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Uma selfie com Lenin

Uma selfie com Lenin

 

separador Editora Record • 2016 • ISBN 978-85-01-10702-2 • Capa tipo Brochura • 112 páginas
BG

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O Estado de Minas, 19/09/2017

Brasil, o personagem de Fernando Molica

Uma selfie com Lenin, livro que Fernando Molica vai discutir com o público hoje à noite, no projeto Sempre um papo, dialoga com os impasses do Brasil contemporâneo, mergulhado em profunda crise.
Jornalista - assim como o autor -, o protagonista do romance deixa o emprego de assessor de políticos. Dentro do avião rumo à Europa, ele escreve uma carta para a ex-namorada revelando sua frustração diante não só da engrenagem do poder, mas em relação à impotência de sua geração - e da própria esquerda - em virar o jogo. Faz o mea-culpa sobre o próprio comportamento que adotou.
O cenário não poderia ser mais propício: o Brasil de 2013/2014, época em que gigantescas manifestações ocuparam as ruas para reivindicar ética na política. A radicalização e a intolerância em que o país mergulhou servem de pano de fundo para a trama, além da reflexão do personagem a respeito de sua própria vida.
Molica, de 56 anos, que trabalhou em vários jornais do eixo Rio-São Paulo, explicou que seu romance não é sobre a política e a crise em si, mas sobre o impacto do atual momento histórico na vida das pessoas.
Para o jornalista, o cidadão se vê diante de impasses maiores do que aqueles experimentados durante o atentado do Riocentro, em 1981, e as eleições presidenciais disputadas por Lula e Fernando Collor, em 1989. Marcado pelo ódio, o enredo atual do país - em que se mesclam corrupção generalizada, Operação Lava-Jato, a postura do juiz Sergio Moro e o oportunismo dos políticos - é sufocante. Pior: põe em xeque a democracia.
Lançado em 2016, Uma selfie com Lenin foi definido por Antônio Torres, nome de destaque da literatura brasileira, como "curto romance em número de páginas, mas longo em significados, no qual as atualidades políticas, existenciais e 'lavajatórias' nele se colam com malícia, ambição, sedução, grana, num texto cheio de ginga, bem carioca."
Molica é também autor de Notícias do Mirandão (2002); O homem que morreu três vezes (2003); Bandeira negra, amor (2005); O ponto de partida (2008); e O inventário de Júlio Reis (2012).

 


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Rascunho, 02/04/2017

Jogo Sujo

Como sugere o título, Uma selfie com Lenin, de Fernando Molica, é o instantâneo de uma história individual contra o pano de fundo do contexto histórico mundial. Ao passar em revista os últimos anos de sua vida, o protagonista constrói pontes entre o seu caos pessoal e a crise global, fazendo um balanço do seu tempo, um acerto de contas com ideologias e paixões deixadas para trás, em busca de um retorno ou recomeço.
 
Na superfície, o romance é uma longa carta à ex-namorada e ex-chefe, Eloísa, com a qual o protagonista trabalhara como assessor de políticos. Redigida no avião, durante um voo pela Europa, a missiva é a tentativa literal de ver as coisas de cima e traçar um mapa dos desencontros amorosos e profissionais vividos em um passado não muito distante. E faz, de rebarba, uma análise contundente e mordaz dos assim chamados “bastidores do poder” e das inquietações políticas dos últimos anos no Brasil e no mundo.
 
Olhando mais a fundo, o texto é uma crítica incisiva à manipulação de informações pelas mídias modernas. Movimentando-se com presteza estilística e embasamento histórico entre as linguagens jornalística e ficcional, Molica nos mostra o quanto somos manipuláveis. E que é exatamente desta falta de escrúpulos da qual se aproveitam tanto os assessores de políticos como os meios de comunicação em geral. Por exemplo, o cinema e a televisão, como ilustra no final do livro. As últimas lembranças são contadas em forma de um filme imaginário, numa narrativa com cortes rápidos como numa cena de perseguição, revelando exatamente a instrumentalização da nossa empatia: Torcemos pelo ladrão porque ele nos é simpático, mas também porque o furtado é um cafajeste ainda maior.
 
Arrumadeiras de motel
 
Sem perder o humor, o protagonista nos conta sobre sua frustração de ter deixado o trabalho na redação de um jornal para, por meio de Eloísa, se deixar seduzir pelas sinuosas perspectivas da assessoria política, mesmo sabendo que a maioria de seus clientes teria reputações mais do que duvidosas. O relato é denúncia e autodenúncia, a confissão de alguém que se reconhece culpado por conivência.
 
E não deixa de ser engraçado quando falo neles, nos nossos clientes, como se eu e você não tivéssemos nada a ver com isso… Éramos — eu não sou mais — como arrumadeiras de motel, que permitem que a sacanagem alheia seja feita em ambiente limpo, asséptico, sem risco de contaminação. …Não participávamos do grosso da safadeza, mas, sem nossa ajuda, ela não se realizaria.
 
Desde o começo fica claro que a carta-conversa com Eloísa não passa de um pretexto para uma reflexão sobre a sua época e a sua própria história. Ao deixar o protagonista descrever a ascensão da namorada, Molica esboça o perfil de toda uma classe de redatores e assessores de imprensa. Com sua selfie, ele retrata uma classe jornalística resiliente, que se deixa gratificar por sua cumplicidade e ainda o faz não somente pela segurança financeira, mas por uma espécie de arrivismo que, no fim literal das contas, torna seus profissionais mais culpados do que os corruptos que o fazem por dinheiro:
 
Não era só pela grana, eu sei. Você jamais se prestaria a tanto por conta de algumas dezenas de milhares de reais. O importante era a briga, a disputa, a causa impossível.
 
O não-lugar da narrativa
 
Imprescindível para esta purgação por meio da escrita é o ambiente sem saída do avião que propicia a perspectiva claustrofóbico-reflexiva necessária para a fuga no relato. É ali de cima, literalmente “no ar”, que o autor encontra o “não-lugar” ideal da narrativa, o enclausuramento que procurará uma válvula de escape na narração.
 
“Estou numa cápsula metálica a não sei quantos quilômetros de altura, num não território, sentado numa poltrona ao lado do corredor, sem acesso sequer a uma janelinha… Isso deve ter despertado esta minha vontade de lhe escrever — talvez por estar no ar, sem referências, sem saber para que lado está o norte ou o sul…”
 
É neste limbo geográfico e temporal que ele se sente livre para deixar cair máscaras e faces. Entre uma revelação e outra sobre si, levanta o tapete da assessoria política no Brasil e deixa exposta a sujeira de um cotidiano entre políticos corruptos.
 
