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O que pode e o que não pode


Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Comentários (0)

Mestre Janio de Freitas costuma dizer que, em textos jornalísticos, a única palavra que ninguém pode esquecer de escrever é “não”. O motivo é óbvio, sua ausência modificaria todo o sentido da frase. Além de anotar a lição, criei minha lista de palavras que devem ficar longe de uma reportagem: implico com “guloseima” — substantivo que, ironia, só existe nas páginas de jornais. Duvido que algum falante da língua portuguesa tenha, alguma vez, pronunciado esta combinação de sílabas.

Tenho arrepios também com o uso do “verdadeiro(a)”: “Verdadeira praça de guerra”, “Verdadeiro caos”. Em tese, jornais só publicam verdades; se a praça de guerra e o caos fossem de mentirinha, nem sequer seriam assunto jornalístico. O “verdadeiro(a)” não passa de uma muleta de estilo, algo redundante. Da mesma forma, grudar o adjetivo “bárbaro” à palavra “assassinato” pressupõe a existência de homicídios fofos e delicados.

No alto da minha lista de proibições está o “pode”, palavrinha desprovida de qualquer caráter. O motivo da implicância é porque, afinal, tudo pode. É improvável, mas o Botafogo pode contratar o Messi, o Bolsonaro pode passar a defender direitos civis de homossexuais, a Dilma pode ganhar o Nobel de Economia, o Eduardo Cunha pode virar monge beneditino, o PSDB pode passar a se preocupar mais com a eleição de 2018 do que com a de 2014. E, por que não?, a Sophie Charlotte pode me ligar e começar a cantar ‘Sua estupidez’ (fique tranquilo, Daniel de Oliveira, eu desligaria o telefone).

Insisto: nada disso deverá acontecer, mas não há lei que impeça a ocorrência de tais fatos. Daí que a palavra “pode” carrega uma imprecisão incompatível com qualquer tentativa de objetividade. Isto vale para o relato jornalístico (“Fulano pode ter roubado”; “Beltrano pode assumir tal ministério”) e para a esfera judicial.

O “pode” é relevante no processo de apuração de uma reportagem ou de um crime, é até essencial na formulação de hipóteses que, depois de muito suor, serão ou não comprovadas. Seria quase impossível desvendar um fato sem elencar possibilidades ou probabilidades. Mas depois que tudo tiver sido apurado, o pode deve ser chutado pra bem longe.

A questão, portanto, é manter o “pode” em seu devido lugar. Com base no “pode”, repórteres, policiais, promotores e namorados desconfiados de traição têm o direito ou o dever de investigar. O que não pode é embrulhar o “pode” em papel de presente e enviá-lo travestido de informação para o leitor ou espectador. Da mesma forma que ninguém deveria ser preso por conta de um crime que pode ou não ter cometido.

Estação Carioca, O DIA, 29/2.

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