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PONTOS DE PARTIDA, O BLOG DO MOLICA

Retrato de um compositor quando ficção


Por Fernando Molica em 11 de abril de 2012 | Comentários (0)

Matéria publicada em ‘O Globo’, 10/4.

O jornalista Fernando Molica lança hoje romance sobre Julio Reis, seu bisavô

O jornalista Fernando Molica se firmou como romancista na década passada com
três livros (“Notícias do Mirandão”, “Bandeira negra,amor” e “O ponto da partida”) nos quais podia até transparecer sua experiência profissional, mas nada de sua vida pessoal. Já a quarta incursão pela ficção — com lançamento hoje, às 19h, na livraria Saraiva do shopping Rio Sul — tem um pé dentro de casa: os protagonistas de “O inventário de Julio Reis” (Record) são seu bisavô e seu avô.
Mas é só um pé, ressalta ele, pois as informações que tinha sobre o compositor Julio
Reis, seu bisavô, não seriam suficientes para escrever biografia, caso optasse
por esse caminho.
— Eu tinha um personagem muito duro, rígido, de cartola. Não tinha nada da emoção desse cara, daquilo que o movia na música. Precisava dar alma a esse personagem. Achei que a ficção criaria essa possibilidade — conta Molica, ex-O GLOBO, TV Globo e atualmente titular da coluna “Informe do Dia”, do jornal “O Dia”.

Final de vida sem prestígio
Julio Reis (1863-1933) foi um compositor que teve sua notoriedade no cenário da música clássica do Rio no fim do século XIX. Compôs várias peças de concerto, sendo “Vigília d’armas” a mais conhecida, a ópera “Heliophar” e uma outra ópera que deixou inacabada, “Sóror Mariana”.
A luta para fazer valer uma promessa de subsídio público para encenar a segunda ópera lhe custou tempo e prestígio, contribuindo para que terminasse a vida pobre e desgostoso. Mas a razão maior de sua decadência foi ter, tanto como compositor quanto como crítico que escreveu para diversas publicações, fincado pé contra
a modernização da música de concerto, a ponto de revelar que saíra no meio de uma
apresentação de Villa-Lobos.
— Ele foi um Carlos Gomes (1836-1896) fora do tempo, chegou 20 anos depois — afirma Molica, que reveste o livro de informações sobre as mudanças pelas quais o Rio passou no início do século XX, um projeto de modernização urbana que também soterrou tradições culturais como as que o solene Julio Reis cultivava.
O escritor chegou ao compositor por meio do avô, a quem chamava de Mário, mas que no livro é Frederico (seu primeiro nome), artifício que usou para distanciar-se do vínculo afetivo que prejudicaria a ficção.
— Digo que tive uma inspiração de caráter bíblico, pois vi que não chegaria ao pai sem
passar pelo filho. Meu avô levou a vida inteira buscando o pai, com quem teve uma relação distanciada. E ele acabou tendo uma relação distanciada com os próprios filhos — conta Molica, que alternou os capítulos: os da época de Julio Reis são narrados pelo próprio; os que mostram a angústia de Frederico por rever as
obras do pai sendo tocadas são em terceira pessoa.
Julio Reis documentou bem sua vida, guardando críticas dele e sobre ele, notícias da
época e cartas que escreveu, como as da batalha por “Sóror Mariana”. O acervo foi herdado pelo filho, que passou para uma filha, que em 2008 repassou para Molica, já conhecedor da história do compositor.
Após muito ler o material, ele decidiu criar uma obra de ficção em que, se possível, o
leitor sequer precisasse saber de suas relações familiares com os personagens.
— Não queria que o livro se subordinasse a isso — diz.
Mas ele se empenhou em realizar um desejo do avô: “Vigília d’armas” será novamente
tocada no dia 19, na UniRio, com regência do maestro Branco Bernardes. E,
ainda, um do bisavô: doou o arquivo que tinha sobre Julio Reis para a Biblioteca Nacional.Luiz Fernando Vianna

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