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A estreia, quase cem anos depois, de `Sóror Mariana'

em 18 de outubro de 2018

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Uma ótima e emocionante notícia. Composta em 1920, e inédita até hoje, a ópera 'Sóror Mariana', do meu bisavô Julio Reis será, enfim, encenada. A estreia mundial ocorrerá nos dias 9 e 10 de novembro, em Curitiba, durante o Festival de Ópera do Paraná.
Em meu romance 'O inventário de Julio Reis' (Record) tratei da ópera, da ideia de JR de usar como libreto a peça do português Júlio Dantas, da doação para a montagem que recebeu do Congresso Nacional e da luta para liberar o dinheiro - a verba nunca saiu.

O lançamento do livro, em 2012, despertou alguma curiosidade em torno de JR, o pianista Joao Bittencourt lançou um CD e fez concertos com músicas do compositor, outros artistas passaram a incluir peças de suas autoria em shows. O maestro José Antônio Branco Bernardes Bernardes incluiu o poema sinfônico 'Vigília d`Armas' em apresentações da Orquestra Sinfônica da UniRio.

Há pouco mais de dois anos, recebi uma ligação do Gehad Hajar, diretor do Festival de Ópera do Paraná, que me falou do interesse em montar 'Sóror Mariana'. Na época, para atender a um pedido expresso do meu avô, Frederico Mário dos Reis, eu já havia doado todo o acervo de seu pai para a Biblioteca Nacional, que fez um belíssimo trabalho comandado pela Elizete Higino, algo que reforça a importância de um serviço público de excelência - todas as partituras originais foram digitalizadas e podem ser consultadas pela internet.

Gehad cumpriu a promessa e, daqui a menos de um mês, os amores proibidos de Mariana Alcoforado serão cantados em Curitiba. A passagem está comprada, hotel já foi reservado. Em tempos tão duros e tão difíceis, será um alento poder ouvir a composição de meu bisavô. Servirá também como homenagem ao meu vô Mário, que dedicou boa parte da sua vida tentando evitar que a obra de seu pai caísse no esquecimento. Obrigado ao Gehad, obrigado a todos que permitiram o encontro de `Sóror Mariana' com o público.Partiu Curitiba.

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Os alemães não querem esquecer

em 17 de outubro de 2018

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Postei ontem um trecho do meu 'Uma selfie com Lenin' em que trato da plaquinha com o nome do Hitler incluída numa obra que, exposta no parlamento alemão, mostra o nome de todos os deputados que passaram pelo prédio antes do incêndio de 1933. Hoje publico outro trecho do romance, o que trata das pichações feitas no prédio por soldados soviéticos que ocuparam Berlim num dos atos derradeiros da guerra. As ofensas estão lá, marcas da tragédia nazista, barbárie que só foi possível pelo voto do povo alemão e pela colaboração de setores conservadores que viam em Hitler um mal menor diante da ameaça que vinha da esquerda. Os alemães sabem que não podem esquecer o que foi feito.

"Com a reunificação alemã, houve nova reforma para que o Reichstag voltasse a sediar o parlamento - e foi aí que os caras decidiram expor as ofensas. Nem todas ficaram, mas há muitas, por todos os lados, algumas bem próximas à sala ocupada pelo chanceler federal - a Angela Merkel é obrigada a vê-las sempre que vai para seu gabinete. Lembrei de uma professora da faculdade, ela sempre dizia que, depois da expulsão dos ingleses, chineses discutiram o que fazer com uma enorme estátua de São Jorge plantada em Pequim. "Foi derrubada?", perguntei. "Não, ganhou iluminação especial, feérica, para que ninguém se esquecesse do invasor, da ocupação", respondeu. Os alemães fizeram mais ou menos isso. Ao expor os xingamentos soviéticos em seu próprio parlamento, na sede de seu poder, lembram aos cidadãos o tamanho da merda feita por seus antepassados, dos crimes, do genocídio. Ressaltam que, por conta das cagadas pretéritas, todos são obrigados a conviver com as palavras para lá de duras pichadas pelos soldados soviéticos, os mesmos que comandariam o estupro de milhões de mulheres alemãs. Melhor conviver com dores pretéritas do que vivê-las fisicamente, é importante lembrar para não repetir."

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O samba-enredo que nasceu clássico

em 15 de outubro de 2018

Algumas obras de arte nascem clássicas - por sua beleza, por sua originalidade e pelo diálogo que propõem com seu tempo. É o caso do samba escolhido para ser cantado pela Mangueira em 2019. Composta por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, a canção faz uma leitura ampla e emocionante do enredo proposto pelo Leandro Vieira, um dos nossos maiores artistas contemporâneos.

Ao rever o passado, o samba trata do presente e faz um alerta em relação ao futuro. Ressalta personagens esquecidos, frisa a necessidade de tirarmos a poeira agarrada nos nossos porões: quem desconhece a história corre o risco de repetir erros e crimes. Mais do que um samba-enredo, já virou trilha sonora de nosso tempo.

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