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Blog Pontos de Partida
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Revisão geral

em 05 de junho de 2021

Daquele dia não passaria. Assim que acordou, abriu o computador, esperou pelo anúncio que não demoraria muito a aparecer, convite tentador e persuasivo que parecia abrir espaços às cotoveladas entre tantos e tantos perfis, fotos de passeios, de comidas, imagens de filhos e casais perfeitos e, nos últimos meses, anúncios fúnebres.

Perdido em meio à profusão de páginas virtuais que digitara aos longo de quatro anos, às centenas de milhares de caracteres, às dezenas de personagens, às idas e vindas cada vez mais labirínticas da trama, ele sucumbiu. Despacharia o calhamaço de kilobytes para aquele local que imaginava ser decorado por antigas e desbotadas fotos de quelônios sensuais e felizes, que se insinuavam para fora dos cascos. Tratou de superar o constrangimento, todo mundo fazia o mesmo.

Na mensagem, ressaltou superaquecimento da trama, desequilíbrio ("De uns tempos pra cá, começou a puxar pra direita, melhor mexer na suspensão e no alinhamento" ), panes que cortavam a eletricidade em muitas cenas, dificuldades no engate das marchas que comprometiam a aceleração rumo aos novos capítulos, ignição inconfiável ("O enredo demora a pegar, deve ser a bateria"), faróis fracos e vesgos, que atrapalhavam a visão do leitor, arranhões no acabamento e mossas em toda a estrutura narrativa. Fora a necessidade de trocar o óleo que, desgastado, comprometia o ritmo e a sonoridade do motor. E havia os inúmeros erros de grafia de palavras e de concordância.

"Senhores, é preciso fazer uma revisão geral, confio no trabalho desta oficina literária. Vocês aprontam tudo até sexta? É o último dia de inscrições para o prêmio. Ah, parcelam no cartão? Em quantas vezes?", escreveu, antes de apertar o enter.

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Caetano e os riscos de 'Eu sei que vou te amar'

em 31 de maio de 2021

Foi num improvável show no teatro do Instituto de Educação - faz tempo -, que ouvi, pela primeira vez, Caetano Veloso cantar 'Eu sei que vou te amar'.

Mais que interpretação, ele fez algo que lhe daria o direito de ser parceiro de Tom e Vinicius nessa que é uma das mais belas canções já compostas.

Caetano usou todas as sílabas, foi ao limite das notas, e chegou ao céu nos agudos do "Eu sei que vou sofrer/ A eterna desventura de viver".

Ele ressaltou ali a faca só lâmina do amor. Fez isso ao chegar à última fronteira da afinação, divisa entre o paraíso e a tragédia, aquela fração de tempo que separa o gozo da tristeza (la petite mort para os franceses); contradições, esperanças e medos presentes em todos amores.

Ao escalar o everest do pentagrama, ao desafiar a lógica e a segurança, ao correr o risco de desafinar lá no alto, Caetano fez a mais perfeita tradução da expectativa, do prazer, do desespero e dos perigos do amor.

Dizem que o ar rarefeito das grandes altitudes afeta o raciocínio. Foi esse desafio que Caetano encarou, subiu uma montanha quase impossível para poder gritar seu amor.

Mesmo sabendo - os autores deixaram isso evidente - que fosse para anunciar, já na descida, um não tão seguro amor por toda a vida. Nada haveria mesmo depois do topo.

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Em livro, jornalista revela nomes de seus agressores

em 13 de maio de 2021

Essencial para que possamos ter uma noção do submundo de parte da política brasileira e da engrenagem de assassinato de reputações, o livro "A máquina do ódio", da jornalista Patrícia Campos Mello, traz informações curiosas sobre alguns dos, digamos, operários que ajudam a fazer com que tal máquina funcione.

São aqueles homens e mulheres que vomitam preconceitos e xingamentos nas redes sociais. Incapazes de argumentar, de discutir, consideram-se iluminados apenas pela capacidade infantil de escrever palavrões. Comportam-se nas redes como em arquibancadas, procurando, com suas ofensas, despertar a admiração dos chefes de torcida.

Em meio a dados sobre a perseguição sofrida desde que revelou um esquema ilegal de disparo de mensagens favoráveis ao então candidato Jair Bolsonaro, Patrícia reserva algumas linhas para tratar de agressões de baixa patente.

É quando ela frisa que alguns dos agressores usaram, aparentemente, suas identidades verdadeiras. Como Bruno Pires, ex-estudante de Direito da Universidade de Rio Verde (GO). Em mensagem dirigida à repórter, ele perguntou se ela queria "dar a boceta para ver o notebook" de uma de suas fontes (Hans River do Rio Nascimento que, na CPI das Fake News, acusou Patrícia de assédio sexual para obter informações). O ex-universitário, puxa vida, sabe o que é uma boceta.

Gilberto Veiga que, em seu perfil no Facebook, mostrava uma foto de sua mulher com o filho pequeno, atuou no mesmo nível de perspicácia. Perguntou a Patrícia se ela raspava "seus pelinhos".

No Instagram, matheus.schuler usou um mote usado pelo presidente da República - que seria condenado em processo movido por Patrícia - e aconselhou a jornalista a ter "cuidado ao oferecer o furinho".

Mulheres entraram no bloco. PalomaSolna23 chamou a repórter de "quenga", "vagaba" e sugeriu que ela procurasse outra pessoa para dar "esse furo, ou furico". Todos pareciam se vangloriar pela suposta esperteza de associar o furo jornalístico à anatomia feminina.

Ao levar nomes de agressores para as páginas de um livro, Patrícia os retira do anonimato proporcionado pela multidão. É como se ela atuasse como aquelas câmeras que, nos estádios, flagram torcedores fazendo gestos eventualmente constrangedores.

Eles são assim identificados, perdem o manto protetor da covardia coletiva, são expostos, arriscam-se a figurar como processos criminais e cíveis - sabem que, nessa hora, não terão a proteção dos chefes de torcida.

Bruno, Gilberto, Matheus, Paloma, não tive o menor prazer em conhecê-los. Mas é bom saber que, assim, individualizados, retirados do coro dos linchadores morais, vocês ficam assim, frágeis, expostos. Os xingamentos covardes dirigidos a Patrícia dizem muito sobre vocês e demonstram de maneira evidente os seus preconceitos e limitações.

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