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Ninguém está livre da tortura

em 26 de outubro de 2018

Pessoas que defendem ou justificam a tortura não se dão conta de um dado fundamental, ninguém está livre do arbítrio. Por exemplo: numa ditadura, um jovem oficial que fizesse planos para explodir bombas em quartéis dificilmente escaparia de sessões de tortura. Seus algozes fariam de tudo para que ele revelasse nomes de outros envolvidos com a trama. Isto ocorreria mesmo se o explosivo protesto fosse apenas uma manifestação favorável a um aumento de salários.

Numa ditadura, comerciantes ficam mais expostos à arbitrariedade de fiscais, taxistas não têm como se defender de excessos de PMs. Numa ditadura, o netinho de uma boa e tradicional família corre o risco de tomar muita pancada se for descoberto com um pouco de maconha. O filme 'O jardim dos Finzi-Contini', de Vittorio De Sica, mostra como uma família de judeus italianos achava que, por ser rica, nunca seria atingida pelo antissemitismo - claro que foi.

Inspirado em fatos ocorridos com seus antepassados, o amigo Rafael Cardoso descreve, em seu ótimo romance 'O remanescente' como banqueiros judeus alemães acabam vítimas do nazismo. A história da União Soviética também mostra como amigos do regime passaram a ser tratados como inimigos. Ninguém está seguro numa ditadura, nem mesmo aqueles que apoiam e comemoram sua implantação (por aqui, Carlos Lacerda e JK foram presos e tiveram seus direitos políticos cassados).

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Policiais nas universidades

em 26 de outubro de 2018

Entrei na UFRJ em março de 1979 (faz tempo, eu sei), nos últimos dias do governo Geisel. Logo de cara, uns caras apareceram na sala de aula convocando para uma manifestação contra a posse do general Figueiredo, que viria a ser o último presidente do ciclo ditatorial. Fiquei meio assustado, naquele tempo, manifestações ainda eram alvo de ataques da polícia. Não fui ao ato; depois, compareci a muitos outros.

A agitação política na ECO, Escola de Comunicação, na Praia Vermelha, era intensa, havia muita movimentação de tendências de esquerda. Eu tinha acabado de sair do comportado Colégio Metropolitano, no Méier, não sabia como me movimentar naquele emaranhado de siglas meio que sussurradas - PCB, PCdoB, AP, MEP, MR-8.Segredos bestas, numa faculdade pequena como a ECO, todo mundo sabia quem era quem.

Não cheguei a me envolver com aquelas organizações, por medo e por falta de convicção; continuei a cuidar de cineclubes. Mas conheci muita gente legal, interessante, inteligente, pessoas que sonhavam com um país melhor, mais justo, que, caramba, falavam até em revolução (o pessoal do PCB era muito sacaneado, chamado de reformista, por sua insistência numa transição pacífica para a democracia).

Era um negócio meio maluco, sem sentido, era óbvio que não haveria revolução alguma, o país seguiria um outro caminho no processo de redemocratização, e assim foi feito. Por que razão estou falando disso? Porque, apesar de toda a movimentação, de todos os panfletos, de todas as faixas contra a ditadura, apesar de todas aquelas teses revolucionárias mimeografadas, chatas pra cacete, que circulavam de mão em mão, nunca vi um policial dentro da minha universidade.

Desconfiávamos de espiões, de agentes infiltrados - claro que havia -, mas, insisto, nunca vi um policial por lá. Participei de debates, de reuniões com candidatos deste ou daquele partido, distribuí e recebi panfletos, mas nunca vi um policial naquele campus, que - soube depois - fora invadido pela PM anos antes, em 1968. Já passa das duas da manhã, acabei de chegar do trabalho. E estou assustado com as notícias que tratam de casos de repressão em universidades. É terrível saber que, por ordem judicial, estudantes estão sendo impedidos de exibir faixas (que sequer mencionam candidaturas) e de participar de debates. Universidades são locais de discussão, de troca, de busca de conhecimento. O que está acontecendo é muito grave, representa uma ameaça a cada um de nós. A Justiça tem que estar do lado da liberdade.

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A estreia, quase cem anos depois, de `Sóror Mariana'

em 18 de outubro de 2018

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Uma ótima e emocionante notícia. Composta em 1920, e inédita até hoje, a ópera 'Sóror Mariana', do meu bisavô Julio Reis será, enfim, encenada. A estreia mundial ocorrerá nos dias 9 e 10 de novembro, em Curitiba, durante o Festival de Ópera do Paraná.
Em meu romance 'O inventário de Julio Reis' (Record) tratei da ópera, da ideia de JR de usar como libreto a peça do português Júlio Dantas, da doação para a montagem que recebeu do Congresso Nacional e da luta para liberar o dinheiro - a verba nunca saiu.

O lançamento do livro, em 2012, despertou alguma curiosidade em torno de JR, o pianista Joao Bittencourt lançou um CD e fez concertos com músicas do compositor, outros artistas passaram a incluir peças de suas autoria em shows. O maestro José Antônio Branco Bernardes Bernardes incluiu o poema sinfônico 'Vigília d`Armas' em apresentações da Orquestra Sinfônica da UniRio.

Há pouco mais de dois anos, recebi uma ligação do Gehad Hajar, diretor do Festival de Ópera do Paraná, que me falou do interesse em montar 'Sóror Mariana'. Na época, para atender a um pedido expresso do meu avô, Frederico Mário dos Reis, eu já havia doado todo o acervo de seu pai para a Biblioteca Nacional, que fez um belíssimo trabalho comandado pela Elizete Higino, algo que reforça a importância de um serviço público de excelência - todas as partituras originais foram digitalizadas e podem ser consultadas pela internet.

Gehad cumpriu a promessa e, daqui a menos de um mês, os amores proibidos de Mariana Alcoforado serão cantados em Curitiba. A passagem está comprada, hotel já foi reservado. Em tempos tão duros e tão difíceis, será um alento poder ouvir a composição de meu bisavô. Servirá também como homenagem ao meu vô Mário, que dedicou boa parte da sua vida tentando evitar que a obra de seu pai caísse no esquecimento. Obrigado ao Gehad, obrigado a todos que permitiram o encontro de `Sóror Mariana' com o público.Partiu Curitiba.

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