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Sobre fotos, selfies e esquecimento

em 09 de dezembro de 2017


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"Como ouvir hoje uma fita de rolo, ver um filme em Super 8, um vídeo VHS? Como abrir um arquivo gravado em algum disquete? O caminho será o mesmo para as nossas fotos, nossas selfies, nossos vídeos. O esquecimento passivo não servirá apenas para os amores, a morte física dos fotografados fará com que sumam os registros de seus rostos, de seus corpos, de suas expressões. Hoje ainda é simples deixar no fundo de alguma gaveta as fotos de avós, de bisavôs. Quem, no futuro, ou seja, daqui a três ou quatro anos, terá saco para ficar transferindo as imagens dos velhinhos de cá para lá, quem vai tratar de atualizar o armazenamento daqueles registros? Aos poucos, tudo se perderá, sem drama, sem cerimônias de despedida. Como são fotos virtuais, fluidas, desprovidas do suporte do papel, serão esquecidas, abandonadas em algum cemitério de computadores. Não ficarão nem como registro de época, a ausência delas é que marcará uma época que independe do tempo, onde não haverá passado, um mundo radicalmente contemporâneo, em que fotos servirão apenas para lembrar do ato de se bater uma foto. Ninguém mais suporta baixar tantas e tantas imagens, o relevante é o clique, o instante, o ato de conferir, na hora, o resultado. Não é preciso rever a foto, recordá-la. Vale, no máximo, postá-la em alguma rede social. (...) Criamos a foto sem memória, veja só, a foto que não cobra, que não apresenta qualquer fatura. Uma não foto, incapaz de nos encarar, de jogar na nossa cara o que fizemos de nossas vidas. Inventou-se -- tem certeza de que você não participou disso? Seria ideal para limpar o currículo/folha corrida de seus assessorados -- um passado que não retorna, que fica confinado numa ausência de memória, um desafio à psicanálise, eu, eu, eu, doutor Freud sifudeu."

('Uma selfie com Lenin', Record, 2016).

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A tragédia da Boate Kiss

em 09 de dezembro de 2017
Na manhã do domingo, 27 de janeiro de 2013, fui acordado por uma ligação de meu filho mais velho, Júlio, repórter da Globonews. Ele precisava pegar um documento aqui em casa para poder viajar para Santa Maria, foi dos profissionais designados para cobrir o incêndio na boate Kiss, fato que eu - que virara a noite num ensaio da Unidos da Tijuca - até então desconhecia. Ao saber da tragédia, não consegui voltar a dormir. Pouco depois, foi a vez do Ramiro Alves, então publisher do DIA, a me ligar - queria que eu fosse para a cidade gaúcha, propôs que eu focasse menos na investigação do caso e mais nas histórias de famílias devastadas. Horas depois, eu e o fotógrafo Ernesto Carriço embarcamos.

Foi uma das coberturas mais terríveis de que participei. Fomos de velório em velório, de enterro em enterro, havia casos de irmãos sendo velados juntos. Apesar da absurda tristeza, nunca me arrependi de ter ido; nessas horas, encarar a tragédia ajuda a suportá-la, como repórter, eu tinha que estar lá.

Passados quase cinco anos, não dá para admitir a decisão da justiça gaúcha de não submeter os acusados pela chacina ao júri popular. Eles não tinham a intenção de matar, mas assumiram este risco, caso típico de dolo eventual.

Aí vão duas reportagens (a outra está aqui) - que, na época, preferi não compartilhar por aqui. Acho que vale recuperá-las agora, até para lembrar de um sofrimento que ameaça ficar impune.


Às 4h30 da madrugada de ontem, acompanhados de mais seis pessoas, o pintor Cezar Augusto Madruga Neves e sua mulher, a dona de casa Maria Aparecida Neves, velavam, na Igreja Quadrangular do Tuiuti, o corpo de seu único filho, o estudante Augusto Cezar Neves, de 19 anos, aluno de Ciências da Computação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

A exemplo da maioria de parentes de vítimas da tragédia da boate Kiss, eles abriram mão do velório coletivo e fizeram com que o corpo fosse levado para sua igreja, uma casa térrea pintada de bege no Centro da cidade. Maria Aparecida repetia a última conversa que, sábado à noite, teve com Augusto: o pedido para que trocasse a festa na boate pelo aniversário de um colega de louvores -- o filho tocava guitarra no culto para jovens, realizado aos sábados. "Mas ele me disse que precisava andar com os próprios pés", dizia mãe, olhos inchados.

