O jogo duro do nosso futebol

Fernando Molica

Como diria o grande João Saldanha: meus amigos, 11 gols de placa é uma espécie de cartão amarelo para dirigentes e para todos aqueles quese aproveitam do futebol brasileiro. Este livro, terceiro volume da coleção Jornalismo Investigativo — iniciativa da Editora Record e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo —, traz reportagensque ajudam a explicar muitas das mazelas do nosso futebol. A leitura das matérias aqui transcritas é uma jornada cheia de emoções e joga luzsobre problemas que se acumulam há muitas décadas. Uma escalação que mistura corrupção, pobreza, desemprego, falsificação de documentos, abuso de poder e exploração de menores. As sombras projetadasem nossos gramados são muito semelhantes às que assombram outros porões da sociedade brasileira.

Chega a ser redundante dizer que o futebol revela o que temos de melhor e de pior. Este livro é quase um relato, em 11 capítulos, da peleja do talento contra as pragas que assolam estádios e vestiários. O conjunto da obra dos dirigentes esportivos ajuda a explicar a fragilidade da grande maioria dos clubes e a quase indigência de nossos times. O melhor do futebol pentacampeão do mundo tem que ser visto pela TV, nas partidas de campeonatos europeus onde brilham nossos craques. Por aqui, seguimos a apenas aparente contradição de convivermos com clubes pobres e dirigentes ricos.

As reportagens escaladas buscam dar um panorama do que ocorre nos bastidores do futebol. Como ocorre em convocações da seleção brasileira, não foi simples distribuir as 11 camisas, haveria infinitas possibilidades para a formação deste timaço, uma equipe que se dá ao luxo de entrar em campo apenas com atacantes, jogadores que não erram o gol. Nestas páginas, futebol não é caixinha de surpresas — é uma sucessão de bolas na rede. Como nos outros dois volumes da coleção —10 reportagens que abalaram a ditadura e 50 anos de crimes —, os textos vêm acompanhados de relatos que detalham os bastidores da apuração.

11 gols de placa é aberto com duas reportagens da década de 60, textos que funcionam como alicerces para os capítulos seguintes. Nelas estão presentes muitos elementos que ajudam a explicar os rumos que seriam tomados pelo nosso futebol. Em “Futebol brasileiro: o longo caminho da fome à fama”, publicada pelo Jornal do Brasil em 1967, João Máximotrata de tuberculose, esquistossomose, subnutrição — marcadores implacáveis de tantos e tantos jogadores que tiveram suas carreiras abreviadas pela pobreza. Problemas que, se resolvidos entre os jogadores que formam a elite do futebol, continuavam presentes no cotidianode tantos candidatos à glória.

Em 1969, os repórteres Luciano Ornellas, Michel Laurence e José Maria de Aquino, de O Estado de S.Paulo, transformaram em pauta e em reportagem uma frase de Pelé. Para ele, o jogador de futebol não passava de um escravo. Os jornalistas revelaram que o craque fora feliz na síntese: atletas eram vítimas de médicos, de dirigentes e da própria legislação, como mostram três das matérias da série aqui reproduzidas.

Mais de duas décadas depois, em 1993, O Globo revelaria a existência de mais uma regra no futebol, a de número 18, um artigo que sóvalia em campeonatos disputados no estado do Rio de Janeiro. No resto do mundo, a prática do esporte continuava a ser regida por apenas 17 regras. O décimo oitavo mandamento dizia que os dirigentes da federação de futebol tinham o direito de definir os resultados das partidas. Os árbitros só poderiam “fazer resultados” se autorizados peloscartolas. Uma norma simples, que acabou explodida pelo trabalho premiado de Marcos Penido, César Seabra, Eduardo Tchao, Paulo Júlio Clement, Antônio Roberto Arruda e Gustavo Poli.

Um ano depois, uma reportagem de Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo, mostrou que, para dirigentes e jogadores da seleção, a vitória na Copa dos Estados Unidos garantiria taça, medalhas, prêmios... eisenção fiscal na Alfândega. Pior: autoridades brasileiras achavam o mesmo. Munido de dois dos mais contundentes apetrechos de apuração — um bloquinho e uma caneta — Rodrigues contou que a seleção de Carlos Alberto Parreira também era campeã em compras, voltava de Los Angeles com 15 toneladas de bagagem. A reportagem causou aqueda do secretário da Receita Federal — que discordou da concessão do benefício — e reafirmou que nem todos eram iguais perante a lei.

Em janeiro de 1999, novas estocadas nos cartolas. Duas reportagenspublicadas na Folha de S.Paulo apresentaram ao leitor entranhas da Confederação Brasileira de Futebol. Sérgio Rangel revelou que a CBF,que, três anos antes, assinara um contato milionário com a Nike, tivera um prejuízo de R$ 15 milhões em 1998. Juca Kfouri obteve o tal contrato: em troca de muitos milhões, a multinacional comprara parte do controle da seleção brasileira. A Nike tinha o direito até de escolher os adversários da equipe.

