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Mortes injustificáveis

em 10 de maio de 2018

Mais um PM, um sargento, foi morto hoje na Rocinha, moradores e um outro policial foram feridos. A guerra por lá tem mais de 30 anos, não há vencedores, apenas derrotados. O que justifica tantas mortes ao longo de tantos anos? Como explicar a morte do sargento para seus quatro filhos? Ele não morreu por uma causa nobre, contra o nazismo, por exemplo. Será que os agora órfãos acharão razoável ouvir que seu pai foi morto numa guerra interminável que, no limite, tenta impedir que algumas pessoas vendam e outras comprem determinados produtos?

Os que defendem a guerra contra as drogas não pregam apenas a morte de bandidos, estimulam também a morte de policiais e de pessoas comuns. Esses entusiastas da guerra sabem que eles e seus filhos não serão vítimas dessas batalhas. Sabem que, com raras exceções, os mortos serão os pobres de sempre: bandidos, policiais, moradores de favelas. Já que se fala tanto em guerra, talvez seja o caso de criar um serviço policial-militar obrigatório, todos os jovens, homens e mulheres, ricos ou pobres, brancos e pretos, seriam obrigados a ficar um ano na PM, teriam que subir favelas, dar e levar tiros. É possível que, assim, com seus filhos ameaçados, os senhores das nossas guerras particulares deixassem de mandar os filhos dos outros para a morte.

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Dona Ivone gira

em 17 de abril de 2018

Perdi a conta das vezes em que, nessas tantas rodas, girei os braços para marcar os versos que viravam e reviravam meu avesso, que citavam a tristeza que rolara nos meus olhos e que afivelara o peito ferido pela faca-lâmina tão afiada, traduzida na música de Dona Ivone Lara e na letra de Hermínio Bello de Carvalho. Rodei tanto, pra lá e pra cá, idas e vindas, caminhos que iam, que voltavam, que se refaziam, que insistiam. Mas quem disse que te esqueço, mas quem disse que eu mereço? Um merecer, noto agora, dúbio: queixa que remete a uma dor imensa, mas também gozo que comemora, surpreso, um grande prazer - quem disse que mereço tanto? Desde que o samba é samba é assim, o samba roda, o samba gira, o samba é jira. Dona Ivone me ajuda a girar, a seguir.

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ACM, Roberto Marinho e a reação ao discurso de Délio

em 04 de abril de 2018

"Violento discurso de Délio provoca enérgica reações". A manchete, em cinco colunas e duas linhas, ocupava o alto da capa de 'O Globo' em 5 de setembro de 1984 e tratava de uma das mais importantes crises ocorridas no ocaso da ditadura.

Na véspera, em Salvador, o ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Mattos, desancara políticos governistas que se recusavam a apoiar Paulo Maluf, candidato oficial à sucessão do presidente Figueiredo e já na época associado a diversos casos de corrupção. O grupo, que formaria o PFL, aderira a Tancredo Neves, do PMDB.

Ao lado de Figueiredo e de Maluf. o brigadeiro chamou os dissidentes de "covardes" e "traidores", condenou os "conchavos com a esquerda incendiária".

Um dos tais dissidentes, Antônio Carlos Magalhães, ex-governador baiano, não refugou. Soltou uma nota violentíssima, disse que "trair a Revolução de 1964" era "apoiar Maluf para presidente". "Trair os propósitos de seriedade e dignidade da vida pública é fazer o jogo de um corrupto", continuou.

ACM lembrou a promessa de Figueiredo de transformar o país numa democracia. Frisou que não se faz democracia com ameaças inúteis, porque o povo não se intimida."

Ao lado do texto que acompanhava a manchete, o jornal publicou um editorial em que condenava o discurso de Délio, chegava a ironizar suas "metáforas de enigmática interpretação". 'O Globo' ressaltava que o ministro era "autoridade do Executivo e chefe militar" e não líder ou militante partidário.

O caso foi decisivo para consolidar a vitória de Tancredo, do PMDB, na eleição indireta. Reforçou também que os militares haviam mesmo abraçado a candidatura de um político nascido na ditadura e que desde sempre fora identificado com a corrupção. O verno "malufar" era então usado nas ruas como sinônimo de roubar.

Anos depois, repórter da 'Folha', conversei com Roberto Marinho sobre o episódio. Ele revelou que ele e o velho amigo ACM haviam combinado os termos da reação ao discurso de Délio.

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