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O menino e a foto do réveillon

em 02 de janeiro de 2018

Por conta daquela linda e já famosa foto do menino no réveillon, muita gente questiona o direito de se fotografar e vender a imagem de uma criança. Na boa, o fotógrafo não fez nada errado. Pelo contrário, fez a foto que marcou a festa, uma imagem que, de tão boa, permite tantas e várias interpretações.

A foto foi feita em local público e a imagem não tem nada de degradante, não se poderia acionar o ECA para impedir sua divulgação. Trata-se apenas do registro de um menino (é negro, mas poderia ser branco) fascinado pelo brilho dos fogos. Aquele olhar poderia ser meu, eu poderia ser aquele menino.

No mais: se fosse necessário pedir autorização do fotografado para divulgar imagens captadas em locais públicos ninguém poderia mais publicar fotos de violência policial. Até bandidos flagrados em suas atividades teriam que autorizar a divulgação de suas imagens.

Será que deveria ter sido proibida a imagem da menina que, no Vietnam, foi vítima do napalm? Trata-se de uma foto bem mais delicada, a menina estava nua. Mas foi uma foto fundamental, que traduziu o horror daquela guerra absurda. E as imagens de vítimas de campos de concentração? Deveriam ser censuradas, o mundo deveria ser impedido de constatar aquele martírio coletivo?

Não podemos cair na lógica da censura, da proibição. Como frisou a Andréa Pachá num comentário sobre a mesma foto do réveillon, é preciso ter cuidado com a criminalização das artes. Já tivemos bons exemplos dessa maluquice no ano passado.

E, sim, o cara pode vender a foto, A foto pertence ao fotógrafo, ele foi o único sujeito que, entre milhões de pessoas, teve a sensibilidade e a técnica de registrar aquela cena. Ele, Lucas Landau, é o autor da obra, parabéns pra ele.

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João, o algoz do João

em 30 de dezembro de 2017

João Gilberto é vítima de sua busca pela perfeição, de sua luta obsessiva pela perfeita combinação de voz com instrumento; tornou-se refém da missão de subverter o óbvio.

Entregou-se tanto que perdeu contato com a música possível de ser feita, isolou-se, gravou acompanhado apenas do próprio violão, o único admissível pelo seu grau de exigência. Chegou ao ponto de sequer autorizar o relançamento de seus antigos discos.

Há alguns anos, a Companhia das Letras lançou o livro 'Ho-ba-la-lá', em que o jornalista alemão Marc Fischer narra sua busca por João Gilberto, suas tentativas de aproximação, de entrevistá-lo. No texto, ele conta ter recebido conselhos para não chegar perto demais do ídolo, muitos lhe alertaram do risco que corria, tratava-se de uma órbita perigosa, que vitimara algumas pessoas. Fischer suicidou-se antes da publicação do livro.

Que João tenha paz nesses seus últimos anos de vida. E que 2018 nos chegue leve, que tenhamos ciência e mesmo orgulho de nossas limitações. Viva João Gilberto!

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"Romance muito recomendável" - resenha da edição francesa de 'Notícias do Mirandão'

em 30 de dezembro de 2017

O blog francês Bob Polar Express publicou esta resenha sobre o 'Notícias do MIrandão' ('Révolution au Mirandão').


Quando o acaso faz as coisas corretas. Nós descobrimos esta editora participando da massa crítica do Babelio. Para aqueles que não sabem, é simplesmente escolher um livro em uma longa lista e aguardar. Caso você receba uma exemplar, é necessário publicar uma crítica no site. O título deste romance nos atraiu, bem como o resumo. E descobrir um novo editor parecia interessante, especialmente pelo que oferece - "literatura mista, brasileira, regionalista, soco poético". Mas por que essa escolha do nome Anacaona? Ela era uma princesa haitiana que lutou contra os invasores espanhóis quando chegaram à América - e se tornou, por extensão, um símbolo de mulheres guerreiras e resistentes. As escolhas editoriais confirmaram o nosso interesse: a chamada literatura "minoritária", bem como as diferentes coleções Urbana, Terra, Epoca: "Escrever é uma arma", "Uma terra e suas raízes", "A diversidade das vozes contemporâneas". Escolha agradável, não é?
 
Nós entramos nesta favela fictícia - mas muito perto da realidade - nos passos de um jovem estudante branco - é possível notar que ele não passar por necessidades de sobrevivência - que decidiu parar de estudar para para se envolver em uma luta ideológica. Com uma predisposição oratória, ele é notado pelo chefe da organização de extrema-esquerda Conexão Revolucionária. Assim, irá se engajar numa trama, que faz fronteira com o documentário-ficção, que nos conduzirá de reuniões a debates, deliberações plenas de controvérsias para finalmente chegar a uma decisão final. A revolução está em andamento. Mas os argumentos e os meios de sua implementação parecem um tanto excessivos: esse processo supõe uma luta armada, uma guerra de guerrilha. Uma ONG se instala na favela, que servirá de posto avançado do grupo. Contatos essenciais são criados com um dos líderes da comunidade e com ... o chefe do tráfico de drogas da comunidade. Os primeiros efeitos são sentidos, geram uma mudança favorável. É essa iniciativa louca que descreverá o autor com um realismo mais convincente - ele é um jornalista - tanto por seu quadro como por seus personagens e pelo papel a eles atribuído.
 
Dizer que esta revolução pode ser condenada ao fracasso não representa um spoiler porque tudo sugere - através dos vários eventos - que não se derruba um regime estabelecido sem um exército de combatentes. Mas a intenção de Molica é menos compor um enredo do que usá-lo para nos permitir observar as flagrantes desigualdades sociais que são acompanhadas por corrupção generalizada - polícia, líderes - e exploração de soluções ilícitas. Claro, há descontentamento nas favelas, que ocupam 280 hectares do Rio, mas, se as pessoas conseguem sobreviver, elas também enfrentam uma guerra entre policiais e traficantes de drogas com várias mortes por semana. Isso impõe sua lei. É essa violência física e social que acontece entre cada linha. Considerar a possibilidade de uma revolução socialista pode não ser apenas o retrato fictício de um autor engajado, já que o Brasil já experimentou uma série de revoltas coletivas - especialmente em 2013, mas os manifestantes eram da classe média.
 
'Notícias do Mirandão' é uma novela social onde a obscuridade é imposta por uma violência latente - que servirá para desencadear o processo. O pivô da história é político. Seguir a vida cotidiana das pessoas desta favela é tão enriquecedor quanto emocionante. A questão do uso da violência contra a violência persiste na história. O da aproximação utópica entre ricos e pobres, brancos e negros, encontra uma resposta. A melhoria das condições de vida permanece sem solução. Molica escreve com sua caneta de repórter, mas não negligencia o ritmo e a intensidade das relações, das relações de poder. E então, há esta breve história de amor ... Romance muito recomendável.
 
Menção: as edições de Anacaona, lembre-se deste nome.

 
"Revolução Mirandao", Fernando Molica, edições Anacaona, coleção Urbana, traduzido do português por Sandra Assunçao e Isabelle Delatouche, publicado em 26/10/2017, 200 páginas.

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