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Krimi couch.de resenha

Muitos livros ostentam adesivos das editoras: “thriller do mês”, “bestseller”, “vale a pena ser lido”. Eles costumam ser aplicados em livros cujo conteúdo geralmente é para consumo de massa. A imaginação das editoras, nestes casos, não tem limites. Subtítulos como “Krimi aus Rio”, por exemplo, não necessariamente condizem com o conteúdo, pelo menos não com aquilo que se costuma esperar com a classificação do gênero do romance policial.

O livro Krieg in Mirandão (Notícias do Mirandão), do escritor brasileiro Fernando Molica, não é um romance policial no sentido estrito, embora trate de múltiplas ações criminosas. A trama fala da união entre o braço de um partido socialista (CR) com a espinha dorsal financeira (e criminosa) do tráfico em uma favela no subúrbio pobre do Rio de Janeiro. A ação guerrilheira que nasce dessa união revira a vida na favela de baixo para cima. Assim, o romance oferece vários olhares sobre a vida numa das maiores e mais agitadas metrópoles da América do Sul. Um mundo no qual a estrutura social funciona de acordo com leis diferentes – ou nem funciona mais, se aplicamos os parâmetros da nossa Europa ainda relativamente confortável. E é essa multiplicidade que faz deste romance relativamente curto (170 páginas com 10 páginas de entrevista com o autor e 4 páginas de glossário) uma verdadeira jóia.

Protagonistas do cotidiano bruto

Há uma multiplicidade de personagens cujos retratos forjam o romance:

Nos capítulos curtos e densos, o autor salta de um protagonista para o outro. Ele narra a vida a partir da perspectiva de cada um deles. Cada um deles tem visões e sonhos diferentes, perspectivas de vida diversas. Essa multiplicidade de personagens críveis, diferentes é responsável pela qualidade especial desse romance. Só assim o autor consegue honrar a complexa realidade social: a bancarrota de um sistema que não consegue mais controlar a violência e o medo com as instituições do Estado de direito. Da mesma forma, ele aponta quão fundo a pobreza estrutural já está enraizada no cotidiano das pessoas e como ela aprofunda a cisão da sociedade.

O sonho romântico de justiça social não fracassa por causa do Estado, e sim por causa das pessoas que se acostumaram à injustiça social existente. Essa é a conclusão trágica desse romance que tem clara conotação política. Krieg in Mirandão é um livro sofisticado, um dos melhores lançamentos do mercado editorial alemão em 2006.

Thomas Kürten (tradução: Kristina Michahelles)

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Stuttgarter Zeitung, 10/06/2006 resenha

Isso pode continuar assim? No romance Krieg in Mirandão (Notícias do Mirandão), de Fernando Molica, é um ativista socialista católico quem faz essa pergunta ao chefe do tráfico de uma favela – mas não para tentar convertê-lo a uma vida inimaginavelmente “ética”. A pergunta sobre o ciclo vicioso da violência destina-se a preparar o bandido para uma utopia: a parceria entre as gangues das favelas e os sonhadores rebeldes comunistas dos bairros burgueses. Em seu livro, Molica escreveu um retrato sensível, sem ilusões e incitante da loucura cotidiana. Ao descrever, de forma convincente, a vida interior de seus personagens, compreendendo a sua forma de pensar e a sua linguagem, ele aponta para os seus mal-entendidos fundamentais, os diálogos onde os interlocutores mal se escutam, seu fracasso inevitável.

Em última análise, este grandioso romance policial das favelas arrasa com toda uma utopia de esquerda e mostra ao mesmo tempo que o status quo ‚e insuportável, que os pobres precisam urgentemente de uma utopia que possa ser concretizada.

Thomas Klingenmaier (tradução: Kristina Michahelles)

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Das Parlament Nr. 40 e 41 - 2/10/2006 resenha Um romance policial no Rio

A violência cotidiana nos subúrbios pobres do Rio passou a ser conhecida na Alemanha no mínimo desde o filme City of God (Cidade de Deus, 2002) de Fernando Mereilles. É do mesmo assunto que trata o autor Fernando Molica, 45 anos, em sua estréia literária Krieg in Mirandão (Notícias do Mirandão), que acaba de ser lançado em alemão. No subtítulo, a obra é classificada como “Krimi”, ou seja, romance policial. O motivo para tal pode ser o fato de existir mais de um cadáver ao longo da trama. Mas a tensão não se origina tanto da investigação dos casos de assassinato. Depois de algumas poucas páginas, o leitor já percebe que a trama só pode mesmo terminar de maneira trágica. Mesmo assim, o livro é tudo menos tedioso. Num estilo objetivo, próprio do jornalismo informativo, Molica, repórter da emissora TV Globo, dirige o olhar para o microcosmo das favelas. No caso do Mirandão, a violência, as drogas e a falta de perspectiva são ingredientes tão corriqueiros que se torna quase impossível imaginar uma vida sem eles.

É o contrário que gera o movimento. Molica solta um pequeno grupo de revolucionários de esquerda na favela. Eles querem iniciar uma revolução social. Junto com os chefes do tráfico local, os pequenos Che Guevaras conseguem resultados surpreendentes ainda antes de iniciar a revolução propriamente dita. A taxa de criminalidade cai, o esgoto fedido é canalizado, em suma, a vida no bairro se torna mais harmoniosa e pacífica. Isso, obviamente, chama outros detentores do poder, que querem ver restabelecidas as velhas condições.

