Texto do escritor Paulo Scott sobre 'O inventário de Julio Reis':

Literatura não é apenas entretenimento; acima de tantas outras justificativas, literatura é acerto de contas que poderá ser refeito sobre realidades históricas e suas linguagens recriando, pela voz do narrador, uma lógica autopoética, mas nunca imparcial e muito menos impermeável. Voltar a fatos singulares engendrados sob a lente da ancestralidade é uma prerrogativa que poucos escritores têm a coragem de assumir às claras e enfrentar sob as pretensões da arte literária. Fernando Molica, por certo um dos escritores brasileiros mais significativos de sua geração, encara com minúcias a história, e dentro da história a tragédia, de seu bisavô, Julio Reis, um maestro autodidata, resistente, alguém que nem sempre aceitou compor com as facilidades e conveniências das transições políticas e artísticas ocorridas entre o fim do século XIX e o início do século XX.

O termo inventário do título não é gratuito e não é resumo: ao lado desse sutil inventariar se afirma um nada leviano inventar. Fernando Molica, com dicção literária ágil, assume cumplicidades tremendas diante de seus protagonistas. Este inventário não dispensa o olhar crítico sobre uma época e sobre a cidade que ainda é a alma deste país, híbrido e com tanta dificuldade em se reconhecer. O centro do Rio de Janeiro, fabuloso e sempre tendendo a labirintos, figura quase como um protagonista desta breve e delicada aventura moldada em torno da coragem, e de certa ingenuidade rara, de um homem que poderia ter sido o bisavô impressionante de qualquer um de nós. Não esqueça, portanto, que as personagens deste livro existiram e que ainda assim se trata de uma obra de ficção.

Os caminhos escolhidos pelo autor, seus panoramas e seus motivos configuram um conflito que parece não ter fim: a necessidade da arte e da manutenção da sua presença, justificando a pertinência de sonhos capazes de empolgar mesmo quando a vida que os originou há muito tenha acabado. Insisto, é acerto de contas, um acerto de contas capaz de mover a melhor das literaturas.