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PONTOS DE PARTIDA, O BLOG DO MOLICA

‘Não há respostas definitivas na ficção’


Por Fernando Molica em 05 de abril de 2016 | Comentários (0)

Entrevista no Blog da Editora Record sobre ‘Uma selfie com Lenin’:
Por Juliana Krapp

Sozinho em pleno voo, enquanto viaja entre dois continentes, um jornalista carioca se ocupa de escrever uma carta. A destinatária é Eloísa, ex-namorada e ex-chefe, poderosa assessora política. Enquanto desbrava a personalidade e a trajetória da mulher, o protagonista de Uma selfie com Lenin passa em revista a própria jornada, desde que era um repórter mal remunerado até se converter em redator a serviço de políticos de caráter duvidoso. Na missiva, há espaço ainda para ecos de notícias do Brasil, como as manifestações de 2013 e 2014 e o desencanto com o projeto de esquerda para o país. Com um viés ao mesmo tempo melancólico e irônico, Fernando Molica desvela conflitos éticos e dilemas que marcam a rotina contemporânea, elaborando uma crítica perturbadora de nossa sociedade — da política ao amor. Redige uma trama ágil e original, que tem como ponto de partida a história de um romance turbulento e de uma decisão inusitada: desaparecer. Com isso, também apresenta um saboroso tratado sobre poder e injustiça, memória e esquecimento, desejo e perplexidade. Ou, como afirma nesta entrevista, parafraseando a canção: sobre as pequenas dores que se avolumam, o tipo de dor que, tão da gente, “não sai no jornal”.

“Uma selfie com Lenin” será lançado nesta terça (05/04), na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio de Janeiro, a partir das 19h.

Fernando Molica é autor dos romances Notícias do Mirandão, O ponto da partida e O inventário de Julio Reis (publicados pela Record), Bandeira negra, amore o infanto-juvenil O misterioso craque da Vila Belmira. Notícias do Mirandão e Bandeira negra, amor foram publicados também na Alemanha. Lançou ainda o livro-reportagem O homem que morreu três vezes (Record), que recebeu menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog. Jornalista, assina uma coluna diária no jornal O Dia.
As múltiplas faces do poder e suas peculiaridades na rotina brasileira têm sido elemento marcante em suas narrativas, desde que estreou com Notícias do Mirandão. É, também, matéria-prima de Uma selfie com Lenin. Questão de realismo? Ou, em outras palavras: este é um tema fundamental para encarar o contemporâneo?

Não vejo como busca de realismo, afinal, estamos falando de ficção, de histórias inventadas. A realidade que importa num romance é aquela narrada em suas páginas. Um livro de ficção científica, passado no século 25, pode ter um viés realista. Volta e meia nos emocionamos com relatos descaradamente ficcionais, torcemos para personagens que, sabemos, nunca existiram. O fato de a maioria dos meus romances trazer referências à vida contemporânea não os faz mais ou menos realistas. Procuro contar a história de personagens, suas angústias, suas alegrias, seus amores, suas frustrações. Meu foco está neles e na linguagem que utilizo para tratar das histórias. Mas os personagens vivem numa determinada época, são influenciados por tudo que os cerca, e cada um reage de maneira diferente a temas que dizem respeito à vida de uma sociedade. É razoável que os personagens sejam afetados por questões relacionadas à vida do país, que se deparem com dilemas pessoais e éticos a partir em algumas situações. A atual discussão sobre corrupção tem a ver com o poder e com os governantes mas também com cada um de nós, sobre como reagimos a questões éticas que nos são colocadas no dia a dia.

O Rio de Janeiro tem sido cenário primordial de seus romances. Desde Notícias do Mirandão, quando passeia pela periferia, até O inventário de Julio Reis, no qual o Centro da cidade é quase um personagem por si só, a capital fluminense sempre teve papel preponderante. Desta vez, porém, o protagonista está em pleno voo, numa viagem que já dura meses e na qual busca exatamente a distância e a solidão. Sua prosa também está em trânsito?

