Garotos

Lelé chorava baixinho. Fazia força para não gritar, para não transformar em choro aberto aquele quase-ganido que vinha como que da barriga e subia até a garganta, até o alto da garganta. Lá, queria sair, virar berro, dizer tá doendo porra tá doendo muito chega já tá bom vocês já esculacharam agora deixa a gente sair deixa a gente correr na moral a gente vai ficar quieto a gente não tem nada a ver a gente não vai sacanear ninguém tá doendo tá doendo. Lelé sabia que não ia adiantar nada, que chorar, que gritar, só ia fazer com que demorasse ainda mais. E era melhor que terminasse logo. Acabar logo aquela dor, acabar logo aquilo tudo. Pior é que ainda por cima sentia medo daquele escuro, daquele mato escuro, daqueles barulhos de bicho, deve ter cobra aqui eu tenho medo de escuro porra. Não gostava quando minha mãe saía e me deixava no escuro, eu mais meus irmãos, tudo pequeno, tudo no escuro, eu já devia ter me acostumado, tô com 18 anos porra, já devia não ter mais esse medo, mas tenho, fazer o quê? Este chão machuca, os filhos-da-puta pegaram meu tênis, pegaram minha roupa, minha bermuda, logo aquela bermuda, aquela toda preta, nem terminei de pagar, agora que se foda, agora que eles não vão mais receber a grana, bem-feito, me sacanearam, acharam que eu não tinha grana pra pagar,  quero ver receber o que falta. Tá quente, mas tô com frio, os caras me tomaram até a camisa, porra mermão a camisa é velha tá meio caída deixa eu ficar com ela minha tia é que me deu. Deve ser por isso que tô com frio. Frio nada, tô é com medo. Tá doendo, acho que meu pé tá quebrado, quero parar de andar, cadê o Serrote, cadê o Bronha, quem é que tá lá frente, quem é que tá atrás de mim? Esse choro alto deve ser do Serrote, coitado, ele grita que grita, diz que troca de lado, diz que tem coisa pra contar, diz que entrega, que faz o que mandar ele fazer. Mas os caras nem aí, só batem, só quebram. Pára de gritar Serrote tu então é que não tem saída eles sabem da tua parada sabem do que tu fazia do que tu armava com quem tu andava. Pára de gritar porra. Pena que não posso gritar, só posso pensar, se eu gritar eles me quebram mais, e eu não quero mais apanhar, só quero que isso termine, que acabe. Eu tenho medo de escuro porra tenho 18 anos mas tenho medo de escuro tenho medo de mato tenho medo de bicho tenho medo de cobra. Eu quero a minha tia eu quero um baseado eu quero feijão com carne seca eu quero os peitinhos da Thayssa quero lamber a Thayssa eu quero eu quero saber do Bronha cadê o Bronha coitado dele ele então. Agora que ele ia se dar bem, ganhar grana, se mandar desta merda. É ele que deve tá gritando lá na frente, que dá dinheiro, que tem jogo, que tem como armar uma parada. Perdeu, Bronha, o alemão quebrou teu joelho, perdeu, perdeu. Arrebentaram teu joelho, bródi. Mesmo se tu escapa, tu tá fudido, não dá mais pra tu correr, pra jogar bola. É claro que quebrou, aquele barulho é de que quebrou. Coronha de AR quebra, arrebenta, doeu em mim, não ia doer em tu, cara? Acabou amigo, a gente perdeu. Os caras vão terminar de quebrar a gente. Agora falta pouco, cara. Dói dói pra caralho dói. Vai acabar, deve ser aqui, aqui tem pouco mato, acho que já vim aqui. Acho que vim, a gente jogou bola aqui, lembra, Serrote, lembra, Bronha? Tua avó que trouxe o rango, Bronha. Só que não tava escuro, tava claro, tava bom, tinha comida, tinha cerveja, tinha até um fumo legal que a gente descolou lá na boca, a gente ficou doidão, falou um monte de merda, que ia fazer, que ia botar pra fuder, na moral. Ainda arrastei a Thayssa pro mato, comi ela todinha, maior love, bródi. Tu lembra? Chora não, Serrote, grita não, Bronha. Quem sabe a gente ainda não se vê, né? Quem sabe se pra onde a gente vai não tem muito fumo, muita mulher, muita sacanagem, muito peitinho, um campinho legal, muita bola pra gente jogar? Pro céu é que a gente não vai, né?, a gente já fez merda demais pra ir pro céu. Liga não, o inferno deve ser mais animado, lá vai ser bom, vai ser melhor, bródi. Com o inferno, a gente já tá acostumado.