Mas a metáfora do “não-lugar” é ainda maior. Nela caberá também a falta de espaço da memória na agilidade do mundo digital de hoje, onde se torna obsoleta qualquer fixação de lembranças, já que o avanço tecnológico é mais rápido do que a nossa compreensão de seus meios: fotos, filmes, escritos. Isso porque, com o permanente desenvolvimento dos programas, “em pouco tempo não haverá como abrir aqueles velhos arquivos”.
 
Assim, perderemos sutil e paulatinamente o senso de compromisso, de obrigações, já que nem as fotos nos confrontam mais com nossos rostos, simplesmente porque não são vistas, só tiradas.
 
“Criamos a foto sem memória, veja só, a foto que não cobra, que não apresenta qualquer fatura. Uma não foto, incapaz de nos encarar, de jogar na nossa cara o que fizemos de nossas vidas. Inventou-se — tem certeza de que você não participou disso? Seria ideal para limpar o currículo/folha corrida de seus assessorados — um passado que não retorna, que fica confinado numa ausência de memória, um desafio à psicanálise, eu, eu, eu, doutor Freud sifudeu.”
 
Por falar em memória
 
Aproveitando a deixa da memória (ou da sua ausência), como demarcação do eu no contexto global, o protagonista guarnece seu relato com protocolos de visitas a museus, essas instituições que são, per se, os baluartes da conservação da memória. Ao defrontar-se com os resquícios da história dos povos europeus, o autor aproveita o ensejo para um passeio reflexivo pelos anais das colonizações. E nos apresenta um verdadeiro catálogo das falcatruas dos colonizadores europeus, como, por exemplo, o hábito dos franceses de levarem de suas colônias papagaios, frutos e índios brasileiros para a Europa, como evidências do exótico. Ou as máscaras fabricadas pelos holandeses a partir de um molde de gesso tomado dos rostos de homens e mulheres de suas colônias. Em outro momento, denuncia a incrível cara de pau de um embaixador do Reino Unido que, depois de se apropriar de objetos culturais valiosíssimos de uma de suas colônias, sob o pretexto de salvaguardá-los da destruição, simplesmente os vende (!) em seu país.
 
“Eles e colonizadores de outros países salvaram as peças da mesma forma que se diziam interessados em salvar almas de africanos, orientais e americanos, todos invadidos, mortos, espoliados. Dá para imaginá-los dizendo algo como viemos aqui para salvá-los de vocês mesmos, para proteger as lindas obras de arte dos povos que as criaram.
 
Mensagem na garrafa
 
O final do romance traz uma confissão, um mascarado pedido de desculpas e uma apologia à cultura da lembrança. O protagonista recorda uma visita ao parlamento alemão, em Berlim, onde a memória do Nacional-Socialismo é perpetuada por uma obra de arte que lembra os horrores da Segunda Guerra, bem no centro do poder. Houve protestos por parte da população, as pessoas chegaram a danificar a peça, mas sua permanência foi garantida por lei. Ali, a lembrança é mantida viva e fica sujeita a joelhadas e chutes, mas também à reflexão.
 
Como se quisesse nos convencer de que é no centro da memória que se encontra a semente do perdão, o protagonista volta, no final do livro, à reflexão feita no início, de que é só assumindo o personagem no qual se transformou que poderá se livrar dele.
 
O que fica é a catarse pelo relato enquanto mensagem numa garrafa.
Carla Bessa
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Rascunho, 02/04/2017

Jogo Sujo

Aqui, a resenha de 'Uma selfie com Lenin' publicada no 'Rascunho', o mais importante jornal sobre literatura do país. O texo é de Carla Bessa.
 
Jogo sujo
 
Como sugere o título, Uma selfie com Lenin, de Fernando Molica, é o instantâneo de uma história individual contra o pano de fundo do contexto histórico mundial. Ao passar em revista os últimos anos de sua vida, o protagonista constrói pontes entre o seu caos pessoal e a crise global, fazendo um balanço do seu tempo, um acerto de contas com ideologias e paixões deixadas para trás, em busca de um retorno ou recomeço.
 
Na superfície, o romance é uma longa carta à ex-namorada e ex-chefe, Eloísa, com a qual o protagonista trabalhara como assessor de políticos. Redigida no avião, durante um voo pela Europa, a missiva é a tentativa literal de ver as coisas de cima e traçar um mapa dos desencontros amorosos e profissionais vividos em um passado não muito distante. E faz, de rebarba, uma análise contundente e mordaz dos assim chamados “bastidores do poder” e das inquietações políticas dos últimos anos no Brasil e no mundo.
 
Olhando mais a fundo, o texto é uma crítica incisiva à manipulação de informações pelas mídias modernas. Movimentando-se com presteza estilística e embasamento histórico entre as linguagens jornalística e ficcional, Molica nos mostra o quanto somos manipuláveis. E que é exatamente desta falta de escrúpulos da qual se aproveitam tanto os assessores de políticos como os meios de comunicação em geral. Por exemplo, o cinema e a televisão, como ilustra no final do livro. As últimas lembranças são contadas em forma de um filme imaginário, numa narrativa com cortes rápidos como numa cena de perseguição, revelando exatamente a instrumentalização da nossa empatia: Torcemos pelo ladrão porque ele nos é simpático, mas também porque o furtado é um cafajeste ainda maior.
 
Arrumadeiras de motel
 
Sem perder o humor, o protagonista nos conta sobre sua frustração de ter deixado o trabalho na redação de um jornal para, por meio de Eloísa, se deixar seduzir pelas sinuosas perspectivas da assessoria política, mesmo sabendo que a maioria de seus clientes teria reputações mais do que duvidosas. O relato é denúncia e autodenúncia, a confissão de alguém que se reconhece culpado por conivência.
 
E não deixa de ser engraçado quando falo neles, nos nossos clientes, como se eu e você não tivéssemos nada a ver com isso… Éramos — eu não sou mais — como arrumadeiras de motel, que permitem que a sacanagem alheia seja feita em ambiente limpo, asséptico, sem risco de contaminação. …Não participávamos do grosso da safadeza, mas, sem nossa ajuda, ela não se realizaria.
 
