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O novo estádio do bairro do Maracanã


Por Fernando Molica em 17 de maio de 2013 | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 01/5:

As aparências — externas — enganam. O moderno e bonito estádio de futebol localizado no bairro do Maracanã não é o Maracanã. Não se trata de saudosismo, mas de uma constatação. Sábado, me vi perdido num local que frequentava desde os meus 6, 7 anos e comprovei minha certeza de não encontrar o o Maraca que também era meu. Um estádio que conheci menino, levado por meu pai. Ele que então ressaltou a particularidade de a marquise não ser sustentada por colunas. Não há mais a tal marquise.
O novo estádio, que lembra ginásios do basquete americano, é bonito e terá papel importante na cidade. Isto, apesar de alguns poréns, como a decisão de colocar a primeira fila de cadeiras no nível do gramado, o que afeta a visibilidade do público e pode comprometer a segurança. Mas, insisto, não é o Maracanã: fiquei triste ao, pela primeira vez, não receber o impacto, antes sempre renovado, de encarar a imensidão da arquibancada, desafiadora e acolhedora. Arquibancada que abraçava, surpreendia e encantava. Bateu a sensação esquisita de não reconhecer minha própria casa; a reconstrução do estádio não teve o cuidado de preservar, na área interna, referências do Maracanã — sequer consegui localizar onde ficavam as cabines de rádio. O fim do espaço que separava arquibancadas das cadeiras azuis, uma caverna quase circular, tirou volume e parte da grandiosidade do espaço ocupado pelo público, que ficou parecendo uma forma de empada.
Os responsáveis pela reforma do Estádio Olímpico de Berlim mantiveram a tribuna tantas vezes usadas por Hitler — a história não pode ser esquecida — e a pista onde o negro Jesse Owens derrubou a suposta superioridade branca. Eu, sábado, sequer conseguia saber em que lado do campo o Maurício fez, em 1989, num dos dias mais felizes da minha vida, o gol que lavou duas décadas de decepções. Não identifiquei também o trecho da arquibancada onde encontrava meus amigos.
Claro que o Maracanã precisava ser reformado, mas o processo deveria ter sido diferente: o tombamento do estádio foi atropelado, não houve sequer um concurso público para a escolha de um projeto capaz de conciliar conforto, segurança, tradição e modernidade. Mas, enfim, temos um novo espaço. Cabe a nós, torcedores, o desafio de humanizá-lo, de fazer com que, ao longo do tempo, também passe a ser nosso.

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