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Um novo jogo


Por Fernando Molica em 29 de maio de 2018 | Comentários (0)

Esta longa mobilização dos caminhoneiros reforça algo que tinha ficado meio evidente em 2013: a sociedade que se move guiada pelas cercas da institucionalidade (aí incluo políticos, jornalistas, analistas, acadêmicos) não está preparada para enfrentar situações que escapam do padrão consagrado por muitos anos.

Sabemos encarar/cobrir greves tradicionais, aquelas que têm pautas, lideranças e adversários determinados. Ouvimos sindicato, governo, patronato, acompanhamos a movimentação da polícia, as negociações, assembleias. O problema é que, até por conta da crise e do desemprego, essas greves sumiram, as que restaram ficaram praticamente restritas ao setor público.

A internet e o WhatsApp acabaram com o samba de poucas notas dos movimentos tradicionais, sindicatos e centrais sindicais foram pro espaço, a sucessivas roubalheiras em governos minaram a confiança nos políticos, que ficaram órfãos de representatividade. Assim como as passeatas de 2013, a greve de caminhoneiros não se restringe a um pequeno e significativo número de pautas (que, em linhas gerais, foram atendidas) e de vozes.

O movimento expressa diferentes insatisfações, com o governo, com o presidente, com o país, com a chegada de tantas mudanças, com a eclosão de tantos medos. Não se trata mais de um organizado desfile no Sambódromo, mas de anárquicas apresentações de infinitos blocos do Eu Sozinho. Não é só por 46 centavos, alguém já disse.

O problema não são os boatos espalhados pelos celulares, mas o fato de que tanta gente acredita neles, gente que quer acreditar em algo, em medidas milagrosas, em artigos da Constituição que jamais existiram.

É complicado quando a política vira uma questão de fé. As instituições – tão maltratadas nos últimos anos – demonstram não ter capacidade para lidar com algo tão novo e intangível. Daí a crença num Salvador, num Dom Sebastião que ressurja de espada em punho, radiante em seu uniforme verde-oliva. O jogo, agora, ficou sem regras, é em outro campo, ninguém liga para os juízes e para as federações – ninguém confia mais no Tapetão. Temos que lidar com isso, até para que, em breve, possamos todos colocar a bola no chão e definir um novo jeito de jogar.

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