Correspondência de guerra

Ganhou, ganhou. Neste livro sobre reportagens policiais, o leitor ganha a rara oportunidade de conhecer textos que marcaram a imprensa brasileira entre os anos 50 e 90 do século passado. Neste segundo volume da coleção Jornalismo Investigativo — uma iniciativa da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e da editora Record — estão reunidas matérias que ajudam a compreender a evolução da violência, do país e do próprio jornalismo. Os textos de apoio, produzidos pelos autores das reportagens ou por jornalistas que cobriram ou acompanharam os casos aqui tratados, contextualizam os fatos e contam como os profissionais conseguiram chegar a informações, que, muitas vezes, revelaram crimes, mudaram o curso de investigações, contribuíram para absolver ou condenar. Não houve aqui a preocupação de selecionar as melhores matérias, tarefa que seria impossível pela diversidade, quantidade e abrangência das reportagens. Buscou-se trazer para o livro casos representativos, que contribuíssem para uma visão ampla de todo o período. Muitos e muitos fatos ocorridos nesses 50 anos ficaram de fora — não haveria como incluí-los todos em um único volume. Há casos que se estenderam ao longo de meses, até mesmo de anos, cada um deles poderia merecer um livro, uma análise mais acurada. A seleção procurou mostrar reportagens que, de alguma forma, traduziram o espírito da época em que foram feitas: revelam crimes, criminosos e os próprios jornalistas. Ao buscar retratar um lado cruel e vil da sociedade, o jornalismo expõe suas qualidades e sua coragem, mas também, aqui e ali, sua crueldade e sua vilania: um retrato revela o objeto e o fotógrafo. Textos que hoje nos parecem caricaturais — pela parcialidade, pelo abuso de adjetivos — talvez sirvam como alertas, nos levem a uma reflexão sobre a qualidade e precisão do jornalismo que, pressionados pela concorrência, pelos prazos cada vez mais apertados, por nossas próprias deficiências e preconceitos, produzimos a cada dia.

A cronologia das matérias revela uma crescente preocupação com a exatidão. Nas reportagens mais recentes, os adjetivos de outrora são substituídos por números, por fatos, por uma apuração ousada, que não tem medo de coligir dados, de revirar arquivos, de buscar provas. O repórter passou a incorporar qualidades antes mais presentes no cotidiano da academia. Percebeu que os dados não esfriam uma reportagem: ao contrário, a enriquecem e lhe dão maior credibilidade. A seqüência das matérias permite, entre outras, uma leitura interessante sobre casos policiais e as reportagens. De um modo geral, o crime dos anos 50 e 60 tendia à individualização, o medo tinha nome ou, pelo menos, um apelido. Era como se cada um daqueles episódios fosse considerado um desvio, uma anomalia que poderia ser isolada — com a prisão ou morte do bandido, tudo voltaria ao normal. Essa percepção muda ao longo das décadas seguintes, não há mais o inimigo público número 1, o “Mineirinho”, o “Bandido da Luz Vermelha”, mas os esquadrões, as falanges, os comandos, as milícias. O mundo do crime também ficou mais complicado. Neste sentido, as reportagens funcionam como crônicas que mostram o agravamento e a disseminação de uma guerra.

