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O presidente biônico


Por Fernando Molica em 01 de setembro de 2016 | Comentários (2)

Michel Temer deixou de ser um presidente interino para se transformar num presidente biônico. Repete assim a trajetória dos senadores sem-voto que, na ditadura, enriqueceram nossa coleção de casuísmos políticos.

Em 1977, preocupado com a repetição da derrota eleitoral de 1974, quando o MDB conseguira 16 das 22 vagas em disputa para o Senado, o general-presidente Ernesto Geisel fechou o Congresso e baixou o que seria conhecido como o Pacote de Abril. Entre as medidas, a que transformava em indireta a escolha de metade dos senadores em 1978, quando cada estado elegeria dois representantes.

Os senadores sem-voto seriam eleitos por colégios eleitorais formados pelas assembleias legislativas e por representantes de câmaras municipais, mecanismo que permitia ao governo saber o resultado da partida antes mesmo de seu início. Os escolhidos para receber o cargo de senador foram logo apelidados de “biônicos”, referência à série ‘O homem de seis milhões de dólares’, em que o ator Lee Major interpretava Steve Austin, um astronauta que, depois de um grave acidente, teve o corpo reconstituído graças à implantação de dispositivos eletrônicos que aumentavam sua força.

Apesar da existência, na época, de uma confraria de biônicos – presidente, governadores e prefeitos das capitais e de algumas outras cidades eram escolhidos pelo voto indireto – a ditadura inovava ao levar a mesma lógica para o Poder Legislativo. Uma ditadura que prezava as aparências, ao longo de seus 21 anos, manteve eleições, insistia que não deixava de cumprir a Constituição, ainda que esta pudesse ser modificada sem consulta ao Congresso. Havia uma “democracia relativa”, como a definiu o próprio Geisel.

Muitos poderão alegar que Temer não se encaixa no figurino de biônico por ter sido eleito juntamente com Dilma. O problema é que ele, ao integrar a chapa, comprometera-se com um determinado programa. Um ano depois da reeleição, o peemedebista, já engajado na destituição da titular, apresentou uma outra proposta de governo. Para ficar na lógica do homem-máquina: o hardware, o próprio Temer, era o mesmo; mas o software tinha características opostas às do original. A programação foi toda mudada.

Ao conspirar de forma aberta contra a então presidente, Temer rompeu com a chapa e com os eleitores que haviam votado num determinado programa. Agiu como o Hal, o computador de ‘2001, uma odisseia no espaço’ que se rebelou contra os astronautas, seus parceiros de viagem.

O processo que levou à defenestração de Dilma não foi exatamente um impeachment – desde o início ficou claro que, mais do que afastar a presidente, havia a proposta de se implantar um novo programa de governo. Temer, ao contrário de Itamar Franco no caso Collor, não agiu como o substituto constitucional da presidente, mas como seu adversário.

Ele transformou rito do impeachment em campanha eleitoral, fez do Palácio do Jaburu um comitê para receber deputados e senadores que viabilizariam sua ascensão ao Planalto. Prometeu, negociou cargos, assumiu compromissos em troca de votos – agiu como quem disputava uma eleição indireta.

Na última quarta-feira, 27 anos depois da primeira eleição direta para presidente depois da ditadura, o plenário do Senado – o mesmo que recepcionou os biônicos – não recebeu os encarregados de julgar Dilma, mas os integrantes de um colégio eleitoral como aqueles que, há algumas décadas, ungiam governantes e senadores. O programa de Temer, assim, chega ao Palácio do Planalto com o voto de apenas 61 pessoas, técnicos que aprovaram o projeto do novo ciborgue.

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Comentários
05 de setembro de 2016

Ricardo, você, claro, tem todo o direito de discordar de mim. No texto, explico a razão de não considerar esta sucessão assim tão natural, afinal, o Temer quer implantar um programa de governo que não foi submetido ao voto popular. Mas, enfim, respeito sua opinião. Mas, não entendi quem são o "vocês" que você cita. O texto é apenas meu, não foi escrito com outra pessoa. Boas ou ruins, relevantes ou irrelevantes, são as minhas opiniões. Muita gente pode ter pensamentos parecidos com os meus ou com os seus, mas é bom que, até por uma questão de respeito pelas ideias alheias, tratemos os outros individualmente.

Fernando Molica
05 de setembro de 2016

Presidente biônico só na imaginação de vocês. Na vida real, Michel temer é o único que tem legimidade para governar o país na ausência ou deposição de Dilma. Legimidade esta dada pelos próprios eleitores de Dilma. https://www.youtube.com/watch?v=PLvSnsj77Ak

Ricardo Reis