Daqui de longe, vendo essa gente protestando, tenho a sensação de que o país inteiro se reuniu no Maracanã, no velho Maracanã, não nesse ginásio de NBA em que transformaram meu estádio. É como se todas as torcidas estivessem na arquibancada torcendo para jogadores de todos os times. Isso, jogadores de todos os times do Brasil — Duzentos? Trezentos? Quatrocentos? — estão em campo, disputando e chutando diversas bolas nas mais variadas direções — o gol, como diria aquele velho técnico, passou mesmo a ser um detalhe. Chutam as bolas para a linha de fundo, para as laterais, para o alto, até mesmo para o gol, chutam para lugar nenhum. Juízes roubam descaradamente, mas também apanham, são xingados, espinafrados, há vários sangrando por conta de porradas que, enfim, neles puderam ser desferidas. Bandeirinhas gostosas são carregadas para o fosso que separa o campo da geral. Lá são lambidas, comidas, estupradas. O campo foi invadido, ocupado, torcedores também chutam as bolas, confraternizam com jogadores, os agridem, volta e meia morre alguém. Os bares dos estádios são invadidos e saqueados, mija-se por todo canto, caga-se na tribuna de honra. Em algum centro de controle que exibe imagens de altíssima definição captadas por milhares de câmeras, seus políticos e empresários estarão perplexos, pasmos, sem saber o que fazer para conter aquela fúria. Cobrarão providências, atitudes. Emitir uma nota oficial? Convocar uma entrevista coletiva? Ligar para o prefeito, para o governador, para o Planalto? Porra, foi para isso que investimos tanto nas campanhas de vocês, que fizemos alianças? Cadê a nossa segurança, onde estão os nossos direitos? O que devemos fazer, Eloísa Blaumsfield? Hein, Eloísa Blaumsfield? Algum gaiato sugerirá a solução hollywoodiana de fugir para o Rio — mas vocês já estão no Rio, cercados de gente e de raiva e de medo por todos os lados. Não consigo deixar de lembrar de uma música do Chico, gravada pela Elba, aquela em que a mulher conta para o marido rico que tivera um sonho terrível, que a multidão se revoltava contra ele, que o matava, o esfolava. Descemo a ripa, viramo as tripa, comemo os ovo. Mas você saberá manter a calma, a linha, a pose. Diante do desespero, dos planos de fuga, das atualizações de saldos bancários na Suíça e naquelas ilhotas de nomes esquisitos, você exigirá tranquilidade, saberá fazer valer cada ruga acumulada no rosto e imobilizada por sucessivas e mensais injeções de botox. Vai impor a leveza de seus escarpins de sola vermelha, a barriga negativa, os cabelos que, flapt, flupt, enfatizam e emolduram cada leve balançar de cabeça. Sua voz sairá firme, implacável, sem qualquer tremor — você deve injetar botox até na voz, voz que nunca treme, rígida e, ao mesmo tempo, doce e imperativa. É você que levará tranquilidade para aqueles safados, que dirá calma, que exigirá uma postura mais serena de todos eles.