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Réveillon de Copa, começo do fim

em 31 de dezembro de 2019

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A decisão da prefeitura - chancelada pelo STJ - de permitir a privatização de trechos da praia durante a festa da virada do ano tem o potencial de marcar o início do fim de uma das mais belas festas populares do Rio e do país.

Sim, uma festa popular, criada por umbandistas nos anos 1960 pelo pai-de-santo Tata Tancredo (soube de seu papel outro dia, numa aula pública do Luiz Antonio Simas). A
Apropriada e ampliada pelos empresários turísticos e pelo poder público, a festa perdeu religiosidade, e cresceu de maneira inimaginável.

É impressionante que tanta gente se reúna de maneira pacífica para comemorar uma quase abstração, o início de um ano. Festeja-se algo intocável, que só existe graças a uma divisão arbitrária do tempo. Um ritual que resgatou uma das grandes tradições do Rio, a da mistura de pessoas de diferentes origens, cores e bolsos.

A roupa branca e o pé na areia unificavam o público, escondiam as desigualdades. Sempre houve festas mais sofisticadas em apartamentos e hotéis, mas a confraternização mesmo era na praia, todo mundo junto e embriagado. Mais do que os fogos, mais do que o cenário, a participação popular é que deu liga e fama a um evento que acabou copiado no Brasil inteiro.

Pessoas quem moram longe, muito longe, atravessam o Rio, chegam de outras cidades, estados e países para acompanhar um evento que não se restringe à queima de fogos, algo que dura uns 15 minutos. As caravanas celebram a esperança, a ideia da renovação.

E, ao longo de décadas, isso vinha sendo feito de maneira democrática e pacífica (raros foram os incidentes registrados em Copacabana). Sim, nos últimos anos, quiosques e grupos de moradores trataram de cercar pedaços da praia - a apropriação do que é público é algo presente na vida brasileira, os sucessivos escândalos prova. Mas essa privatização era feita de maneira irregular, ilegal.

Ao legitimar o abuso, a prefeitura atacou a característica democrática da festa, legitimou e ampliou uma hierarquia no espaço público - há os com grana e os sem grana, os sem camarote e os com camarotes. A decisão também tem consequências na segurança, já que o ir e vir de mais de um milhão de pessoas ficou mais limitado por tantas cercas.

Esta foto, publicada hoje no Twitter pelo jornalista Victor Ferreira, mostra o tamanho do absurdo. Um abuso que pode marcar o fim do encanto da festa - é provável que, nos próximos anos, muita gente desista de ir a Copacabana, não dá pra começar um ciclo comemorando e ressaltando a própria exclusão

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A Igreja e o Estado argentino

em 26 de dezembro de 2019


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A necessária discussão sobre 'Dois papas' e o papel de Jorge Bergoglio (o atual papa) na ditadura deve levar em conta um ponto fundamental - a relação política e econômica entre o Estado argentino e a Igreja Católica.

O segundo artigo da Constituição argentina é claro ao dizer que "El Gobierno federal sostiene el culto católico apostólico romano". Este apoio é, inclusive, financeiro, e foi aprofundado ao longo da ditadura..

Em 1982, a lei 21.540 estabeleceu o pagamento, pelo Estado, de aposentadorias para bispos e arcebispos. Já a lei 22.950,de 1983, estabelece que o governo nacional contribuirá - dará dinheiro - para a formação do clero diocesano (padres formados em seminários das próprias dioceses, sem relação com ordens religiosas).

O artigo segundo amplia o benefício, e determina que o subsídio também será concedido para a formação de seminaristas de algumas ordens: mercedários, dominicanos, franciscanos, jesuítas (a de Bergoglio) e salesianos.

Claro que a dependência econômica em relação ao governo não determina uma subserviência dos religiosos, o filme mostra que muitos padres se rebelaram contra a ditadura. Mas esta relação íntima entre Estado e Igreja contribuiu muito para que, ao contrário do que houve no Brasil (onde bispos, padres e freiras tiveram papel importante na defesa da democracia), a hierarquia católica tenha colaborado tanto com os militares argentinos.

Para finalizar: há até pouco tempo, a Constituição argentina exigia que o presidente e o vice-presidente da República fossem católicos. Filho de uma família muçulmana, Carlos Menem teve que se converter ao catolicismo para poder ser presidente.

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As praias iluminadas pelas velas de Iemanjá

em 10 de dezembro de 2019

A decisão do prefeito Marcelo Crivella de incluir a música gospel no réveillon de Copacabana remete, de maneira contraditória, ao início da celebração da festa no litoral carioca. Uma festa umbandista, criada para saudar Iemanjá.

Nas noites do dia 31 de dezembro, era comum que meus pais me levassem para passear em praias cariocas. De formação católica, eles nunca foram chegados num tambor, numa curimba - nem numa missa, registro. Mas gostaram - e gostam - de festa. Os que os atraía às praias de Copacabana, Barra e Ilha do Governador não era a fé, mas, percebo hoje, o desfrute de um prazer estético e cultural.

Na noite do réveillon, as praias cariocas ficavam ainda mais lindas. Viraram imensos tapetes ornados pelas chamas das velas colocadas lado a lado, em pequenas covas cavadas na areia. Transformavam-se num palco improvável, já que a luz vinha do solo, não do alto - alguém aí pensou em estrelas que salpicavam nosso chão? Era por aí.

Por toda a areia, grupos tocavam atabaques, cantavam, homens e mulheres recebiam santo, distribuíam passes - católicos-apostólicos-macumbeiros de todas as gradações se aproximavam para receber aquela benção particular, que lhes garantiria um ano-novo com muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.

Iemanjá, que abriu as praias para os cariocas na noite do dia 31, aos poucos foi sendo jogada pra escanteio. Hotéis e restaurantes resolveram incrementar a festa com fogos de artifício, a comemoração caiu no gosto do público, foi encampada pela prefeitura e acabou se espalhando por outras praias, por outras cidades brasileiras.

Testemunha e vítima de tantas perseguições, o povo do santo não brigou, não bateu pé contra a invasão. Recolheu seus tambores, transferiu a homenagem para a véspera do réveillon, resolveu não brigar. Talvez tenha errado ao abrir mão dessa espécie de usucapião cultural, mas optou por um caminho mais pacífico.

Nada contra cantos e louvores de outras crenças, a pluralidade e a diversidade sempre merecem ser festejadas. Mas não deixa de ser triste ver que, mais uma vez, os criadores da festa acabaram expulsos de campo, algo comum num país tão preconceituoso, que insiste em rechaçar aqueles responsáveis por grande parte de nossa cultura, que tanto nos ensinaram a dançar, a batucar, a cantar e a rezar. O Brasil insiste em brigar com seu passado, com sua memória - uma receita infalível para sabotar o nosso presente e o nosso futuro.

*

Por falar nisso: daqui a pouco, às 15h desta terça, 10 de dezembro, o amigo Luiz Antônio Simas estará no Bar Madrid, na Tijuca, falando sobre essas antigas demonstrações de fé no réveillon - vai mostrar como, apesar de tudo, os inventores da festa encontraram frestas que mantêm vivos seus cantos, danças e tambores.

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