Por vezes, a narrativa ganha contornos shakespeareanos onde não faltam nem mesmo um Romeu e uma Julieta. E é esta melodia amarga e irônica impregnada na obra de estréia de Molica que ecoa depois da leitura do livro. Ele conta de forma impressionante por que nada muda na pobreza estrutural neste riquíssimo país, pelo menos por que nada muda para melhor.

Uma lástima, apenas, que a tradução não manteve o título original, Notícias do Mirandão. Nachrichten aus Mirandão teria sido bem mais acertado. Afinal, o que acontece na favela continua fornecendo assunto para o noticiário local, sem ser considerado uma guerra que merecesse às primeiras páginas.

Por outro lado, cabe um elogio à editora que resolveu fazer um glossário amplo e preciso, fornecendo informações geográficas e socioculturais aos leitores que não conhecem o Rio de Janeiro. Outra providência que merece elogios é a publicação de uma entrevista com o autor, na qual Molica, entre outras coisas, expressa suas reflexões sobre a perplexidade social e a “normalidade” de uma violência terrível, baseada na favelização de bairros inteiros em sua cidade natal.

Monika Pilath (tradução: Kristina Michahelles)

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Watching the detectives, 23/10/2006 resenha

Quem ou o que determina como deve ser ou como deve funcionar a literatura policial? Seriam os teóricos literários? Os críticos? Escritores que refletem sobre questões estéticas ou poetológicas? O público leitor? Sim, com certeza todos eles o fazem. Eles passeiam, experimentam ou simplesmente transportam através dos tempos as eternas leis de tensão e dramaturgia. Mas nós nos esquecemos de uma outra instância, quiçá a mais importante: as circunstâncias.

“Krimi aus Rio” (romance policial do Rio de Janeiro) é como Fernando Molica classifica o seu romance Krieg in Mirandão (Notícias do Mirandão). O leitor se surpreende. Não, não pode ser um romance policial, e o rótulo Krimi é uma sem-vergonhice.

Tudo muito bem, tudo muito bom. Vamos até as favelas do Rio de Janeiro, dominadas pelos chefões do tráfico e onde os assassinatos fazem parte do dia-a-dia. Um grupo de esquerdistas radicais tenta estabelecer uma cooperação com o chefe da Favela do Mirandão para, em nome do interesse recíproco, cobrar dinheiro dos comerciantes dos bairros “melhores”. Em contrapartida, acabam os crimes, os recursos são investidos na melhoria das condições de vida e de educação, tudo se estabiliza, o chefe do tráfico pode fazer seus negócios tranqüilamente e a esquerda pode politizar os moradores alegremente, estruturando a guerrilha urbana para a revolução próxima e, pasmem!, tudo parece estar funcionando.

Às custas do leitor de romances policiais condicionado, então? Ele/ela sofre com páginas e páginas de discursos teóricos que lembram o discurso de um estudante secundário politizado que, em algum momento, faz muito tempo, teorizou sobre a justiça social mundial antes de descobrir que há jeitos mais fáceis de realizar a vivência sexual ou poupar para construir a casa própria.

Naturalmente assassina-se galhardamente no Mirandão. Naturalmente há poiciais corruptos, jornalistas cínicos e idealistas que refletem sobre a realidade. Mas em nenhum momento o livro é um romance policial segundo os nossos parâmetros.

A culpa é das circunstâncias. Descrevê-las em toda a sua falta de perspectiva e consolo constitui naturalmente estruturas criminosas além daqueles “desvios da normalidade” artificialmente urdidos, cuja tensão costuma nos relaxar. Portanto, não são as ações de “criminosos” que constituem o romance policial e escrevem a sua dramaturgia segundo as regras conhecidas. Aqui se questiona uma ordem, a ordem da miséria, do racismo, da ganância por dinheiro e poder, e, no final, essa ordem é restabelecida numa cena sangrenta. Tudo na boa e velha tradição do romance policial em sua versão mais escura.

Isso nos lembra da Colheita vermelha de Dashiel Hammett? Deveria lembrar sim. O romance de Molica é a moderna versão brasileira do romance “noir” clássico, que não estabelece apenas novos parâmetros do ponto de vista do conteúdo, mas também do ponto de vista formal e de dramaturgia. As próprias circunstâncias são o crime, a pergunta pelo responsável, e suas implicações ainda mais singelas se transformam na análise do poder e de seus cúmplices, desembocam na questão de “normalidade+, direito e ordem.

A “guerra no Mirandão” acaba sendo vencida. Quem ganha é o lado errado, mas provavelmente só pode mesmo existir pessoas erradas dos dois lados. Tudo volta a ser como dantes. O romance policial continua sendo romance policial, pois as circunstâncias não mudaram.

(tradução: Kristina Michahelles)

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ak - analyse & kritik - zeitung für linke Debatte und Praxis resenha

Fernando Molica, autor do thriller Krieg in Mirandão (Notícias do Mirandão), nasceu no Rio de Janeiro em 1961. Ali, trabalhou como jornalista e correspondente para diversos jornais e uma emissora de TV. Diante desse pano de fundo particular, não admira que um dos protagonistas da história, ainda que não o principal, seja um jornalista pouco solicitado e irritadiço: Fontoura está à procura de um bom assunto que vá para a primeira página, e ele está atrás de uma história tão insólita quanto perigosa. Uma favela é dominada pelo crime organizado, o tráfico floresce, tudo se resolve corrompendo-se a polícia. Apesar do engajamento de padres e de ONGs, ninguém escapa à falta de perspectiva da situação. Eis que um grupo de estudantes de esquerda radical desenvolve um plano e escolhe exatamente este lugar para iniciar uma revolução social. A vanguarda revolucionária não recua nem mesmo diante de uma aliança utilitária com o principal traficante, Marra, para instituir um “imposto revolucionário” em lugar do velho “pedágio” cobrado pelo tráfico. Para o chefe do tráfico, tanto faz quem de onde vem a ajuda, desde que possa aumentar o seu pequeno império e a sua esfera de poder. Mas algumas coisas evoluem diferentemente do que foi planejado, pois ainda há outras pessoas nas alavancas do poder. Um thriller que se move na fronteira entre moral e corrupção, entre ousadia pessoal, envolvimento político, sonhos e lucro, poder e ganância de poder – infelizmente, nada de inimaginável, e sim muito realista.

