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Esquerda e direita

em 30 de outubro de 2017

Até por ser botafoguense, começo a ficar muito irritado com essa lógica de Fla-Flu que tomou conta da vida brasileira. Qualquer gesto, qualquer opção, qualquer manifestação passou a ser enquadrada como "de esquerda" ou "de direita". Passam ao largo da briga as definições clássicas de esquerda e direita, questões de fundo econômico. O que vale é o fetiche.

Entram na conta da esquerda até mesmo propostas que, historicamente, estavam relacionadas à agenda liberal, como ecologia, feminismo e direitos de homossexuais. Não faz tanto tempo assim, a palavra de ordem na esquerda era jogar essas questões para depois da Revolução, até para não desviar o foco da luta pelo socialismo.

Mesmo a democracia representativa - que prevê a existência de partidos de todas matizes - tem mais a ver com o liberalismo (com a direita, portanto) do que com a esquerda, que, por décadas repetiu o mantra da ditadura do proletariado. Até o capitalismo era defendido com base na liberdade - liberdade de mercado implicaria em liberdade política (a China bagunçou o coreto, mas o princípio continua).

Agora, tudo foi pro espaço. Até por não poder mais associar corrupção apenas à esquerda, grupos conservadores rasgam bandeiras históricas do liberalismo para defender censura, fechamento de exposições, proibição de palestras. Setores mais radicais da esquerda entram na dança ao tentar impedir a exibição de um filme sobre um ideólogo da direita.

No fim das contas, teremos que fazer uma tabela: homem nu é de esquerda; mulher pelada (aquela parada machista, de exploração do corpo feminino) de direita. Novelas da Globo com seus casais gays são de esquerda; as da Record, de direita. Cabelos grisalhos são de esquerda; pintados (em nome de Deus, da família), de direita.
Candomblé é de esquerda; igrejas evangélicas são de direita. São Francisco de Assis é de esquerda; São Sebastião (usa vermelho, mas lutou ao lado dos portugueses), de direita.

Largo de São Francisco da Prainha é de esquerda; Praça Antero de Quental, de direita.Comida vegana é de esquerda; churrascaria, de direita. Praia do Leme é de esquerda; Ipanema é de direita; Paquetá (com todos aqueles blocos, festas do Raphael Vidal), de esquerda; Ilha do Governador, de direita. Mangueira é de esquerda; Beija-Flor, de direita. Sexo papai-mamãe é de direita; variações sobre o tema, de esquerda. Proibir exposição é coisa da direita; impedir biografias, da esquerda.

Enquanto a gente perde tempo com essas caricatas tentativas de categorização, o país afunda, a miséria aumenta, o emprego patina. Temas como as reformas trabalhista e previdenciária, que afetam todos nós, despertaram muito menos paixão. Enquanto isso, o poder - poder mesmo, entidade quase eterna entre nós - aproveita nossa distração e, ambidestro, rouba com as duas mãos e morre de rir de tantas idiotices.

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O Mercado e o Cotidiano na 'Folha' de domingo

em 29 de outubro de 2017

As contradições brasileiras são evidentes demais. A 'Folha' destaca hoje no caderno 'Cotidiano' uma ótima reportagem de três páginas sobre famílias que passam fome na cidade de São Paulo. A matéria é ilustrada com fotos de personagens e de suas geladeiras vazias. Aí você vira a página e dá de cara com uma foto - bonita, bem iluminada - de um balcão de supermercado entupido de alimentos, um anúncio imenso da rede St. Marche, um "mercado que entende de comida".

Também hoje, na capa do caderno 'Mercado', a 'Folha' chama para outra importante reportagem. Estudo internacional mostra que os ricaços brasileiros têm ganhos superiores aos franceses que estão no mesmo patamar - o 1% da população mais abonada daqui recebe mais que o 1% que, por lá, garante vaga no topo da pirâmide social.

Até os nomes dos cadernos ajudam a ressaltar as contradições. De um lado, a lógica do Mercado, do outro, a realidade do Cotidiano.

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Aimó e a rica mitologia que desconhecemos

em 27 de outubro de 2017

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Terminei de ler o encantador 'Aimó - Uma viagem pelo mundo dos orixás', de Reginaldo Prandi (Seguinte). O livro, como ele frisa, não é religioso, trata de mitologia, "a maior mitologia viva do mundo", como ressalta em uma Nota do Autor. É impressionante como abrimos mão de estudar mitos tão bonitos, tão complexos, tão instigantes e tão presentes na nossa cultura, em nosso cotidiano. Ninguém precisa acreditar em Zeus e em Atena para conhecer a mitologia grega, o mesmo deveria valer para as culturas vindas da África.

Assim como os deuses gregos e romanos e diferentemente dos santos católicos, os orixás não buscam a perfeição. Como os humanos, matam, traem, seduzem, cometem injustiças. Pecadores? Não, não existe a noção de pecado, trabalha-se com a construção de vidas, de tomadas de decisões que, certas ou erradas, geram consequências. Vidas que podem ser revividas, do Aiê para o Orum (da Terra para o mundo dos orixás e dos espíritos), num ciclo interminável, cheio de beleza e de tentativas de explicar nossa presença por aqui.

O livro trata do percurso de Aimó, menina que morreu escravizada, sem deixar história, indigna, portanto, de ser lembrada e cultuada pelos que ficaram vivos. Depois de apelar a Olorum ("Senhor do infinito/ Ordena que Obatalá/ Faça a criação do mundo", belíssimo samba da Beija-Flor de 1978), ela é conduzida por Ifá e Exu (orixás detentores, respectivamente, da memória e do movimento/transformação) por um caminho que lhe levará ao conhecimento de outros orixás. Caminha para poder escolher a mãe/orixá capaz de viabilizar seu retorno ao Aiê.

No percurso somos apresentados a diferentes possibilidades de vida e de explicações, de tentativas de compreensão dos muitos mistérios que cercam a vida. Num momento em que tantos posam de donos de tantas virtudes e certezas, o livro - que, insisto, não é religioso, não busca converter ninguém - releva nossas limitações, mostra que nem deuses são capazes de lidar de maneira perfeita com todas as complexidades e contradições presentes em cada ser humano. Afinal, como diz Oxalá a Aimó, vida serve para viver.

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