Cerca de uma hora antes, num canto da quadra do Centro Desportivo Municipal (CDM), onde 15 corpos eram velados, Lidia de Melo escrevia mensagem em uma das bandeiras do Grêmio colocadas sobre o caixão do militar Leandro Nunes da Silva. "Escrevi em nome do meu filho, que era amigo do Leandro", explicou. Àquela hora da madrugada, já eram dezenas as mensagens que decoravam a bandeira tricolor: "A mana te ama muito"; "Meu primo querido, descansa em paz, guerreiro, sou tua eterna fã, te amo"; "Vai com Deus, meu sorriso de cada dia".

No outro extremo da quadra, uma jovem de nome Yasmim registrou, sobre a foto de Lucas Dias Oliveira, o quanto o amava. "Meu amor, minha vida. Te amo tanto, tanto. E nunca, nunca, vou te deixar. Tu já foi tudo para mim. Mais que um amigo, companheiro, namorado, amante."

Outros 25 textos preenchiam uma folha de papel grudada à bandeira do Rio Grande do Sul sobre o caixão. "Sobrinho querido. Agora tu és livre, realmente feliz!" Cartolinas dispostas pelo ginásio traziam ofertas a parentes de vítimas de outras cidades. "Ofereço hospedagem", "Ofereço banho e repouso", "Ofereço: repouso, banho e desjejum".

Rafael Ávila está no quarto semestre de Medicina; Adriana Volpo, no quinto. Passados os momentos mais tensos, em que colaboraram na triagem de quem precisava de atendimento, resolveram ajudar de outra forma e começaram a distribuir sanduíches na quadra. Já a psicóloga Camila Bevilacqua estava prestes a completar uma jornada de 24 horas -- chegara às 6h ao CDM. Pela manhã, acompanhara um dos piores momentos da vigília, o reconhecimento dos 200 corpos estendidos no chão de outra quadra do complexo esportivo. Homens e mulheres circulavam entre os cadáveres esperando não encontrar seus filhos. Isto, em meio a toques de celulares das vítimas; desesperados, alguns pais, mães e irmãos insistiam em telefonar à espera de uma improvável resposta
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A cerca de oito quilômetros dali, as capelas do Cemitério Parque Santa Rita estavam lotadas, alguns velórios ocorreram no saguão; entre eles, os dos irmãos Marcelo de Freitas Salla Filho e Pedro de Oliveira Salla, que seriam sepultados pela manhã. Os enterros em sequência -- de 25 a 30 seriam realizados até o fim do dia -- dificultaram os trabalhos dos funcionários. No início da tarde, Aldoer Christo tentava organizar um bolo de ordens de serviço que trazia amarfanhadas. Debaixo de sol forte, um trator não parava de abrir covas no gramado.

Ali na frente, um grupo de umas cem pessoas se despedia de Carlos Alexandre dos Santos Machado, 26 anos, formado em Administração. A 60 metros de distância, amigos e parentes de Luiz Eduardo Flores, recém-formado em Ciências da Computação, rezavam a Ave-Maria. Entre eles estavam ex-professores na UFSM -- terminado o enterro, eles aguardariam a chegada do corpo de Augusto Cezar, aquele velado na Igreja Quadrangular.

Poucas horas antes, o templo ficara lotado em torno do caixão do filho de Maria Aparecida e Cezar Augusto. O salão, com cerca de 140 metros quadrados, recebeu mais de cem pessoas que participaram de um culto iniciado às 10h. Um dos celebrantes, o pastor Isidoro Lélis dos Santos, citou Jesus: "Vocês vão passar por grandes aflições, mas, nos momentos de dor, vocês precisam estar alicerçados em Deus".

