Fernando Molica é jornalista, dos melhores de sua geração, e já reportou tanta história esquisita, tanto acontecimento absurdo, que não ficará espantado se amanhã a trama deste seu primeiro romance aparecer com personagens reais nos jornais. Eis o lead: universitários de esquerda se instalam numa favela, fazem aliança com traficantes de drogas e instalam os princípios de uma revolução socialista na Zona Norte do Rio de Janeiro. Tudo é possível, dizem os bons repórteres, esses craques do cinismo. Mas por enquanto a nova ordem administrada pelos pós-marxistas e a turma do “movimento”, no Morro do Mirandão, está apenas na ficção fluente de Molica — e provoca aquele risinho de lado das claques inteligentes.

Eis os fatos: guerrilha urbana, palavras de ordem, o ódio ao Estado burguês, a conscientização do proletariado, a necessidade de armá-lo para conquistar o poder, o pôster do Che e discursos terminados, punhos fechados, com a filosofia vandréniana do “quem sabe faz a hora”. Os anos 60, que a toda hora ameaçam incorporar na regravação de alguma musiquinha alienada da Jovem Guarda, reaparecem enfurecidos, em plena virada de milênio, no engajamento sócio-nonsense do pessoal da Conexão Revolucionária. Uma farsa política e, como tudo no Rio, policial também. Sem apelar para a caricatura escrachada, Notícias do Mirandão não espera acontecer. Acelera a maluquice do hardnews jornalístico, perfila evangélicos, policiais, traficantes, repórteres, políticos e estagiárias, quase todos lunáticos, quase todos vigaristas. Não tem barriga. Molica estréia com um Prêmio Esso de Ficção.

Joaquim Ferreira dos Santos