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O chefe e o roteiro

em 16 de agosto de 2019

- Quem foi o irresponsável que aprovou este roteiro?
- Como assim, chefe?
- Como assim? Vocês querem que eu perca o emprego, que vá pra embaixada na Coreia do Norte? Ninguém leu o edital? Filmes, agora, só com temas de família, nada de safadeza.
- Mas estamos atentos, chefe...
- Atentos, sei... Olha isso aqui: "Beije-me com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho." Amor melhor que vinho! Sexo e álcool na mesma frase!
- Mas, mas...
- Mas é o cacete. E essa frase? "Às éguas dos carros de Faraó te comparo, ó meu amor." O cara compara a mulher a um bando de éguas! E vocês querem que o dinheiro público seja usado nisso...
- Eu posso explicar...
- Cala a boca, rapaz. Depois de ser comparada a uma cavala, a mulher diz: "O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios.". Ramalhete de mirra entre os seios! Vocês querem que cena de Espanhola seja filmada com verba federal, é o fim!
- Mas...
- Não pode putaria, não pode sexo. E ainda tem cena gay, ideologia de gênero! Leia isso aqui: "O meu amado é semelhante ao gamo, ou ao filho do veado." Filho do veado!?! E tome de nudez, nudez,nudez: "Os contornos de tuas coxas são como jóias, trabalhadas por mãos de artista. O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios.Os teus dois seios como dois filhos gêmeos de gazela." Parece aquela coluna da 'Ele & Ela'. Porra, acabou, acabou, tá tudo vetado. Nada disso vai ser filmado. Pra mim, chega, eu vou pra casa. Amanhã, todo mundo às 8h aqui. Quero descobrir quem aprovou essa indecência.

(...)

- Xi, o chefe ficou irritado.
- E quem é que vai contar pra ele que o roteiro é bíblico, adaptação do 'Cântico dos cânticos'?
- Não vou contar nada, melhor deixar pra lá. Vou tratar de vetar uma outra proposta. Aquela história de homem e mulher pelados no meio da selva não vai rolar. Ainda tem uma cobra e uma maçã na parada. Se isso passa, a gente vai pra rua.

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Aquarela do João

em 06 de julho de 2019

Há muito que João Gilberto não era mais uma trilha sonora compatível com o Brasil. O país ficou mais bruto, cruel, vulgar, desumano; rompeu com qualquer projeto de carinho, de amor, de busca de alguma paz. O Brasil desafinou, deixou-se embalar pelo ódio, pela repetição de certezas e de chavões - nem a nossa música escapou de tamanha banalização.
João Gilberto apostou no incerto, inventou um jeito de cantar e de tocar violão, mirou a utopia, a afinação absoluta. Sacrificou a própria sanidade em busca no inalcançável, é possível que tenha morrido frustrado por não ter atingido tamanha perfeição. Fomos testemunhas privilegiadas de sua jornada.

Há pouco, ao saber de sua morte, cantarolei `Chega de saudade`, lembrei do dia em que, disfarçado de publicitário, acompanhei o que seria um ensaio dele com Tom Jobim num hotel de Ipanema. João chegou atrasado, foi no quarto da suíte afinar o violão e, ali, a uns três ou quatro metros de onde eu estava, cantou várias vezes a já pra lá de conhecida canção - meninos eu vi, eu ouvi.

Mas acho que essa gravação de 'Aquarela do Brasil' traduz melhor o momento da morte de João. Aqui, Gil e Caetano não escondem a alegria de cantar ao lado do mestre de todos, dá pra sentir a reverência pelo mais velho, por aquele que abriu caminho pra tanta gente.
Ouvir esses três baianos cantando o mineiro Ary Barroso é lindo e triste, remete a um passado em que acreditávamos num país que, no futuro, seria mais justo e doce. O país decidiu se perder, mas, até por conta desses grandes artistas, ainda dá para ter esperança num Brasil melhor, mais bonito, mais harmônico e delicado - pra mim, pra todos nós.

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Mendonça, o nosso craque

em 05 de julho de 2019

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Mendonça, ídolo de minha adolescência, morreu hoje. Alvinegros que tenham 35 anos ou menos não têm ideia da importância do cara para o Botafogo, onde jogou de 1975 a 1982. No período da Grande Seca, aquele em que ficamos duas décadas sem um reles título, Mendonça foi o nosso grande craque. Depois do roubo sofrido na final do Carioca de 1971, o Botafogo teve muitas dificuldades para montar um bom time, com frequência arrumou equipes sofríveis, cheias de jogadores esforçados.

Houve exceções, claro, mas a situação era terrível. Pra piorar, o Flamengo montou aquele timaço e o Vasco, liderado por Roberto, também tinha uma grande equipe.E nesse período surgiu o Mendonça, nossa - como era chamado - Estrela Solitária. Não foi um super craque, um jogador excepcional, a Wikipedia me diz que ele jogou apenas duas vezes pela seleção brasileira (a concorrência era grande na época).

Mas era o nosso craque, o craque da nossa aldeia. O craque que aplicou o drible Baila Comigo no grande Júnior. Assim como Heleno de Freitas, Mendonça não foi campeão pelo Botafogo - mas uma daquelas coisas que só acontecem com a gente. Mas é um dos meus grandes ídolos, o cara que, em festas tão complicadas, nos botou para dançar, cantar, gritar e pular. Valeu, Mendonça.

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