Pode parecer engraçado, mas, naquela época, repórter não precisava escrever. Sério. O João Carniça era um que não conseguia juntar duas palavras. Mas apurava pacas, era complicado correr com ele, muito garoto novo penou, tomou furo do João. Ele, coitado, nem tentava escrever. Só que começou a chegar nas redações uma molecada de faculdade, uns cabeludos de livro debaixo do braço, de bolsa de couro, e, principalmente, umas menininhas de calças jeans, de camiseta, sem sutiã, umas gracinhas. Todos sabiam escrever, iam pra máquina e disparavam, igual a metralhadora. E o João ficava cabreiro, meio envergonhado com aquela história de chegar da rua e ir direto até a mesa do seu redator, é, havia um redator que cuidava dele, um personal writer: não era todo mundo que conseguia transformar em matéria a apuração dele, aquelas anotações complicadas, rabiscadas num bloco seboso, meio nojento. Mas o João chegava, ia pra frente do redator e começava a contar a história. Engraçadíssimo, tinha gente que parava de trabalhar só pra ver. O João quase se perfilava diante do cara, punha os óculos de leitura, dava uma lambida no indicador, virava uma página do bloco e começava a recitar. Ele tinha uma voz forte, assim meio de barítono; não ditava, declamava a ocorrência. O começo era quase sempre o mesmo: “Uma viatura comandada pelo sargento Fulano de Tal, da Polícia Militar...” Ou então: “Como decorrência” — ele adorava o “como decorrência” — “das investigações conduzidas pelo delegado Melquíades Peixoto, do 25º Distrito, a polícia logrou êxito ao prender o marginal Carlinhos do Cabuçu, que desde ontem deixou de se constituir em um perigo para a sociedade.” O tal do delegado Peixoto era compadre do João, estava sempre naqueles ditados que ele fazia para o redator. O sujeito ficava ali, ouvindo a lengalenga, e ia transformando aquilo em matéria, em texto publicável. Mas o João foi se chateando, se sentindo meio humilhado, era um dos poucos que não escreviam matéria. Ficava assim meio triste quando via aquelas mocinhas bonitas, novinhas, redigindo o próprio texto. E pediu pra começar a escrever. Conversou com o redator, tomou algumas lições, faça isso, aquilo, evite os adjetivos, não precisa dar sempre o nome do delegado, do sargento, do soldado, cuidado com as acusações. E, claro, não repita palavras, isso empobrece o texto, cansa o leitor. O João ouvia, anotava, arrumava aquelas coisas todas na cabeça. Ficou impressionado com aquela história de não repetir palavras: “Ah, é assim, é?” E num belo dia foi fazer uma matéria sobre o assassinato de um pescador, o cara, sei lá, morava em Niterói, parece que tinha sido esfaqueado pela mulher, um negócio desses. Tinha bebido demais, o de sempre. Como diria o João, consta que — ele também gostava muito do “consta que” — a dona Maria, a mulher do pescador, estava meio puta naquele dia, cansada de trabalhar, de cuidar das crianças, de aturar ordem de marido bêbado. O sujeito chegou em casa tarde, trocando perna, falando enrolado, com aquela penca de peixe fedorento nas mãos, mandando a mulher ir pra cozinha cuidar do jantar. E, ainda por cima, ameaçando encher a coitada de porrada. Foi o limite. Baixou um caboclo nela, que perdeu a paciência, pegou um facão e, vupt!, abriu um rasgo deste tamanho na barriga do velho homem do mar. O João Carniça foi lá, enrolou os policiais, conseguiu conversar com a mulher, falou com os filhos, apurou tudo, todos os detalhes. Chegou na redação orgulhoso, nariz meio empinado. Aproveitou que era um plantão, tinha menos gente trabalhando, o seu redator estava de folga. Resolveu escrever o texto. E ia pensando, nada de enfileirar nomes de policiais, nada de adjetivos e, principalmente, nada de repetir palavras. Sentou-se diante da máquina e taquitiquicati, pá-pápá, tuc-tuc-tuc, pow, pow. Saiu