Nesta evolução, outro detalhe fica evidente. A polícia, antes vista pela imprensa — com as exceções de praxe — quase como sinônimo do bem e da ordem, passa, ao longo dos anos, a disputar com criminosos comuns o lado de lá do ringue. Uma certa conivência com práticas irregulares cometidas por policiais é, aos poucos, substituída pela denúncia sistemática dos abusos cometidos por integrantes das diversas corporações. A divisão entre polícia e bandido se torna mais tênue, os conjuntos passam a se misturar com alguma freqüência e complexidade — uma história que foi contada pelos jornais. O livro é aberto com alguns dos artigos e reportagens escritos por David Nasser sobre o caso Aída Cúri. O repórter transformou as páginas de O Cruzeiro, então a mais importante revista brasileira, em canhões que disparavam tiros adjetivados e implacáveis contra aqueles que ele julgava serem culpados pelo assassinato da estudante — morta ao ser jogada de um prédio da Avenida Atlântica. Nasser assumiu mais o papel de justiceiro do que o de um jornalista comprometido com algum grau de busca de imparcialidade. Passou a ser, ele próprio, um personagem dos fatos que deveria reportar. Um dos acusados, Ronaldo Guilherme de Souza Castro, era chamado de “tarado”, de “crápula”; seu advogado, de “pangaré”, “patife” e “caluniador”. Nasser também não perdoou o juiz Souza Netto, que impronunciara os acusados pelo crime: em vários textos, procurou desqualificá-lo. O caso, cheio de reviravoltas, acabou tendo três julgamentos. Ronaldo foi condenado no primeiro; absolvido no segundo e novamente condenado no terceiro, desta vez, a uma pena menor do que a que lhe fora inicialmente imposta.

De uma trincheira bem mais modesta, a pequena revista Mundo Ilustrado, o jovem repórter Mario Morel acertou o coração da polícia do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Em uma série de reportagens mostrou como agiam policiais corruptos, que praticavam uma série de crimes. Corajosa, a matéria revelava que nem toda a imprensa era conivente com os abusos da polícia.

No início dos anos 60, o medo no Rio tinha um nome, “Mineirinho”: o “pistoleiro louco”, o “famigerado”, o “facínora”. Tantos adjetivos pareciam justificar e dar como normal a declaração de um delegado que dissera aos repórteres que iria “fuzilar sumariamente o malfeitor e seu bando”. Uma declaração na época tão aceitável que foi colocada no pé de uma reportagem, sem qualquer destaque. Aqui publicamos também duas entrevistas com “Mineirinho” feitas por Octávio Ribeiro, jornalista que, ao longo dos anos, se transformaria em sinônimo de repórter policial. A matéria sobre o encontro do cadáver do bandido, em 1962, revela outra curiosidade: a intimidade entre repórteres e policiais. Estes foram conduzidos ao local no carro da reportagem. O posto de inimigo da sociedade não ficaria vago por muito tempo. Em 1964, um assaltante conhecido como “Cara de Cavalo” foi acusado de matar o detetive Milton de Oliveira Le Cocq. A reação da polícia e da imprensa foi tão grande que o governador Carlos Lacerda chegou a acompanhar pessoalmente diligências que tentavam encontrar o bandido. “Cara de Cavalo” seria encontrado e morto em Búzios, então distrito de Cabo Frio — o “facínora” foi executado por um grupo de policiais.

Em 1966, em São Paulo, Francisco Costa Rocha matou uma mulher, esquartejou seu corpo e ganhou as páginas policiais com um apelido que o definia de forma exata e grotesca: “Chico Picadinho”. Aqui, o repórter Percival de Souza relata os bastidores da apuração das matérias, os detalhes das relações entre repórteres e policiais. “Chico Picadinho” seria preso e, libertado, cometeria um crime semelhante dez anos depois.

No ano seguinte, um outro personagem ganharia as páginas, o imaginário da população e, posteriormente, as telas dos cinemas: o assaltante João Acácio Pereira da Costa que, ao invadir casas, cos- tumava usar uma lanterna da qual saía uma luz vermelha. O “Bandido da Luz Vermelha” conquistou tanta notoriedade que, ainda em 1967, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um artigo editorializado em que elogiava a decisão da justiça de proibir entrevistas “com o ladrão homicida”. Em 1992, o repórter Renato Lombardi foi ao encontro de João Acácio, então preso havia 25 anos, e produziu uma reportagem que ressaltava o isolamento daquele homem da realidade que o cercava.

A década de 70 popularizou de forma definitiva uma expressão que havia muito freqüentava as páginas dos jornais e revistas: Esquadrão da Morte. Um nome genérico para grupos geralmente formados por policiais que, sob a capa de justiceiros e matadores de bandidos, usavam seus distintivos para cometer diversos tipos de crimes. Percival de Souza foi ao Paraguai e teve vários encontros com um de seus mais célebres integrantes: Fininho. No último dia, o repórter receberia um brinde especial, a oportunidade de entrevistar também, no mesmo local, Mariel Mariscot — que tinha, no Rio, uma importância correspondente à de Fininho em São Paulo.