Raphaela Kula (tradução: Kristina Michahelles)

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Goon- Magazin für gegenwartskultur, 30/10/2006 resenha Fernando Molica fala do fracasso de sonhos particulares e revolucionários no Rio de Janeiro

Embora a capa prometa um Krimi aus Rio (Romance policial no Rio), o leitor logo nota que, nesse caso, o rótulo não se aplica. Ali não se acompanha um investigador à procura de criminosos, nem a estrutura ou o tom do livro correspondem a um romance policial clássico. Em vez disso, o autor Fernando Molica conta uma história de suspense que tem como pano de fundo as favelas do Rio de Janeiro e trata dos sonhos revolucionários de um pequeno grupo de ativistas de esquerda. Descontentes com a política de seu partido, focada em parlamentarismo e disputa pelo poder, eles tentam estruturar uma base para seus planos revolucionários na favela do Mirandão.

Restabelecimento do status quo
Segundo sua análise, as condições nos bairros miseráveis são favoráveis, pois os moradores odeiam o Estado, a polícia e os partidos, e os bancos criminosos – núcleos de futuros guerrilheiros – estão fortemente armados. A experiência insólita começa depois que os membros da semiclandestina Conexão Revolucionária conseguem convencer o chefe de um bando de traficantes e pequenos criminosos que domina a favela de que também ele pode tirar proveito da melhoria das condições de vida na comunidade. A aliança entre os revolucionários, oriundos principalmente da classe média branca, e dos bandidos negros, marcados pelo clima de miséria social e violência cotidiana, é frágil, mas parece funcionar. Os negociadores são uma ativista nascida no Mirandão e um assistente social ligado à Igreja que – contrariamente ao seu empregador – é adepto da Teologia da Libertação. Apesar dos interesses parcialmente conflitantes, o projeto conjunto logo rende benefícios aos moradores da favela: as obras de canalização de esgoto longamente prometidas pelo poder municipal e nunca realizadas, um centro do bairro aberto a todos, ofertas culturais e, não por último, até mesmo uma certa tranqüilidade na comunidade. Mas o caminho que leva à Revolução não é tão fácil quanto parece. A ansiada tentativa é abortada pelos seus inimigos de forma rápida, cruel e tirando todas as ilusões, e o status quo é restabelecido.

Top-Story
Nascido em 1961, o autor Fernando Molica, vive e trabalha no Rio. Apesar de ser jornalista, não conhece a situação nas favelas só a partir do noticiário, como declarou em uma entrevista anexada ao romance, pois ele próprio se criou na periferia. Embora nunca tivesse se envolvido em grupos subversivos de esquerda na década de 70, como muitos de seus colegas, sempre se preocupou com as possíveis conseqüências da pobreza e da discriminação em um país rico como o Brasil e com as alternativas à política dominante. Dessa forma, Molica se identifica com um dos protagonistas, o estudante Célio, nascido em condições seguras e criado segundo os preceitos católicos, mas que está disposto a abrir mão de tudo em nome da Revolução. Mas também há traços do autor na figura do jornalista Fontoura, um pequeno repórter local, que se tornou um cínico com o emprego mal-pago e a convivência diária com o crime, os assassinatos e os políticos corruptos. Os seus sonhos são um pouco mais modestos do que os de Célio. Ele espera poder lançar um livro bem-sucedido em algum momento e ganhar um aumento. Mas ele também acaba fracassando. Ao retratar as condições de vida em uma favela, Krieg in Mirandão se situa entre as raras obras que não se limitam a usar o mundo da periferia como cenário para qualquer romance policial, reproduzindo os ressentimentos da classe média. Assim como ocorre em Cidade de Deus, o cotidiano dos moradores das favelas é revelado de maneira viva e realista.

Andreas Huth (tradução: Kristina Michahelles)

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Lateinamerika-Nachrichten Online Literatur, 12/2006 resenha O romance Krieg in Mirandão, de Fernando Molica, destrói qualquer esperança de uma revolução no Brasil

A idéia, dessa vez, é que revolução seja iniciada nas favelas, e não no sofisticado bairro de Ipanema. A revolução deve partir daqueles que conhecem a fome de verdade, não só a partir dos livros. O estudante de classe média Célio, 19 anos, tem um plano. Junto com os companheiros e as companheiras da facção Conexão Revolucionária (CR) ele quer induzir uma revolução no Brasil. Para essa finalidade, Célio abriu mão até mesmo de sua identidade burguesa. O cenário e centro da trama é a favela [fictícia] do Mirandão, na pobre Zona Norte do Rio de Janeiro. Camuflados como inocentes funcionários de uma ONH, Célio e seus aliados colocam todas as suas forças a serviço da politização dos jovens nas favelas. Célio aprendeu a partir de duas outras tentativas revolucionárias fracassadas. Antes de utilizar o rico arsenal de armas dos morros, é preciso criar a consciência política para o verdadeiro potencial revolucionário. Sua missão tem um objetivo claramente definido: demover os pobres da idéia de que a revolução estaria concluída no momento em que têm dinheiro para comprar um aparelho de televisão ou quando os brancos jogam alguma esmola para os negros. Dessa vez, a idéia é derrubar todo o sistema. Mas há um problema. Para construir as estruturas necessárias é preciso fazer uma aliança com o chefe do tráfico organizado no Mirandão. A CR realmente consegue engajar o chefe do tráfico e do Mirandão, Marra, nos seus planos. Mas a cooperação só é parcialmente bem-sucedida, pois para Marra o movimento revolucionário não passa de uma simples possibilidade de ampliar o seu poder e executar brutalmente os seus adversários. O princípio de Marra é simples e cruel: se for preciso matar para conseguir dinheiro, então que se mate.