Desde o começo fica claro que a carta-conversa com Eloísa não passa de um pretexto para uma reflexão sobre a sua época e a sua própria história. Ao deixar o protagonista descrever a ascensão da namorada, Molica esboça o perfil de toda uma classe de redatores e assessores de imprensa. Com sua selfie, ele retrata uma classe jornalística resiliente, que se deixa gratificar por sua cumplicidade e ainda o faz não somente pela segurança financeira, mas por uma espécie de arrivismo que, no fim literal das contas, torna seus profissionais mais culpados do que os corruptos que o fazem por dinheiro:
 
Não era só pela grana, eu sei. Você jamais se prestaria a tanto por conta de algumas dezenas de milhares de reais. O importante era a briga, a disputa, a causa impossível.
O não-lugar da narrativa
 
Imprescindível para esta purgação por meio da escrita é o ambiente sem saída do avião que propicia a perspectiva claustrofóbico-reflexiva necessária para a fuga no relato. É ali de cima, literalmente “no ar”, que o autor encontra o “não-lugar” ideal da narrativa, o enclausuramento que procurará uma válvula de escape na narração.
“Estou numa cápsula metálica a não sei quantos quilômetros de altura, num não território, sentado numa poltrona ao lado do corredor, sem acesso sequer a uma janelinha… Isso deve ter despertado esta minha vontade de lhe escrever — talvez por estar no ar, sem referências, sem saber para que lado está o norte ou o sul…”
 
É neste limbo geográfico e temporal que ele se sente livre para deixar cair máscaras e faces. Entre uma revelação e outra sobre si, levanta o tapete da assessoria política no Brasil e deixa exposta a sujeira de um cotidiano entre políticos corruptos.
 
Mas a metáfora do “não-lugar” é ainda maior. Nela caberá também a falta de espaço da memória na agilidade do mundo digital de hoje, onde se torna obsoleta qualquer fixação de lembranças, já que o avanço tecnológico é mais rápido do que a nossa compreensão de seus meios: fotos, filmes, escritos. Isso porque, com o permanente desenvolvimento dos programas, “em pouco tempo não haverá como abrir aqueles velhos arquivos”.
 
Assim, perderemos sutil e paulatinamente o senso de compromisso, de obrigações, já que nem as fotos nos confrontam mais com nossos rostos, simplesmente porque não são vistas, só tiradas.
 
“Criamos a foto sem memória, veja só, a foto que não cobra, que não apresenta qualquer fatura. Uma não foto, incapaz de nos encarar, de jogar na nossa cara o que fizemos de nossas vidas. Inventou-se — tem certeza de que você não participou disso? Seria ideal para limpar o currículo/folha corrida de seus assessorados — um passado que não retorna, que fica confinado numa ausência de memória, um desafio à psicanálise, eu, eu, eu, doutor Freud sifudeu.”
 
Por falar em memória
 
Aproveitando a deixa da memória (ou da sua ausência), como demarcação do eu no contexto global, o protagonista guarnece seu relato com protocolos de visitas a museus, essas instituições que são, per se, os baluartes da conservação da memória. Ao defrontar-se com os resquícios da história dos povos europeus, o autor aproveita o ensejo para um passeio reflexivo pelos anais das colonizações. E nos apresenta um verdadeiro catálogo das falcatruas dos colonizadores europeus, como, por exemplo, o hábito dos franceses de levarem de suas colônias papagaios, frutos e índios brasileiros para a Europa, como evidências do exótico. Ou as máscaras fabricadas pelos holandeses a partir de um molde de gesso tomado dos rostos de homens e mulheres de suas colônias. Em outro momento, denuncia a incrível cara de pau de um embaixador do Reino Unido que, depois de se apropriar de objetos culturais valiosíssimos de uma de suas colônias, sob o pretexto de salvaguardá-los da destruição, simplesmente os vende (!) em seu país.
 
“Eles e colonizadores de outros países salvaram as peças da mesma forma que se diziam interessados em salvar almas de africanos, orientais e americanos, todos invadidos, mortos, espoliados. Dá para imaginá-los dizendo algo como viemos aqui para salvá-los de vocês mesmos, para proteger as lindas obras de arte dos povos que as criaram.
 
Mensagem na garrafa
 
O final do romance traz uma confissão, um mascarado pedido de desculpas e uma apologia à cultura da lembrança. O protagonista recorda uma visita ao parlamento alemão, em Berlim, onde a memória do Nacional-Socialismo é perpetuada por uma obra de arte que lembra os horrores da Segunda Guerra, bem no centro do poder. Houve protestos por parte da população, as pessoas chegaram a danificar a peça, mas sua permanência foi garantida por lei. Ali, a lembrança é mantida viva e fica sujeita a joelhadas e chutes, mas também à reflexão.
 
Como se quisesse nos convencer de que é no centro da memória que se encontra a semente do perdão, o protagonista volta, no final do livro, à reflexão feita no início, de que é só assumindo o personagem no qual se transformou que poderá se livrar dele.
 
O que fica é a catarse pelo relato enquanto mensagem numa garrafa.
Carla Bessa
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Meu Lote, 03/06/2016

Fernando Molica não é mole

Nunca antes, que eu saiba, um romance carioquíssimo foi tão nacional, atual e revelador sobre o submundo da política, fluminense e brasileira, como “Uma selfie com Lenin” (Record) do nosso querido“primo” Fernando Molica. Num bordejo forçado pela Europa, o personagem narrador, em ritmo de samba da Lapa e com o charme dos blocos de Santa Tereza, narra tramoias ocorridas em escritórios de doleiros do Castelo. E ainda desfruta de belas assessoras de imprensa. Tão belas quanto perigosas.

Show de bola este romance do bisneto do saudoso pianista Júlio Reis. Da Piedade para o mundo. Num jato bem lavadinho.

Nei Lopes
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Literasutra, 27/05/2016

No final tudo acaba em pizza e pau de selfie

Em seu novo livro, “Uma Selfie com Lenin”, Fernando Molica fala de amor e política. Afinal, seu personagem principal é um jornalista de meia idade que está fugindo do Rio de Janeiro após uma confusão na assessoria de políticos para a qual trabalhava. Por isso a história se passa através de uma carta que ele está escrevendo para Eloísa, sua ex-namorada e ex-chefe. Ao tentar relatar todo o mal entendido que o fez embarcar num avião para bem longe do Brasil, o personagem faz uma reflexão de toda sua trajetória de vida. Desde quando era um jornalista mal pago e cheio de ideologias até o momento da história, rico e completamente destruído.