No dia 21 de outubro de 1974, a Folha de S. Paulo estampou um pouco comum ponto-de-interrogação em sua manchete: “Que destino dar aos menores?” A pergunta revelava uma perplexidade que, mais de trinta anos depois, continua a perseguir a sociedade brasileira. O título chamava para uma reportagem espetacular de Ernani Marques e Gilberto Ribeiro, que narrava a maneira adotada por policiais de São Paulo para resolver o problema dos jovens infratores. Um grupo de 93 deles foi colocado em um ônibus que seguiu para Camanducaia, Minas Gerais. Lá, os adolescentes foram abandonados, nus, em uma estrada. Também mobilizado para cobrir o fato, José Louzeiro tiraria do episódio a inspiração para seu livro A infância dos mortos, que serviria de base para o filme Pixote, a lei do mais fraco. Três anos depois, a sociedade brasileira se depararia com um crime que tinha, como principal suspeito, o milionário Michel Frank. A vítima era uma jovem da zona sul carioca, Cláudia Lessin Rodrigues. O homicídio tocava em pontos delicados como sexo e uso de drogas. A defesa de Frank queria provar que Cláudia morrera por overdose, os repórteres Valério Meinel e Amicucci Gallo mostraram, depois de uma apuração insistente, que ela fora assassinada. Foi a primeira vez que uma reportagem policial recebeu o principal prêmio Esso, o de Jornalismo.

No início da década de 80, os cariocas levariam um susto que se desdobraria até os dias de hoje. Uma investida policial para prender bandidos que se escondiam em um conjunto habitacional se transformaria em um tiroteio que parecia interminável e que marcaria o início da atuação de algo que, na época, os jornais chamaram de Falange Vermelha. O repórter Jorge Martins, plantonista da madrugada, foi ao local e se transformou em testemunha do dia em que a organização mostrou que estava disposta a mudar os parâmetros da criminalidade no estado.

O tablóide Repórter, fundado em 1972, quebrou a lógica da maioria dos jornais alternativos. Seu foco estava voltado não para as grandes discussões políticas, mas para as ruas, para a violência, para a vida como ela era. E em outubro de 1981, o Repórter honrou seu nome: reportou com exclusividade e com fotos chocantes a morte de Mariel Mariscot, vítima de um atentado no centro da cidade. Seus últimos instantes foram registrados pela sempre atenta lente do fotógrafo Chiquito Chaves. As imagens ganhariam o texto de outro grande repórter, Tim Lopes.

Sol, sal, sul. E bala, muita bala. Em 1987, a Zona Sul carioca descobriu que a violência não respeitava os túneis da cidade partida. A guerra entre traficantes do morro Dona Marta, em Botafogo, ao lado da prefeitura carioca, mostrou que ninguém estava completamente seguro. As reportagens revelam a surpresa com a então nova situação. Em poucos dias, bandidos se tornaram celebridades, ganhavam perfis nos principais jornais da cidade. Fla ou Flu, “Zaca” ou “Cabeludo”? A área mais nobre do Rio começava a ficar íntima do que Chico Buarque chamaria de fogueira desvairada. O repórter Luarlindo Ernesto subiu o morro disfarçado de vendedor de limão e de cigarros e conta como foi sua estréia como correspondente da nossa guerra particular.

O Rio que se acostumava aos tiros e aos cadáveres conheceria, em 1992, a versão econômica da tragédia. Renato Garcia e Antônio José Mendes, repórteres do Jornal do Brasil, revelariam o quanto os traficantes movimentavam de dinheiro. Mais: contavam como o tráfico começava a exercitar seu poder e a ditar normas de comportamento. Eles reconheciam a existência de um novo país, da República do Pó. A repórter Hilka Telles, de O Globo, desconfiou dos carros de luxo de policiais que gostavam de usar jóias caras e ostentar os então raros celulares. Foi apurar e acabou descobrindo a existência do “kit ladrãozinho”, uma espécie de cesta básica do policial corrupto. Em seu texto, ela narra a história da reportagem e das ameaças que acabou sofrendo na época.