Em seu romance policial Krieg in Mirandão (Notícias do Mirandão), o autor Fernando Molica narra a trama quase sempre do ponto de vista de seus protagonistas, imitando a linguagem rude dos favelados. Nesse mundo dominado pela violência e falta de escrúpulos, não são apenas os traficantes que matam por dinheiro, mas também a polícia. Dessa forma, a última cena pertence a Jairo, o policial corrupto, que, com um sorriso cínico nos lábios, faz um brinde à operação bem-sucedida de destruição do Mirandão.


Perspectivas interessantes:

Aos revolucionários sobreviventes, resta apenas a falta de esperança depois de um sonho romântico. Com seu livro de estréia, Molica deita um olhar agudo sobre as estruturas internas das favelas brasileiras. Nem sempre o leitor consegue compreender por que motivos os traficantes, os revolucionários e a polícia agem em conjunto ou uns contra os outros. Mas essa confusão é conceitual e nela consiste a verdadeira mensagem do livro: uma verdadeira mudança social radical no Brasil é praticamente impossível e sempre fracassará diante da densa teia de corrupção política, tráfico de drogas ilegal e abuso de poder por parte da polícia. Com este livro, Molica - que trabalha como repórter para a grande emissora brasileira TV Globo – fornece não apenas uma boa descrição da sociedade brasileira, mas também retrata os representantes de sua própria categoria profissional na figura de Fontoura, o repórter local frustrado. Para os jornalistas, as notícias cotidianas sobre a violência não passam de material para matérias “quentes”. Dessa forma, disseminam as interpretações mentirosas e racistas da polícia e confirmam a atitude da elite brasileira, para a qual a pobreza e uma tez negra há muito tempo passaram a ser sinônimos de violência e crime.

Saskia Vogel (tradução: Kristina Michahelles)

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Lateinamerika-Nachrichten Online Literatur, 12/2006 resenha Entrevista com o autor brasileiro Fernando Molica sobre o seu romance Krieg in Mirandão (Notícias do Mirandão)

Há poucos dias, a editora Nautilus publicou o livro Krieg in Mirandão, de Fernando Molica. O livro se passa no Rio de Janeiro, a cidade natal do autor. A tradução é de Michael Kegler, que também fez a seguinte entrevista com o autor.

O Rio de Janeiro é famoso pela violência. A auto-estrada que leva da Zona Sul ao aeroporto internacional é conhecida como “Faixa de Gaza”. É margeada por favelas, e há sempre a possibilidade de se sofrer um assalto à mão armado. Como o cidadão comum pode lidar com esta violência?
Todas as favelas do Rio de Janeiro sofrem com a forte presença de criminosos armados. São bandidos fortemente armados, ligados ao tráfico de drogas. É absurdo: a maioria dos líderes desses bandos é pobre, vive mais mal do que bem nas favelas. Não são chefes do tráfico do porte de um Pablo Escobar (N. da R.: traficante colombiano já morto). Mesmo assim, possuem as armas mais modernas, equipamentos de guerra, carabinas e metralhadoras. Esses traficantes são violentos. As armas, que servem primordialmente à defesa de suas áreas de atuação, também são utilizadas em assaltos. É uma situação complicada. Lidar com a violência passou a fazer parte assustadoramente do nosso cotidiano, limitando até mesmo a liberdade de ir e vir em determinadas partes da cidade. Como tudo no Brasil, a violência é mais cruel nas partes pobres. Mas em última análise ela nos atinge a todos.

Nenhum mapa da cidade registra as favelas, embora se situem no meio da cidade. Cerca de 40% dos moradores das grandes cidades brasileiras vivem nessas comunidades “informais”. Onde é que os dois mundos se encontram?
Quarenta por cento talvez seja um exagero. Não são tantos assim. Deve-se diferenciar os bairros pobres das favelas. Mas de qualquer maneira ocorreu uma evolução preocupante no Rio de Janeiro, a favelização dos bairros pobres. As regiões próximas às favelas assumiram as mesmas características. A violência é em boa parte responsável por esta tendência, pois quem pode tenta sair de perto dessas favelas. O êxodo leva a um empobrecimento maior, ao surgimento de novas favelas. No passado, o encontro dos dois mundos – o dos ricos e o dos pobres – chegou a ser produtivo. O nascimento das escolas de samba, um espetáculo extraordinariamente grandioso, só foi possível graças a esta convivência (em São Paulo, por exemplo, a classe média jamais se envolveu com as escolas de samba). O problema é que, de uma maneira geral, a sociedade se acostumou à idéia da desigualdade, ao fato de existirem pessoas muito ricas e muitos pobres. Investiu-se pouco em medidas para diminuir a diferença. A favela foi folclorizada em maior ou menor grau, idealizada e inserida na lógica da grande cidade. Investiu-se na cisão: os pobres freqüentam a escola pública, os menos ou mais afortunados vão a escolas particulares. Essas crianças e esses adolescentes vivem separados, nunca se tornarão amigos. Acho que ninguém gosta de ser condenado a ser pobre. A sociedade brasileira se desenvolveu em um terreno conomicamente, a lógica do consumo se aguçou. E isso contribuiu para piorar as coisas.

