Em Uma selfie com Lenin, acompanhamos a trajetória conflitante de um jornalista que vê seus ideais de juventude serem corroídos pelo galopante avanço de uma estrutura política baseada na corrupção. Diante da ruína de suas convicções, o personagem narra com humor, e certa dose de melancolia, sua trajetória profissional e os rumos que trilhou. O romance, escrito em formato de carta redigida durante um voo internacional, ambiciona realizar o balanço de toda uma vida. Ao escolher este formato, o autor lança mão da estrutura de uma correspondência íntima, próxima da confissão, que leva o leitor a aproximar-se das contradições do personagem. Afinal, o romance trata de um acerto de contas, da necessidade de narrar e dar sentido a decisões e escolhas dos caminhos previamente percorridos pelo narrador. O destinatário é o próprio leitor, que recebe em mãos uma narrativa que refaz o retrato do Brasil entre fins do século XX e início do XXI. Uma selfie com Lenin oferece, a começar pelo título, um exame das muitas transformações, e contradições, que marcam o mundo contemporâneo. A selfie, índice máximo do individualismo promovido pelas novas redes sociais, é aqui realizada pelo narrador desiludido, buscando registrar seu encontro com um monumento em homenagem a um dos símbolos da busca por uma sociedade mais igualitária, Lenin. É com este olhar irônico que Fernando Molica, autor do impactante romance Notícias do Mirandão, entre outros, constrói uma narrativa ficcional que descreve o vertiginoso declínio de determinados ideários políticos e a ausência de novas alternativas.

Paulo Roberto Tonani do Patrocínio