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PONTOS DE PARTIDA, O BLOG DO MOLICA

Tamborim


Por Fernando Molica em 15 de dezembro de 2014 | Comentários (0)

O pacote destacava-se entre a papelada jogada na mesa atulhada de processos. Uma caixa de papelão com uns 50 centímetros de comprimento, uns 30 de largura, 10 de altura. Já meio encoberta por dois ou três envelopes e por uma revista corporativa que, envolta num envelope transparente, aguardava o momento de ser jogada no lixo. Quem manda tanta besteira? Ninguém lê tantos comunicados, folders, panfletos. Quantas árvores não são assassinadas para gerar publicações insossas, irrelevantes, laudatórias, papéis natimortos, que parecem ser produzidos apenas para alimentar a indústria da reciclagem? Atividade que, assim, contraria sua lógica original, deixa de economizar energia. Ao contrário, gasta mais e mais recursos na reelaboração de inutilidades. Melhor seria interromper o ciclo, abortar a primeira leva de páginas coloridas, atraentes, bem diagramadas, que se expõem como putas em vitrines de Amsterdam, mais notadas do que consumidas. Deixa pra lá, dane-se, todos consideram importante tudo o que escrevem.

Cabia abrir o pacote com cara de presente corporativo fora de época, nada de Natal ou de Dia do Advogado à vista. Pelo peso, menos de um quilo, não deveria ser outro daqueles livros parrudos, cheios de fotos, produzidos por empreiteiras que se valem de leis de incentivos fiscais. Retira uma fita adesiva aqui, abre uma lingueta, e pronto, aí está o conteúdo. Um tamborim e uma baqueta. Objetos que, ali, pareciam reeditar a velha piada da cegonha que troca o endereço e deixa o bebê branco na família de negros, ou o contrário. A cegonha errara ao entregar o instrumento em sua sala – ampla, envidraçada, todos viam o que se passava por lá. Ele, sua mesa, o computador, a papelada, os processos, os envelopes, a revista corporativa, a lata do lixo, o paletó nas costas da cadeira – e, agora, o tamborim e a baqueta presos às suas mãos, à vista de todos. Imaginava-se flagrado com uma revista pornográfica que unisse crianças e zoofilia. Como se livrar de um tamborim e de uma baqueta diante de 40 pessoas? Como dizer não é nada disso que vocês estão pensando, este tamborim não é meu, nem o conheço, apenas passou por aqui, o dono já deve estar voltando para resgatá-lo. Vai ver que precisou ir ao banco, pagar umas contas, foi almoçar. Melhor nem olhar em volta, qualquer movimento o denunciará, amplificará a cena, o imprevisto, o inusitado, os estereótipos, o tamborim, o olha lá, o carioca acha que isso aqui é escola de samba, traz até pandeiro – sim, eles são capazes de errar a designação do objeto – para o trabalho. Mêu, isso aqui é lugar de trabalho, não é lugar de batuque, viu? Merda de tamborim. Por sorte, deixara a mochila aberta, no chão. Bastava se abaixar um pouco e deixar que tamborim e baqueta escorregassem para o interior daquela boca molenga, não seria difícil acertar o alvo. Depois, bastaria puxar o fecho ecler – zíper é coisa de paulista. Deu certo, acabou. Crime perfeito, sem provas, talvez até sem testemunhas.

