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A maioridade de 'Notícias do Mirandão'

em 22 de março de 2020

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Neste mês de março, meu primeiro romance, 'Notícias do Mirandão' (Record), completa 18 anos. O livro foi bem acolhido, recebeu resenhas muito legais, no Brasil, na Alemanha e na França.

Depois dele vieram outros quatro romances, um livro-reportagem, um infantojuvenil e diversos contos espalhados em antologias/coletâneas.

Não é muito fácil conciliar o trabalho de ficcionista com o de jornalista. Trabalhamos com a escrita, com a tarefa de contar histórias, mas as coincidências não vão muito além disso. Partimos de premissas diferentes, seguimos caminhos até contraditórios.

O jornalismo, mesmo quando busca mudanças, parte de pressupostos institucionais, legais, tem um viés conservador - aqui, não no sentido político-ideológico, mas no de manutenção de valores básicos de uma sociedade, consagrados na legislação.

Por mais que registre diferentes versões, o jornalismo não escapa do certo-errado.A lei é sempre uma referência importante, ainda que essa lógica possa ser questionada/temperada pelos ventos que sopram da sociedade.

Muitas pautas que provocariam discussões e mudanças - direitos humanos, respeito a minorias, feminismo, casamento entre pessoas do mesmo sexo - foram levantadas pelos jornais.

A ficção não tem esse compromisso, trabalha com outra lógica. Como jornalista e cidadão, não tenho como não condenar um homem que joga a filha pela janela.
Como ficcionista, meu interesse seria, principalmente, entender o que faz um homem - um ser humano como qualquer um de nós - jogar a filha pela janela.

Não buscaria uma condenação ou uma absolvição, mas algo que permitisse entender a barbárie.

A dor da gente não sai no jornal, diz o samba de Luís Reis e Haroldo Barbosa, não por acaso citado no meu primeiro livro, romance que traz um jornalista como um dos protagonistas. Foi divertido usar a terceira pessoa ao tratar do sujeito - no momento de estrear na ficção foi bom deixar claro que estávamos em lados diferentes, eu, aqui; ele, lá.

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Bolsonaro, construtor de nuvens carregadas

em 22 de março de 2020

x-governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto costumava dizer que política era como nuvem: você olha e está de um jeito; olha de novo, e já mudou.

Nos últimos dias, as nuvens do céu de Jair Bolsonaro ficaram mais carregadas. Ao minimizar o coronavírus e ao desfiar orientações de seu próprio governo e participar de ato em Brasília, o presidente correu na direção do temporal, dos raios e das trovoadas.

Na ânsia de seguir os próprios instintos e certezas, ele cometeu o erro de chamar o vírus para a briga, de, como um colegial, desafiá-lo para um encontro nada amistoso na saída da escola. Saiu machucado da peleja, como revelaram várias pesquisas que medem a temperatura das redes sociais e atestam os panelaços que voltaram a fazer parte da trilha sonora das cidades.

Embriagado pelo sucesso da polarização que marca toda sua trajetória política, Bolsonaro não percebeu que, desta vez, estava arrumando problema com um inimigo poderoso, que já fez milhares de vítimas mundo afora. Esqueceu-se que seus eleitores também são contamináveis e que temem o novo coronavírus. Eleitores que queriam orientação.

O presidente tentou consertar o estrago. Mas as idas e vindas foram traduzidas visualmente na dificuldade que ele teve em colocar uma simples máscara no rosto. Bolsonaro pareceu assustado com a dimensão do problema que tentou negar e que, agora, desaba sobre sua cabeça.

Continua a passar a impressão de que não sabe bem o que fazer. Já deveria, por exemplo, ter convocado todos os governadores para uma conversa.

A tragédia abriu os céus para governadores, até mesmo os eleitos na onda bolsonarista e que passaram a ser vistos como inimigos pelo presidente assim que deixaram claros seus projetos presidenciais.