catando milho, dando porrada na Remington. O cara chegava a suar, coitado, de tão nervoso. Sabia que a redação estava de olho nele, todo mundo dava um jeito de levantar, ir no café, passar por ali pra ver como o João se virava naquele trabalho de parto. Depois de quase duas horas, ele tirou a última lauda da máquina e se levantou. A lata do lixo estava cheia de laudas amassadas, rasgadas. Mas ele, coitado, sorria orgulhoso, aquele sorrisão bonito, que mostrava o canino de ouro. Foi então ao editor, acho que era o Magalhães, e entregou as duas laudas, dobradinhas. “Taí, chefe, é só dar uma lida e mandar pra oficina.” E o Magalhães, tenho quase certeza que era ele, começou a ler. O lide, o início da matéria, estava até correto, o problema foi na hora em que ele descreveu o momento do crime, a porra da preocupação de não repetir as palavras. Ficou mais ou menos assim: “O pescador entrou na cozinha com os peixes nas mãos e disse para a esposa: — Mulher, frite os mesmos!” Pra não repetir a palavra peixes, o João Carniça disse que o pescador tinha mandado a mulher fritar “os mesmos”! O Magalhães ficou vermelho, começou a rir, tentava segurar o riso e não conseguia, não queria humilhar o João, todo mundo gostava muito dele, mas não deu, o sujeito foi ficando sufocado de tanto prender o riso. “Frite os mesmos!” A lauda circulou de mão em mão, bateu todos os recordes internos de leitura. Claro que aquele absurdo não foi publicado, um redator deu um jeito. Mas a história ficou, né? Pior é que, no dia seguinte, o dono do boteco que fica ali embaixo do jornal colocou no cardápio do almoço, naquele quadro-negro, bem na entrada do bar: “Prato do dia: Mesmos fritos com feijão, arroz e salada.” Todo mundo comeu peixe naquele dia, uma sacanagem. Neguinho ria e comia, ria e comia. Coitado do João.

Ricardo deixa escapar um sorriso ao recordar a história do João Carniça, que lhe foi contada, recontada, dias antes na varanda do apartamento do Luiz. Frite os mesmos... Antes lembrara de outro caso, mais um episódio protagonizado pelo João Carniça. Um fato também relacionado a uma cobertura policial, a um crime sangrento. Um episódio que, pelo cômico, pelo inusitado, se impusera ali, diante da tragédia, do corpo ensacado, jogado naquele canto escuro da praia. Não havia como Ricardo sair dali, abandonar o local do crime que lhe cabia naquela noite. Bem que tentara não ir, insistiu para derrubar a pauta. “Este tipo de crime, violento assim, é coisa de bandido que mata bandido, uma vingança. Vai que a mulher deu um banho em algum traficante, pegou as drogas, vendeu, cheirou, e não pagou. Os caras, você sabe, não perdoam, passam a régua. No caso, passaram a faca, o serrote, picotaram a mulher. Briga de bandido, pra que correr pra isso?” Os argumentos — equivocados, agora admitia — foram em vão. Tivera que ir, testemunhar a barbárie, contaria aquela história no jornal. Pior, recebera ordens para ficar até que o corpo fosse removido. Passaria a madrugada enevoada, esquisita, fria demais para um fim de setembro, diante daqueles pedaços de corpo jogados dentro de um saco preto. A bruma diminuía o tamanho do céu, como se apertasse uma tela na vertical. Os prédios da orla pareciam desfocados, mais distantes, quase abstratos. A pouca distância, o efeito se diluía, mas não desaparecia de todo — havia uma névoa que, brigando com a iluminação de um poste alto, estabelecia limites para aquele espaço, uma espécie de palco difuso, mal-iluminado. Em um canto, uma luz amarela se impunha, revelava a pedra, o calçamento; no outro, escuro, emergia o corpo, pedaços de corpo envolvidos no saco plástico. Cena que o fizera lembrar de Carniça, de sua relação mais fria e amistosa com as tragédias. De alguma forma, Ricardo gostaria de, naquele momento, poder ser um pouco como ele.

