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Trilha sonora para os corações solitários*

em 12 de junho de 2022

Neste Dia dos Namorados, um conselho para os desiludidos, os que tomaram chute no traseiro, aqueles cujos cotovelos fazem buracos em mesa de bar. A trilha sonora para hoje deve passar longe dos CDs em que Jamelão canta Lupicínio Rodrigues (estes deveriam ser vendidos apenas com receita médica) e de Chico Buarque.

Nosso maior compositor é impiedoso ao falar de separações e da permanência de amores desfeitos. Faca só lâmina, perfura o peito ao descrever o sangue que erra de veia, o pijama largado ao pé da cama, o adorar pelo avesso. Com ele não tem conversa, a tristeza é infinita, cheia de cicatrizes; o amor liga afobado, deixa confissões e confusões na secretária eletrônica.

Não adianta disfarçar, mudar de calçada quando aparece uma flor: fica patente o sentimento de perda, a melancolia de um amor a ser deixado para amantes que, no futuro, dele desfrutarão. Sobra também um amor-contemplação, perdido num improvável tempo da delicadeza, "Onde não diremos nada;/ Nada aconteceu./Apenas seguirei/Como encantado ao lado teu."

A esta altura você já deve estar certo de que, por hoje, é melhor deixar o Chico fora do ar. Sugiro então um mergulho em Paulinho da Viola. Mestre no diagnóstico de amores findos, do beijo que já não arde, ele, apesar da dureza das constatações, tem uma postura mais plácida, menos hemorrágica em relação ao que passou e consegue até transmitir alguma expectativa de felicidade.

Em 'Pra fugir da saudade' (com Elton Medeiros), confessa que, num samba, desfaz o que lhe fora feito. Vale chorar e, depois, retirar "De todo amor o espinho/Profundamente deixado" ('Coração imprudente', com Capinam). Conforma-se até em saber da paixão irrealizável por um coração leviano, que nunca será de ninguém. Não quer viver enganado.

Aqui, ele recorre a Cartola e Bide e roga para que a malvada, ao ouvir os seus ais, volte ao lar pra viver em paz; ali, admite sofrimento e a dificuldade de ficar sem a companheira. Porém, na maior parte das músicas sobre o tema, Paulinho transpira mais resignação e menos desespero, tateia alguma esperança, fala, também com Elton Medeiros, de um coração que seja um lago tranquilo onde a dor não tenha razão. Ele não aponta saídas, mas, craque experiente, ajuda a acalmar o jogo, a botar a bola no chão. E, como ressalta em 'Coisas do mundo, minha nêga', não deixa de buscar a melhor forma de se viver.

* Crônica publicada em 12/6/2013 no jornal O DIA.

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O menino e o lanche na Apoteose

em 01 de junho de 2022

Como em qualquer show, muitas vezes o melhor dos desfiles do Sambódromo ocorre em seus bastidores, na armação das escolas ou na dispersão. É nesses setores fora da pista que rolam cenas engraçadas (como o içamento dos destaques até os carros alegóricos), reveladoras (como a retirada do robe que encobre a nudez de rainhas e que tais) e mesmo emocionantes.

Domingo passado, por exemplo. Ao fim do ensaio da Mangueira, crianças, idosos e integrantes da bateria (no caso, das baterias) faziam fila, num cantinho sob o Setor 12, na Apoteose, para pegar um lanche oferecido pela organização do evento -- um sanduíche e um suco à base de guaraná.

Nisso surgiu um menino de uns 8 anos. Negro, mochila meio puída às costas, ele não usava fantasia ou roupa que o identificasse como integrante da Estação Primeira. Entrara na Passarela pelos fundos, fora até lá em busca de algo mais concreto que a beleza proporcionada pelo desfile. Esperto, logo identificou um sujeito magro, branco, com jeito de quem detinha algum poder na organização da festa.

Deu uma leve cutucada no suposto mandachuva e disparou: "Moço, me arruma um lanche?" Meio constrangido, o abordado -- o garoto acertara, ele mandava mesmo no pedaço -- tentou negociar. Disse que os sanduíches se destinavam aos integrantes das escolas e que, como de praxe, o que sobrasse seria distribuído. Era só aguardar mais um pouquinho.

Mas, como dizia Betinho, quem tem fome tem pressa; o bife não comido um dia jamais será compensado. O menino ficou insatisfeito, o evento iria demorar, a Grande Rio acabara de entrar na Avenida, haveria o risco de sobrar apenas o copinho de suco. Tentou argumentar, mas acabou interrompido por um segurança, que o retirou dali.