“Foi graças a você quem vim parar aqui, que posso estar aqui. Se não fosse você, eu estaria aí, fazendo minhas matérias, enchendo seus clientes de porrada, ajudando você a manter o faturamento de sua empresa.”

Eu entendo que o livro é um romance, uma ficção, mas ao relatar as manifestações de 2013 e 2014 a história tange o real. Dessa forma, quando li a descrição do personagem sobre roubo de dinheiro em hospitais fiquei enjoada. É desumano e infelizmente não posso afirmar, nem para mim mesma, que é só um livro.

“Os prédios imensos, cheirando a clorofórmio e mijo, não passavam de grandes lavanderias, de centros de distribuição de verbas, deveriam ser administrados pelo banco central, não pela secretaria de saúde. Por lá, pouco se cura, muito se rouba, nada se perde. Perdem-se vidas, mas isso não contava na nossa matemática.”

Esse autor me deixou como um ressaca literária moral/filosófica horrível. Penso no egoísmo exacerbado da atualidade, no amor unilateral focado apenas no prazer, na política e no Brasil que vivo atualmente. Sei que muitos vão achar cansativo o assunto, mas creio que essa obra deveria entrar para o currículo escolar básico de literatura. Assim talvez meu filho no futuro consiga me explicar tudo o que está acontecendo hoje.

Mariana Baptista
separador

Folha de S.Paulo, Guia Folha, 30/04/2016

Uma selfie com Lenin

Narrado na segunda pessoa, este romance é uma longa carta de um brasileiro que viaja pela Europa à ex-mulher. "Eu fugi de você e você deu um jeito de vir": o sujeito não consegue curtir a viagem solo e tem de narrar sua crise de meia-idade -pelo menos é o que o leitor acredita no começo.

 
O narrador é um jornalista, como o autor do romance, editor de "O Dia". Estamos novamente no terreno da autoficção (talvez este "Guia" precisasse um dia abrir a seção "Ficção Biográfica"). Narram-se manifestações contra a Copa e negociatas entre governo e publicitários; doleiros e policiais federais são personagens.
 
Narra-se, sobretudo, a derrocada moral de um jornalista que virou assessor de imprensa no mundo político, enriqueceu, envolveu-se com duas mulheres ao mesmo tempo, traiu companheiros e largou na estrada os ideais marxistas da juventude e os ideais românticos de partilhar a vida com alguém.
 
Promíscuo, cínico e vazio, ele simboliza nossa época desiludida -em que uma viagem existencial é só motivo pra clicar um autorretrato vulgar que ninguém vai ver.
 
UMA SELFIE COM LENIN 
AUTOR Fernando Molica
EDITORA Record
QUANTO R$ 30 (112 págs.)
AVALIAÇÃO ** (MUITO BOM)
Ronaldo Bressane
separador

, 27/4/2016

Livros à cabeceira


Bom ver que nem tudo está parado ou que o país não parou de vez. Conquanto estejam pondo o pé no freio, por motivos óbvios, há editoras que ainda arriscam suas fichas, pelo menos em relação às pratas da casa, como é o caso da Record, que acaba de mandar às livrarias os livros assinalados abaixo, pela ordem de chegada à minha cabeceira:
1. "Uma selfie com Lenin", de Fernando Molica - curto romance, em número de páginas, mas longo em significados, e no qual as atualidades políticas, existenciais e "lavajatorias" nele se colam, com malícia, ambição, sedução, grana, num texto cheio de ginga, bem carioca. 
2. "Os contos completos", de Alberto Mussa, premiadíssimo romancista que surpreende pela encantadora fabulação e fina carpintaria destas pequenas histórias.
3. "Luxúria" - romance de Fernando Bonassi, também conhecido como roteirista de cinema e dramaturgo, e que narra, "com ironia e realismo, um momento em que a soberba se espalhou pelo país, convencendo até o lascivo homem comum".
4, Por fim, mas não por último, "Welcome to Copacabana", reunião de 20 histórias de outro romancista consumado, muito lido, premiado e traduzido mundo afora, que se assina Edney Silvestre, um autor sempre bom de ler. Sim, distintas e distintos navegantes: se confiam minimamente no gosto literário deste que vos escreve, corram à livraria mais à mão. 
Parabéns, caríssimo editor Carlos Andreazza, pelas suas vigorosas apostas.

Antônio Torres
separador

, 27/4/2016

Livros à cabeceira


Bom ver que nem tudo está parado ou que o país não parou de vez. Conquanto estejam pondo o pé no freio, por motivos óbvios, há editoras que ainda arriscam suas fichas, pelo menos em relação às pratas da casa, como é o caso da Record, que acaba de mandar às livrarias os livros assinalados abaixo, pela ordem de chegada à minha cabeceira:
1. "Uma selfie com Lenin", de Fernando Molica - curto romance, em número de páginas, mas longo em significados, e no qual as atualidades políticas, existenciais e "lavajatorias" nele se colam, com malícia, ambição, sedução, grana, num texto cheio de ginga, bem carioca. 
2. "Os contos completos", de Alberto Mussa, premiadíssimo romancista que surpreende pela encantadora fabulação e fina carpintaria destas pequenas histórias.
3. "Luxúria" - romance de Fernando Bonassi, também conhecido como roteirista de cinema e dramaturgo, e que narra, "com ironia e realismo, um momento em que a soberba se espalhou pelo país, convencendo até o lascivo homem comum".
4, Por fim, mas não por último, "Welcome to Copacabana", reunião de 20 histórias de outro romancista consumado, muito lido, premiado e traduzido mundo afora, que se assina Edney Silvestre, um autor sempre bom de ler. Sim, distintas e distintos navegantes: se confiam minimamente no gosto literário deste que vos escreve, corram à livraria mais à mão. 
Parabéns, caríssimo editor Carlos Andreazza, pelas suas vigorosas apostas.

Antônio Torres
separador

Jornal 'Metro', Vitória, 26/04/2016

Obra lança olhar irônico sobre os relacionamentos

Dilemas políticos, éticos e amorosos são o ponto de partida do livro "Uma selfie
com Lenin", do jornalista e escritor Fernando Molica. A obra, lançada neste mês,
traz um olhar irônico sobre a política do país ao narraras manifestações ocorridas
em 2013 e 2014.
 