O romance foi escrito antes que o presidente Lula assumisse o poder. O governo dele mudou alguma coisa nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro?
Infelizmente não, por mais que eu lamente. A situação de hoje é parecida com a anterior. O governo investiu em programas sociais, distribuiudinheiro para as famíulias mais pobres, pouco, mas é bastante para as regiões mais pobres do país, principalmente no Nordeste. Mas são programas que pouco influem na situação de cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo. Nossas cidades incharam ao longo das últims décadas, a urbanização do Brasil foi dramática, avassaladora, e não se criaram condições para absorver tanta gente. A decepção é tão grande que alguns adeptos do PT fundaram um partido ainda mais à esquerda, o PSOL. Seguramente não é uma CR como no meu livro, mas evidencia a falta de ilusões em partes da esquerda acerca do governo Lula.

Notícias do Mirandão trata da tentativa de ressuscitar a guerrilha no Brasil. Você acredita que isto seja possível?
Bem, o que sei é que o pessoal da CR (o grupo revolucionário do livro) acha isso bem possível... brincadeira à parte: o livro é um romance, uma ficção. Tentei contar uma história de forma que ela tivesse credibilidade. Por acaso, ela trata da guerrilha.
Neste momento não vejo possibilidade de ressurgimento da guerrilha urbana, mas não sou um especialista nesta questão. Provavelmente existem pessoas que se ocupam com este tema. A idéia do livro surgiu há uns dez anos, quando eu conversei com um padre que fazia trabalho de base. Ele me dizia que conhecia gente para quem a retomada da guerrilha era um a opção possível. Gente que não acreditava mais na possibilidade de transformações estruturais através das urnas. Mas essa gente tampouco conseguiu se organizar. Ficou tudo nos planos... Há uns dois ou três anos, alguns deles invadiram uma delegacia, acho que foi da PM, da Polícia Militar, aqui no Rio de Janeiro, para roubar armas e uniformes. Estão presos agora e se designam como sendo presos políticos.

No romance cria-se a união entre esses revolucionários e os traficantes. Como surgiu essa idéia?
É uma forma de possibilitar a luta armada. No meu romance, os caras querem ressuscitar a guerrilha. Mas como? Através da aliança com pessoas que já tiveram armas e que têm uma certa experiência com a luta.

Além da guerrilha, todos os personagens têm algo em comum: querem realizar um projeto.
É verdade. Só me dei conta disso quando o livro estava pronto. Foi então que eu
compreendi que, mais do que um livro sobre a guerrilha, é um romance que fala de nostalgias, de sonhos e seus protagonistas. São personagens que lutam para transformar seus sonhos em realidade. Alguns sonham alto: Revolução, salvação. Outros se contentam com coisas menores: uma vida melhor, uma condecoração, um filho. Mas todos almejam uma vida diferente da que levam agora.

O que me chamou a atenção é que a Igreja ocupa um papel importante no romance. Por que? Isso tem a ver com o padre que o inspirou involuntariamente a escrever o livro?
Pode ser. Mas acho que os fatores decisivos são outros. Eu tive uma educação católica. Quando trabalhei no jornal, entrevistei muita gente que a partir do Cristianismo começaram a aderir a idéias sociais mais radicais. Nas décadas de 60 e 70, muitas pessoas, padres e leigos, foram para a esquerda movidas pela fé. No Cristianismo há toda essa coisa de solidariedade e justiça social. A Teologia da Libertação não nasceu por acaso. Um cristão, principalmente um católico, tem todo esse problema de culpa. A idéia da salvação cristã tem muito a ver com a idéia do paraíso socialista.

Isso se reflete no personagem de Célio...
Sim, Célio é o personagem que melhor incorpora essas esperanças e contradições. Ele oscila entre esperança extremada e profundos sentimentos de culpa. Certa vez, chega a dizer que até mesmo alguém oriundo da classe média mais baixa e suburbano, como ele, deveria se sentir culpado quando vai comer uma pizza no bairro do Méier, por exemplo.

Por falar em suburbano, o livro se passa quase inteiro no subúrbio...
Eu sou totalmente suburbano. Nasci em Quintino, me criei na Piedade e passei a minha juventude no Méier. Isso foi bom, pois agucei o meu olhar sobre a cidade. Mesmo morando hoje na Zona Sul da cidade, acho que jamais perderei esse olhar suburbano.

Então é Célio o personagem com o qual você se identifica?
Mais ou menos. Ainda há um jornalista, o Fontoura, outro protagonista. Ele é muito importante. A trama se organiza em torno dele.

O livro tem uma forte relação com o jornalismo.
Sem dúvida. De um lado, um jornalista se presta bem para uma ficção. O cinema americano está repleto deles. A vantagem do jornalista é que ele circula muito, tanto em termos sociais como geográficos. Isso é bom para juntar lugares e tecer as tramas. E não se deve esquecer que eu mesmo sou jornalista e conheço os medos que deprimem a nosa espécie em suas diferentes versões. Jamais teria podido resistir a embutir um jornalista na trama.