Tinha havido um crime, um assassinato de uma família, uma história boa, vítimas de classe média, moradores de Copacabana, um luxo para a época. Era um daqueles dias em que o jornal fugiria da lógica PPP que caracterizava suas manchetes sangrentas. PPP — Presunto, Preto e Pobre. Haveria presuntos, três presuntos!, mas presuntos brancos, ricos, grã-finos. Nada de crioulo sem dentes encontrado no meio do mato. Crime bom, alto nível. E lá se fora o João Carniça. Tinha nascido o terceiro filho dele, o cara trabalhava que nem um cachorro. De manhã ia pra repartição, um deputado tinha arrumado um bico pra ele, estava começando aquele negócio de todo mundo ter assessor de imprensa, acabou sobrando uma vaga pro João, que passava uma parte da manhã atendendo telefone: “Secretaria Es-ta-du-al de Obras, bom-dia!” Depois, ia pro jornal, naquela época era normal acumular emprego público com emprego em jornal. Ele saía da redação umas nove, dez da noite e ainda passava pela rádio, ficava até uma da manhã na escuta. Trabalhava muito. E, claro, vivia com sono. Dormia no carro de reportagem, dormia na repartição, dormia onde dava. Naquele dia ele foi o primeiro repórter a chegar na cena do crime. Falou com os policiais, vai ver que o delegado Peixoto estava por lá..., conversou com um, com outro, e conseguiu autorização pra subir no apartamento antes da perícia. Uma, duas horas depois, chegaram os peritos. Os caras subiram, fotografaram, mediram — crime de rico, tinham que fazer a perícia direito. Ficaram lá um tempão. Quando desceram, falaram com o delegado: “Já fizemos tudo o que tinha pra fazer, pode liberar o local, recolher os quatro corpos.” “Quatro corpos, como assim?”, o delegado arregalou os olhos. “Os quatro corpos”, respondeu o perito. “Os três que estão no quarto e o outro, daquele mulato, lá na sala.” “Mas não tem corpo nenhum na sala”, o delegado insistia. “Como não tem? Está lá, de barriga pra cima, deitado no sofá.” O corpo, claro, só então a ficha do delegado caiu, era do João Carniça. O coitado, morto de cansaço, certamente não resistiu e dormiu no sofá macio daquela casa de gente rica.

Mas talvez nem mesmo João Carniça conseguisse pegar no sono ou provocar, ainda que involuntariamente, alguma graça neste outro cenário: o que abrigava o corpo largado dentro de um saco de lixo, junto à pedra que circunda as praias do Arpoador e do Diabo. Filetes de sangue escorriam para o calçamento de pedras portuguesas. A mulher tinha sido esquartejada: segundo o PM, só havia ali a parte inferior do corpo. O viúvo, aquele, sentado no banco, de cabeça baixa, fez a identificação pelas roupas, reconheceu um sinal na perna direita. Chegou, olhou o corpo, disse que era ela mesmo. Depois foi praquele banco, telefonou pra filha, pro cunhado, não deu pra ouvir direito. E tá ali sentado faz mais de uma hora, parece um fantasma no meio da bruma. Que coisa, que coisa terrível. Não, ninguém viu nada. A nossa cabine ali tava vazia, sabe como é que é, com esses ataques todos, o comando determinou que a gente não ficasse parado, dando mole lá dentro. O assassino devia saber disso, senão não ia trazer o corpo pra cá. Nós perguntamos pros porteiros, pro pipoqueiro, pros pescadores, pro cara que cuida dos banheiros do posto de salvamento, pros rapazes dos quiosques, pro segurança que tá de plantão na cancela no início da rua. Ninguém viu nada. Se viu, não notou nada de estranho. Aqui passa muita gente carregando saco, pacote, embrulho. Tem os caras dos quiosques, tem esses camelôs, tem farofeiro, maconheiro, tem de tudo. Alguém deve ter notado, é impossível não ver um ou dois sujeitos carregando um pedaço de corpo, desovando um corpo aqui no Arpoador, na beira da praia. Ou não prestaram atenção ou então estão com medo de falar. O que é bem possível. Um sujeito que retalha uma mulher é capaz de fazer qualquer coisa. Imagina se ele pega um paraíba desses, um porteiro. Também, sei lá: o cara pode ter vindo andando pela praia mas pode ter chegado por Copacabana, entrado aqui pelo portão do Parque. A gente não sabe a que horas o corpo foi deixado, pode ser que o Parque ainda estivesse aberto. Essa névoa também atrapalha, aqui já é meio escuro... Vamos ficar aqui, não podemos deixar o corpo sozinho, o jeito é esperar a perícia. O delegado da 13 veio aqui, olhou, foi embora, disse que era aniversário da mulher dele, que tinha que sair logo, que ia pedir urgência na perícia, que ia mandar um inspetor pra cá. Até agora, nada de perícia, de inspetor. Só a gente mesmo, só a PM. A gente, o viúvo, e vocês, repórteres. E, por favor, fala lá com seu fotógrafo pra não mostrar a cara da gente. Não quero minha foto em jornal, moro num lugar meio perigoso...