Cântico emociona

Sentada ao lado do marido, diante do caixão e do púlpito, Maria Aparecida não resistiu quando amigos da igreja entoaram cânticos e precisou ser atendida por enfermeiros.
"Se as águas do mar da vida quiserem te afogar/Segura na mão de Deus e vai". O conhecido hino cristão fez com que muitos chorassem. A fé garantia apoio mesmo diante das tristezas da vida e do peso da jornada. Mas não era suficiente para eliminar o efeito devastador da morte do rapaz.

Uma parente de Augusto, empregada doméstica, revelava que, cedo, recebera uma ligação dos patrões. Eles não ofereceram ajuda nem manifestaram solidariedade. Apenas questionaram se ela era assim tão ligada ao jovem a ponto de precisar faltar ao trabalho.

Corrida de voluntários da área da saúde

Profissionais de saúde que vivem em outras cidades gaúchas se apresentaram como voluntários assim que souberam das mortes na Kiss. O enfermeiro Leonardo Rodrigues Piovesan trabalha num posto do Programa Saúde da Família em Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a 280 quilômetros de Santa Maria.

Ele estava de férias desde sexta-feira passada, mas se comoveu com o drama de moradores da cidade onde vive sua família. Na madrugada de ontem, disse ter tido muito trabalho durante a identificação dos corpos. Muitos parentes de vítimas não resistiram e tiveram quedas abruptas na pressão arterial.

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Esquerda e direita

em 30 de outubro de 2017

Até por ser botafoguense, começo a ficar muito irritado com essa lógica de Fla-Flu que tomou conta da vida brasileira. Qualquer gesto, qualquer opção, qualquer manifestação passou a ser enquadrada como "de esquerda" ou "de direita". Passam ao largo da briga as definições clássicas de esquerda e direita, questões de fundo econômico. O que vale é o fetiche.

Entram na conta da esquerda até mesmo propostas que, historicamente, estavam relacionadas à agenda liberal, como ecologia, feminismo e direitos de homossexuais. Não faz tanto tempo assim, a palavra de ordem na esquerda era jogar essas questões para depois da Revolução, até para não desviar o foco da luta pelo socialismo.

Mesmo a democracia representativa - que prevê a existência de partidos de todas matizes - tem mais a ver com o liberalismo (com a direita, portanto) do que com a esquerda, que, por décadas repetiu o mantra da ditadura do proletariado. Até o capitalismo era defendido com base na liberdade - liberdade de mercado implicaria em liberdade política (a China bagunçou o coreto, mas o princípio continua).

Agora, tudo foi pro espaço. Até por não poder mais associar corrupção apenas à esquerda, grupos conservadores rasgam bandeiras históricas do liberalismo para defender censura, fechamento de exposições, proibição de palestras. Setores mais radicais da esquerda entram na dança ao tentar impedir a exibição de um filme sobre um ideólogo da direita.

No fim das contas, teremos que fazer uma tabela: homem nu é de esquerda; mulher pelada (aquela parada machista, de exploração do corpo feminino) de direita. Novelas da Globo com seus casais gays são de esquerda; as da Record, de direita. Cabelos grisalhos são de esquerda; pintados (em nome de Deus, da família), de direita.
Candomblé é de esquerda; igrejas evangélicas são de direita. São Francisco de Assis é de esquerda; São Sebastião (usa vermelho, mas lutou ao lado dos portugueses), de direita.

Largo de São Francisco da Prainha é de esquerda; Praça Antero de Quental, de direita.Comida vegana é de esquerda; churrascaria, de direita. Praia do Leme é de esquerda; Ipanema é de direita; Paquetá (com todos aqueles blocos, festas do Raphael Vidal), de esquerda; Ilha do Governador, de direita. Mangueira é de esquerda; Beija-Flor, de direita. Sexo papai-mamãe é de direita; variações sobre o tema, de esquerda. Proibir exposição é coisa da direita; impedir biografias, da esquerda.

Enquanto a gente perde tempo com essas caricatas tentativas de categorização, o país afunda, a miséria aumenta, o emprego patina. Temas como as reformas trabalhista e previdenciária, que afetam todos nós, despertaram muito menos paixão. Enquanto isso, o poder - poder mesmo, entidade quase eterna entre nós - aproveita nossa distração e, ambidestro, rouba com as duas mãos e morre de rir de tantas idiotices.

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