Nos últimos anos, uma série de livros tratou do tema da criminalidade nas favelas, como Cidade de Deus, de Paulo Lins, ou Inferno, de Patrícia Melo. Será correto dizer que à idealização das favelas na música dos anos 50 e 60 se segue agora uma estetização da violência na literatura?
Acho que todos os livros que tratam das favelas são bem diferentes. Não acredito em uma nova estetização. Saíram alguns livros que falam do tema, mas eles não constituem uma tendência na literatura brasileira contemporânea. Ao contrário, acredito que representam apenas uma minoria, tanto no sentido positivo quanto no negativo. Acho até mesmo que, em determinados círculos literários, existe uma resistência contra temas da atualidade, concnetrnado-se mais no indivíduo em seus imbricamentos imediatos, suas dúvidas, seus questionamentos. O Brasil se tornou bem mais complexo nos últimos anos, as dicotomias bem/mal, certo/errado, esquerda/direita se dissolveram, o que gerou alguma confusão, também entre os autores. Não existem mais grandes projetos de salvação, o que é bom, mas faltam projetos que respondam à velha pergunta “O que fazer?”. Na dúvida, levanta-se mais um pouco o muro de casa e crescem as vendas de carros blindados.
A favela e a pobreza há muito já deixaram de ser idealizadas. Ao contrário, são percebidas como ameaça. Isso gera insegurança, não há dúvida. Acho até que, em determinados grupos sociais, há um embrutecimento em relação à pobreza, uma espécie de aceitação da realidade, uma rendição, a sensação de derrota, de que não adianta mesmo falar sobre isso. Vivo a minha vida e esse país não vai dar certo mesmo. Isso é humano, compreensível.
Acho que, numa sociedade tão injusta como a brasileira, todos tentamos permanentemente encontrar o nosso papel, e isso se reflete na literatura. Eu não estou fixado nos temas de favela, pobreza e violência. Mas acho difícil fugir de um tema que marca de tal maneira o dia-a-dia das pessoas. Talvez eu esteja querendo compreender o que esses fatores provocam nas pessoas, nos nossos desejos, nossas expectativas. Para mim, o mesmo vale para todos os personagens do livro, cada uma com seus sonhos, seus objetivos, suas dúvidas e suas certezas. Pelo menos é o que eu acho...

Saskia Vogel (tradução: Kristina Michahelles)

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Ila resenha O romance policial de Fernando Molica: Krieg in Mirandão

A literatura não substitui o jornalismo. Quem quiser retratar a realidade social deve escrever uma reportagem e não um romance. Esse tipo de afirmação é freqüente em resenhas em que os críticos condenam uma obra literária ou a julgam equivocada. Esse tipo de avaliação pode ser justificado quando um autor quer descrever uma determinada realidade e usa, para essa finalidade, personagens que apenas servem para ilustrar alguma coisa, sem desenvolverem vida própria. Isso de fato pode resultar em algo extremamente tedioso e dispensável. Personagens literários precisam viver, o autor deve criá-los e soltá-los para que caminhem com as próprias pernas e ajam sozinhos, como disse certa vez ironicamente o escritor Omar Saavedra Santis.

Quando um escritor ou uma escritora consegue criar personagens que se comportam de maneira crível e, dessa forma, jogam o foco na realidade social em que vivem, tornando compreensíveis os seus conflitos e sua complexidade, isso pode ser considerado uma grande arte. Só assim a literatura contribui para compreender as realidades por baixo da cortina das interpretações da mídia ou de estruturas preconceituosas pré-estabelecidas. E é isso que Fernano Molica conseguiu fazer com o seu romance Krieg in Mirandão. Claro que existe uma trama – um pequeno grupo de um partido de esquerda tenta estruturar uma base guerrilheira em uma favela no Rio de Janeiro, buscando, para isso, a parceria com os chefes do tráfico local. Essa história é bem contada, e o autor consegue construir habilmente a tensão necessária a este gênero através de pequenas alusões e outras pistas. Mas a verdadeira força do livro reside em dar visibilidade à cisão total da sociedade brasileira, mais concretamente na cidade do Rio de Janeiro.

Há poucos países no mundo em que o sentimento da coletividade é tão exposto e em que a bandeira nacional é tão presente quanto no Brasil. No entanto, deve haver poucos países que sejam de tal maneira desintegrados quanto esta que é a maior nação da América do Sul. As realidades daqueles que participam pelo menos parcialmente das riquezas, as camadas afortunadas, inclusive a classe média relativamente grande, sempre ameaçada de despencar, e a população majoritariamente negra das favelas, parecem ser totalmente incompatíveis. Parece mesmo que os dois Brasis tão diferentes fazem parte de mundos diferentes, de planetas diversos, cujo único ponto em comum é o medo recíproco e a violência onipresente, seja entre os bandos das favelas ou os policiais a serviço dos ricos. Muita coisa inteligente já foi escrita sobre isso, mas em nenhum outro lugar achei descrições mais convincentes do que no romance de Molica, Krieg in Mirandão.

Gert Eisenbürger (tradução: Kristina Michahelles)

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Junge Welt, 4/10/2006, nr. 230 resenha No romance Krieg in Mirandão, Fernando Molica descreve discriminações sociais.

Não foi só a partir das revoluções cubana e sandinista que a América Latina passou a ser considerada um espaço ideal para as fantasias de mudanças sociais radicais. Já em 1929, influenciado pelo fascismo italiano e o comunismo soviético, o jornalista e escritor argentino Roberto Arlt descreveu, no livro Los siete locos, uma conspiração para iniciar uma revolução mundial, começando por Buenos Aires. Sete homens, liderados por um astrólogo, tentam encetar a revolução a partir de uma série de ataques de gás letal. Eles pretendem usar uma cadeia de bordéis para financiar essas armas. Mas o complô acaba sendo descoberto e Erdosain, o protagonista, mata a sua amante primeiro para se suicidar em seguida.