É bem possível que esteja, até espero que minha prosa esteja sempre em trânsito, em movimento, mas não penso muito sobre isso antes de escrever um livro. Depois de algum tempo é que tenho uma certa perspectiva do que foi feito. Meus três primeiros romances são passados no Rio contemporâneo, acabaram formando uma trilogia que não havia sido prevista ou planejada. O primeiro livro se passou num subúrbio e numa favela da Leopoldina; no segundo, os protagonistas viviam no Méier e em Botafogo e trabalhavam no Centro. Em O ponto da partida, o terceiro, a ação ficou restrita a Ipanema e Leblon. Meus personagens, veja só, até desfrutaram de uma certa ascensão social. No meu infanto-juvenil, O misterioso craque da Vila Belmira, a trama se passa no presente, mas com muitas referências ao passado. No Inventário, a prosa, como você diz, viajou até o início do século 20, mas trata também de dilemas que estão presentes hoje. Em Uma selfie com Lenin, a viagem também foi pra longe, para um não lugar, como frisa o narrador. Afinal, ele escreve a carta que é o próprio romance dentro de um avião que voa da Europa para a Ásia, ele não está em nenhuma cidade, em nenhum país. Talvez, não sei, não foi algo decidido previamente, este distanciamento do personagem/narrador tenha viabilizado uma visão mais abrangente de sua própria vida, menos participante. O livro é narrado na primeira pessoa, mas ele trata dos fatos de uma maneira distanciada, de alguém que está longe do país, e a nove mil metros de altura. O sujeito está longe de seu país, de sua mulher, da vida que tinha por aqui, acompanha de longe as notícias brasileiras, talvez por isso tenha decidido fazer uma espécie de acerto de contas, sentiu necessidade de explicar a razão de seu desaparecimento.

O processo de mudança do protagonista, repórter que se vê encurralado pelos dilemas de uma profissão em metamorfose, funciona evidentemente como metáfora do jornalismo atual. E talvez você seja o autor brasileiro que melhor tem descrito, em sua ficção, as características e mutações do fazer jornalístico no Brasil. Tanto que, na Enciclopédia Itaú Cultural, o verbete ‘Fernando Molica’ aponta: haveria, em seu projeto literário, a busca por novo significado nas relações entre literatura e jornalismo. Para você, hoje, a parceria ficção-jornalismo é mais um jogo de tensões ou um casamento harmonioso?

Eu nunca busquei o tal significado nessas relações, nem parei para pensar num eventual projeto literário. Já tive, entre protagonistas de romances anteriores, advogado, traficante, militantes de ONGs, oficial da PM, músico e jornalistas. E, neste, trato de outro jornalista, mas isso não tem a ver com uma eventual necessidade de discutir a profissão e seus impasses. O foco, insisto, está nos personagens. Minha opção de colocar um outro jornalista em cena está mais relacionada ao meu conhecimento deste universo profissional, acaba sendo mais fácil descrever algumas rotinas de um jornalista do que, por exemplo, a de um médico. No caso específico de Uma selfie com Lenin, os impasses profissionais e a troca da vida de repórter pela de assessor de políticos causam alguns impasses, o que gera certo aprofundamento no relato de práticas profissionais. Mas são dilemas, amorosos, éticos e profissionais que também poderiam ser enfrentados por um médico de hospital público que virasse diretor de um plano de saúde, por um professor nomeado para um cargo relevante num governo não muito honesto. Quando sento para escrever ficção, o fato de ser jornalista não tem a menor importância. Literatura e jornalismo são atividades, arrisco dizer, contraditórias. No meu caso, a distância entre o jornalista e o escritor é cada vez maior, temo até que eles cortem relações. Jornalistas e ficcionistas — e há muita gente que acumula os dois ofícios — contam histórias, escrevem, mas com abordagens absolutamente diversas. Seria como um engenheiro que também fosse escultor — nas duas profissões ele lidaria com projetos, com materiais como madeira e metal, com a fabricação de objetos. Mas seriam objetos com propostas bem diferentes. O ficcionista e o jornalista partem de pressupostos completamente diferentes. Antagônicos, até. O jornalismo é baseado numa lógica moral e institucional, busca certezas, se baseia na lei e na ordem, define o bem e o mal, o certo e o errado. Mesmo quando questiona o poder e as leis, e o faz com frequência, busca uma nova institucionalidade, uma adequação, a criação de uma nova realidade, clama por mais hospitais e escolas e menos corrupção. O jornalismo, e sou jornalista há mais de 30 anos, acredita que o mundo vai melhorar se determinados pressupostos e regras forem seguidos. Eu, como escritor, não tenho muitas ilusões em relação a isso. A literatura, como as artes em geral, não tem compromissos com qualquer projeto institucional, não tenta dar receitas de bolo. Como jornalista, como cidadão, quero que o casal condenado por jogar uma menina pela janela fique décadas na cadeia. Como romancista, quero tentar entender aquelas pessoas, aqueles seres humanos, tentar descobrir o que pode ter gerado aquele gesto extremo. Os cidadãos outrora honestos que resolveram participar de atos de corrupção são detestáveis, mas, ao mesmo tempo, ótimos personagens. A dor da gente não sai no jornal, diz um verso daquele samba [‘Notícia de jornal’, de Haroldo Barbosa e Luiz Reis] gravado pelo Chico Buarque, que cito num dos meus romances, acho que no Notícias do Mirandão. Eu, como autor de ficção, quero tratar desta dor que não sai no jornal, das pequenas dores que se tornam imensas dentro de cada um de nós. Dores que nunca seriam notícia de jornal, mas doem, e como doem.

