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Os meninos do Barcelona


Por Fernando Molica em 15 de dezembro de 2011 | Comentários (0)

Colua Estação Carioca, jornal O DIA, 14/12/11

Se eu tivesse uns nove anos e fosse bom de bola, sonharia com La Masia, a incubadora de craques do Barcelona. Desejaria virar um Xavi, um Iniesta, um Messi. Diante dos velhos problemas do futebol brasileiro, La Masia surge como uma espécie de paraíso para todo garoto peladeiro. Lá, os jovens candidatos a craques têm toda a estrutura necessária para desenvolver seu talento.

Mas, para citar um livro do André Sant’Anna, será que o paraíso é assim tão bacana? Sábado, depois de me deslumbrar com mais uma vitória do Barça, vi, no ‘Jornal Nacional’, uma reportagem sobre a nova La Masia, um prédio de cinco andares que é residência e escola para meninos a partir dos 12 anos. Aos poucos, comecei a perder meu encanto com toda aquela organização. Em que pese a paixão que vive em cada um de nós, torcedores, a máquina do Barcelona tem o objetivo principal de gerar e movimentar dinheiro. Tanto que, volta e meia, nomes de dirigentes ligados ao clube aparecem publicados ao lado de palavras como ‘acusado’ ou ‘suspeito’. O futebol celestial do time catalão também tem seus demônios.

Os meninos de La Masia são bem tratados para que tornem a indústria ainda mais lucrativa. O centro de treinamento e de concentração lembra aqueles requintados haras, locais onde cavalos são confinados para treinar e gerar lucros. Recebem todos os cuidados, têm direito a uma farta e equilibrada alimentação, aos melhores veterinários. Assim como os cavalos, os tais jovens viram peças da fábrica de craques — por sinal, a palavra peças, tão comum no futebol, já foi usada no Brasil para designar escravos.

Os garotos do La Masia deixam de ser meninos, são transformados em capital, em fonte de futuros lucros. Acabam afastados de suas famílias, de suas amizades, de seus países, de suas referências. Não frequentam escolas convencionais, têm como amigos apenas os colegas/rivais do Barcelona — até suas primeiras paixões serão subordinadas à lógica da vida em La Masia. Aos 12 anos, não têm direito a dúvidas quanto ao futuro; seus destinos estão traçados, há um dever a ser cumprido. Em muitos casos, passam a carregar expectativas de prosperidade de toda a família: e ai dos que não corresponderem aos planos alheios. Em eventuais momentos de fraqueza, ouvirão que são ingratos, que não dão valor à sorte, à oportunidade que receberam. Sei não, mas tenho alguma pena dos privilegiados meninos do Barça.

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