A obra é escrita como uma longa carta do narrador à ex-chefe e ex-namorada,
Eloísa. O personagem é um jornalista recém-saído de um trabalho como
assessor de políticos, que embarca numa viagem pela Europa após se desiludir
com a carreira. Dentro do avião, durante um voo entre Amsterdã
e uma cidade asiática, ele decide escrever a carta, em que passa a limpo seus
amores e os dilemas políticos do Brasil, sempre de uma forma irônica.
 
"Quis mostrar o impacto da política na vida do personagem. Ele escreve uma carta
como uma prestação de contas da vida sentimental e do trabalho, além de comentar
algumas situações políticas do país e tentar explicar seu sumiço. Na carta, o personagem 
faz algumas ironias com a ex-mulher, com ele mesmo e com a política
do país, sempre de maneira crítica, que é uma forte característica do personagem",
relatou Fernando Molica.
 
O título da obra "Uma selfie com Lenin" refere-se a uma passagem do livro, em que
o personagem faz uma visita ao Memento Park, em Budapeste. Como forma de
protesto, ele tira uma foto com uma estátua de Vladimir Ilitch Lenin, um dos
maiores símbolos da extinta União Soviética.
 
Os interessados em comprar a obra, da editora Record, podem procurá-la em
livrarias físicas e virtuais, por R$ 29,90.
 
 
Formado pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
o jornalista Fernando Molica é autor dos romances "Notícias do Mirandão", "O
ponto da partida", "O inventário de Julio Reis" e "Bandeira negra, amor", além do
infanto-juvenil "O misterioso craque da Vila Belmira".
 
Por duas vezes, o autor foi finalista do Prêmio Jabuti e, atualmente, assina
uma coluna diária no jornal O Dia.
 

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Peixe Elétrico, 18/04/2016

Não é nada disso

Comecei a prestar atenção em Uma selfie com Lenin depois de ver a capa compartilhada pelo autor no Facebook. Eu me lembrava vagamente da estátua do velho líder comunista, embora não conseguisse identificar na memória onde a tinha visto. Deve ter sido na viagem que fiz ao Leste Europeu em 2002. Em um velho álbum de fotos (não era ainda a época das imagens perfeitas do iPhone), localizei o lugar: um parque em Budapeste onde a administração da cidade, depois da queda do regime comunista, teve a feliz ideia de recolher as maciças estátuas que outros países, como a Romênia ou a Polônia, fizeram a besteira de destruir.

 

Um pouco depois, quando Fernando Molica compartilhou também um trecho do livro, pude confirmar minha suspeita: “Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo.” Fico fascinado quando leio algo que me faz lembrar os lugares que me marcaram.

 

Uma selfie com Lenin é um livro fascinante. No enredo, personagens que tomaram conta do nosso dia a dia, como o doleiro, o lobbysta, um inequívoco Lindbergh Farias (sem o nome, por certo), malas de dinheiro e as manifestações de 2013. Há algo que me fascina ainda mais do que ler sobre os lugares que me marcaram: o mundo contemporâneo. Por isso, li o romance de Molica em uma tarde. Trata-se de um longo monólogo, em que em alguns momentos o narrador finge estar escrevendo uma carta. O artifício de ocultar um gênero no outro não é gratuito, já que no livro todo mundo parece estar fingindo alguma coisa.

 

Todos os relacionamentos descritos na novela têm um interesse disfarçado. O narrador mal esconde o ressentimento por trás do cinismo. É difícil aqui não adiantar alguma coisa do enredo, mas vale a máxima de que quem engana um dia será enganado. O narrador, por exemplo, tenta enganar o leitor já no início ao afirmar que viaja por causa de uma desilusão amorosa. O próprio leitor não vai se deixar enganar quando aparece a famosa estagiária sedutora. Claro que ele vai cruzar com a garota nos braços de outra pessoa, mas depois o leitor também é enganado pelo narrador: não é bem ela que o aguarda em uma determinada portaria carioca.

 

Enganar significa evidentemente fazer movimentos de um lado para o outro. O narrador, portanto, tinha que estar mesmo viajando. Uma selfie com Lenin é um desses livros que parecem estar com todos os procedimentos no lugar. Mas mesmo isso serve para incomodar o leitor, pois a narrativa mostra um extremo deslocamento de padrões éticos. De início, achei que esse descompasso pudesse ser um possível defeito literário. Como usar tão bem as ferramentas formais para criar uma narrativa em que nada está no lugar que deveria estar?

 

Devo dizer que li o romance de Fernando Molica na semana que antecedeu a votação do pedido de impeachment na câmara dos deputados. Inclusive, reli todos os trechos que tinha grifado no mesmo dia em que Michel Temer fez vazar o seu tenebroso áudio via whatsapp. Foi então que notei a coerência do romance: a falta de qualquer sentido ético em qualquer um dos planos de vida das personagens é de fato perfeita aqui, já que torna forma literária a grande tragédia brasileira – e latino-americana. Por isso, Uma selfie com Lenin é de fato um ótimo livro.

Ricardo Lísias
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Jornal do Comércio, Porto Alegre, 08/04/2016

Brasil do fim do século XX e início do XXI

O quinto romance do escritor Fernando Molica, nascido no Rio de Janeiro em 1961,Uma selfie com Lenin (Record, 112 páginas), acima de tudo, faz uma narrativa que retrata o Brasil entre fins do século XX e início do XXI.
Molica é autor dos romances Notícias do Mirandão e Inventário de Julio Reis, publicados pela Record, do livro-reportagem O homem que morreu três vezes (Record) e da narrativa infantojuvenil O misterioso craque da Vila Belmira, editado pelo Rocco. Molica já teve dois de seus livros lançados na Alemanha e por duas vezes foi finalista do Prêmio Jabuti.
Em Uma selfie para Lenin, o leitor vai acompanhar a trajetória altamente conflitante de um jornalista que vê seus ideais de juventude serem corroídos pelo galopante avanço de uma estrutura política baseada na corrupção. Tema, aliás, de dura atualidade para nós brasileiros.
O protagonista conta, com humor e certa dose de melancolia, seus caminhos profissionais e os rumos tortuosos que acabou trilhando pela vida.
O romance está escrito em formato de longuíssima carta, redigida durante um voo internacional, na qual o protagonista tenta, ao menos, fazer um ambicioso balanço de sua vida. Correspondência íntima, próxima da confissão, a carta revela para o leitor as muitas contradições do personagem. O leitor vai pensar se o narrador está em busca de sentido ou se está relatando passos que planejou. Acerto de contas ou registro de viagem programada?
Entre as idas e vindas pessoais e profissionais do protagonista, o leitor vai apreciando retratos de nossa história recente, dessas últimas décadas, tão tumultuadas. As muitas transformações e contradições do mundo contemporâneo estão emboladas com os trajetos do personagem. A selfie, índice máximo do individualismo promovido pelas redes sociais, é aqui realizada pelo narrador desiludido, buscando registrar seu encontro com um monumento em homenagem a um dos símbolos da busca por uma sociedade mais igualitária, Lenin.Com olhar irônico, o autor da carta vai descrevendo o vertiginoso declínio de determinados ideários políticos e, ao mesmo tempo, fala da ausência de novas alternativas.
"Acordei com o dia claro, envolto em lençóis úmidos, manchados pelo sangue que saíra da minha perna. Doia um pouco. Levantei, catei as roupas no chão, joguei tudo no box e tive, enfim, coragem de me ver no espelho. Eu envelhecera, Eloisa." Este é um dos trechos do romance, uma amostra da narrativa forte e impactante, dessas que têm tudo a ver com os tempos velozes, estilhaçados e doidos que vivemos.
Jaime Cimenti
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O Globo, 05/04/2016