A dor, por exemplo, de quem vê em xeque o projeto da esquerda para o país, certo? Imagino que não seja à toa que este novo romance se chame Uma selfie com Lenin e traga referências às manifestações de 2013, aos dilemas de quem vive na política, a escândalos de corrupção.

É, no livro eu trato desses temas, mas sempre na ótica dos personagens, não estou interessado em discuti-los a partir de um ponto de vista jornalístico ou sociológico. O romance se passa entre 2013 e início de 2014, na época das grandes manifestações. Busco saber como aquelas passeatas e o pipocar de casos de corrupção repercutiram na visão de mundo do protagonista. Sou de uma geração que acreditou no processo de redemocratização e de busca de alguma justiça social. Havia uma expectativa de que governos de esquerda rompessem com a lógica de corrupção que, havia tantas décadas, marcava a política brasileira. Afinal de contas, durante a ditadura, a esquerda ficou fora do poder, nem tinha como participar das negociatas que então ocorriam, e muitas ocorreram, foi honesta até por falta de opção. A revelação de que a esquerda, no poder, também participava de safadezas e montava e aprimorava esquemas de corrupção quebrou certo encanto, fez com que nos tornássemos mais adultos, ou mais cínicos, ou mais ricos, depende do caso. Mas, como eu disse, o que me interessa no livro é especular como esse processo pode ter influenciado a vida dos personagens. O título do livro tem a ver com isso, a tal selfie com a estátua do Lenin tem um viés meio melancólico e irônico.

Dilemas éticos, política, relações contemporâneas e o mundo da comunicação social são temas do livro. Mas Uma selfie com Lenin é, também, uma história de amor. Labiríntica, angustiante e repleta de desencontros — ainda assim, uma história de amor. Você acha que a ficção tem dado conta de representar os desafios das relações amorosas de hoje?

Acho que, como nos amores, não há respostas definitivas na ficção. Na vida, nas relações amorosas, a gente vai tateando, erra, acerta, bate na trave, erra o chute, faz gol contra. Seria certa ambição achar possível representar todos esses desafios. A literatura pode mais captar esses impasses, traduzi-los, elaborá-los. Permite um diálogo com o leitor. Viabiliza, principalmente, o conhecimento do outro, mesmo que um outro ficcional. Temos passado por tempos muito chatos, cheios de certeza, um fla-flu interminável, em que muita gente demonstra ter razões absolutas. Houve, nas últimas décadas, muitas mudanças na abordagem das relações amorosas, mas, no fim das contas, volta e meia nos deparamos com sentimentos muito parecidos com os vivenciados por nossos avós. Sem ter esta ambição explícita, os personagens de Uma selfie se deparam com dilemas profissionais, geracionais e éticos que acabam sendo levados para a esfera sentimental, para a cama. A ficção colabora para ampliar uma discussão, permite que se busque mais entender a razão do outro, o que é fundamental. O principal é a busca, a tentativa e erro.
Seu protagonista-narrador recorre a uma forma em extinção — a carta — para escrever a história de Uma selfie com Lenin. Há, também, certo saudosismo que permeia o romance, numa tensão permanente entre o anacrônico e o atual, o ultrapassado e o fluxo de novidades que engole tudo. Há um tipo especial de saudade em nossos tempos? Como a literatura lida com isso?

