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Eu não sou fascista não


Por Fernando Molica em 31 de outubro de 2010 | Comentários (0)

Saí há pouco do cinema, fui ver o Tropa de elite 2. Um filme que, apesar de importante, não chega a ser um filme, uma obra de ficção. É mais uma reportagem dramatizada, um documentário que não ousa dizer o próprio nome. Tem a pretensão de explicar, didaticamente, como funcionam as relações de poder no Rio. Isto não é pouco, mas fica melhor numa reportagem. Muito inferior ao Tropa 1, TE2 tem méritos – é bem filmado pacas, tem atores espetaculares (Wagner Moura, André Mattos e Sandro Rocha) -, mas é esquemático, estereotipado, resume os conflitos a uma luta entre o bem e o mal. Uma história contada pelo lado do bem, pela quase onipresente voz em off do narrador-herói. Sei não, mas acho que José Padilha, o diretor, fez o filme para provar que não era fascista.

TE1, o filme pra lá de premiado, acabou vítima de uma fatalidade. Foi exibido pela primeira vez na abertura de um festival de cinema. A plateia – uma plateia que em nada representava o público de cinema, era formada por profissionais da área – aplaudiu cenas de tortura explícita, lavou sua alma na violência mostrada na tela. O viva à insanidade gerou críticas, o filme chegou a ser rotulado de fascista.

Vi o TE1 duas vezes, em sessões normais, em cinemas. Em nenhuma delas o público comemorou o olho-por-olho. Ao contrário, a sala ficava quieta, atordoada com a insensatez mostrada na tela. TE1 foi uma porrada. Obra aberta, permitia diferentes leituras. Uns comemoravam a violência do Bope, havia quem se sentisse agredido por ela. Saí trocando pernas na primeira vez que assisti TE1. Já cascudo – sou repórter há 30 anos, já subi muito morro, já cobri um cacetal de porradaria – fui supreendido com uma outra leitura daquele mundo que julgava conhecer. TE1, como ótima obra de ficção, revelava uma nova faceta de um mesmo mundo. Fui jogado nas pedras, de alguma forma acabei sufocado por aquele saco plástico do Bope.

Como ia dizendo: TE1 se aproximava da vida como ela é. O Capitão Nascimento era contraditório, um homem torturado por dúvidas. Tinha apenas uma certeza, a necessidade de deixar aquela maluquice. O filme é incômodo, nos obriga a conviver com nossos fantasmas e preconceitos – atire o primeiro saco plástico quem, ao ser assaltado, nunca teve vontade de dar uma porrada num bandido. TE1 não é fascista, apenas despertava o fascista que pode haver em cada um de nós. Assim, nos incomodava, angustiava, nos fazia pensar.

Os personagens de TE2 têm poucos conflitos. Os maus são muito maus; os bons são muito legais. Promovido, o Tentente-Coronel Nascimento é um herói, um policial do bem, um tira boa gente. Gente como a gente acha que é: para ficar mais parecido conosco, Padilha cuidou de tirar-lhe a farda. Certo de sua função de super-herói, convive apenas com uma contradição, a complicada relação com o filho. Uma historinha meio batida, sem novidades. Apenas uma nova versão para os descompassos entre pais e filhos tão (bem) explorados pelo cinema americano. O Nascimento é legal, o filho dele é legal. Só que, caramba, não se entendem. O roteiro dará um jeito de permitir a possibilidade de entendimento.

No mais, eis a luta do bem contra o mal. Nascimento é herói, e ponto. Um herói que não tem dúvidas, que não pisa na bola. Um herói que faz um discurso cheio de boas intenções. Um discurso chato, óbvio, moralista, constrangedor. Ao tentar se livrar da – injusta – pecha de fascista, Padilha adotou o discurso político da correção e abandonou o cinema. O espectador saía de TE1 tenso, na dúvida sobre seu papel numa sociedade conflitada, era apresentado ao torturador/exterminador que podia existir dentro dele. Era levado a refletir. Agora, sai de TE2 aliviado, não tem qualquer responsabilidade sobre o que ocorre fora da sala de cinema: a culpa é do governador, do secretário de segurança, do comandante da PM, dos milicianos. A culpa é dos outros; ele, espectador é um cara legal, fã do Nascimento. Pena que TE2 tenha sido tão complacente com todos nós. Cinema, como dizia Humberto Mauro, é cachoeira. Filme bom tem que nos jogar contra as pedras. Deve – a exemplo de TE1 e de Ônibus 174 – gerar dúvidas, não explicitar certezas.

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