Romance passa a limpo ideiais de uma geração

Jornalista e escritor Fernando Molica lança hoje 'Uma selfie com Lenin', com olhar irônico sobre o país

O protagonista do novo romance de Fernando Molica, “Uma selfie com Lenin” (Record), é um jornalista recém-saído de um trabalho como assessor de políticos. Desiludido com os clientes, que descreve como “sujeitos que faziam da constante visita às algibeiras do país a razão de ser de suas carreiras políticas”, ele embarca numa viagem pela Europa. O livro é escrito como uma longa carta do narrador à ex-namorada, em que ele passa a limpo, além de seus amores e dilemas, os ideais políticos de uma geração.

— O que me interessou no romance não foi a política em si, esse é o assunto do meu dia a dia como jornalista. Quis mostrar o impacto da política na vida do personagem, entender como ele tenta deglutir aquele processo. E isso só é possível na ficção — diz Molica, que lança o livro nesta terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo.

PERSONAGEM ESCREVE UMA CARTA DENTRO DO AVIÃO

Jornalista e autor de outros quatro livros de ficção, Molica situa a narrativa no período das manifestações que tomaram o país em 2013 e 2014. Enquanto escreve a carta, de dentro de um avião, o narrador reflete sobre as turbulências políticas no Brasil e sobre conflitos da história europeia. Por meio do olhar cético desse personagem, “Uma selfie com Lenin” oferece uma perspectiva irônica sobre a situação do país.

— Em um momento de radicalização como o atual, em que as pessoas só repetem chavões, a ficção pode oferecer outras perspectivas e mostrar que há várias formas de ver o mundo — diz Molica.


Gulherme Freitas
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O DIA, 05/04/2016

Fernando Molica lança seu sétimo livro

Perder tudo, estar desiludido e sem esperanças. É nesse momento crítico que o jornalista criado por Fernando Molica, no novo romance ‘Uma Selfie com Lenin’ (Record, 112 págs., R$ 29,90), se encontra e decide avaliar tudo o que viveu, por meio de uma carta escrita dentro de um avião. Essa história chega hoje aos leitores, no lançamento marcado para às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo.
Sem prefácio, índice ou dedicatória, o sétimo livro da carreira do escritor e colunista do DIA leva o público diretamente à história e utiliza uma linguagem informal com referências pop, segundo Molica, como ‘Star Wars’ e ‘Os Jetsons’. “Eu acho que por ser uma carta eu não poderia fazer algo muito literário. Procurei fazer um texto informal escrito por um profissional de texto, dentro das normas da língua e que tem um universo mais pop, que acho que numa carta você falaria isso”, explica.
A ideia inicial, que surgiu durante uma viagem que Molica fez sozinho para a Europa, em 2014, era escrever um guia de viagens, mas percebeu outro caminho enquanto escrevia. “Quando comecei, o livro tendeu para um romance. Baixou um caboclo do personagem e falou: ‘Não meu irmão’, puxou minha perna meu braço e falou: ‘Vai por aqui’”, conta entre risadas.
A carreira de Fernando Molica como escritor começou com ‘Notícias do Mirandão’ (2002). Este primeiro livro e o terceiro, ‘Bandeira Negra, Amor’ (2005), foram publicados no Brasil e Alemanha. Já o segundo, ‘O Homem Que Morreu Três Vezes’ (2003), recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Depois vieram: ‘O Ponto da Partida’ (2008), ‘O Misterioso Craque da Vila Belmira’ (2010) e ‘Inventário de Júlio Reis’ (2012)
Guilherme Guagliardi
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Jornal 'Metro', Rio, 04/04/2016

'É fundamental respeitar a democracia'

Jornalista lança, amanhã, 'Uma selfie com Lenin'. Ficção bem-humorada narra as aventuras de um repórter em uma viagem solitária pelo mundo e marcada por reflexões éticas, amorosas e com críticas à sociedade contemporânea.

Jornalista e escritor, autor de, entre outros títulos, 'Notícias do Mirandão, e atualmente colunista do 'Informe do DIA', do jornal 'O Dia', Fernando Molica, 55 anos, constrói em 'Uma selfie com Lenin' uma narrativa ficcional. Esse é seu sexto livro do gênero. Redigido em forma de carta, na qual o destinatário é o leitor, a publicação aborda os conflitos de um jornalista que faz um balanço de toda uma vida e das transformações do mundo. O lançamento será amanhã (terça), às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo (rua Voluntários da Pátria, 97. Tel: 3195-0200).

Como foi escrever 'Uma Selfie com Lenin'?
Comecei achando que ia fazer uma espécie de guia informal de viagem, falaria de cidades que havia visitado. Só que apareceu um personagem que meu puxou pelo pé. Eu deixei de ser o narrador e passei a bola para ele, que tratou de contar sua história, de passar em revista sua relação com a ex-namorada, com o trabalho e com o próprio país.

Por que pensou em narrar a história do personagem em forma de carta?
Achei que a carta seria interessante, é uma forma de expor uma determinada visão de mundo. Ao contrário do que possa parecer, um texto extremamente pessoal como uma carta não diz apenas aquilo que o remetente gostaria de revelar. Nunca conseguimos dominar totalmente o que falamos ou escrevemos, sempre acabamos nos entregando um pouco. O fato de o personagem estar isolado, fora do país e sem planos para voltar deu a ele a chance de ser muito sincero, de abrir o jogo, de falar das próprias mazelas. Ele faz muitas acusações à ex-mulher, mas também admite muitos erros.