No quarto do hotel, como se abrisse a tal revista de pedofilia zoológica. Pelo menos, a salvo de olhares de recriminação. Ele e o tamborim, me Tarzan, you Jane. Plec. Plec. Plec. De novo, e mais uma vez. Plec. Plec. Plec. E o plect correspondente àquele movimento de virada? Virada para dentro ou para fora? Outro plec cuidadoso, quase em surdina, tamborins não são tocados em aparts de Moema, ainda mais à noite. Não estou em Piedade, a Avenida Santo Amaro não é a Suburbana, tamborins devem ser raros por aqui. Num hotel carioca, bastaria exibir o tamborim para que algum garçom, mensageiro ou manobrista viesse puxar assunto, quiçá pedisse para testá-lo. Ninguém deve saber tocar tamborim nesse prédio, nem eu sei. Hora de admitir outro medo que o assaltara à tarde, na volta do almoço, quando da descoberta do conteúdo do pacote: o de ser desmascarado no escritório. Fácil imaginar um ou outro colega, um daqueles que vão para o Rio no carnaval – ensaio no Salgueiro, feijoada na Portela, desfile na Mangueira, Simpatia, Boitatá – entrando em sua sala. Toca aí. Como assim, tocar? Como assim? Você não é carioca, suburbano, Madureira, Méier, Piedade? Toca aí. E aí viriam os gestos, braços esticados, mãos segurando invisíveis baqueta e tamborim, sons feitos com a boca: poctc, capotc, capotc. Puta que pariu, nem com a boca eles acertam. Mas como dizer, confessar? Sim, de Piedade, muitos carnavais no River, no Oposição. Testemunha de muitos desfiles na Suburbana, a avó levava cadeira para a calçada, o avô se refugiava na rádio MEC. Os blocos de sujo. Homens com fronhas enfiadas na cabeça, percussão feita com latões, um outro tambor (na infância, tudo é tambor), um bumbo (surdo, aprenderia anos depois), e tamborins. Estes, pequenos, agudos, irritadiços, baixinhos folgados que, aos gritos, se impunham aos instrumentos mais graves, pesados e sérios. Abusados como a Maria Clara (na escola, respeitávamos nomes duplos), que interrompia o professor, que ria das outras meninas e de suas bonecas, que dizia querer jogar bola com a gente. Maria Clara que, um dia, na volta do recreio, aproveitou a falta de luz e me deu um beijo. No rosto, mas beijo. Nunca tive coragem de retribuir aquele beijo.

Tamborins eram como Maria Clara, assanhados, metidos, intrometidos. Tocá-los, tocá-la. Aprender o ritmo, pegar o jeito, ganhar ousadia de tentar conquistá-la, de derrotar os garotos mais altos e fortes, bons de briga e melhores no futebol. De que adiantava ser craque em português e matemática? Ganhara um beijo de Maria Clara, mas cadê coragem para buscar outro? Quem sabe ela errara o alvo, culpa da falta de luz. O beijo talvez fosse para outro menino, não para mim. Eu, mais para a previsível lerdeza do surdo – tum, tum – do que para agilidade de tamborim, incapaz de ser folgado e surpreendente como os tamborins dos blocos de sujo. Além de abusados, independentes, autônomos. Cada qual com seu ritmo, todos solistas, pouco preocupados com o todo, com o bloco. Plec, plec, plect, plec. Ou o contrário, tanto fazia. Valia era o tamborim, som que desfilava pela esquina com a Belmira, seguia na direção da Abolição, passava pela Bernardino de Campos, pela João Pinheiro. Som que abria os caminhos, que reverberava nas portas de ferro das lojas fechadas, sapateiro, padaria, barbeiro, armarinho, farmácia, que antecipava a chegada daqueles homens que abriam buracos para os olhos nas fronhas usadas na cabeça, fantasias toscas e simples. Ninguém ensinava a namorar, a pedir em namoro, já procurara em livros, no Mundo da Criança. Mas talvez se ensinasse tocar tamborim, instrumento pequeno, levinho, bom para crianças. Até falara com a mãe. Como assim, tamborim? Nem pensar, nem se sabe como e onde, nem deve ter escola para isso. Instrumento de preto, de pobre, de favelado. Pra você, violão, ou mesmo piano; tamborim, não. Ora se, ora veja só. Ora, ora. Hoje, nem toco, nem sambo, pés que parecem espalhar poeira enquanto se movem como se desconectados do tronco duro, impávido e assustado com aquele estranho tremor abaixo dos joelhos. Carioca? Méier, Madureira ou Piedade, né? E nada de sambar, e nada de tamborim. Tu é mais paulista do que eu, mêu!

