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Heróis


Por Fernando Molica em 18 de setembro de 2008 | Comentários (2)

A idéia do herói ficou um tanto quanto desgastada, envelhecida. A culpa deve ser, em parte, de Hollywood e de seus dramalhões supostamente edificantes. Por aqui, também tendemos a desconfiar de salvadores da pátria e que tais – não deixa de ser bom. Há um certo ceticismo interessante entre nós, e que acabou derivando para um cinismo nem sempre muito legal.

Li que, aos 75 anos, morreu o Lourenço Diaféria, jornalista que eu e muitos colegas aprendemos a respeitar. Em setembro de 1977, ele chegou a ser preso devido a uma crônica publicada na “Folha de S.Paulo” – reproduzida abaixo. O jornal, em um primeiro momento, protestou – o espaço destinado à crônica seguinte saiu em branco. Pressionada pela ditadura, a “Folha” voltou atrás. Na seqüência, demitiu Cláudio Abramo da Direção de Redação. Em seu lugar, entrou Boris Casoy.

A crônica de Diaféria foi sobre um herói e ele, a seu modo, acabou também encarnando este personagem tão curioso, difícil de ser definido, complicado de ser citado. Bem, aí vai o texto que deu tanta confusão.

HERÓI. MORTO. NÓS.
[Crônica publicada em 1º de setembro de 1977]

Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.

Que nome devo dar a esse homem?

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.

O herói redime a humanidade à deriva.

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.

Está morto.

Um belíssimo sargento morto.

E todavia.

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.

O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.

O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.

No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.

Esse sargento não é do grupo do cambalacho.

Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.

É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.

O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.

Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.

É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.

Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.

Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.

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Comentários
21 de setembro de 2008

Uau, que texto incrível. Torço para que os filhos órfãos jamais tenham esquecido o gesto do pai.

Lara
18 de setembro de 2008

Belíssimo texto.

Marcelo