Sua imagem é muito associada à política. Como avalia o atual cenário do país?
Já cobri campanhas eleitorais e escândalos como o Caso Collor e o Mensalão. Vivemos um momento muito delicado, o que está em jogo é muito mais grave do que a continuidade do governo Dilma. É muito triste ver o Congresso Nacional tranformado, pelos próprios deputados, em estádio de futebol, em palco de guerra de torcidas. A democracia demorou muito tempo para ser conquistada, é fundamental respeitá-la, o que implica também no respeito aos seus ritos e processos. A solução tem que surgir do processo político, mas que seja mais transparente, honesto e menos oportunista.

Gislandia Governo
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O DIA, 31/03/2016

Um retrato do Brasil

Não é nada fácil entender este Brasil tão torto. Mas a gente consegue alguma ajuda em livros como “Uma selfie com Lenin”, do nosso Fernando Molica. Página após página, ele derruba seu oponente na base da muita porrada, mas sem pressa, levando a briga até o último parágrafo. Cabe ao leitor decidir para que lado vai torcer — ou até mesmo desistir de qualquer torcida. O Brasil, afinal, é uma questão de fé...

“Uma selfie com Lenin” é a carta furiosa de um jornalista para sua ex-mulher e ex-chefe, a quem deve sua fortuna e suas desditas. Inteligente e ambiciosa, Eloísa Blaumsfield era a estagiária que subiu na vida e tornou-se competente assessora de políticos e poderosos. Aprendeu a dançar conforme a música do mercado e fez muito dinheiro distorcendo a realidade. De quebra, leva para seu mundo (corporativo e amoroso) o jornalista idealista, profissional de primeira linha.

Só que ele não tem o mesmo DNA da companheira. As armações políticas em nome de interesses bem particulares não o deixam exatamente feliz. Apesar do sexo bom com a vibrante Eloísa, não é esse tipo do amor eterno que o jornalista-narrador está buscando. 

O narrador, afinal, talvez seja o último romântico num contexto geral vergonhoso. Ele quer porque quer um país melhor, limpo, quer pessoas éticas, íntegras, quer o melhor para todos. Não consegue, mas toca sua vida ao lado de Eloísa, até mesmo contribuindo com a lama que atravanca o país. O mercado suga. Alguns gostam, outros não.

Uma hora esse descompasso de lógicas e desejos acaba pesando, pois tudo tem limite quando a alma não é pequena. E ele chega. É aí que vemos como a novela do Molica lida tão bem com as contradições da vida alucinada dos nossos tempos.

Comentar mais que isso pode atrapalhar o prazer da leitura. O narrador escreve sua carta-desabafo em um de seus voos pelo mundo. Ele também circula pelas ruas do Rio, e nem poderia ser diferente. A prosa é acelerada, sem firulas. Entre bons achados, a sequência no Edifício São Borja, na Cinelândia, é puro cinema. Só falta falar.

Nelson Vasconcelos
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Folha de Pernambuco, 30/03/2016

“Uma selfie com Lenin” traz ficção contemporânea

Escrita ágil como filme de ação, vai direto ao ponto, sem encher linguiça, parece que coloca o leitor logo no centro do furacão, no meio da tempestade, na crista da onda do tsunami. É basicamente sobre viajar sozinho. A jornada começa desde a compra das passagens feita com cartão de crédito no computador até o embarque no aeroporto, passando pelas fotografias, o caminhar pelas ruas, a observação das pessoas...

Difícil encontrar quem já não tenha passado sufoco em uma viagem de avião. Ainda mais para o Exterior; pior ainda em um lugar onde não dominamos a língua. No aeroporto, aquele saguão gigantesco, onde temos que nos locomover de ônibus de um portão de embarque para outro, nossa, é de dar nos nervos ou de proporcionar lembranças cômicas.

Em “Uma selfie com Lenin” (Editora Record, 112 páginas, R$ 29,90), o escritor Fernando Molica narra a viagem de um jornalista pelo mundo. Uma das várias cenas engraçadas se passa no aeroporto Charles de Gaulle, quando uma paulista, desesperada, sem saber como pegar o ônibus para chegar ao trem que a levaria a Barcelona, dá um grito para um faxineiro do aeroporto: “‘Meu, como pego o trem para Paris?’” Assim mesmo, em paulistês arcaico (...)”.

Depois o autor ainda levanta a tal questão da tecnologia, que parece que veio para nos ajudar, mas quando o sistema sai do ar, é uma trapalhada que pode custar ao passageiro horas de espera e desamparo. Mas o autor até gosta de fazer tudo sozinho: comprar a passagem, imprimir, fazer check-in, dormir... Essa parte nem tanto. O livro é na verdade uma longa missiva para a ex-esposa, também jornalista, sua ex-chefe, para quem ele narra sua viagem e o que aconteceu antes dela, incluindo o relacionamento dos dois e o trabalho - o ex-casal trabalhava junto.

Como todo ex-casal, o narrador sempre trata de dar umas alfinetadas em Eloísa - o nome da ex. “Como serão os aeroportos daqui a uns 20 anos, quando nós, melhor, quando eu estiver velho? (Esqueci que mulheres como você não envelhecem)”.

Ou­tro momento humorístico é quando ele compara Eloísa a um sabão em pó: “aquele que lava mais branco, uma Suíça em forma de gente”. É que Eloísa é assessora de político, daquelas que consegue limpar imagem até de cara mais sujo do que pau de galinheiro.

Homem com toda pinta de inseguro, nosso narrador enaltece a ex como se ela fosse uma dama de ferro, “bonita, charmosa, elegante. (...) sono conquistado graças à dose extra de Clonazepam, (...) air bags químicos que absorvem tantos impactos”.

Bom, nem tão de ferro assim. Mas o narrador é um cara que parece arrependido de ter se bandeado para o lado da politicagem, da jogatina - não que todo assessor de político seja assim - pois ele era um jornalista de reputação ilibada e salário baixo antes de conhecer Eloísa. O fato é que se bandeou e agora foge do passado, do presente, do futuro.