Ricardo precisava de um João Carniça ali, do seu lado, de alguém para lhe contar novas histórias, para fazê-lo rir, para, de alguma forma, tirá-lo dali. Pimenta fora para o carro, ia tentar dormir, procurar esquecer aquela merda. Mas Ricardo ficaria acordado, não conseguiria pegar no sono ao lado do corpo, do viúvo. Precisava lembrar de outros casos que envolvessem jornalistas e tragédias, erros constrangedores cometidos por repórteres, episódios engraçados, folclorizados pela categoria. Uma história, uma história, mais uma, uma só que fosse. Era necessário, urgente. Principalmente agora, quando o peso daquela brutalidade parecia se diluir na madrugada. O sargento volta e meia bocejava, recostado no carro da PM. Aquele mesmo sargento — Oliveira, acho — que se disse chocado com a crueza do crime, e olha que a gente tá acostumado com essas coisas. O soldado que o acompanhava dormia no banco do carona. A madrugada, caceta, não parecia que ia fazer tanto frio hoje, fingia tranqüilidade, a névoa era como um grande cobertor que, ao diminuir o tamanho dos espaços, parecia absorver um pouco da movimentação da cidade. Ainda mais ali, no início do Arpoador, nem os carros dos moradores chegavam até aquele ponto em que não havia mais prédios, apenas uma espécie de largo, uma pequena esplanada que unia as duas praias. Algumas pessoas — domésticas que deixavam o trabalho, um ou outro rapaz e seu cachorro, os garis que encontraram o corpo — chegaram a parar em torno do canto escuro, daquele pedaço de palco que não recebia nem a luz amarelada nem a esbranquiçada, esta, projetada pelos postes menores. O saco preto com o corpo, com os pedaços do corpo, fora colocado na base da parede de pedra que vinha do Parque Garota de Ipanema, um prosseguimento natural da cerca. Alguns até chegaram às janelas para acompanhar a movimentação dos repórteres e policiais que percorreram a Francisco Bhering em busca de testemunhas. Mas o receio de serem chamados a depor, a dar entrevista, fazia com que logo depois voltassem a se fechar em seus apartamentos. Em alguns casos deu para ouvir o barulho das janelas sendo puxadas com força, vítimas de um golpe certeiro, agudo, capaz de isolar aquela realidade que teimava invadir a madrugada de quarta-feira. Ninguém ofereceu uma água, um café, uma conversa. Nem os porteiros chegaram perto, poderiam ser advertidos caso deixassem seus prédios. Crime bom era no subúrbio, Carniça tinha razão. Lá os repórteres ganhavam água, café, e mesmo bolo dos vizinhos. Moradores que convidavam para entrar, deixavam telefonar para o jornal. Isso, claro, em outros tempos, época em que do subúrbio ainda exalava um ar de calma, em que os vizinhos de um crime podiam ir para a rua, acompanhar o trabalho da reportagem, dar detalhes sobre a vítima, palpitar sobre a causa do homicídio, fazer fofoca, verbalizar suspeitas, insinuar motivos para o crime. Aqui, no Arpoador, não tinha água, café, bolo, mas dava, pelo menos, para passar a madrugada ao lado do corpo, dos pedaços do corpo. Se fosse no subúrbio, na Baixada, já teria voltado para a redação, talvez nem tivesse ido ao local, não valia a pena arriscar a vida por tão pouco, mesmo de carro blindado era perigoso circular por certas áreas da cidade de madrugada. A necessidade de evitar o perigo retirava dos pobres o direito de, ao menos na hora da morte, receber algum tipo de cobertura dos jornais. Os crimes ocorridos na madrugada em áreas de risco — um conceito genérico cujos limites eram ampliados a cada semana — ocupavam cada vez menos espaço nos jornais, as informações eram aquelas apuradas por telefone com a polícia. Pobres, mesmo mortos, eram cada vez mais ausentes das páginas.