Agora, ao menos, há internet, lá tudo se diz, se ensina, de bolos de laranja a bombas atômicas. Uma voz em off diz para segurar o instrumento como se fizesse aquele cumprimento de surfista. Close no tamborim que surge na tela. Dedos polegar e mínimo da mão esquerda esticados; indicador, médio e anelar fechados. A baqueta pode ter várias pontas, ganhei uma de três. Primeira batida é forte; a segunda, mais fraca. A terceira é a da virada – virada feita para dentro. A quarta nota é de, novo, forte. Forte, fraca, virada, forte. Forte, fraca, virada, forte. Assim, devagar, até que sai. Mas sai um som chocho, incapaz de animar, de gerar movimento, de sustentar qualquer cantoria. Som que, na madrugada, teme o barulho, os vizinhos, os que dormem no quarto ao lado. Na tela, o professor acelera, tão fácil em suas mãos, plecs, pects, toques ágeis, precisos, ritmados. Outro instrutor, ainda mais sofisticado, mostra o rosto na tela, fala em toque telecoteco, em pergunta e resposta, exibe uma partitura, esmiúça compassos. Diz que, nas escolas de samba, o toque é o carreteiro, assim, ó – e faz uma rápida demonstração. Assim, ó, e acabou. Nunca ouvira falar nisso, carreteiro remetia a comida, arroz de carreteiro, coisa de gaúcho, inimaginável associar bombachas a tamborins. Ao menos decorara o nome do toque, isso poderia ser útil em alguma conversa. Mas só aprendera o nome, nem tentara executá-lo. Para mais e detalhadas aulas seria preciso pagar R$ 30 por mês.

Meio inimaginável ter lições de tamborim pela internet, uma versão atualizada daqueles cursos profissionalizantes por correspondência que eram anunciados em revistas pelo Instituto Universal Brasileiro. Mecânico de geladeiras, pedreiro, secretária executiva, pintor de automóveis, gerente administrativo. Cupons recortados, colocados em envelopes e despachados na agência dos Correios da rua Goiás, quase em frente à passarela da estação que ligava os dois lados do bairro separados pela linha do trem – em subúrbios, morar deste ou daquele lado da linha é mais ou menos equivalente a, no padrão Zona Sul, morar perto ou longe da praia. Suburbano, sabia disso. Semanas depois recebia os catálogos completos. Não seria honesto reclamar das revistas coloridas e inúteis de hoje. Na infância, ajudara a derrubar algumas árvores ao requisitar o envio de informações sobre cursos que jamais viria a fazer. Até porque não havia curso por correspondência para piloto de avião. E quem é que iria entrar num avião cujo piloto se formara num curso por correspondência?

Aprender a tocar tamborim num curso online era quase tão arriscado quanto tentar decifrar em apostilas o segredo de pilotar. Sim, a falha no tamborim não arriscaria a vida de ninguém, mas poderia fazer com que a reputação de carioca-suburbano-sambista despencasse em queda livre, como aviõezinhos de desenhos animados, caindo em parafuso, expelindo fumacinha negra. Mas, ao contrário do que ocorria naqueles filmezinhos, não haveria paraquedas capazes de salvar o protagonista. Mais provável que ficasse como os antagonistas dos desenhos, vítimas das explosões planejadas pelos maus para matar os heróis, os protagonistas. Bombas pretas redondas de pavio curto ou charutos recheados de pólvora que se viravam contra seus criadores, que deixavam seus cabelos, penas ou pelos desalinhados e a cara preta de fuligem. Ficaria assim, explodido, exposto, talvez alguém propusesse a cassação de sua cidadania carioca. Não seria impossível que um daqueles putos do escritório negociasse com algum vereador a concessão de título de paulistano honorário para o carioca que toca tamborim como um de nós. Ou nóis, como eles preferem. É nóis.

Nóis, nada. Em cinco anos, mantinha-se fiel ao sotaque que, antes, dizia não ter. Carioca não tem sotaque, os outros é que têm. Mas rendeu-se ao perceber os chiados, o som emitido ao falar aspargos frescos, o jeito de dizer mermão – bastava falar mermão para entregar-se -, a mantega e o brasilero que eram emitidos assim, sem o ‘i’ depois do ‘e’ (‘é’ com acento agudo, no Rio; ‘ê’ com circunflexo, em São Paulo). Mesmo amigos do Rio estranhavam um falar cada vez mais carioca, que não admitia a possibilidade de alongar advérbios, de cortar o ‘s’ de palavras plurais, incapaz de chamar biscoito de bolacha, calçada de guia, sinal de semáforo. Em São Paulo, tornara-se mais carioca. Quase um carioca de piada, estereotipado, não perdia os raros shows do Almir Guineto, outro exilado, batia ponto em todas as apresentações do Moacyr Luz por lá. Um carioca que temia ficar como os filhos e mesmo netos de imigrantes alemães que viviam em pequenas cidades do sul, aqueles que, no dia a dia, preferiam conversar no idioma de seus antepassados. Com o tempo, viravam objeto de estudos, de teses. Pesquisadores desembarcavam para gravar aquele jeito de falar alemão que ficara parado no tempo, que não evoluíra, que usava palavras equivalentes ao vosmecê de nossos bisavós. Ia de short e chinelos à padaria – padoca não pode… -, reclamava dos que chamavam de creme a espuma do chope, tentara entrar de bermudas num restaurante. Barrado, protestara. Uma vez, bêbado, só de sacanagem fechou um cruzamento, prática que abominava no Rio.

