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Em Portugal, de facto, o acordo pára


Por Fernando Molica em 10 de novembro de 2010 | Comentários (0)

Estação Carioca de hoje, jornal ‘O Dia’

Há quase dois anos, abandonamos o trema; sem o auxílio do acento, passamos a nos confundir com a palavra “para”. Tivemos que reaprender a usar os hífens, compramos novos dicionários. Isto porque fomos obrigados a reaprender a escrever em português. Tudo em nome de um acordo que prometia unificar o nosso idioma. As mudanças fizeram com que livros publicados até 2008 ficassem com a ortografia envelhecida.

Mas basta ver jornais portugueses para descobrir que, por lá, a situação é diferente, eles não parecem empenhados em adotar a nova grafia. Ontem eu li: o jogador Bent irá desfalcar a selecção inglesa; Chico Buarque ganhou um prémio; Portugal e Argélia promoverão “acções e projectos comuns”.

As editoras brasileiras impuseram as novas regras aos seus escritores; as portuguesas, nem tanto: o site da editora Dom Quixote traz palavras como contactos. As edições — inclusive as brasileiras — dos novos livros de autores portugueses como António Lobo Antunes e Inês Pedrosa ignoram as mudanças. O ‘Meu nome é Legião’, de Lobo Antunes, traz a palavra direcção logo na quinta linha. Nem o governo português anda muito animado com o acordo. Seu site, afinal, divulga os correios electrónicos dos ministros.

Não era difícil prever esta situação. Muitos portugueses eram contra a proposta, temiam que a reforma ortográfica representasse o sinal definitivo de uma suposta colonização cultural por parte do Brasil. Ao contrário do que houve por aqui, a assinatura do acordo em Portugal gerou uma série de protestos. Agora, pelo jeito, muitos dos gajos resolveram ignorar o que foi acertado. Não os condeno por isso.

Nós, brasileiros, entramos de gaiatos numa proposta que nossa diplomacia tratou de incentivar. Ao longo dos últimos anos, acompanhamos de longe a história do acordo, achávamos que ele nunca seria implantado. Deu no que deu. Temos agora que nos adaptar a uma maneira artificial e autoritária de escrever. As alterações saíram de gabinetes, não respeitaram o processo de evolução natural da língua. Nunca antes na história de qualquer país se escrevera em português do jeito que nos mandaram escrever.

A situação é tão curiosa que, num jornal paulista, o acordo só pode ser desrespeitado por um jornalista: uma portuguesa que escreve sobre esportes. Pela lógica, os saudosos do português brasileiro terão que dar um jeito de colaborar com jornais portugueses. Que eles topem a reciprocidade.

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