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Cabeças cortadas

em 02 de julho de 2022

Justa.jpgNo lançamento de 'A cabeça cortada de Dona Justa' (Rocco), perguntei pra autora, Rosa Amanda Strausz, se eu tomaria muitos sustos na leitura - o romance, afinal, relata histórias cheias de fantasmas, de relações entre este e outros mundos. Ela deu uma resposta dúbia o suficiente para afastar os receios deste assustado leitor.

Fiz bem em encarar os mistérios de Dona Justa e da saga de sua família. Sim, há muitos fantasmas, histórias meio de que arrepiar, contatos imediatos de muitos graus com gente que já passou desta para a supostamente melhor - no livro, a morte não algo que interrompa as conversas, as tramas, as relações.

Em linhas gerais, 'A cabeça cortada...' trata de personagens que gravitam em torno de uma fazenda que, por obra e graça de seu dono e de seu feitor, tornou-se amaldiçoada. Lugar de malvadezas e de tortura, especialmente contra os escravizados que por lá deixaram suas vidas. Malvadezas que geram consequências ao longo de muitas décadas.

Ganhadora do Jabuti logo em sua estreia na literatura (com o livro de contos 'Mínimo múltiplo comum'), Rosa Amanda escreveu diversas obras para crianças e jovens - talvez daí venha a capacidade de criar mundos tão cheios de fantasia e de mistérios, como o que é contado em seu novo romance.

Um livro incômodo e fascinante, que, ao longo das páginas, faz com que nos aproximemos de um unvierso tão próximo, tão cheio de crueldades, de exclusão, de injustiças. Aos poucos, vamos perdendo o medo dos descarnados, fantasmas e serpentes que Rosa Amanda nos apresenta. O horror presente na fantasia vai dando lugar à constatação da tragédia que há séculos assola um país erguido com base na escravidão, na crueldade, no assassinato físico, econômico, religioso e cultural.

Não, a autora não recorre a metáforas óbvias - a tal fazenda tem o nome de "Francesa", não há referências imediatas à realidade que nos cerca. Ela apenas conta uma história mágica que atravessa gerações e que nos faz olhar em volta. Que ressalta a necessidade de colocarmos a cabeça no lugar, que frisa o conselho rememorado por Benzadeus, uma das protagonistas: "Se você tem um quarto iluminado e outro escuro, e abre uma porta entre os dois, é o escuro que vai clarear e não o contrário".

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O namoro na grade da prefeitura*

em 28 de junho de 2022

A foto, feita pela repórter Luisa Bustamante, era para o 'Informe do DIA', mas a reboquei para esta 'Estação'. Não resisti à imagem, à observação discreta das carícias de dois adolescentes que, no último sábado, se apertavam contra as grades da sede da prefeitura.

O enquadramento, que isola o casal no canto esquerdo, estabelece uma cumplicidade com os personagens e faz um contraponto à lógica de exposição total e absoluta que marca o nosso tempo. A distância respeita a intimidade dos namorados, cria uma solidariedade com seus sentimentos -- na certa, achavam que estavam isolados do mundo, só eles existiam.

Imponentes, as árvores que emolduram e dão ritmo à cena também exercem o papel de guardiãs. É como se, alinhadas, se preparassem para dar um passa-fora em eventuais enxeridos. Ninguém teria o direito de interromper aquele amasso entre os dois colegiais.

Na foto, eles não se beijam. Encostada na grade, a jovem envolve o pescoço do garoto. Ele, meio tímido, limita-se a colocar as mãos na cintura da menina. Não dá pra ver, mas é justo admitir que, em meio ao afeto e o desejo, ambos sorriam. Estavam felizes pelo encontro, pelo drible aplicado nos colegas na hora da saída, nos pais que os esperavam para almoçar.

Driblaram, quem sabe?, até mesmo seus respectivos namorados. A busca por um local inusitado -- tão exposto e, ao mesmo tempo, tão protegido (quase ninguém passa por ali nos fins de semana) -- permite admitir algum grau de clandestinidade na situação.

Pelo abraço meio sem jeito é possível supor que aquela tenha sido a primeira vez que o rapaz e a moça ficaram. Neste caso, o verbo "ficar" dispensa a palavra "juntos" e qualquer outro complemento. Apenas fixa a ação, não estabelece um passado nem um futuro para aqueles dois, tem compromisso apenas com o instante da imagem.

Um momento que, de tão exclusivo -- pertence àqueles jovens --, é também de todos os que já ficamos eufóricos e felizes ao protagonizar situações semelhantes, quando o mundo parecia girar ao nosso redor.


*Ao remexer as gavetas virtuais em busca da crônica sobre trilha sonora para o Dia dos Namorados, encontrei esta outra, publicada em 2013, na coluna 'Estação Carioca`), de O DIA. Pena que não tenha localizado a foto citada.

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Trilha sonora para os corações solitários*

em 12 de junho de 2022

Neste Dia dos Namorados, um conselho para os desiludidos, os que tomaram chute no traseiro, aqueles cujos cotovelos fazem buracos em mesa de bar. A trilha sonora para hoje deve passar longe dos CDs em que Jamelão canta Lupicínio Rodrigues (estes deveriam ser vendidos apenas com receita médica) e de Chico Buarque.

Nosso maior compositor é impiedoso ao falar de separações e da permanência de amores desfeitos. Faca só lâmina, perfura o peito ao descrever o sangue que erra de veia, o pijama largado ao pé da cama, o adorar pelo avesso. Com ele não tem conversa, a tristeza é infinita, cheia de cicatrizes; o amor liga afobado, deixa confissões e confusões na secretária eletrônica.

Não adianta disfarçar, mudar de calçada quando aparece uma flor: fica patente o sentimento de perda, a melancolia de um amor a ser deixado para amantes que, no futuro, dele desfrutarão. Sobra também um amor-contemplação, perdido num improvável tempo da delicadeza, "Onde não diremos nada;/ Nada aconteceu./Apenas seguirei/Como encantado ao lado teu."

A esta altura você já deve estar certo de que, por hoje, é melhor deixar o Chico fora do ar. Sugiro então um mergulho em Paulinho da Viola. Mestre no diagnóstico de amores findos, do beijo que já não arde, ele, apesar da dureza das constatações, tem uma postura mais plácida, menos hemorrágica em relação ao que passou e consegue até transmitir alguma expectativa de felicidade.

Em 'Pra fugir da saudade' (com Elton Medeiros), confessa que, num samba, desfaz o que lhe fora feito. Vale chorar e, depois, retirar "De todo amor o espinho/Profundamente deixado" ('Coração imprudente', com Capinam). Conforma-se até em saber da paixão irrealizável por um coração leviano, que nunca será de ninguém. Não quer viver enganado.

Aqui, ele recorre a Cartola e Bide e roga para que a malvada, ao ouvir os seus ais, volte ao lar pra viver em paz; ali, admite sofrimento e a dificuldade de ficar sem a companheira. Porém, na maior parte das músicas sobre o tema, Paulinho transpira mais resignação e menos desespero, tateia alguma esperança, fala, também com Elton Medeiros, de um coração que seja um lago tranquilo onde a dor não tenha razão. Ele não aponta saídas, mas, craque experiente, ajuda a acalmar o jogo, a botar a bola no chão. E, como ressalta em 'Coisas do mundo, minha nêga', não deixa de buscar a melhor forma de se viver.

* Crônica publicada em 12/6/2013 no jornal O DIA.

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