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Dona Ivone gira

em 17 de abril de 2018

Perdi a conta das vezes em que, nessas tantas rodas, girei os braços para marcar os versos que viravam e reviravam meu avesso, que citavam a tristeza que rolara nos meus olhos e que afivelara o peito ferido pela faca-lâmina tão afiada, traduzida na música de Dona Ivone Lara e na letra de Hermínio Bello de Carvalho. Rodei tanto, pra lá e pra cá, idas e vindas, caminhos que iam, que voltavam, que se refaziam, que insistiam. Mas quem disse que te esqueço, mas quem disse que eu mereço? Um merecer, noto agora, dúbio: queixa que remete a uma dor imensa, mas também gozo que comemora, surpreso, um grande prazer - quem disse que mereço tanto? Desde que o samba é samba é assim, o samba roda, o samba gira, o samba é jira. Dona Ivone me ajuda a girar, a seguir.

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ACM, Roberto Marinho e a reação ao discurso de Délio

em 04 de abril de 2018

"Violento discurso de Délio provoca enérgica reações". A manchete, em cinco colunas e duas linhas, ocupava o alto da capa de 'O Globo' em 5 de setembro de 1984 e tratava de uma das mais importantes crises ocorridas no ocaso da ditadura.

Na véspera, em Salvador, o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, desancara políticos governistas que se recusavam a apoiar Paulo Maluf, candidato oficial à sucessão do presidente Figueiredo e já na época associado a diversos casos de corrupção. O grupo, que formaria o PFL, aderira a Tancredo Neves, do PMDB.

Ao lado de Figueiredo e de Maluf. o brigadeiro chamou os dissidentes de "covardes" e "traidores", condenou os "conchavos com a esquerda incendiária".

Um dos tais dissidentes, Antônio Carlos Magalhães, ex-governador baiano, não refugou. Soltou uma nota violentíssima, disse que "trair a Revolução de 1964" era "apoiar Maluf para presidente". "Trair os propósitos de seriedade e dignidade da vida pública é fazer o jogo de um corrupto", continuou.

ACM lembrou a promessa de Figueiredo de transformar o país numa democracia. Frisou que não se faz democracia com ameaças inúteis, porque o povo não se intimida."

Ao lado do texto que acompanhava a manchete, o jornal publicou um editorial em que condenava o discurso de Délio, chegava a ironizar suas "metáforas de enigmática interpretação". 'O Globo' ressaltava que o ministro era "autoridade do Executivo e chefe militar" e não líder ou militante partidário.

O caso foi decisivo para consolidar a vitória de Tancredo, do PMDB, na eleição indireta. Reforçou também que os militares haviam mesmo abraçado a candidatura de um político nascido na ditadura e que desde sempre fora identificado com a corrupção. O verno "malufar" era então usado nas ruas como sinônimo de roubar.

Anos depois, repórter da 'Folha', conversei com Roberto Marinho sobre o episódio. Ele revelou que ele e o velho amigo ACM haviam combinado os termos da reação ao discurso de Délio.

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Os nomes dos generais

em 04 de abril de 2018

Comecei na profissão durante o governo do general João Baptista Figueiredo, o último da ditadura. Na época, era fundamental cobrir solenidades como as formaturas na Aman e as visitas dos ministros militares ao Rio (não havia Ministério da Defesa). Saíamos quase no tapa para conseguir declarações dos militares sobre o processo de abertura, eleições diretas. Ficávamos eufóricos com cada palavra arrancada. Até hoje sei os nomes dos ministros do Exército (Walter Pires), Marinha (Maximiano da Fonseca) e da Aeronáutica (Délio Jardim de Matos). Na sucursal do Estadão havia até um repórter, Helio Contreiras, especializado na cobertura de militares.

Pouco depois, fiz, para a Folha, uma grande matéria sobre o processo que gerou a Constituição de 1946, passei umas duas semanas internado na Biblioteca Nacional lendo jornais da época. Fiquei espantado como, naqueles tempos, era importante ouvir chefes militares. Jornais, com frequência, publicavam o que determinado general, almirante ou brigadeiro pensava sobre a política brasileira. E, ao contrário dos ministros do Figueiredo, os militares dos anos 1940 falavam muito. Falavam e agiam, como provam os movimentos que desaguariam em 1964.

Militares ainda foram personagens importantes na transição para o governo José Sarney, seguraram o tranco no impeachment de Collor. Ao longo das últimas décadas, demonstraram respeitar o poder civil, passaram a cuidar das funções inerentes à carreira. Durante cerca de duas décadas, a cobertura de solenidades militares deixou de ser relevante. Agora, em meio a sucessivas crises, militares rompem o silêncio e voltam a falar em voz alta, não se constrangem em tratar da situação política do país. Repórteres voltaram a ter que decorar nomes dos comandantes das Forças Armadas - não consigo achar isso bom pra ninguém, nem mesmo para os chefes militares.

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