Eu não diria saudade, mas certo susto diante de tantos estímulos. A carta é algo bem mais pessoal que o e-mail, a variação da letra mostra nossas emoções, há rabiscos, erros. Aquele papel é manuseado por quem a escreve e por quem a recebe, é algo físico. Lembro que, quando eu era criança, minha mãe adorava cantar uma música (‘Mensagem’, de Cícero Nunes e Aldo Cabral) que falava do drama de uma pessoa diante da chegada de uma carta. O personagem nem lê a carta, a queima, com medo de saber o que havia sido escrito. Eu achava aquilo um exagero, o medo de ir ao portão e receber a carta. Acho que, agora, entendo melhor aquele dilema. Em outros livros havia diferentes narradores ou pontos de vista. Desta vez, joguei tudo na primeira pessoa. Como o narrador cita logo no início, a foto, que tantas gerações aprenderam a encarar como documento, como fixação de imagens, se transformou em algo volátil, tanto que as imagens digitais raramente são impressas. Tenho mais de mil fotos arquivadas, esperando ganhar o direito de ir para o papel. Com tanta facilidade de fotografar, de registrar imagens, a foto deixa de servir para guardar memória, funciona mais como algo que marca um tempo presente, meio que perde seu compromisso com o futuro, com a história que será contada daqui a dezenas ou centenas de anos. O que importa é fazer a foto, publicá-la na rede social, e nunca mais olhar para ela. Ficou tudo rápido demais, em poucas décadas, mecanismos de fixação de memória se tornaram obsoletos — disquetes grandes, disquetes pequenos, CDs, DVDs, pen drives, tudo isso acabou ou está acabando. Temos, a cada dia, mais instrumentos para guardar memórias que, ali na esquina, serão descartadas, esquecidas. Ao ser comunicado que tinha Alzheimer, o ex-presidente Ronald Reagan disse talvez a única frase sábia de sua vida. Comentou que, graças à doença, passaria a conhecer pessoas novas todos os dias. Acho que estamos vivendo essa ilusão de que a memória ficou passageira, que pode ser reinventada, reescrita, que cada postagem no Facebook termina um ciclo de vida e dá início a outro. Parece que estamos todos com Alzheimer.
Como a literatura se enreda no seu rol de atividades? Qual seu método de trabalho?

Adoraria seguir o conselho de colegas escritores, que acham fundamental escrever ficção todos os dias, até para não perder a embocadura, mas não dá. De vez em quando fico com saudade da ficção, acho que um determinado mote pode dar samba, digo, romance. Foi assim, creio, em todos os meus livros. Este novo teve como ponto de partida uma viagem que, em 2014, fiz sozinho por algumas cidades europeias. Na volta, pensei em fazer uma espécie de guia comentado de viagem, algo que desse minha visão sobre os locais visitados. Só que o projeto foi mudando. Na medida em que eu escrevia o texto apareceu um personagem que me apresentou a outros personagens, e eles me deram uma enquadrada, decidiram que eu tinha que seguir por outro caminho, isso quase sempre acontece. Aí, como disse outro escritor, acho que o Marçal Aquino, resolvi seguir escrevendo para ver como é que a história iria acabar. Quando estou escrevendo ficção, reservo as manhãs para a tarefa, meu trabalho no jornal começa no início da tarde. E não consigo escrever nada depois de um dia inteiro de trabalho. Gosto muito quando alguém me encomenda um conto ou uma crônica, isso me obriga a sentar para escrever.
Já tem ideia para um novo livro? Em que tipo de história gostaria de trabalhar?

Tenho algumas ideias, ainda meio vagas. Tenho pensado em reunir e publicar algumas crônicas que escrevi nos últimos anos, em escrever alguns contos. Mas ainda são projetos muito iniciais.

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