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PONTOS DE PARTIDA, O BLOG DO MOLICA

Tiros e Paraty


Por Fernando Molica em 10 de julho de 2008 | Comentários (0)

Com um pouco mais de tranqüilidade, tento explicar o post anterior: sabemos todos que a vida é dura, bruta, cruel; que volta e meia ela nos esfrega uma tragédia na cara, como a que ocorreu com o menino João. Moro no Rio desde que nasci, sou jornalista há 27 anos, deveria estar meio vacinado, preparado para enfrentar situações semelhantes. O pior é que estou! Mas, de vez em quando, a surpresa – ruim – é pesada demais. Um choque que, de certa forma, procurei abordar em “O ponto da partida”.

Lembro que há uns dois anos fui cobrir, no cemitério do Irajá, o enterro de um jovem torcedor do Botafogo, morto num daqueles confrontos com torcedores de outro time, no caso, do Fluminense. Era um garoto de uns 18/19 anos, entregador de supermercado, um sujeito que, suponho, transferia para o amor pelo time a responabilidade de criar um pouco mais de sentido para sua vida. Acabou morrendo por uma idiotice qualquer: ver aquele caixão sendo enterrado, o desespero de sua mãe, foi muito complicado. Foi uma das poucas vezes que me emocionei numa reportagem, tive que sair dali de perto.

A história do menino João teve um efeito semelhante, cheguei a escrever um artigo sobre o episódio, que foi publicado na edição de ontem, quarta, de O Dia . Mas, sobre o post anterior: é que tragédias como essas assumem uma dimensão ainda mais grotesca quando – e este foi o meu caso – se acaba de sair de uma situação absolutamente inversa. Tinha acabado de chegar da Flip, durante quatro dias vivi como num cenário, uma cidade inacreditavelmente bela, povoada de pessoas que estavam ali atraídas por um evento relacionado a livros. Não importa se parte delas estivesse ali por motivos menos, digamos, nobres. O relevante que tudo em Paraty girava em torno dos livros. E isso não é pouco num país como um nosso.

Claro que não é preciso um caso como o do menino João para gerar um despertar do sonho: as correntes que impedem a entrada de carros no centro histórico de Paraty também funcionam como fronteiras de dois universos: do lado de cá, a cidade histórica, bonita, bem-conservada, freqüentada por turistas/autores/editores mais ou menos abonados.

Do lado de lá, a Paraty contemporânea, onde moram aqueles que fazem a cidade histórica funcionar: garçons, atendentes de hotéis, funcionários de supermercados. Uma cidade, esta, a nova, parecida com qualquer subúbio do Rio, com centros urbanos da Baixada Fluminense: aquelas casas e prédios sem estilo definido, uma composição urbanística que não respeita qualquer possibilidade de harmonia. A fachada do supermercado briga com a do banco, que agride a da sapataria, que, por sua vez, se vê ofuscada pelo letreiro da farmácia. Pelas ruas, pessoas mais ou menos pobres, filhas e netas de pescadores da região – pessoas que não vemos nas tendas da Flip. Entram ali, no máximo, como personagens de algum romance.

Enfim, os contrastes estão por toda a parte, estamos todos (mal) acostumados com eles. Mas, caramba, não precisavam ser assim, tão explícitos, tão letais.

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