O trabalho do repórter João Antônio Barros, de O Dia, reforçaria a existência de uma certa ironia na expressão “Editoria de polícia”. O setor destinado a cobrir crimes investigados pela polícia passava, cada vez mais, a apurar aqueles cometidos pelos próprios policiais. A denúncia de que um funcionário da Fiocruz, Jorge Antônio Careli, morrera em dependências policiais por ser confundido com um bandido fez com que Barros resolvesse apurar a existência de casos semelhantes. E se deparou com outros 161 Carelis. A “editoria” dedicada a cobrir crimes cometidos pela polícia avançava naquela década de 1990. Uma equipe de repórteres do Jornal do Brasil encabeçada por Wilson Aquino e Renato Fagundes foi apurar o que estava por trás dos autos de resistência — classificação dada às mortes em conseqüência de enfrentamentos com policiais. Descobriram um crescimento desproporcional das tais ocorrências e revelaram que o fenômeno estava relacionado à “gratificação faroeste” — um estímulo pecuniário que o governo do estado oferecia a quem supostamente arriscava a vida em defesa da sociedade. Na prática, como resumiu a manchete, a polícia matava cada vez mais. Em 1997, a repórter Fernanda da Escóssia, então na Folha de S. Paulo, produziria uma reportagem exemplar, daquelas cujo estudo deveria ser obrigatório em qualquer curso de jornalismo. Enviada ao Espírito Santo para cobrir o julgamento do líder sem-terra José Rainha, ela registrou sua condenação por dois homicídios. Mas percebeu que o caso não deveria ser encerrado com a leitura das sentenças. Voltou a Pedro Canário, local do julgamento, leu todo o processo, verificou uma série de contradições e partiu para entrevistar as testemunhas que acusaram Rainha e os jurados que o condenaram. Acabou provando que o julgamento fora uma farsa.

Naquele mesmo ano, o Diário Popular publicaria uma reportagem em que Josmar Jozino revelava que as penitenciárias de São Paulo haviam gerado um monstro: o PCC. Uma organização ainda jovem, mas que, em seu estatuto, mostrava todas as suas garras. Na época, uma autoridade do sistema penitenciário afirmou que aquilo não passava de ficção. A realidade mostraria o quanto ele estava errado. A reportagem que fecha este livro, de Carlos Wagner, Nilson Mariano e Humberto Trezzi, é outro alerta para o crescimento do caráter internacional da criminalidade, hoje uma espécie de mercado comum que parece ter conseguido a integração regional com mais eficiência e rapidez que os esforços diplomáticos. A matéria mostra como bandidos brasileiros e uruguaios usavam a fronteira para forjar uma união entre dois países, um acordo movido a ouro, armas, dólares e drogas.

A conjugação, no período anterior, do verbo “usar” em um tempo pretérito respeita as normas gramaticais mas não endossa uma ilusão com o eventual fim dos casos apontados na reportagem publicada na Zero Hora. Pelo contrário: as atividades criminosas foram expandidas, profissionalizadas, globalizadas; infiltraram-se em mecanismos de poder, na estrutura de Estados. Cresceu o desafio da sociedade e de seus instrumentos para combatê-las. Aumentou também a nossa responsabilidade para, como jornalistas, entender seus mecanismos, desvendar suas implicações, trazer ao público versões mais exatas e confiáveis sobre a expansão do problema. Mudou o crime; mudou, e ainda tem muito o que mudar, o jornalismo que tenta relatá-lo. Os instrumentos que permitiram a cobertura de episódios ocorridos em décadas passadas são hoje precários e insuficientes. Reportagens aqui publicadas apontam para bons caminhos; tratemos de aperfeiçoá-los, de nos capacitarmos em busca de uma cobertura que nos torne mais independentes das fontes oficiais, que dê conta da dimensão do problema, que proporcione matérias mais precisas e esclarecedoras.

Fernando Molica