Cavalo

A 30 quilômetros dali, em um conjugado no Flamengo, os exageros retóricos de Maromba se metamorfoseavam em superdoses de esperança para Célio. De cuecas, andando de um lado para outro, ele lia em voz alta os principais trechos da entrevista. — “Não sei por quanto tempo o povo sofrido das comunidades vai suportar tanta opressão. Os próximos quinhentos anos serão outros quinhentos. E não vamos precisar esperar tanto tempo... Quem sabe tudo não se resolve em cinco anos, quem sabe, em cinco meses?” Cinco meses. Cinco meses, ouviu, Drica? O cara está falando em cinco meses. É pra já. Ouve só este outro trecho: “As armas, o povo já tem. Falta a consciência deste poder. Isto, aos poucos, se conquista.” Ouviu, Drica, ouviu? Drica, Adriana, ouvira, claro. A revolução estava ali na esquina. — Desta vez vai — ele disse. — Vai, vai todo mundo se foder — ela completou. Drica desconhecia a participação de Célio — Ricardo, para ela — no processo revolucionário tecido pela CR. Mas sabia da militância do namorado no POS, uma atividade que, na sua avaliação, já extrapolava o limite do razoável — achara um absurdo ele trancar matrícula na faculdade de Economia para poder dedicar- se um pouco mais ao partido.

Cabelos pretos encaracolados que chegavam até o meio das costas, lábios finos; tinha os olhos castanhos protegidos pela armação preta dos óculos que corrigiam a miopia — seu olhar era delimitado por dois pequenos retângulos, ao mesmo tempo pesados e harmônicos. Molduras que freqüentemente realçavam olhos indignados, quase acusadores. “Cara, você não pode abandonar os estudos. Até pra que você possa ter mais embasamento pra defender suas propostas. É contraditório: você defende escola para todos e abandona um curso universitário em faculdade pública. Não faz sentido.”

Estudante de Arquitetura, 19 anos, conhecera Célio havia seis meses, durante uma campanha para a eleição de delegados ao congresso da União Nacional dos Estudantes. Ele entrara em sua sala para fazer campanha — ela aproveitara o tempo da falação para fazer algumas anotações, não estava muito interessada em política estudantil. Horas depois o encontrara em um dos bares do campus, bebendo com um colega de turma.

Na conversa, acabaram descobrindo uma série de diferenças na maneira de encarar o mundo. Ela o achou radical; ele a classificou de uma dessas tijucanas classe média que se utilizam de um arremedo de crítica social para justificar o próprio imobilismo. Aquela velha história: o país é uma merda mesmo, isto não muda. Claro, temos que tentar construir uma sociedade melhor, mas não podemos nos descuidar de nossas carreiras. A arquitetura tem uma função social importante.

Célio não tirou os olhos dos seios de Adriana, pode me chamar de Drica. Discordava de quase tudo o que ela dizia, mas op- tou por investir nos pontos em comum — até porque a arquitetura tem mesmo uma função social, e, claro, aquela orelhinha furada deveria ser uma delícia. Drica também apostou no que os unia. Acabaram namorando, o que não impedia que as divergências aflorassem aqui e ali.

“Você não deixa de ser cética, né? Está claro, tudo muito claro. As condições, hoje, são muito diferentes. Temos o que não se tinha em 70: povo desencantado, de saco cheio, lideranças autenticamente populares — a Revolução, agora, vai partir de Irajá, não de Ipanema. E quem está falando isto não sou eu, é um cara da base, nascido na favela. O povo é que vai ser o protagonista. E, fundamental, teremos — teremos, não, eles terão — armas, muitas armas. Armas pra caralho. AR-15, Sig, AK-47, pistolas, granadas, bazucas. Bazucas, Drica! Drica...”

Drica dormira. Pegara no sono entre Irajá e o AK-47. Célio ficaria acordado por mais algumas horas. Não dava para dormir com a cabeça assim, tão cheia de sonhos, ainda mais agora, depois de ler a entrevista daquele que, segundo a companheira Joana, poderia vir a ser o elemento-chave de todo o processo. O cara era realmente bom, levantava questões corretas, era corajoso — e, fundamental, tinha esperança.

A ansiedade de Célio transbordava, parecia não caber no cérebro, nem mesmo em todo o seu corpo. Sentia-se uma espécie de cavalo de terreiro de umbanda, aquele que recebe a entidade, que empresta seu corpo a um espírito que precisa dele para manifestar- se. Célio era cavalo de uma causa ainda mais nobre, era como se recebesse espíritos de muita gente, espíritos que vagavam desde o início da história da humanidade, gente que, em vida, se comprometera com causas libertárias e que acabara condenada, torturada, morta.

Sentia-se também incorporado por aqueles que, embora não tivessem lutado, haviam sofrido, passado fome; tinham sido humilhados, espezinhados. Cavalo também de gente viva, que se arrastava pelo mundo — sem-terra, sem-casa, sem-comida, semescola, sem-hospital, sem-dignidade, sem-esperança. Havia uma dívida a ser paga, e ele, Ricardo, na pele de Célio, ajudaria nesse trabalho. Célio é um cavalo, um personagem que tem seu corpo, seu rosto, sua voz e, mesmo, suas idéias. Um personagem real, necessário para viabilizar aquela mudança. Era preciso que Célio vencesse para que Ricardo pudesse enfim viver. Viver de uma maneira digna, honrada, sem sentir culpa por desfrutar de direitos que, na prática, eram privilégios em uma sociedade tão desigual. Culpa por comer todos os dias, por estudar, por conseguir algum dinheiro como tradutor, por ter acesso a livros e a filmes, por ter prazer, por namorar Drica.

Sentia-se mal ao entrar em um restaurante e procurar uma mesa que não estivesse próxima à calçada, uma tentativa de livrar- se dos meninos que se enfiavam por cima da cerca para pedir um pouco da comida que parecia sobrar nas travessas. “O Brasil é tão fodido que até quem mora no Engenho de Dentro e tem grana para comer galeto no Méier é um privilegiado”, dizia. Um amigo da faculdade de História já o apelidara de “Chiquinho”, referência aos integrantes da Ordem Franciscana, pregadores da fraternidade, da pobreza, da humildade. De uma certa forma, via-se como Francisco de Assis: abria mão do conforto, de sua segurança; despia-se de seu nome, de sua identidade, para lutar por um mundo melhor.

Volta e meia lembrava-se do apelido, da confusa relação que estabelecera com a tradição católica da família. Das discussões que travara ao longo de sua adolescência: devemos dar esmolas? Será que o gesto, abençoado, não contribui apenas para manter into- cadas a exploração e a dependência? Mais ainda: devemos ser fiéis apenas para garantir graças terrenas e um futuro lugar no céu? Isto não é meio fisiológico? Deus nos deu livre-arbítrio apenas para abrirmos mão desta capacidade e simplesmente obedecer cegamente ao papa? E a noção de pecado? Pecar é trepar fora do casamento ou ganhar dinheiro à custa do sofrimento alheio?

Tudo isto ofende a Deus, respondeu-lhe um frade dominicano, líder de um grupo de jovens que ele freqüentara por dois anos. A resposta soou hipócrita, indefinida. Ajudou na sua decisão de aproximar- se de uma organização clandestina. Talvez fosse esta a sua cruz, sua missão. Talvez assim chegasse a uma síntese entre céu e terra, a uma solução entre culpa e prazer.