As lembranças de outras viagem durante a atual viagem-fuga desse homem solitário quarentão recorda tempos que os de 20 não sabem nem como é. Tipo levar uma máquina fotográfica analógica com um filme de rolo de 60 poses para passar 30 dias, ou seja, só é permitido ao casal de turistas tirar duas fotos diariamente e ainda assim nem saber se vão ficar boas. Só quando voltarem da viagem.

Na verdade, nosso incrédulo narrador acha que as gerações futuras não terão saco nem de guardar fotografias em álbuns. “Não ficarão nem co­mo registro de época (...) a ausência delas é que marcará uma época onde não haverá passado (...), em que fotos servirão apenas para lembrar do ato de se bater uma foto.”

Nosso narrador-viajante se sente como um personagem de jogo eletrônico 3D, colocado em um mundo de mentirinha onde não conhece ninguém e ninguém o conhece. Ele parece aquele meme de John Travolta em “Pulp Fiction” que anda circulando na internet.

Nós bem sabemos o que uma viagem de mais de sete meses pode fazer por nós. Uma rebobinada na vida em certos momentos, uma boa amnésia dela também cai bem, e oscilamos entre esses dois momentos. Esquecemos para depois lembrarmos quem somos e termos absoluta certeza disso. Não precisa nem ser por tanto tempo nem para tão longe. Qualquer pequena viagem pode fazer muito por nós. Até mesmo aquela que fazemos sem sair do lugar, através de um bom livro.

SAIBA MAIS

AUTOR - Fernando Molica já teve dois de seus livros lançados na Alemanha; foi, por duas vezes, finalista do Prêmio Jabuti; é jornalista e assina uma coluna diária no jornal carioca O Dia.

SERVIÇO

“Uma selfie com Lenin”, de Fernando Molica
Editora: Record (112 páginas)
Preço médio: R$ 29,90

Carol Botelho
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Publishnews, 29/03/2016

Reflexões sobre o Brasil

Sozinho em pleno voo, enquanto viaja entre dois continentes, um jornalista carioca se ocupa de escrever uma carta. A destinatária é Eloísa, ex-namorada e ex-chefe, poderosa assessora política. Enquanto desbrava a personalidade e a trajetória da mulher, o protagonista deUma selfie com Lenin (Record, 112 pp.; R$ 29,90) passa em revista a própria jornada, desde que era um repórter mal remunerado até se converter em redator a serviço de políticos de caráter duvidoso.

Na missiva, há espaço ainda para ecos de notícias do Brasil, como as manifestações de 2013 e 2014 e o desencanto com o projeto de esquerda para o país. O título assinado pelo escritor Fernando Molica será lançado no dia 5 de abril na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo, Rio de Janeiro/RJ), às 19h.


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Correio Braziliense, 27/03/2016

Literatura que reflete sobre o Brasil de hoje é resposta de escritores

É raro a literatura refletir tão rapidamente sobre a conjuntura política e gerar imediatamente bons produtos, mas aconteceu. As manifestações de 2013 e 2014, os escândalos de corrupção e como a mídia lida com o poder são temas de dois romances recém-lançados.

Fernando Molica faz questão de explicar que Uma selfie com Lenin não trata diretamente da situação política do país, mas foi influenciado por ela. "A vida dele se mistura com temas mais tradicionais, como a corrupção, e com outros mais recentes, como as manifestações de 2013 e 2014. Na época, assim como acontece agora, é difícil pensar que alguém deixe de ser influenciado por questões mais gerais. Quase todos somos, de um jeito ou de outro, influenciados pelos fatos tão amplos que explodem todos os dias. O personagem não escapou disso", explica. Problemas profissionais, éticos e amorosos rondam o jornalista que parte em uma viagem e escreve uma carta à ex-namorada e ex-chefe. Foi servindo a políticos que o personagem conseguiu algum sucesso, assim como um certo fardo ético.

Molica tem 55 anos e acompanhou todos os momentos políticos mais importantes do país nas últimas décadas, mas não lembra de uma situação tão grave quanto agora, com tanta radicalização e intolerância. "Nem na Anistia, no Riocentro, nas Diretas Já, no segundo turno entre Collor e Lula", garante. "O resultado apertado da eleição de 2014, a roubalheira revelada pela Lava Jato, os excessos cometidos pelo juiz Sérgio Moro e oportunismo de políticos e de outros setores da sociedade parecem ter liberado uma raiva que estava represada. É assustador que o país tenha se transformado em um palco de guerra de torcidas, voltamos à lógica do Ame-o ou Deixe-o da ditadura. Democracia pressupõe convivência dos contrários, aceitação das diferenças".

Para André de Leones, os acontecimentos recentes e da última década alimentam desencanto, medo e impotência. Ele acredita que a resposta da literatura a essa situação nem seja tão rápida assim. "Pelo contrário. Convivemos há mais de uma década não só com escândalos como o do mensalão, mas também com uma crescente radicalização das posições políticas e ideológicas Creio que os autores tiveram bastante tempo para perceber esses fenômenos e refletir sobre eles, cada qual a seu modo", diz.

Em Abaixo do paraíso, quinto romance do autor, o protagonista é uma espécie de faz tudo para políticos do interior de Goiás. E faz tudo aqui envolve, principalmente, atividades ilícitas. Cristiano é um perdido, foragido, mas que sabe de muita coisa. O personagem encontra, segundo o autor, muitas correspondências no mundo real. "Vejo esse tipo de tarefeiro voejando ao redor dos políticos desde que me entendo por gente. Eles são um sintoma de como a política brasileira opera mais nas sombras e no submundo do que às claras, de como ela é viciada e violenta", explica Leones.

Que horas ela vai? - O diário da agonia de Dilma, de Guilherme Fiúza, e Impasses da democracia no Brasil, de Leonardo Avritzer, e propõem pílulas de humor e reflexão sobre a situação política brasileira. No primeiro, Fiúza pontua momentos do governo de Dilma Rousseff com comentários ácidos e engraçados. O segundo questiona a maneira de fazer política hoje sem se filiar a ideias de direita ou esquerda.

Uma selfie com Lenin
De Fernando Molica. Record, 112 páginas. R4 29,90

Abaixo do paraíso
De André de Leones. Rocco, 256 páginas. R$ 29,50

Que horas ela vai? - O diário da agonia de Dilma
De Guilherme Fiúza.Record, 96 páginas. R$ 24,90

Impasses da democracia no Brasil
De Leonardo Avitzer. Civilização Brasileira, 154 páginas. R$ 29,90

Nahima Maciel
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BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. Desenvolvimento por Gabriel Lupi
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