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O namoro na grade da prefeitura*

em 28 de junho de 2022

A foto, feita pela repórter Luisa Bustamante, era para o 'Informe do DIA', mas a reboquei para esta 'Estação'. Não resisti à imagem, à observação discreta das carícias de dois adolescentes que, no último sábado, se apertavam contra as grades da sede da prefeitura.

O enquadramento, que isola o casal no canto esquerdo, estabelece uma cumplicidade com os personagens e faz um contraponto à lógica de exposição total e absoluta que marca o nosso tempo. A distância respeita a intimidade dos namorados, cria uma solidariedade com seus sentimentos -- na certa, achavam que estavam isolados do mundo, só eles existiam.

Imponentes, as árvores que emolduram e dão ritmo à cena também exercem o papel de guardiãs. É como se, alinhadas, se preparassem para dar um passa-fora em eventuais enxeridos. Ninguém teria o direito de interromper aquele amasso entre os dois colegiais.

Na foto, eles não se beijam. Encostada na grade, a jovem envolve o pescoço do garoto. Ele, meio tímido, limita-se a colocar as mãos na cintura da menina. Não dá pra ver, mas é justo admitir que, em meio ao afeto e o desejo, ambos sorriam. Estavam felizes pelo encontro, pelo drible aplicado nos colegas na hora da saída, nos pais que os esperavam para almoçar.

Driblaram, quem sabe?, até mesmo seus respectivos namorados. A busca por um local inusitado -- tão exposto e, ao mesmo tempo, tão protegido (quase ninguém passa por ali nos fins de semana) -- permite admitir algum grau de clandestinidade na situação.

Pelo abraço meio sem jeito é possível supor que aquela tenha sido a primeira vez que o rapaz e a moça ficaram. Neste caso, o verbo "ficar" dispensa a palavra "juntos" e qualquer outro complemento. Apenas fixa a ação, não estabelece um passado nem um futuro para aqueles dois, tem compromisso apenas com o instante da imagem.

Um momento que, de tão exclusivo -- pertence àqueles jovens --, é também de todos os que já ficamos eufóricos e felizes ao protagonizar situações semelhantes, quando o mundo parecia girar ao nosso redor.


*Ao remexer as gavetas virtuais em busca da crônica sobre trilha sonora para o Dia dos Namorados, encontrei esta outra, publicada em 2013, na coluna 'Estação Carioca`), de O DIA. Pena que não tenha localizado a foto citada.

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Trilha sonora para os corações solitários*

em 12 de junho de 2022

Neste Dia dos Namorados, um conselho para os desiludidos, os que tomaram chute no traseiro, aqueles cujos cotovelos fazem buracos em mesa de bar. A trilha sonora para hoje deve passar longe dos CDs em que Jamelão canta Lupicínio Rodrigues (estes deveriam ser vendidos apenas com receita médica) e de Chico Buarque.

Nosso maior compositor é impiedoso ao falar de separações e da permanência de amores desfeitos. Faca só lâmina, perfura o peito ao descrever o sangue que erra de veia, o pijama largado ao pé da cama, o adorar pelo avesso. Com ele não tem conversa, a tristeza é infinita, cheia de cicatrizes; o amor liga afobado, deixa confissões e confusões na secretária eletrônica.

Não adianta disfarçar, mudar de calçada quando aparece uma flor: fica patente o sentimento de perda, a melancolia de um amor a ser deixado para amantes que, no futuro, dele desfrutarão. Sobra também um amor-contemplação, perdido num improvável tempo da delicadeza, "Onde não diremos nada;/ Nada aconteceu./Apenas seguirei/Como encantado ao lado teu."

A esta altura você já deve estar certo de que, por hoje, é melhor deixar o Chico fora do ar. Sugiro então um mergulho em Paulinho da Viola. Mestre no diagnóstico de amores findos, do beijo que já não arde, ele, apesar da dureza das constatações, tem uma postura mais plácida, menos hemorrágica em relação ao que passou e consegue até transmitir alguma expectativa de felicidade.

Em 'Pra fugir da saudade' (com Elton Medeiros), confessa que, num samba, desfaz o que lhe fora feito. Vale chorar e, depois, retirar "De todo amor o espinho/Profundamente deixado" ('Coração imprudente', com Capinam). Conforma-se até em saber da paixão irrealizável por um coração leviano, que nunca será de ninguém. Não quer viver enganado.

Aqui, ele recorre a Cartola e Bide e roga para que a malvada, ao ouvir os seus ais, volte ao lar pra viver em paz; ali, admite sofrimento e a dificuldade de ficar sem a companheira. Porém, na maior parte das músicas sobre o tema, Paulinho transpira mais resignação e menos desespero, tateia alguma esperança, fala, também com Elton Medeiros, de um coração que seja um lago tranquilo onde a dor não tenha razão. Ele não aponta saídas, mas, craque experiente, ajuda a acalmar o jogo, a botar a bola no chão. E, como ressalta em 'Coisas do mundo, minha nêga', não deixa de buscar a melhor forma de se viver.

* Crônica publicada em 12/6/2013 no jornal O DIA.

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O menino e o lanche na Apoteose

em 01 de junho de 2022

Como em qualquer show, muitas vezes o melhor dos desfiles do Sambódromo ocorre em seus bastidores, na armação das escolas ou na dispersão. É nesses setores fora da pista que rolam cenas engraçadas (como o içamento dos destaques até os carros alegóricos), reveladoras (como a retirada do robe que encobre a nudez de rainhas e que tais) e mesmo emocionantes.

Domingo passado, por exemplo. Ao fim do ensaio da Mangueira, crianças, idosos e integrantes da bateria (no caso, das baterias) faziam fila, num cantinho sob o Setor 12, na Apoteose, para pegar um lanche oferecido pela organização do evento -- um sanduíche e um suco à base de guaraná.

Nisso surgiu um menino de uns 8 anos. Negro, mochila meio puída às costas, ele não usava fantasia ou roupa que o identificasse como integrante da Estação Primeira. Entrara na Passarela pelos fundos, fora até lá em busca de algo mais concreto que a beleza proporcionada pelo desfile. Esperto, logo identificou um sujeito magro, branco, com jeito de quem detinha algum poder na organização da festa.

Deu uma leve cutucada no suposto mandachuva e disparou: "Moço, me arruma um lanche?" Meio constrangido, o abordado -- o garoto acertara, ele mandava mesmo no pedaço -- tentou negociar. Disse que os sanduíches se destinavam aos integrantes das escolas e que, como de praxe, o que sobrasse seria distribuído. Era só aguardar mais um pouquinho.

Mas, como dizia Betinho, quem tem fome tem pressa; o bife não comido um dia jamais será compensado. O menino ficou insatisfeito, o evento iria demorar, a Grande Rio acabara de entrar na Avenida, haveria o risco de sobrar apenas o copinho de suco. Tentou argumentar, mas acabou interrompido por um segurança, que o retirou dali.

Não, a insistência não acabaria punida com um cartão vermelho. O novo personagem, negro como o garoto, o pegou pela mão e, logo depois, bem ali na frente, com ele dividiu seu próprio lanche. Segurança e garoto se pareciam, passariam até por pai e filho. Mas não havia qualquer parentesco, o homem apenas demonstrava se reconhecer naquele menino, talvez um dia já tenha pedido um sanduíche a alguém. Ao repartir sua comida, foi solidário também à sua própria história, em tudo semelhante à da maioria daqueles homens e mulheres que, a cada ano, produzem o mais belo e grandioso de todos os espetáculos.

(Fevereiro de 2013)

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