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As estátuas de Budapeste

em 16 de julho de 2017

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"Estátuas mais divertidas estão nos arredores de Budapeste. Com o fim do comunismo, muitas das representações do poder soviético foram destruídas, mas sobraram algumas dezenas delas. O que fazer com aquele lixo estético-ideológico que representava o invasor? Você mandaria jogar tudo no lixo -- imagina, aquela velharia de mau gosto, que exaltava o comunismo, os pobres, o proletariado, a revolução, tudo o que você mais detesta. Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam da lembrança dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo. Este, representado por homens e mulheres altivos, olhares fixos no horizonte, para o futuro da libertação proletária. Dá para imaginá-los cantando a "Internacional", o apelo aos famélicos da Terra. Antes vetustos, temidos e compenetrados, os personagens mumificados em bronze ficaram apenas ridículos, testemunhos de uma religião acabada. São como sombras de tempos em que havia certeza do destino comum, da redenção dos povos, da pátria sem amos. (...) Do lado direito, ainda na área externa, sobre um pedestal, cópia das botas de uma gigantesca estátua de Stálin destruída na revolução de 1956. Ao lado do portão, somos observados por Marx, Engels e Lenin -- como se nos perguntassem se vamos mesmo entrar, se queremos mesmo abandonar qualquer eventual esperança no socialismo."

Trecho do romance 'Uma selfie com Lenin'.

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A raiva de São Januário

em 09 de julho de 2017

Pode ser um certo delírio, mas não consigo deixar de associar a confusão de ontem em São Januário a uma explosão que tem, em suas raízes, questões que superam o campo de jogo e a derrota para o Flamengo.

Há pouco mais de um ano, a raiva com o governo petista era canalizada para as grandes manifestações - rolava um ódio um tanto quanto irracional e pipocavam tiroteios virtuais nas redes sociais, mas tudo isso era levado para as ruas, que abrigavam o desejo de mudança de boa parte da população.

Os que eram contra o impeachment também se organizaram e promoveram grandes manifestações, ainda que menores que as da oposição. Havia revolta e indignação dos dois lados, mas todos tinham alguma esperança. As raivas foram levadas para o campo institucional, que tratou de desalojar a então presidente.

Hoje, mesmo diante de tantas evidências que envolvem o Temer e seus principais auxiliares, as ruas estão quietas, há poucas e esvaziadas manifestações, as panelas parecem ter voltado para o fogão. Há uma uma perigosa apatia no ar.

Em 1998, quando estava no 'Fantástico', eu e o cinegrafista Lucio Rodrigues aproveitamos uma viagem à Colômbia para, sem qualquer produção prévia, entrar na selva e mostrar um acampamento das FARC, chegamos a entrevistar um importante comandante da guerrilha, o Joaquín Gómez.

Naqueles poucos dias, apuramos que a esquerda institucional sequer era representada no Congresso boliviano, reflexo do 'Bogotazo', revolta ocorrida no fim dos anos 1940 e que ainda marca o país. Décadas depois, a direita estava no poder; a esquerda, armada, na selva, aliada ao narcotráfico.

Voltei para o Rio assustado com a Colômbia e um pouco aliviado com a realidade brasileira. Apesar dos pesares, a situação institucional por aqui era bem melhor. O PSDB estava no governo e as reivindicações da esquerda eram representadas pelo PT e por entidades como a CUT e o MST. Apesar de um ou outro arranhão, todos jogavam o jogo dentro da legalidade.

O ódio gerado em 2014, o inconformismo com a nova vitória petista, a derrubada da Dilma e a ascensão de Temer e de seu novíssimo programa de governo abriram uma brecha na nossa tranquilidade institucional. Tudo foi feito dentro das regras constitucionais, mas, como o TSE acabou de nos mostrar, há diversas maneiras de se aplicar as regras, algo que aumenta a desconfiança em relação às tão propaladas instituições. O pau que dá em Chico pode não ser o mesmo que dá em Francisco.

