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Pelé mantém distância de Pelé

em 24 de junho de 2018

Pelé volta e meia era ironizado por se referir a si mesmo na terceira pessoa: em suas nem sempre felizes declarações, ele sempre falava/fala "no Pelé". O que poderia parecer arrogância é uma demonstração de sabedoria, algo que fica mais evidente diante do egocentrismo desastrado de tantos ídolos pop, jogadores de futebol ou não. Jovens que acreditam mesmo ser aquilo tudo que falam deles, pessoas que estariam além da condição humana, deuses intocáveis, inquestionáveis, donos de todas as razões.

Astro aos 16 anos, campeão do mundo aos 17, Pelé deve ter percebido que não seria fácil ser Pelé, o maior jogador do esporte mais popular do mundo. Ninguém suportaria o peso de ser Pelé o tempo todo. Daí, ele terceirizou o personagem, o fato de seu nome profissional ser um apelido facilitou o processo, ajudou a marcar as diferenças entre o Edson e o Pelé, É como se ele mantivesse uma distância segura do personagem, do "rei de todos os estádios", do Atleta do Século, do homem que fez parar uma guerra, do jogador que ganhou três das quatro copas que disputou. Até para Pelé, Pelé é uma outra pessoa.

Maradona, mais cultuado na Argentina do que Pelé é por aqui (ninguém criou uma igreja com seu nome), foi um dos que sucumbiram ao peso de ser quem é. Pelé, não. E olha que nosso camisa 10 não reconheceu uma filha, sequer foi visitá-la em seu leito de morte, esteve envolvido naquele caso de desvio de grana destinada ao Unicef. Mas, aí, ele pode alegar que as safadezas foram feitas pelo Edson, não pelo Pelé. Eu, que tanto critiquei as caneladas que ele cometeu fora de campo, uma vez me vi pegando autógrafo do cara. Questionado, respondi que pedira a dedicatória ao grande Pelé, o jogador que mais perto chegou da perfeição, não ao Edson.

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Neymar e a nossa intolerância

em 24 de junho de 2018

Essa discussão em torno do Neymar revela, mais uma vez, o quanto estamos incapazes de ponderar, de debater, de trocar ideias. Virou um outro pega-pra-capar, um outro coxinhas versus mortadelas, camisas amarelas contra vermelhas. Caramba, calma. O cara, cracaço, joga pacas, é de longe o melhor jogador do time. Isso não impede que ele exagere ao cavar faltas, que demonstre imaturidade e incapacidade de ser contrariado, que, por ser tão irritadiço, tome cartões amarelos desnecessários, que podem atrapalhar a trajetória da seleção.

O caso Neymar foi transformado em uma peleja entre libertários e repressores, entre os que veem no cara uma reencarnação dos ideais de 1968 e os defensores da ordem, do progresso, do simsinhô. A polarização impede conversas, dificulta reflexões, anula qualquer possibilidade de debate. Duvido que os defensores do camisa 10 considerem que ele é assim tão espetacular e perfeito, tenho certeza que aqueles que o criticam de forma pontual - estou entre estes - sabem o quanto é cara é bom de bola, e fundamental. Com suas qualidades e problemas, Neymar é um cara contraditório, não tentemos reduzi-lo a alguém menor, linear, previsível. E torçamos por ele, pela seleção.

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Um novo jogo

em 29 de maio de 2018

Esta longa mobilização dos caminhoneiros reforça algo que tinha ficado meio evidente em 2013: a sociedade que se move guiada pelas cercas da institucionalidade (aí incluo políticos, jornalistas, analistas, acadêmicos) não está preparada para enfrentar situações que escapam do padrão consagrado por muitos anos.

Sabemos encarar/cobrir greves tradicionais, aquelas que têm pautas, lideranças e adversários determinados. Ouvimos sindicato, governo, patronato, acompanhamos a movimentação da polícia, as negociações, assembleias. O problema é que, até por conta da crise e do desemprego, essas greves sumiram, as que restaram ficaram praticamente restritas ao setor público.

A internet e o WhatsApp acabaram com o samba de poucas notas dos movimentos tradicionais, sindicatos e centrais sindicais foram pro espaço, a sucessivas roubalheiras em governos minaram a confiança nos políticos, que ficaram órfãos de representatividade. Assim como as passeatas de 2013, a greve de caminhoneiros não se restringe a um pequeno e significativo número de pautas (que, em linhas gerais, foram atendidas) e de vozes.

O movimento expressa diferentes insatisfações, com o governo, com o presidente, com o país, com a chegada de tantas mudanças, com a eclosão de tantos medos. Não se trata mais de um organizado desfile no Sambódromo, mas de anárquicas apresentações de infinitos blocos do Eu Sozinho. Não é só por 46 centavos, alguém já disse.

O problema não são os boatos espalhados pelos celulares, mas o fato de que tanta gente acredita neles, gente que quer acreditar em algo, em medidas milagrosas, em artigos da Constituição que jamais existiram.

É complicado quando a política vira uma questão de fé. As instituições - tão maltratadas nos últimos anos - demonstram não ter capacidade para lidar com algo tão novo e intangível. Daí a crença num Salvador, num Dom Sebastião que ressurja de espada em punho, radiante em seu uniforme verde-oliva. O jogo, agora, ficou sem regras, é em outro campo, ninguém liga para os juízes e para as federações - ninguém confia mais no Tapetão. Temos que lidar com isso, até para que, em breve, possamos todos colocar a bola no chão e definir um novo jeito de jogar.

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