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No futebol, a compra e venda de meninos

em 17 de fevereiro de 2019

Matéria do Globo de hoje sobre meninos que sonham em jogar futebol fala de um garoto de 11 anos que, há dois anos veio de Palmas (TO) para treinar no Fluminense - está agora no Vasco. Ele tem um empresário, que banca a estada de sua família no Rio. Ou seja, desde os nove anos que ele tem um empresário, o dono de sua vida profissional. Construído com base na escravidão, o Brasil mantém a tradição de compra e venda de gente. No caso, de compra e venda de crianças, algo que só prospera por conta da miséria, da dificuldade que famílias pobres têm de ascender pelos mecanismos que deveriam ser acessíveis a todos
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Nada contra um garoto bom de bola querer ser jogador de futebol (todos já sonhamos com isso), mas não dá para jogar tanta responsabilidade nas contas de uma criança, submetê-la a uma lógica de treinamento pesada, não dá para que ela seja obrigada a ser adulta tão cedo.- esse menino sabe que o futuro de sua família depende dele. E, principalmente, não dá para que crianças e adolescentes tenham suas vidas presas a contratos que sequer poderiam ter sido assinados com menores de 16 anos.

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A perversão e o prazer de matar

em 15 de fevereiro de 2019

As imagens que mostram o assassinato do jovem Pedro Gonzaga por Davi Ricardo Moreira Amâncio, segurança do supermercado Extra, revelam o absurdo grau de perversidade em que vivemos. Já seria imperdoável se o assassino "por escusável medo, surpresa ou violenta emoção" (reproduzo as palavras usadas em projeto apresentado pelo governo federal) tivesse matado o rapaz com um tiro, ou com um soco. Mas não, ele comete o homicídio de forma lenta, pensada, brutal, mesmo estando diante de dezenas de pessoas. Parece ter prazer ao se deitar sobre o corpo de sua vítima enquanto aperta seu pescoço. Atua de maneira tão natural que, enquanto mata, chega a discutir com uma mulher que tenta impedir o crime.

Seus colegas de trabalho, seguranças como ele, nada fazem para evitar o crime - um deles, chega a tentar impedir a filmagem da cena. O comportamento dos outros seguranças mostra que perversidade não é apenas do assassino, está generalizada entre nós. Poucas vezes vi alto tão absurdo, tão correspondente à hoje clássica expressão banalidade do mal cunhada por Hannah Arendt. O cara mata porque se acha no dever - mais do que no direito - de matar. Mata, mata, mata é o que ouve todos os dias, é o grito que vem das ruas e dos palácios. Tem que matar, tem que matar, é o que ele repete, é o que ele faz.

Ele está do lado da maioria, dos que gritam, dos que aplaudem chacinas, do lado daqueles que, no lugar de fazer cumprir a lei, registraram seu crime como algo menor, culposo, não intencional. É possível que sequer fosse indiciado se não houvesse imagens de seu crime. Afinal, a vítima era mais uma daquelas que, por sua cor e por sua classe social, precisam provar o tempo todo que são inocentes - muitas vezes, são mortas antes disso. Pouco depois do homicídio já havia a versão, contestada pelas imagens de câmera do supermercado, de que o rapaz teria tentado roubar a arma do segurança (como se isso justificasse seu assassinato). Estamos nos transformando numa sociedade de assassinos, num país que mata por perversão, que tem prazer em matar.Todos que gritam pela morte são cúmplices daquele segurança.

Obs: o site do Globo publicou na noite desta sexta a que Pedro Gonzaga, o jovem morto, morava na Barra, era de uma família de classe média e sofria com a dependência química. Isto apenas reforça que nenhum de nós está livre também da violência praticada por agentes de segurança, públicos ou privados. O grito de morte atrai mais mortes, é óbvio.

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O bloco do seu Jair

em 14 de fevereiro de 2019

Os mandatos de Jair Bolsonaro na Câmara foram marcados pelo isolamento. Até para conseguir se destacar em meio ao anonimato do baixo clero, ele tratou de vestir apenas a camisa do próprio bloco, o do Eu Sozinho. Desfilava opiniões que, pelo inusitado, provocavam horror em muitos eleitores e gozo em tantos outros, não buscava alianças, não participava de articulações. Ficou na confortável posição de radical que, sem amarras, podia apontar o dedo para qualquer um. Um sambista de raiz. Com isso, cultivou a imagem de independência e de honestidade - não se metia em tramoias, não fazia o velho do jogo do toma lá-dá cá, ficou à margem dos bicheiros e patronos que costumam mandar em nossos carnavais.

O figurino lhe foi essencial para, na campanha, apresentar-se como o candidato "contra tudo o que está aí". Presidente, ele parece não ter abandonado a marca de folião solitário. Seu bloco ganhou filhos-puxadores de samba, alguns ritmistas de confiança, dois esforçados diretores de harmonia (Guedes e Moro) e diversos foliões que desfilam apenas para chamar a atenção para seus egos e fantasias ("Olha ali aquela de Menina-Rosa", "E aquele de Caçador de Comunistas", "Que original o folião vestido de Eu lavo meu carvalho"). Há também os seguranças, aqueles fortões de patentes altas e bigodes grossos que sustentam as cordas e tentam manter tudo nos conformes - caras que já demonstram um certo cansaço pela trabalheira.

Mas o bloco gira em torno do presidente, que manda e desmanda: reclama da bateria, diante de um escorregão, manda o mestre-sala voltar para suas origens. Levado para o alto do carro de som por dezenas de milhões de votos, Bolsonaro continua a agir isolado, como nos tempos de parlamentar. O problema é que, agora, não dá pra fazer tudo sozinho, ele precisa do apoio dos demais componentes - todos têm direito a voto nas assembleias do bloco, eles é que vão decidir o rumo do cortejo; no limite podem até interromper o desfile, como fizeram com Collor e Dilma. Jair fala grosso, não vacila ao expulsar parceiros de folia, mas corre o risco de mandar todo mundo pra casa e acabar isolado, sem samba e sem enredo, tendo sobre os ombros apenas as cinzas da quarta-feira.

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