João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio, não vacilaram em tomar medidas duras. O governador fluminense deixou de lado performances como a de dar socos no ar para comemorar a morte de um bandido, economizou nas bravatas, não ameaçou dar tiro na cabeça do coronavírus.

Doria foi na mesma linha. Os dois engrossaram o coro contra o governo federal, não negaram os problemas e anunciaram medidas práticas e muito restritivas. Pode-se discutir se não há exagero em algumas decisões, mas não há como negar que os dois, como praticamente todos os outros governadores, tentam agir.

Um dos sábios da política mineira, Magalhaes Pinto se esqueceu, porém, de dizer que nuvens políticas não são movidas apenas pelas condições climáticas, sofrem interferência direta das ações de seus protagonistas.

Doria, Witzel e outros governadores trataram de afastar as nuvens; Bolsonaro insistiu em semear o vento e, agora, assusta-se com a colheita.

(Artigo para o site da CNN, publicado em 20/3/20)

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Vírus contra-ataca e anula jogada de Bolsonaro

em 22 de março de 2020

presidente Jair Bolsonaro bem que tentou aplicar no novo coronavírus a velha receita de negar a veracidade de notícias desagradáveis. Ele já culpou a Venezuela pelo derrame de óleo no Nordeste, criticou a metodologia do IBGE de cálculo do desemprego, rechaçou informações oficiais sobre queimadas na Amazônia, escalou Leonardo DiCaprio no elenco de incendiários, classificou de fake news notícias comprovadas e checadas.

Tratava, assim, de enfrentar fatos com versões - tirava a bola de sua área, a mandava pra longe e corria para o abraço de sua torcida virtual, ávida por consumir qualquer explicação que jogue o problema no colo dos inimigos de sempre, reais ou imaginários. A tática garantia ao presidente, no mínimo, o benefício da dúvida. Na ânsia de enquadrar a realidade, Bolsonaro desqualificou até mesmo as urnas eletrônicas que atestaram sua vitória - já tem na manga a justificativa para uma eventual derrota em 2022.

Diante de notícias do agravamento da crise econômica mundial, o presidente tentou matar o coronavírus no peito. Minimizou a disseminação da doença, falou em "fantasia" e arrematou com uma nova acusação à imprensa. Não contava com a resiliência do micro-organismo, que não dá a mínima para os arroubos bolsonaristas. Provocado, o vírus atuou como o VAR do futebol - e a jogada presidencial acabou anulada.

Dois dias depois da fala de Bolsonaro, a Organização Mundial da Saúde classificou a disseminação do vírus de pandemia; até este domingo havia sido confirmada a contaminação de cinco pessoas que viajaram com Bolsonaro para os Estados Unidos.

Para piorar, houve a suspeita de que autoridades norte-americanas, entre elas o presidente Donald Trump, poderiam ter sido contaminadas por integrantes da comitiva brasileira.

Dessa vez, a bola chutada por Bolsonaro foi parar nos jardins da Casa Branca e quase quebra a vidraça da sede do governo dos Estados Unidos. Derrotado por um inimigo microscópico, o presidente acabou admitindo o tamanho do problema, e sequer pôde culpar os inimigos de sempre. Os vírus não têm ideologia.

Políticos, de um modo geral, detestam admitir erros. Bolsonaro não foge à regra - é um especialista em negar verdades mais absolutas, mesmo que tenha que brigar com a história, a matemática, a biologia, com as ciências em geral. Mas não custa ter esperança de que o episódio do coronavírus seja capaz de provocar uma reflexão na cabeça do presidente. Afinal, não é bom brigar com os fatos.

A exemplo do vírus, o desemprego, o pibinho e o aumento do dólar e da pobreza não são fantasia ou fruto de uma conspiração de jornalistas. Ignorar tantos problemas não faz com que deixem de existir. É melhor encará-los do que achar que o jogo está ganho e, depois, tomar uma bola entre as pernas e levar um gol de contra-ataque.

(Artigo para o site da CNN, publicado em 13/03/20.)

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