“Wanderley, quantos anos você tem?” Com esta simples pergunta,o repórter Marceu Vieira conseguiu constranger o ex-jogador e então técnico da seleção brasileira, Wanderley Luxemburgo. Escalado para fazer um inofensivo perfil do treinador, Marceu descobriu que seu personagem era plural. Havia mais de um ‘Luxa’ — um com W e Y, outrocom V e I. A carreira do discreto lateral esquerdo havia sido turbinada por uma fraude: W(v)anderley(i) era um gato. Ou seja, diminuíra sua idade para levar vantagem nas categorias inferiores e alavancar sua ascensão no futebol. Publicada em 2000 na revista Época, a reportagem ajudou a complicar ainda mais a vida do técnico, envolvido com acusações de sonegação fiscal e de assédio sexual. Por falar em gatos: em dezembro de 2008, André Rizek estouraria uma fábrica de felinos. Amatéria da Placar mostrava como o cartório da cidadezinha de São Joãodo Araguaia — um dos palcos da guerrilha ensaiada pelo PCdoB nosanos 70 — se transformara em um centro de rejuvenescimento de atle-tas. Com a matéria, o balaio iria pelos ares.

Repórter da Zero Hora, Diogo Olivier Mello constata na apresentação de sua reportagem: “Toda a atividade no Brasil sofre a ação, diretaou indireta, de mazelas históricas como fome, pobreza e desemprego”.

Esta certeza seria comprovada em uma série que revelaria o drama dosjogadores sem time, atletas do Desemprego Futebol Clube que seriamapresentados aos leitores em outubro de 2001. Mais de 30 anos depoisda série que associava jogadores e escravidão, os textos de Diogo mostravam a sofisticação das engrenagens que estraçalhavam candidatos à fama. O Brasil mostrava sua multifacetada cara também no futebol.

Em 1969, ao marcar seu milésimo gol, Pelé fez um apelo pelas criancinhas. Em 2001, os repórteres Mário Magalhães e Sérgio Rangel provavam: o Rei do Futebol não se esquecera delas. Na Folha de S.Paulo, ambos desvendaram a trama que envolvia a realização de um show embenefício da seção argentina do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância. O evento acabou não sendo realizado, o que não impediu a empresa de Pelé de receber US$ 700 mil por sua organização. Neste livro, Magalhães e Rangel revelam um segredo: o texto publicado era apenas um rascunho enviado para a redação.

Mulheres, carrões, salários milionários: o trio de benesses é presença constante nos sonhos de jovens que querem seguir carreira no futebol. Em 2004, Marco Senna contou, nas páginas de O Dia, que a realidade era bem diferente para a grande maioria dos jogadores brasileiros:84,4% ganhavam até dois salários mínimos. A reportagem também enumerava casos de atletas bem-sucedidos que acabavam na miséria.

A série “Ronaldinhos do futuro”, de Leonardo Mendes Júnior e Márcio Reinecken, trata de outro aspecto perverso do futebol em umpaís tão injusto quanto o nosso: crianças ainda muito pequenas trocam a infância pela perspectiva de se tornarem milionários da bola. Areportagem da Gazeta do Povo detalha como alguns pais, deslumbrados pela perspectiva do futuro milionário, jogam vidas e empregos para o alto e passam a empresariar o futuro que se desenha pelos pés de seus filhos. O Brasil, país que tem sua história marcada importação de escravos, se orgulha, no início do século XXI, de ter se transformado em exportador de crianças.

Em 2005, um nome próprio ganhou status de palavrão nas arquibancadas: o coro de “Edilson! Edilson! Edilson!” deixava claro que a torcida classificava o juiz de ladrão. Afinal, os jornalistas André Rizeke Thaís Oyama haviam detalhado como o árbitro Edilson Pereira de Carvalho manipulara resultados de jogos do Campeonato Brasileiro.

A manifestação das torcidas era, portanto, bem razoável. A partir de uma denúncia anônima que chegara à redação da revista Veja, os repórteres confirmaram uma história capaz de existir apenas nos pesadelos dos torcedores paranoicos. Dois árbitros brasileiros definiam resultados dos jogos que apitavam para ganhar dinheiro em apostas.

Como consequência da reportagem e de um inquérito policial, 11 jogos do Campeonato Brasileiro de 2005, todos apitados por Edilson, foram anulados, os times tiveram que voltar a campo para uma nova disputa. Os detalhes da apuração da matéria — que incluem a participação de um hoje célebre delegado da Polícia Federal — acrescentam uma dose extra de tempero à história.

Enfim, caro leitor: as reportagens já estão em campo, o jogo vai começar. Não faltarão chances para vaias — para cartolas, empresários e juízes — e aplausos. Estes, principalmente, para os atletas que brilham nas redações.