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Uma outra Antígona

em 10 de novembro de 2019

Na noite deste domingo, ao sair da apresentação de 'Antígona', encontrei uma vizinha na plateia, sobrinha de um desaparecido político, jovem sequestrado e morto pela ditadura.

O encontro representou um novo e improvisado ato da peça, que trata da punição aplicada a Antígona, mulher que desobedeceu o rei de Tebas e ousou tentar enterrar o corpo do irmão.

A mãe do desaparecido - ela morava ao meu lado, no apartamento onde vive a neta - foi como Antígona; ao longo de muitos anos procurou pelo filho, foi humilhada, desrespeitada. Morreu com mais de 90 anos sem saber o que foi feito do corpo do filho.

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A estreia de uma ópera centenária

em 25 de outubro de 2019

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Na sexta, 1o de novembro, haverá a estreia de uma ópera composta há 108 anos. Depois de passar mais de um século encaixotada, 'Marília de Dirceu', de Julio Reis, será mostrada ao público na abertura da quinta edição do Festival de Ópera do Paraná, evento criado e conduzido por Gehad Hajar. No ano passado, o mesmo festival promoveu a estreia de 'Sóror Mariana', outra ópera de Julio Reis, composta em 1920.

A apresentação dessas duas obras ilustra a dificuldade de tantos e tantos criadores - músicos, artistas de um modo geral -, que penam para fazer com que seus trabalhos sejam conhecidos pelo público. 'Sóror Mariana' - que será reapresentada este ano - é um caso exemplar. Ainda nos anos 1920, Julio Reis conseguiu que o Senado aprovasse uma verba destinada à montagem da ópera, ele morreu em 1933, sem conseguir que o dinheiro fosse liberado.

Soube de histórias ligadas a JR por uma questão familiar - sou bisneto dele. Ao longo de muitos anos, acompanhei a luta de meu avô materno, Frederico Mário dos Reis, para tentar fazer com que composições de seu pai fossem executadas.

Ao longo de dezenas de anos, ele enviou cartas para jornais e para autoridades, procurou músicos - eu cheguei a acompanhá-lo num encontro com um famoso maestro, a quem foi entregue cópia da partitura do poema sinfônico 'Vigília d'Armas`. Ele examinou a obra, a elogiou, e nunca mais deu qualquer retorno. Meu avô, pianista amador, de limitados conhecimentos musicais, morreu há quase 30 anos, morreu sem voltar a ouvir qualquer composição de seu pai.

Durante anos pensei em escrever sobre a saga de JR. Em 2012, enfim, publiquei pela Record o romance 'O inventário de Julio Reis'. No mesmo ano, o maestro Branco Bernardes, então regente da Orquestra Sinfônica da UniRio, incluiu 'Vigília d'Armas' em um concerto.

Contratado pela editora para tocar músicas de JR no lançamento do livro, o pianista João Bittencourt ficou tão entusiasmado com as polcas, mazurcas e valsas que resolveu - e conseguiu - gravar um belíssimo CD, 'João Bittencourt apresenta Julio Reis'.

Gehad Hajar tomou conhecimento do romance, e procurou saber mais do compositor. Há alguns anos ele me ligou, falou de sua intenção de montar algumas das óperas do meu bisavô. Na época, eu já havia atendido a um pedido do meu avô, e doara todo o acervo de JR - partituras, livros, recortes de jornais - para a Biblioteca Nacional. A BN cumpriu seu papel de instituição pública, e digitalizou todas as partituras, hoje disponíveis em seu site.

Bem, 'Marília de Dirceu' e 'Sóror Mariana' serão apresentadas, dias 1 e 2, no Teatro Londrina, em Curitiba, pela Companhia Paranaense de Ópera, A direção musical é de - Elena Moukhorkina Moreno e a direção geral, de Gehad Hajar. A entrada é franca - mais detalhes, no site do evento. Apareçam.

