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E viva Jorge Amado


Por Fernando Molica em 22 de junho de 2016 | Comentários (0)

Outro dia, o Marcelo Moutinho me repassou aquela proposta de citar autores – acho que dez – que me influenciaram como escritor. Até para que os relacionados não viessem reclamar e protestar inocência (a maioria já morreu, não quero saber de fantasmas), não entrei na brincadeira. Seria complicado também restringir a escritores a possibilidade de alguma influência nos meus livros.

Mas ontem fui a uma palestra da Ana Maria Gonçalves, organizada pelo Antônio Torres, sobre o imaginário de Jorge Amado. E lá foi comentada uma resistência de setores da crítica ao autor de ‘Gabriela, cravo e canela’. Então, revelo: o baiano não é meu autor brasileiro favorito (só entre os mortos, eu citaria, pra começo de conversa, Machado de Assis e Graciliano Ramos), mas foi um dos responsáveis pelos meus primeiros deslumbramentos com a literatura, por alguns grandes prazeres na companhia de um livro.

Ontem, o Torres leu um texto muito legal que o Augusto Nunes publicou, no Caderno ‘Ideias’, do JB, sobre o Jorge Amado, aí vai:

“Poucos ficcionistas dominaram tão completamente quanto Jorge Amado a arte de inventar gente. Os personagens do escritor baiano, inspiradores de ilustrações magníficas, transformaram o leitor em diretor de elenco. Além de nome, têm cores e cheiro. Têm até corpo e rosto. Às vezes, existem. Gabriela, por exemplo, tem cor de canela, cheiro de cravo e virou gente com o nome de Sônia Braga.”

É isso, Jorge Amado inventou muita gente, cuja existência não pode ser negada. Claro que Gabriela, Nacib, Vasco Moscoso de Aragão, Quincas Berro d’Água e Pedro Bala existem, sabemos disso. Mais até: ele, de certa forma, inventou a Bahia, nos apresentou e nos fez íntimo de uma terra tão pouco conhecida quando ele começou a publicar seus romances.

Uma apresentação recheada de críticas ao racismo, às injustiças – temas tratados de forma meio esquemática em seus primeiros livros, mas que, aos poucos, foram sendo integrados de maneira mais orgânica aos seus romances. Lembro que, na adolescência, quando precisava de autorização dos meus pais para pegar livros de Jorge Amado no Colégio Metropolitano, no Méier, havia quem fizesse uma crítica de viés feminista ao autor. Dizia-se que ele tratava as mulheres de maneira machista e seu culto à beleza e ao fervor sexual de negras e mulatas poderia ser visto como uma herança da visão da Casa Grande.

Eu prefiro achar que ele nos ajudou a reconhecer a beleza de um povo mestiço, misturado. Seus livros colaboraram para reforçar a ideia de a mulher mais bonita poderia ser uma negra, uma mulata. Mulheres fortes, lutadoras, que, como Tereza Batista, enfrentavam quem tentava estuprá-las.

Jorge Amado também tem um papel importantíssimo ao ressaltar a tolerância religiosa, o respeito que demonstra pelas religiões de matriz africana, em especial, pelo candomblé, é fundamental. Ele soube muito bem abordar a importância destas religiões e de seus mitos – ler seus livros é também uma forma de protestar contra as agressões à fé. Além disso tudo, o cara era um grande contador de histórias, escrevia como se escrever fosse simples – isto não é tudo, mas não é pouco.

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