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Aldir e o cor-de-rosa

em 10 de maio de 2020

Quem mandou aceitar mediar, na Bienal do Livro, debate sobre uma coletânea chamada 'Meu querido canalha' e que teria a participação de, entre outros autores, Aldir Blanc? Eu aceitei.
Foi em 2004, 2005, por aí. Bienal não é como a Flip, tem um público mais amplo, muitas famílias, muitas crianças. E famílias e crianças lotavam o auditório do Riocentro. Na mesa havia outros autores, lembro do Geraldinho Carneiro.
Aldir chegou depois de algumas cervejas, meio tímido, sem jeito. Pra piorar, ao apagar um cigarro, abriu um buraco no forro plástico de um pufe que lhe servia de cadeira - o incidente fez com que ele ficasse ainda mais retraído.
O debate corria e ele, nada. Umas frases curtas, uns monossílabos. Até que, numa hora, ao perceber a plateia meio fria, ele deu uma empinada e, ao microfone, tratou de dar sua versão para o tema da conversa:
- Vocês querem, né? Canalha é o sujeito que, depois do amor, abraça a mulher amada pelas costas, deita-se em suas ancas nuas e decreta: 'Cu cor-de-rosa é sinal de bom coração'".
Do palco, vi mães tapando ouvidos de filhos, pais saindo apressados do auditório. Segurei o riso, fiz cara de estante e, tentando não perder o rebolado, continuei a conversa:
- É com você, Geraldinho.

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A maioridade de 'Notícias do Mirandão'

em 22 de março de 2020

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Neste mês de março, meu primeiro romance, 'Notícias do Mirandão' (Record), completa 18 anos. O livro foi bem acolhido, recebeu resenhas muito legais, no Brasil, na Alemanha e na França.

Depois dele vieram outros quatro romances, um livro-reportagem, um infantojuvenil e diversos contos espalhados em antologias/coletâneas.

Não é muito fácil conciliar o trabalho de ficcionista com o de jornalista. Trabalhamos com a escrita, com a tarefa de contar histórias, mas as coincidências não vão muito além disso. Partimos de premissas diferentes, seguimos caminhos até contraditórios.

O jornalismo, mesmo quando busca mudanças, parte de pressupostos institucionais, legais, tem um viés conservador - aqui, não no sentido político-ideológico, mas no de manutenção de valores básicos de uma sociedade, consagrados na legislação.

Por mais que registre diferentes versões, o jornalismo não escapa do certo-errado.A lei é sempre uma referência importante, ainda que essa lógica possa ser questionada/temperada pelos ventos que sopram da sociedade.

Muitas pautas que provocariam discussões e mudanças - direitos humanos, respeito a minorias, feminismo, casamento entre pessoas do mesmo sexo - foram levantadas pelos jornais.

A ficção não tem esse compromisso, trabalha com outra lógica. Como jornalista e cidadão, não tenho como não condenar um homem que joga a filha pela janela.
Como ficcionista, meu interesse seria, principalmente, entender o que faz um homem - um ser humano como qualquer um de nós - jogar a filha pela janela.

Não buscaria uma condenação ou uma absolvição, mas algo que permitisse entender a barbárie.

A dor da gente não sai no jornal, diz o samba de Luís Reis e Haroldo Barbosa, não por acaso citado no meu primeiro livro, romance que traz um jornalista como um dos protagonistas. Foi divertido usar a terceira pessoa ao tratar do sujeito - no momento de estrear na ficção foi bom deixar claro que estávamos em lados diferentes, eu, aqui; ele, lá.

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Bolsonaro, construtor de nuvens carregadas

em 22 de março de 2020

x-governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto costumava dizer que política era como nuvem: você olha e está de um jeito; olha de novo, e já mudou.

Nos últimos dias, as nuvens do céu de Jair Bolsonaro ficaram mais carregadas. Ao minimizar o coronavírus e ao desfiar orientações de seu próprio governo e participar de ato em Brasília, o presidente correu na direção do temporal, dos raios e das trovoadas.

Na ânsia de seguir os próprios instintos e certezas, ele cometeu o erro de chamar o vírus para a briga, de, como um colegial, desafiá-lo para um encontro nada amistoso na saída da escola. Saiu machucado da peleja, como revelaram várias pesquisas que medem a temperatura das redes sociais e atestam os panelaços que voltaram a fazer parte da trilha sonora das cidades.

Embriagado pelo sucesso da polarização que marca toda sua trajetória política, Bolsonaro não percebeu que, desta vez, estava arrumando problema com um inimigo poderoso, que já fez milhares de vítimas mundo afora. Esqueceu-se que seus eleitores também são contamináveis e que temem o novo coronavírus. Eleitores que queriam orientação.

O presidente tentou consertar o estrago. Mas as idas e vindas foram traduzidas visualmente na dificuldade que ele teve em colocar uma simples máscara no rosto. Bolsonaro pareceu assustado com a dimensão do problema que tentou negar e que, agora, desaba sobre sua cabeça.

Continua a passar a impressão de que não sabe bem o que fazer. Já deveria, por exemplo, ter convocado todos os governadores para uma conversa.

A tragédia abriu os céus para governadores, até mesmo os eleitos na onda bolsonarista e que passaram a ser vistos como inimigos pelo presidente assim que deixaram claros seus projetos presidenciais.

João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio, não vacilaram em tomar medidas duras. O governador fluminense deixou de lado performances como a de dar socos no ar para comemorar a morte de um bandido, economizou nas bravatas, não ameaçou dar tiro na cabeça do coronavírus.

Doria foi na mesma linha. Os dois engrossaram o coro contra o governo federal, não negaram os problemas e anunciaram medidas práticas e muito restritivas. Pode-se discutir se não há exagero em algumas decisões, mas não há como negar que os dois, como praticamente todos os outros governadores, tentam agir.

Um dos sábios da política mineira, Magalhaes Pinto se esqueceu, porém, de dizer que nuvens políticas não são movidas apenas pelas condições climáticas, sofrem interferência direta das ações de seus protagonistas.

Doria, Witzel e outros governadores trataram de afastar as nuvens; Bolsonaro insistiu em semear o vento e, agora, assusta-se com a colheita.

(Artigo para o site da CNN, publicado em 20/3/20)

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