Solo fértil para golpes
No Mirandão é assim também. O desfecho é curto e indolor. Grupos paramilitares e esquadrões da morte invadem uma favela no Rio de Janeiro e assassinam um punhado de conspiradores revolucionários e traficantes de droga. As autoridades escondem as verdadeiras razões da ação noturna e, à imprensa, servem a versão de uma guerra entre bandos de traficantes. Mas o processo que ocorreu nos meses anteriores foi a tentativa de se preparar uma mudança radical nas condições vigentes do Brasil contemporâneo. Ativistas de base e pessoas engajadas na Igreja funcionam como cabeça-de-ponte para instalar um centro comunitário na favela, camuflado em sede de uma ONG. Ali os moradores recebem treinamento ideológico e formação para a luta de guerrilha. Os membros da organização clandestina guevarista Conexão Revolucionário imaginam que a favela (fictícia) do Mirandão, marcada pelo contrastes extremos entre ricos e pobres no Rio de Janeiro, seja o solo fértil ideal para os seus planos revolucionários. Eles se aliam aos chefes do tráfico local a fim de conseguir acesso à favela. Este aceita as ações dos rebeldes porque conta com a ampliação de sua esfera de poder. A aliança com o crime organizado é justificada ideologicamente, com algumas distorções teóricos. Os rebeldes colombianos da FARC parecem servir de exemplo. A própria revolução é financiada com verbas arrecadadas a título de “imposto revolucionário”. Parte do dinheiro é investida em projetos sociais na comunidade esquecida pelos políticos, exceto em épocas de campanha eleitoral. Mas o complô é descoberto porque a taxa de criminalidade cai e chama a atenção. A polícia começa a ficar preocupada e manda o seu pessoal investigar.

Célio é o codinome do jovem protagonista, um revolucionário inflamado que já na unversidade chamava a atenção de seus colegas pelos seus discursos ardentes durante debates. Logo ele mergulha na favela, troca a namorada de um bairro de classe alta do Rio por uma ativista negra e aprende a manusear armas. A transformação de Célio de um estudante de esquerda para um guerrulheiro urbano forma um dos eixos do romance. O outro é Fontoura, um jornalista algo medíocre, que já passou do auge da carreira. Fontoura percebe que algo de incomum está acontecendo na favela e começa a apurar. Mas Fontoura, alter ego do autor, também só compreende metade da verdade. No fim, ele compra a versão da polícia. Nunca houve uma revolução.

O lado sangrento
O livro de estréia de Fernando Molica, nascido em 1961 no Rio de Janeiro, pretende antes de mais nada dar credibilidade à trama. O próprio Molica trabalha como jornalista em uma emissora de TV, e seus personagens poderiam ter nascido a partir de uma reportagem sobre esta favela que não pode ser encontrada em nenhum mapa da cidade. Aqui e ali, Molica salpica informações sociológicas, tentando aproximar o leitor de classe média desse mundo paralelo conhecido apenas das páginas policiais. A favela tem leis próprias, mas, diferentemente do que acontece no bem-sucedido filme Cidade de Deus, rodado com base do livro com o mesmo nome, a violência das favelas não obedece a nenhuma estética de videoclipe de MTV, e sim continua sendo o que é: o cotidiano assustador de cidadãos que, em sua maioria, não estão ligados ao tráfico de drogas,e , ao mesmo tempo, o lado sangrento da economia subterrânea que envolve simultaneamente políticos, policiais, os filhos mimados da classe alta e os chefes do tráfico, descritos de forma nada glamurosa. Molica faz a ação transcorrer como numa colagem, saltando de um capítulo para o outro entre um personagem e outro. A conspiração é revelada pouco a pouco, como num romance policial.

A força documental do romance revela ao mesmo tempo a sua fraqueza literária. Muitas vezes, os personagens parecem figuras estáticas, sem a complexidade humana, funcionando apenas como porta-vozes de determinadas posturas ideológicas. Um pouco mais de densidade épica não teria feito mal ao romance. Assim, ele continua sendo uma fantasia utópica que equivale a uma fotografia em polaróide do Brasil contemporâneo. Aos leitores que não se contentarem com este livro, recomendamos calorosamente esperar a reedição do romance do argentino Roberto Arlt no ano que vem pela editora Suhrkamp.

Timo Berger (tradução: Kristina Michahelles)

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Psychoglobal, 25/10/2006 resenha

Fazia muito tempo que já eu não lia um livro tão fascinante:a CR, uma facção revolucionârias clandestina dentro do Partido Socialista brasileiro, planeja mais uma Revolução. Ela vislumbra o potencial revolucionário das favelas (o povo está em armas novamente) e estabelece o contato com o chefe do tráfico na Favela Mirandão. A idéia é que este arrecade contribuições dos comerciantes das redondezas, as quais seriam investidas em projetos sociais na favela, a fim de angariar a simpatia dos moradores. A sede da CR é um prédio camuflado como centro comunitário. Tudo parece caminhar bem. O problema é que a vida na favela se torna tranqüila demais.

Este romance revolucionário que se passa no Rio de Janeiro vive da nostalgia de um mundo melhor, da possibilidade de uma Revolução, a qual – se for bem planejada – deve necessariamente transcorrer diferentemente do que há cem anos. As estruturas da vida na favela, dos „revolucionários“ das ONGs e dos padres, da máfia do tráfico, da polícia corrupta, tudo isso é muito bem descrito e representado. O fio condutor é dado a partir do personagem de um jornalista que procura uma bo ahitória, pois atualmente já não se ganha mais prêmio no jornalismo com um cadáver na favela. A trama é bastante realista, não por último porque no fim a tentativa de Revolução... mas leiam o livro para saber.

