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Aquarela do João

em 06 de julho de 2019

Há muito que João Gilberto não era mais uma trilha sonora compatível com o Brasil. O país ficou mais bruto, cruel, vulgar, desumano; rompeu com qualquer projeto de carinho, de amor, de busca de alguma paz. O Brasil desafinou, deixou-se embalar pelo ódio, pela repetição de certezas e de chavões - nem a nossa música escapou de tamanha banalização.
João Gilberto apostou no incerto, inventou um jeito de cantar e de tocar violão, mirou a utopia, a afinação absoluta. Sacrificou a própria sanidade em busca no inalcançável, é possível que tenha morrido frustrado por não ter atingido tamanha perfeição. Fomos testemunhas privilegiadas de sua jornada.

Há pouco, ao saber de sua morte, cantarolei `Chega de saudade`, lembrei do dia em que, disfarçado de publicitário, acompanhei o que seria um ensaio dele com Tom Jobim num hotel de Ipanema. João chegou atrasado, foi no quarto da suíte afinar o violão e, ali, a uns três ou quatro metros de onde eu estava, cantou várias vezes a já pra lá de conhecida canção - meninos eu vi, eu ouvi.

Mas acho que essa gravação de 'Aquarela do Brasil' traduz melhor o momento da morte de João. Aqui, Gil e Caetano não escondem a alegria de cantar ao lado do mestre de todos, dá pra sentir a reverência pelo mais velho, por aquele que abriu caminho pra tanta gente.
Ouvir esses três baianos cantando o mineiro Ary Barroso é lindo e triste, remete a um passado em que acreditávamos num país que, no futuro, seria mais justo e doce. O país decidiu se perder, mas, até por conta desses grandes artistas, ainda dá para ter esperança num Brasil melhor, mais bonito, mais harmônico e delicado - pra mim, pra todos nós.

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Mendonça, o nosso craque

em 05 de julho de 2019

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Mendonça, ídolo de minha adolescência, morreu hoje. Alvinegros que tenham 35 anos ou menos não têm ideia da importância do cara para o Botafogo, onde jogou de 1975 a 1982. No período da Grande Seca, aquele em que ficamos duas décadas sem um reles título, Mendonça foi o nosso grande craque. Depois do roubo sofrido na final do Carioca de 1971, o Botafogo teve muitas dificuldades para montar um bom time, com frequência arrumou equipes sofríveis, cheias de jogadores esforçados.

Houve exceções, claro, mas a situação era terrível. Pra piorar, o Flamengo montou aquele timaço e o Vasco, liderado por Roberto, também tinha uma grande equipe.E nesse período surgiu o Mendonça, nossa - como era chamado - Estrela Solitária. Não foi um super craque, um jogador excepcional, a Wikipedia me diz que ele jogou apenas duas vezes pela seleção brasileira (a concorrência era grande na época).

Mas era o nosso craque, o craque da nossa aldeia. O craque que aplicou o drible Baila Comigo no grande Júnior. Assim como Heleno de Freitas, Mendonça não foi campeão pelo Botafogo - mas uma daquelas coisas que só acontecem com a gente. Mas é um dos meus grandes ídolos, o cara que, em festas tão complicadas, nos botou para dançar, cantar, gritar e pular. Valeu, Mendonça.

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Viramos alvo

em 08 de maio de 2019

O decreto sobre armas é ainda pior que o divulgado. Agora, integrantes de várias categorias profissionais terão porte de armas, inclusive políticos eleitos (em tese, todos honestos, equilibrados, incapazes de fazer mal a qualquer pessoa) e jornalistas que trabalham em coberturas policiais.

Com uma canetada, Bolsonaro transformou repórteres em alvo dos bandidos - os caras vão passar a achar que todos nós estamos armados e, que portanto, podemos atirar contra eles, é bem mais provável que eles disparem na nossa direção. Assaltantes terão mais um motivo para abordar caminhoneiros: além de carga a ser roubada, eles, em tese, terão armas que poderão ser arrecadadas.

Se andar armado fosse garantia de manutenção de integridade física, tantos policiais não seriam mortos no país. Mais uma vez, o governo transfere para a sociedade a responsabilidade de cuidar da segurança, um dever do Estado.

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