Não, a insistência não acabaria punida com um cartão vermelho. O novo personagem, negro como o garoto, o pegou pela mão e, logo depois, bem ali na frente, com ele dividiu seu próprio lanche. Segurança e garoto se pareciam, passariam até por pai e filho. Mas não havia qualquer parentesco, o homem apenas demonstrava se reconhecer naquele menino, talvez um dia já tenha pedido um sanduíche a alguém. Ao repartir sua comida, foi solidário também à sua própria história, em tudo semelhante à da maioria daqueles homens e mulheres que, a cada ano, produzem o mais belo e grandioso de todos os espetáculos.

(Fevereiro de 2013)

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Resenha Estadão: Romance de Fernando Molica retrata a ditadura pelos olhos de um menino do subúrbio

em 30 de maio de 2022

O 'Aliás', do Éstadão, publicou esta resenha bem legal do escritor e jornalista Mateus Baldi sobre 'Elefantes no céu de Piedade'. Ele tocou em pontos que, como autor, considero bem relevantes no livro.

No começo dos anos 1970, o pai de Francisco compra um carro cuja primeira coisa impressionante é o banco dianteiro - "imenso, contínuo, sem aquela divisão de onde, no fusca, brotava a alavanca usada para a troca de marchas". "Marco de uma vida que melhorava à custa de muita dedicação e trabalho", o Opala representa uma ascensão de status que teve início na mudança de um apartamento de dois quartos para uma casa de frente de rua.

Estamos em Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, e a ditadura militar entra em sua fase mais sanguinária. Jovens são presos e torturados, guerrilheiros morrem no coração do país e a propaganda do governo investe pesado em lemas - "Brasil, ame-o ou deixe-o" - e bravatas, como as obras faraônicas - a rodovia Transamazônica - e o milagre brasileiro.

Não há aqui nenhuma intelligentsia carioca, jovens dispostos a mudar o mundo com a música e suas leituras muito intelectuais, muito cultas, cheias de um vocabulário que diz todo o blablablá revolucionário capaz de mover as montanhas. Há Francisco, seu pai, sua mãe, sua irmã e uma aridez de subúrbio, que pouco a pouco vai se incendiando, sufocante, rompendo com o destino de ser "mais prudente, seguro e lucrativo acreditar no poder". Essa uniformidade torta, de uma rebeldia asfixiada e envolta por figuras como a prima Marisa, falada na vizinhança porque "gostava muito de rapazes", será chacoalhada quando a casa de Francisco servir de abrigo para o primo Carlos Alberto. A presença de Cacá, vindo do Espírito Santo por estar muito doente, acaba por estremecer de vez o que só precisava de um empurrãozinho - o confronto pais versus filhos versus primo, a irmã com uma quedinha por Cacá, o silêncio diante dos amigos da vizinhança; não demora para ficar clara a doença do primo e as inevitáveis diferenças entre aquela família, conformista, e as inflamações da juventude.

Escrito com sobriedade e afeto transbordante, Elefantes no Céu de Piedade é a crônica de um país fraturado - ontem como hoje. Fernando Molica parece usar toda a sua experiência como comentarista político para trazer as sutilezas do cotidiano que ressoam no Brasil pela lente do período mais cruel e vergonhoso da nossa história. Há aqui uma falsa paz, um sentimento de tremor que corre por baixo do texto como um rastilho de pólvora. E essa tensão, portanto, reside muito mais em si mesma do que nas possíveis consequências de sua existência. É como se Molica disparasse um alarme que nunca para de tocar, ribombando nas mais de 160 páginas feito um grito de desespero.

O excesso de descrições, poupando a curiosidade do leitor, talvez possam amainar o efeito duro, áspero, de seguir Francisco e suas inquietações de menino, porém nunca, não neste Brasil, impedem que nos preocupemos de forma genuína. Se a obviedade das trocas com o primo faz parte do jogo dramático que envolve Piedade - porque não poderiam ser diferentes -, o final não se furta a ser maduro: Fernando Molica assume o que precisa ser grave e espanta quaisquer resquícios de imaturidade.

Numa chave macro, temos aqui um livro de formação que aborda com coragem, em seu núcleo, a ditadura militar por uma ótica nem sempre privilegiada: o AI-5, sabemos, deu poder ao presidente tanto quanto ao guarda da esquina, e também a ditadura existia longe dos grandes centros, das grandes paisagens. O que Molica nos faz ver é a obrigatoriedade do desastre. A tragédia criada pelos militares independe dos dramas pequeno-burgueses ou da presença de um heroísmo guerrilheiro: um menino que vê sua família se despedaçar, questionando tudo e todos em busca de uma verdade menos cínica que aquela diariamente lhe transmitida, também é capaz de produzir um relato tão forte quanto todos os outros. Ainda bem.

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