(tradução: Kristina Michahelles)

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The Outfit, 18/01/2007 resenha

Favelas, ONGs, padres de esquerda, estudantes “engajados”, sem esquecer dos obrigatórios chefes do tráfico e seus principais sócios no negócio – em suma, tudo o que a América Latina, ou, para ser mais preciso, o Brasil, e, para ser mais preciso ainda – o Rio de Janeiro – tem a oferecer. Ingredientes de um romance policial que surpreendentemente encontra o seu cenário na realidade. Nada daueles „private eyes“ levemente misóginos e fumdando um cigarro atrás do outro, nada de investigadores resolvendo uebra-cabeças do crime, nada de dramas de relacionamento feministas e psicológicos com alto risco de morte. Em vez disso, a vida em um mundo que o europeu médio, acostumado ao bem-estar, no máximo já viu nos canais de TV Arte ou Phoenix, se tanto. Cruel, duro e sem emocionalismos. Pois há uma guerra no Mirandão, e o “correspondente de guerra Fernando Molica está comprometido com o valor raro da veracidade. Portanto, não passa de um efeito colateral positivo que ele, dessa forma, esteja revitalizando o gênero. Uma revitalização mais do que necessária!

Mario Schwarzl (tradução: Kristina Michahelles)

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Telepolis, 12/12/2006 resenha O jornalista brasileiro Fernando Molica experimenta o levante socialista

Instaurou-se a normalidade no Mirandão, sem aviso prévio. Ali, onde ainda ontem reinava a lei da selva, as pessoas voltam a ter coragem de ir para as ruas. Os tiroteios se tornaram raros, as crianças ganham bolsas de estudo, e em alguns trechos as ruas da famigerada favela carioca recebem uma capa de asfalto. O governo atribui o florescimento das paisagens ao trabalho da polícia, mas na verdade o responsável pelas transformações benfazejas é o projeto de uma ONG engajada cuja sede chamou adequadamente de "Mitanambu" (casa dos amigos).

O jornalista Fontoura, que odeia os seus leitores e preferiria trabalhar para um jornal de surdo-mudos, acha tudo muito estranha, mas mesmo sendo um experimentado repórter local só descobre as relações de causa e efeito quando é tarde demais. A sede da ONG serve como fachada para um grupo de estudantes que escolheram o Mirandão como ponto de partida de um movimento revokucionário. Para dar a força necessária ao seu plano, eles formavam uma facção militante de um partido dos trabalhadores socialista há muito tempo parlamentarisado e buscam se aliar aos chefes do tráfico local. A insólita aliança funciona por algum tempo, mas logo em seguida cada um volta a cuidar dos seus interesses. Mas a guerrilha não fracassa apenas por sua própria insuficiência. Temendo perdas para os seus negócios ilegais, as autoridades policiais locais ajudam bastante.

Thorsten Stegemann (tradução: Kristina Michahelles)

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Webwecker Bielefeld, 01/2007 resenha

Fernando Molica, autor do thriller Krieg in Mirandão (Notícias do Mirandão), nasceu no Rio de Janeiro em 1961 e trabalha como jornalista e correspondente para diversos jornais e uma emissora de TV. Presume-se, pois, que Molica conheça bem o Rio. E diante desse pano de fundo particular não admira que um dos protagonistas da história, ainda que não o principal, seja um jornalista pouco solicitado e irritadiço: Fontoura está à procura de um bom assunto que vá para a primeira página, e ele está atrás de uma história tão insólita quanto perigosa. Uma favela é dominada pelo crime organizado, o tráfico floresce, tudo é resolvido corrompendo-se a polícia. Apesar do engajamento de padres e de ONGs, ninguém escapa à falta de perspectiva da situação. Eis que um grupo de estudantes de esquerda radical desenvolve um plano e escolhe exatamente este lugar para iniciar uma revolução social. A vanguarda revolucionária não recua nem mesmo diante de uma aliança utilitária com o principal traficante, Marra, para instituir um “imposto revolucionário” no lugar do velho “pedágio” cobrado pelo tráfico. Para o chefe do tráfico, tanto faz quem de onde vem a ajuda, desde que possa aumentar o seu pequeno império e a sua esfera de poder. Mas algumas coisas evoluem diferentemente do que o planejado pois ainda há outras pessoas nas alavancas do poder. Um thriller que força as fronteiras entre moral e corrupção, entre ousadia pessoal, envolvimento político, sonhos e lucro, poder e ganância de poder – infelizmente, nada de inimaginável, e sim muito realista.

(tradução: Kristina Michahelles)

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Taxi Magazin, nr. 41, outubro/novembro 2006 resenha

A mistura entre comunidades pobres, ONGs, Teologia da Libertação, estudantes, criminosos e a polícia resulta em um extraordinário thriller político. É a história de pessoas que tentam transformar os seus sonhos em realidade. Em uma favela no Rio de Janeiro, um grupo de estudantes se alia aos traficantes de drogas. A insólita aliança é intermediada por um padre católico que vislumbra no cristianismo a idéia de solidariedade e justiça social. Mesmo com cada um cuidando dos seus negócios, a taxa de criminalidade cai para zero. Isto contraria os interesses da polícia. Portanto, é preciso chamar agentes provocadores para restabelecer a situação original de violência. Essa aventura absurda, mas muitas vezes muito próxima da realidade, é investigada por um jornalista esperto.

Milna Nicolay (tradução: Kristina Michahelles)

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