Era carioca. Carioca do River, do Oposição, do Bruni Piedade, do jogo de bola na rua, da Igreja Batista na esquina, do show do Jerry Adriani na inauguração do Guanabara. Piedade da feira de sábado, da Igreja do Divino Salvador, da Gama Filho, dos portugueses donos de lojas e de casas de vila, da vizinha da vila que recebia santo no Réveillon, Réveillon que em Piedade era apenas virada de ano. Ao deixar o tamborim na minha mesa, aquela cegonha desnorteada me jogou num bairro que já não existia. Não mais sapateiro – no lugar, loja de cabos de velocímetro, grudada numa ótica. Sem padaria, barbeiro e armarinho, agora havia loja de roupa, clínica dentária, oficina de costura. Restara a farmácia, diferente, alardeada, como os outros estabelecimentos, por cartazes que cobriam prédios amputados de suas características originais. Por lá, passado era sinônimo de velho, de ultrapassado, não se demonstrava orgulho em cultuá-lo, era preciso matá-lo, esconder sua presença. Nas fachadas, não mais ornamentos que entregavam a idade das construções, quase todos arrancados, substituídos por paredes retas que, por sua vez, eram tampadas por letreiros que, aos gritos, disputavam a atenção de quem passava pela Suburbana. E mais e mais esquadrias de alumínio, cerâmicas, luzes fluorescentes, lojas de automóveis que entulhavam as calçadas de carros, e grades, e grades, e grades. Por ali morou Dilermando, amante de Ana, mulher de Euclides da Cunha. Foi numa daquelas casas que o escritor foi morto. Ana, mulher que jamais deveria ser cumprimentada, dizia a avó para a filha, futura mãe daquele que, em São Paulo, via-se na Suburbana, hoje Dom Hélder Câmara, Estrada Real de Santa Cruz na época do crime. Só adolescente soubera ter sido criado perto do local onde Euclides da Cunha fora morto, não sabe qual é a casa, se ainda há casa, nunca houve placa na porta. Seus vizinhos em Piedade nunca falavam de Euclides da Cunha. Lima Barreto era apenas uma rua, desconectada do escritor que também vivera no bairro. A Piedade da infância se perdera nas mudanças de casa, nas mortes de avós, tios e vizinhos, no espaçamento e posterior fim das antigas amizades. Nunca mais ouvira falar em blocos de sujos, os blocos da Zona Sul eram limpinhos, cheios de jovens brancos, fantasiados, ninguém precisava apelar para fronhas velhas no carnaval. Muitos deles aprendiam a tocar tamborim, caixa e repique em escolas de percussão.

Acordou com o dia que se revelava pelas frestas da cortina. Dormira sentado na poltrona, não jantara, sequer tomara banho ou trocara de roupa. Recolheu o tamborim e a baqueta que deixara cair no chão, colocou-os sobre a mesa ao lado do computador. Ligou a TV, soube do frio, da falta d’água, do trânsito nas marginais, do engarrafamento de não sei quantas centenas quilômetros daquela manhã. Foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes, abriu o chuveiro. Colocaria o terno, desceria, tomaria café e sairia mais cedo para o escritório, adiantaria o serviço. Na noite de sexta embarcaria para o Rio, avião cheio de caras conhecidas, aves que volta e meia se encontravam na revoada de retorno para casa. Domingo, no almoço com a mulher e filho, teria como sobremesa a quase depressão que indicava a proximidade do horário do voo de volta. Casamento mantido na ponte aérea, ela sem ter como se transferir para São Paulo, ele – toque de surdo, tum, tum – preso ao escritório, ao bom salário, à carreira. Levaria o tamborim na mala, não seria difícil encontrar um curso de fim de semana, um daqueles frequentados por jovens que não tinham a menor ideia de como chegar em Piedade. Talvez tomasse coragem de se matricular, de tentar aprender, de se ver assanhado, intrometido, folgado, marrento. Havia muitos carnavais pela frente.

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