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A tuberculose de todos nós


Por Fernando Molica em 03 de abril de 2008 | Comentários (0)

Tá certo: o país está crescendo, os índices vão bem, o consumo explode, Lula dá bronca no Bush, nunca antes na história, aquelas coisas. Mas as notícias positivas ajudam também a iluminar nossas sombras, nossas vergonhas: nosso crescimento ressalta também as nossas misérias. Como a dengue, como a tuberculose.
Lembro que na minha infância a palavra “tuberculose” era pronunciada quase aos sussurros – meus pais, afinal, são de uma geração que nasceu numa época em que a doença não tinha cura. Sair da chuva, não ficar descalço eram, para a minha avó, providências essenciais para não ficar tuberculoso. Quando nasci, a doença já era curável, não chegou, portanto, a fazer parte do meu razoável repertório de medos (implicava muito com a possibilidade do fim do mundo – e, parodiando Woody Allen, não adiantava ninguém me dizer que o fim do mundo nunca chegaria a Piedade).
Anos depois, um professor, animado com os rumos do Brasil Potência, chegou a dizer na minha sala de aula que, por aqui, ninguém morria mais de tuberculose. Perdeu, perdeu: só ano passado, cinco mil pessoas morreram vítimas da doença no Brasil. A cada ano são mais 85 mil novos casos.
E por que? Porque o país ainda não tomou vergonha na cara. A tuberculose é uma espécie de vingança dos pobres, dos que comem e vivem mal. Como assim “vingança” se eles são as principais vítimas da doença? Simples: ao adoecerem, ao – por ignorância – resistirem completar o tratamento (muitos o abandonam quando a doença se torna assintomática), eles não apenas morrem. Também jogam o bacilo de Koch na nossa cara – literalmente, até. Transmitem a bactéria e disseminam a notícia de uma indignidade. A morte de qualquer pessoa por tuberculose e mesmo a simples manifestação da doença representam um constrangimento para todos nós.
Na semana passada, gravei uma reportagem sobre tuberculose que foi ao ar ontem no Bom Dia Brasil. Apurá-la foi um novo mergulho num país que muitos fingem não existir. Colocar no rosto a máscara que impede contaminação para entrevistar uma mulher que está no isolamento de um hospital não é apenas um gesto de proteção. É também um gesto que se torna político, que dá a dimensão do tamanho do buraco em que ainda estamos. Tive que colocar a tal máscara, mas fiz isso envergonhado, com vontade de pedir desculpas à minha entrevistada – todos temos alguma responsabilidade pela doença daquela mulher.

A tuberculose e a reportagem foram tema de comentários da Míriam Leitão, no BDBR e na CBN – este último comentário pode ser ouvido aqui.

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