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A parada que nos condena


Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2015 | Comentários (0)

Ao contrário do que sentenciou Macunaíma, personagem de Mário de Andrade, é o excesso de paradas, não de saúvas, que complica o Brasil. Não me refiro a desfiles militares nem a pontos de ônibus. As paradas são outras, mais abrangentes, filhas bastardas, pesadas e ambiciosas do velho e quase inocente jeitinho brasileiro, que acabou sepultado pelas críticas acadêmicas e pela truculência e falta de modos que têm marcado a vida nacional.
As paradas floresceram no espaço que havia entre o tal jeitinho-quebra-aí-meu-galho e a consagração do pixuleco. Este, um mecanismo que, catapultado por milionárias doações eleitorais e suas respectivas e inflacionadas contrapartidas em obras, deixou pra trás os tempos românticos das comissões de 10% pagas aos que roubavam e diziam fazer.

As paradas estão por todos os lados, mas ficam evidentes nas ruas. Como no caso do motorista do caminhão de entregas que pede ao guarda municipal que resolva sua parada — a necessidade de descarregar em local e horário proibidos. De um modo geral, parada tem a ver com negociação, com oferta e procura, com algum tipo de prêmio ou remuneração. Viabilizar a parada alheia está relacionada com a certeza de faturar a própria parada. É dando que se recebe.

Como ouvi outro dia na Rua do Rezende, ninguém tem o direito de atrapalhar a parada do outro. A declaração de princípios do livre mercado da parada faz sentido, quase sempre, o que está em jogo é a concessão de algo que não tem dono definido, o espaço público ou as verbas administradas por governos — entre nós, a palavra “público” não costuma designar aquilo que é de todos, mas algo que não tem dono, é de quem pegar primeiro. Quem cede, entrega algo que não lhe pertence mas que, de alguma forma, está sob o seu tacão.

Parada serve para designar diversos gestos. O traficante utiliza a palavra para classificar a ação de matar inimigos; o miliciano, para tratar da venda de gás. É comum também na boca do juiz de futebol e na do cidadão que reclama da corrupção de políticos enquanto faz a grana escorregar para a mão do policial que iria multá-lo. Resolver uma parada não é crime, afinal. Adocicadas por metáforas inocentes, como “água para molhar a planta”, “paliativo” e “faz-me rir” (a palavra “suborno” não deve ser pronunciada), as paradas cresceram, ganharam força e poder. De vez em quando, algumas paradas viram escândalo, levam um tranco e recebem condenação social. Nada que impeça novos problemas e novas paradas. Por aqui, as paradas estão sempre em movimento.

(Estação Carioca, O DIA, 24/08)

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