Ah, 'O inventário de Julio Reis' pode ser encontrado na Amazon por R$ 14,46. Outras livrarias listadas no site da própria Amazon oferecem o romance por preços ainda inferiores.

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O assalto em Viracopos e o caminhão do Lamarca

em 17 de outubro de 2019

homemque.jpgO uso, no assalto ocorrido no Aeroporto de Viracopos, de um carro pintado como os da Aeronáutica remete a um episódio de janeiro de 1969 que desencadearia a perseguição à VPR, grupo guerrilheiro que atuou no país durante a ditadura. O plano previa o roubo - expropriação, na linguagem então usada - de centenas de fuzis do Exército e ataques a locais como o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Para entrar no quartel - onde servia o capitão Carlos Lamarca -, os guerrilheiros utilizariam um caminhão roubado, que, levado para um sítio, seria pintado de verde-oliva e ganharia os símbolos do Exército. A movimentação de homens envolvidos na clonagem chamou a atenção de um garoto. Ele foi ver o que se passava, e levou passa-fora do pessoal da VPR. O menino reclamou com os pais, e a história chegou aos ouvidos da polícia. O plano foi descoberto, o roubo dos fuzis acabou antecipado, numa operação feita às pressas.
Cheguei a citar o episódio no livro-reportagem 'O homem que morreu tres vezes", que trata de um personagem até então obscuro, o advogado Antonio Expedito Carvalho Perera:

"O armamento que permitiria o soar das explosivas trombetas revolucionárias seria retirado, nos dias 25 e 26 de janeiro, do quartel do 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. Lá, a VPR estruturara um núcleo em torno do capitão Carlos Lamarca,do sargento Darcy Rodrigues, do cabo José Mariane Ferreira Alves e do soldado Carlos Roberto Zanirato -- todos desertariam do Exército com as armas expropriadas. Depoimentos arquivados no STM revelam que, desde meados de 1968, munição de Quitaúna vinha sendo desviada e entregue para Rodrigues, líder de um grupo de discussão política no quartel. O sargento acabou sendo o responsável pela aproximação de Lamarca, até então um simpatizante do PCB, dos grupos que formariam a VPR.
As armas, entre elas 563 fuzis automáticos leves (FAL),73 seriam transportadas em um caminhão roubado, um Chevrolet fabricado em 1961, placa 74-45-21, que pertencia à Transportadora Radar. O caminhão fora levado para um sítio em Itapecerica da Serra, a 30 quilômetros de São Paulo, ondeseria pintado de maneira a ficar semelhante aos utilizados pelo Exército brasileiro. O veículo acabou descoberto dois dias antes da data prevista para a deserção. Acabaram presos Hermes Camargo Batista, Ismael Antônio de Souza, Oswaldo Antônio dos Santos e Pedro Lobo de Oliveira. A apreensão do caminhão marcou o início do inquérito que resultaria no processo contra a VPR. O delegado Wanderico de Arruda Moraes registrou que, além do caminhão, foram encontrados papel para "fazer bombas", cadernetas de telefones pertencentes a Pedro Lobo de Oliveira e a Oswaldo Antônio dos Santos, uma folha com "abecedário em código" e anotações que seriam utilizadas para a fabricação de projéteis.
A queda do caminhão forçou uma antecipação dos planos de fuga do quartel e o cancelamento da pirotecnia revolucionária. Era impossível prever por quanto tempo os presos resistiriam à tortura, tinham sido pegos com uma prova irrefutável, um caminhão sendo pintado de verde-oliva e com os
símbolos do Exército. No dia seguinte, 24 de janeiro, Lamarca, Rodrigues, Mariane e Zanirato deixam o quartel em uma Kombi -- dentro dela, as armas que conseguiram amealhar: 63 fuzis, cinco metralhadoras, revólveres e
munição. Na pressa, se deram conta de que não tinham para onde ir. Começaria aí a sucessão de trocas de esconderijos que culminaria com diversas prisões, inclusive a de Perera."

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