No fim das contas, a recessão, o desemprego e a violência aumentaram, os cortes no orçamento começam a mostrar suas consequências, estamos diante da possibilidade de encararmos o terceiro presidente em pouco mais de um ano, quase todos os partidos têm envolvimento com alguma forma de corrupção.

As ruas, violentas, povoadas de miseráveis e de consumidores de crack, estão quietas, mas acumulam muita raiva. Uma raiva que, como ocorreu ontem no estádio do Vasco, pode voltar a explodir pontualmente, estimulada por qualquer pretexto, por uma simples derrota em casa. No meio do caos, não vai dar pra ficar berrando algo como "Acreditem nas instituições!".

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Um racismo mais ou menos sutil

em 19 de junho de 2017

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Assinada por Claudia Fix, esta resenha de 'Bandeira negra, amor', foi publicada na edição de junho da revista alemã LateinAmerika Nachrichten.

'Bandeira negra, amor' ('Schwarz, meine Liebe') , de Fernando Molica, Edition Diá.

Em 1990, passei seis meses no Rio de Janeiro num apartamento no Leme, uma parte sossegada de Copacabana. Logo acima da rua, num morro, havia uma favela, Chapéu Mangueira. Esta vizinhança, mais um local de moradia de trabalhadores do que de pobreza extrema, era conhecida por conta de Benedita da Silva, a primeira mulher negra a chegar ao parlamento municipal, depois, ao estadual e, em seguida, ao Senado.

Foi bem perto de sua casa que três jovens foram atingidos por tiros. Um profissional de educação garantia que um dos rapazes tinha boa reputação (não era traficante de drogas) e cobrava a apuração do caso. É provável que a origem do rapaz, militar, e a proximidade com a casa de Benedita da Silva tenham ajudado a tornar o caso conhecido, mas os crimes nunca foram esclarecidos. Os disparos foram feitos de um carro da polícia, os jovens foram talvez vítimas atingidos de forma aleatória, provavelmente um recado, uma cobrança de dinheiro pela proteção oferecida.

O ponto de partida escolhido por Fernando Molica para seu romance 'Bandeira negra, amor', publicado em 2005, é semelhante: três adolescentes da Favela do Borel são encontrados mortos depois de terem sido torturados, um deles tinha assinado um contrato com um time de futebol inglês. Surge então a suspeita de que eles não teriam sido vítimas de uma guerra de quadrilhas de traficantes, haveria policiais envolvidos no caso. Assim como na vida real, a investigação do caso é complicada, assim com a apuração interna da polícia.

Os principais personagens deste romance - trata-se de um livro policial apenas de passagem - são os integrantes de um casal improvável, formado por Fred - um advogado negro e ativista de direitos humanos - e a branca Beatriz, major da Polícia Militar. Eles têm vidas independentes, mas secretamente trocam informações e permitem a Molica a possibilidade de tratar do tema real do romance, o racismo cotidiano no Brasil.

Fred, o respeitável dr. Frederico Cavalcanti de Souza, passou por todas as fases de uma educação destinada a "embranquecê-lo", o que incluía o uso, todas as noites, de uma touca destinada a alisar seu "cabelo ruim". Mesmo assim, apesar de seu terno bem cortado, ele ainda é confundido com um manobrista na saída de um restaurante - a cor da sua pele é um uniforme suficiente. Nestas circunstâncias, viver uma relação aberta com uma policial militar branca é algo impossível para ambos.

'Bandeira negra, amor' foi escrito quase que exclusivamente com longos monólogos interiores. Jornalista, Fernando Molica, desde 1982, trabalhou em vários jornais, na TV Globo e, atualmente, está na rádio CBN, no Rio de Janeiro. No livro, seus personagens utilizam uma poderosa linguagem do cotidiano brasileiro algo que, infelizmente, é um pouco perdido na tradução. Não que o livro seja mal traduzido, mas porque não há, na língua alemã, algo tão poderoso como um dialeto ou as gírias vindos de uma cultura jovem. Neste segundo romance, Molica abordou diversos pontos importantes e nos leva a lugares pouco conhecidos da "cidade maravilhosa" do Rio de Janeiro.

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