volta e meia tudo fica fora do ar. Nos últimos dias houve novidades: 1. a página do blog ficou inacessível; 2. eu não conseguia entrar na página de administração do site. O pior é que os caras não dão satisfação, não se dignam a oferecer algum tipo de reparação pelos problemas causados. Agem movidos por uma soberba absoluta. Fica o registro.


Pepe Legal

separador Por Fernando Molica em 13 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

IMG_0102.JPGIMG_0090.JPGPubliquei, no Informe do Dia, duas notinhas sobre Pepetela, escritor angolano que esteve na Flip. A primeira nota ressaltava que o cara é simpático, boa-praça, não cultiva a pose de escritor-angustiado-perdido-nos-trópicos. Chegou a dizer que se sentia o Brad Pitt, de tanto que estava sendo fotografado. Depois da nota publicada, me arrependi de não ter usado o título que uso agora neste post. Que vai ao ar apenas para que eu possa, enfim, utilizar o apelido. Aproveito e coloco duas fotos do cara: na mesa de autógrafos, ao lado da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, e com a agente literária Nicole Witt.


Produto

separador Por Fernando Molica em 11 de julho de 2008 | Link | Comentários (2)

Esse negócio de colocar robô para editar site dá nisso. Fui procurar no Google uma referência específica a algo que eu tinha feito e olha só o anúncio que apareceu na página que exibia o resultado das buscas:

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Que fique claro: não estou à venda.


Tiros e Paraty

separador Por Fernando Molica em 10 de julho de 2008 | Link | Comentários (0)

Flip.JPG
Com um pouco mais de tranqüilidade, tento explicar o post anterior: sabemos todos que a vida é dura, bruta, cruel; que volta e meia ela nos esfrega uma tragédia na cara, como a que ocorreu com o menino João. Moro no Rio desde que nasci, sou jornalista há 27 anos, deveria estar meio vacinado, preparado para enfrentar situações semelhantes. O pior é que estou! Mas, de vez em quando, a surpresa - ruim - é pesada demais. Um choque que, de certa forma, procurei abordar em "O ponto da partida".

Lembro que há uns dois anos fui cobrir, no cemitério do Irajá, o enterro de um jovem torcedor do Botafogo, morto num daqueles confrontos com torcedores de outro time, no caso, do Fluminense. Era um garoto de uns 18/19 anos, entregador de supermercado, um sujeito que, suponho, transferia para o amor pelo time a responabilidade de criar um pouco mais de sentido para sua vida. Acabou morrendo por uma idiotice qualquer: ver aquele caixão sendo enterrado, o desespero de sua mãe, foi muito complicado. Foi uma das poucas vezes que me emocionei numa reportagem, tive que sair dali de perto.

A história do menino João teve um efeito semelhante, cheguei a escrever um artigo sobre o episódio, que foi publicado na edição de ontem, quarta, de O Dia . Mas, sobre o post anterior: é que tragédias como essas assumem uma dimensão ainda mais grotesca quando - e este foi o meu caso - se acaba de sair de uma situação absolutamente inversa. Tinha acabado de chegar da Flip, durante quatro dias vivi como num cenário, uma cidade inacreditavelmente bela, povoada de pessoas que estavam ali atraídas por um evento relacionado a livros. Não importa se parte delas estivesse ali por motivos menos, digamos, nobres. O relevante que tudo em Paraty girava em torno dos livros. E isso não é pouco num país como um nosso.

Claro que não é preciso um caso como o do menino João para gerar um despertar do sonho: as correntes que impedem a entrada de carros no centro histórico de Paraty também funcionam como fronteiras de dois universos: do lado de cá, a cidade histórica, bonita, bem-conservada, freqüentada por turistas/autores/editores mais ou menos abonados.

Do lado de lá, a Paraty contemporânea, onde moram aqueles que fazem a cidade histórica funcionar: garçons, atendentes de hotéis, funcionários de supermercados. Uma cidade, esta, a nova, parecida com qualquer subúbio do Rio, com centros urbanos da Baixada Fluminense: aquelas casas e prédios sem estilo definido, uma composição urbanística que não respeita qualquer possibilidade de harmonia. A fachada do supermercado briga com a do banco, que agride a da sapataria, que, por sua vez, se vê ofuscada pelo letreiro da farmácia. Pelas ruas, pessoas mais ou menos pobres, filhas e netas de pescadores da região - pessoas que não vemos nas tendas da Flip. Entram ali, no máximo, como personagens de algum romance.

Enfim, os contrastes estão por toda a parte, estamos todos (mal) acostumados com eles. Mas, caramba, não precisavam ser assim, tão explícitos, tão letais.


BG
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