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O pacto carioca de convivência


Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Comentários (0)

Aqueles manés que interpelaram o Chico Buarque por conta de sua simpatia com o PT cometeram, além do pecado da intolerância, um atentado a uma antiga tradição carioca — a de deixar que artistas caminhem pelas ruas com tranquilidade. Nem mesmo a disseminação dos fotógrafos de celebridades rompeu com este pacto informal, resultado de décadas e mais décadas — séculos, até — de convivência com imperadores, presidentes e muitos e muitos e artistas, da antiga Rádio Nacional, do Cassino da Urca, da Atlântida, da Globo.

Além disso, a cidade tem praia, espaço democrático de lazer que é frequentado também por gente que aparece na TV, em capas de revistas. Pode parecer esquisito pro pessoal que associa a visão de famosos a lugares caros e fechados, mas, até por conta do calor e do mar, desenvolvemos aqui o hábito de ir pra rua. E isso vale para todo mundo, anônimos ou não.

Talvez esse nosso costume de fingir que não dá bola para a Camila Pitanga tenha a ver também com uma certa marra carioca. Nossa fingida indiferença seria também uma forma de mostrar que, por aqui, todo mundo é um pouco estrela mesmo (“mermo”, em carioquês). Além disso, essa postura é essencial para que esses artistas continuem a gostar de morar na nossa cidade — eles não trocam o Rio por Miami.

Como estamos em período de férias, de vinda de turistas, vou tentar resumir este ponto essencial do manual de boas maneiras cariocas. É bem provável, visitante, que você, em andanças pelo Rio, veja o Caetano, a Fernanda Montenegro, algum ator ou atriz da novela das 21h. Se isso acontecer, OK, basta dar uma olhadinha, comentar com quem estiver do seu lado. E pronto, mais nada. Você consegue, acredite.

Sábado retrasado, o Vicent Cassel, ator francês, estava na quadra da Mangueira, acompanhado por amigos e por uma moça espetacular — todos ficaram no chão da quadra, não foram para um camarote. Com exceção de um sujeito que pediu uma selfie (devidamente negada com um “Desculpe, mermão”), ninguém mais encheu o saco do cara. Então, por favor, caro forasteiro, seja bem-vindo, aproveite a cidade, mas deixe os nossos vizinhos em paz.

Estação Carioca, O DIA, 28/12.

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