Choro

Em quase sete anos de casamento, Nazareth jamais presenciara uma cena como aquela. Seu marido, Antonio, um bem-sucedido advogado e funcionário público de 33 anos, chora deitado sobre seu colo. Era a primeira vez que via aquele homem austero e tão seguro de si deixar-se vencer por algum tipo de contrariedade. Naquela manhã de outubro de 1964, na casa da rua Pirajá, no bairro de Ipanema, em Porto Alegre, Antonio, em lágrimas, parecia admitir que, pela primeira vez, fora derrotado. Como no samba-canção composto por Maysa, caíra o mundo daquele advogado especializado em direito comercial, congregado mariano, militante do Partido Democrata Cristão, o PDC. A sentença que definia a queda estava ali, sete linhas em forma de decreto publicadas no canto inferior direito da página 6 da edição de 8 de outubro de 1964 do Diário Oficial do Rio Grande do Sul:

O governador do Estado do Rio Grande do Sul, no uso de suas atribuições e tendo em vista o que consta no processo GG/12.001/64, resolve demitir o Assessor Técnico do Tribunal de Contas, à disposição da Junta Comercial, bacharel Antonio Expedito Carvalho Perera, como incurso em sanção prevista no artigo 7º, § 1º, do Ato Institucional, de 9.4.1964, regulamentado pelo Decreto nº 53.897, de 27.4.1964, e de acordo com a Resolução nº 140 da Comissão Estadual de Investigação. Palácio Piratini, em Porto Alegre, 8 de outubro de 1964. Ildo Meneghetti Governador do Estado

Naquele momento, Perera via-se acuado, sem alternativas. Em abril de 1964 jogara uma cartada decisiva, um jogo quase que marcado, de vencedor praticamente definido — ele. Em um só lance conseguiria vingar-se de ex-companheiros e alcançar uma posição ainda superior àquela que, em tão pouco tempo, conseguira chegar. Não haveria como errar. Mas ele subestimara seus adversários, confiara demais em sua capacidade de definir o resultado de uma disputa. Errara na dose. Em prantos, agarrado à mulher, ele a ouvia dizer o que já sabia:

— Você errou, Antonio. Você não podia ter feito o que fez. O decreto que demitiu Antonio Expedito Carvalho Perera era mais um das centenas assinados pelo governador, a partir de abril de 1964, com base no Ato Institucional baixado pelo governo militar que tomara o poder a partir da deposição do presidente João Goulart. Durante meses, os cidadãos gaúchos — em um processo que se repetia no nível federal e nas outras unidades da federação — acostumaram-se a ver publicados no Diário Oficial os nomes dos indesejados pela nova ordem. Uma lista ampla, nela cabiam comunistas e simpatizantes de outros partidos de esquerda, corruptos ou suspeitos de atos de improbidade administrativa e até simples adversários de quem acabara de assumir o poder. Independentemente do instrumento encontrado para definir a punição — demissões, aposentadorias compulsórias —, vulgarizou- se a utilização do verbo cassar, que de início definia a retirada de mandatos obtidos pela via eleitoral. Cinco páginas e meia da edição em que foi anunciada a demissão de Perera foram ocupadas pela publicação de medidas semelhantes. Alguns decretos justificavam as demissões ou aposentadorias compulsórias pelo fato de o funcionário “ter tentado contra o regime democrático”. O ímpeto moralizante do novo governo definiu os cassados em dois subconjuntos, formados por “subversivos” e por “corruptos”. O bacharel Antonio Expedito Carvalho Perera, funcionário público concursado, ficaria entre estes últimos. Sua cassação se dera ao fim de uma investigação sumária destinada a apurar irregularidade supostamente cometida no exercício da função de assessor jurídico da Junta Comercial. Ele fora acusado de ter falsificado a cópia de uma ata da assembléia dos cotistas da empresa Lojas Video Ltda. ocorrida no dia 8 de março de 1963. A cópia da ata arquivada na Junta Comercial era diferente da que fora publicada no Diário Oficial. Perera, além de cotista da empresa, era seu procurador e atuou como secretário da tal assembléia.

O escândalo da suposta falsificação da ata foi tema de debates na Câmara Municipal, chegou às páginas de jornais como o Correio do Povo.¹ O governo gaúcho determinou a investigação do caso. Em 30 de setembro de 1964, Perera encaminhou sua defesa à Comissão Estadual de Investigação, CEI: 31 páginas com sua argumentação e mais 136 com o que chamou de “provas documentais”, um histórico de sua atuação como funcionário público e como líder político, cópias de artigos publicados em jornais gaúchos e de documentos das Lojas Video Ltda.² Argumentou ser vítima de perseguição de origem política e afirmou que a suposta falsificação não passara de um equívoco burocrático: faltava uma página na cópia da ata enviada para a Junta. Mas, seis dias depois, a CEI divulgaria sua Resolução nº 140: Perera foi considerado culpado e sua demissão, sugerida ao governador do Estado. ³

A derrota e a humilhação seriam determinantes para traçar os caminhos que, a partir dali, iria percorrer. Antonio faria da tragédia um ponto de partida para aventuras que o levariam a situações inimagináveis. Sua trajetória iria marcar e surpreender aqueles com quem convivera em Porto Alegre. De um jeito ou de outro, aos tropeços, ele construiria uma história original, feita de sucessivas negações e afirmações, em que o passo anterior em nada indicaria o seguinte. Em todos os momentos, conservaria marcas essenciais de sua personalidade: a capacidade de sedução, a vaidade, a busca por um lugar de destaque.

Sua ascensão por um caminho conservador tinha sido travada por um erro de cálculo, avaliara mal o seu cacife, suas cartas eram muito inferiores ao blefe que anunciara. Nas rodadas seguintes, que se estenderiam por mais de três décadas, ele mostraria que aprendera uma parte da lição. Cometeria novos erros, mas não voltaria a perder todas as fichas. O jogo tinha que continuar. Atacar pela direita ou pela esquerda era apenas uma decisão tática, um detalhe em direção ao objetivo maior, a vitória. Ele se revelaria um jogador incansável e, como se passaria a dizer anos depois, polivalente.

¹ Correio do Povo, 21 e 22/5/1964.
² Processo arquivado no Arquivo Público do Rio Grande do Sul
³ Processo arquivado no Arquivo Público do Rio Grande do Sul.