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Países não têm ideologia

em 08 de março de 2019

Na sua fala de ontem, Bolsonaro falou em cumprimento "da missão" ao lado de pessoas de bem, que amam a pátria, respeitam a família, "que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa". Apenas países totalitários têm ideologia, de esquerda ou de direita - mesmo assim é algo, a história prova, temporário.

Países do leste europeu estiveram socialistas, parecia algo eterno, a história mostrou que não. Ditaduras de direita também foram pro saco. Sociedades democráticas têm compromisso com a possibilidade de escolher governos de diferentes visões ideológicas, numa eleição votam mais à esquerda; em outra, mais à direita - é o que tem acontecido por aqui. E é bom que seja assim.

Achar que o Brasil têm uma ideologia - não por acaso, a mesma do atual presidente - é uma forma de desconsiderar a diversidade que caracteriza o país, de diferenciar a população, de dizer que um cidadão é melhor do que o outro por conta de suas afinidades político-partidárias.

Não, todos, de esquerda ou de direita - e mesmo os que não são vinculados a qualquer visão ideológica, talvez a maioria da população - temos o mesmo direito, todos pagamos impostos, todos temos o direito de influenciarmos na escolha dos rumos que serão adotados pelos governos. Governos que, por um determinado período, representarão um jeito de enxergar o mundo.

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Vento sopra, terreiro treme

em 03 de março de 2019

Sei não (quem sabe é o Luiz Antonio Simas, só dou palpite), mas desde que ouvi os sambas do Salgueiro e da Portela achei que as águas de março iam desabar no desfile. Uma escola fala de Xangô, orixá dos raios e trovões; a outra, de Yansã/Oyá, que manda nos ventos e nas tempestades.

O samba da Portela chega a pedir: "Eparrei Oyá, Eparrei/ Sopra o vento, me faz sonhar". Já o do Salgueiro (que também cita Oyá), tem um verso fortíssimo, que remete à Justiça de Xangô: "Machado desce e o terreiro treme". Tá tudo tremendo, sinal de que tem muita injustiça no nosso terreiro.

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Alfredinho morreu de Brasil

em 02 de março de 2019

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Lá no Bip, há pouco, nos perguntávamos sobre causa da morte do Alfredinho. Falávamos de tireoide, disso, daquilo - e, mesmo, do conjunto da obra. Arrisco dizer que ele morreu por não aguentar mais a dureza do país. Morreu por não suportar tanta estupidez, tanto ódio, tanta negação da vida. Alfredinho ressaltava os projetos sociais do Bip, pedia dinheiro para ajudar famílias muito pobres - no banheiro do bar há cartazes, em português e em inglês, que pedem colaboração "pra caixinha".

Em dezembro, ele demonstrava preocupação com a dificuldade de arrumar um local para fazer comida para a população de rua, brasileiros que, no dia 24, ficavam sem comer: "Os restaurantes fecham na noite de Natal", frisou naquele seu grito que ficava meio preso na garganta, voz que teimava em não sair direito. Ele alertava que, na noite da ceia natalina, não haveria sobras para alimentar tanta gente. Eu nunca havia pensado que a véspera de Natal seria terrível para os que não têm casa, para os que não têm o que comer. Alfredinho nos lembrava que havia muita gente que dependia de sobras.

Ele morreu hoje, sábado de Carnaval. Morreu - insisto - porque, apesar de tantas broncas, de tantos esporros, era doce demais. O Brasil ficou amargo, duro, insensível. O país ficou de um jeito que os mais sensíveis não conseguem aguentar. Alfredinho morreu de Brasil.

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